Alberto Caeiro

[ Alberto Caeiro ] Ricardo Reis ] �lvaro de Campos ]


Guardador de Rebanhos

Num Meio-Dia de Fim de Primavera

 


GUARDADOR DE REBANHOS (I)

Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas � como se os guardasse.
Minha alma � como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m�o das Esta��es
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p�r de sol
Para a nossa imagina��o,
Quando esfria no fundo da plan�cie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza � sossego
Porque � natural e justa
E � o que deve estar na alma
Quando j� pensa que existe
E as m�os colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ru�do de chocalhos
Para al�m da curva da estrada,
Os meus pensamentos s�o contentes.
S� tenho pena de saber que eles s�o contentes,
Porque, se o n�o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar � chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

N�o tenho ambi��es nem desejos
Ser poeta n�o � uma ambi��o minha
� a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo �s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

� s� porque sinto o que escrevo ao p�r do sol,
Ou quando uma nuvem passa a m�o por cima da luz
E corre um sil�ncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que est� no meu pensamento,
Sinto um cajado nas m�os
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas id�ias,
Ou olhando para as minhas id�ias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem n�o compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Sa�do todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chap�u largo
Quando me v�em � minha porta
Mal a dilig�ncia levanta no cimo do outeiro.
Sa�do-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva � precisa,
E que as suas casas tenham
Ao p� duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a �rvore antiga
� sombra da qual quando crian�as
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


O GUARDADOR DE REBANHOS (VI)

Pensar em Deus
Pensar em Deus � desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o n�o conhec�ssemos,
Por isso se nos n�o mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as �rvores,
E Deus amar-nos-� fazendo de n�s
Belos como as �rvores e os regatos,
E dar-nos-� verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ...


O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)

Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho � os meus pensamentos
E os meus pensamentos s�o todos sensa��es.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as m�os e os p�s
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor � v�-la e cheir�-la
E comer um fruto � saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz�-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

------------------------------   UP

 


NUM MEIO-DIA DE FIM DE PRIMAVERA


Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer � terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do c�u.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No c�u era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e �rvores e pedras.
No c�u tinha que estar sempre s�rio
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda � roda de espinhos
E os p�s espetados por um prego com cabe�a,
E at� com um trapo � roda da cintura
Como os pretos nas ilustra��es.
Nem sequer o deixavam ter pai e m�e
Como as outras crian�as.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado Jos�, que era carpinteiro,
E que n�o era pai dele;
E o outro pai era uma pomba est�pida,
A �nica pomba feia do mundo
Porque n�o era do mundo nem era pomba.
E a sua m�e n�o tinha amado antes de o ter.
N�o era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do c�u.
E queriam que ele, que s� nascera da m�e,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justi�a!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Esp�rito Santo andava a voar,
Ele foi � caixa dos milagres e roubou tr�s.
Com o primeiro fez que ningu�m soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que h� no c�u
E serve de modelo �s outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
� uma crian�a bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao bra�o direito,
Chapinha nas po�as de �gua,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos c�es.
E, porque sabe que elas n�o gostam
E que toda a gente acha gra�a,
Corre atr�s das raparigas pelas estradas
Que v�o em ranchos pela estradas
com as bilhas �s cabe�as
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que h� nas flores.
Mostra-me como as pedras s�o engra�adas
Quando a gente as tem na m�o
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele � um velho est�pido e doente,
Sempre a escarrar no ch�o
E a dizer indec�ncias.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Esp�rito Santo co�a-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no c�u � est�pido como a Igreja Cat�lica.
Diz-me que Deus n�o percebe nada
Das coisas que criou -
"Se � que ele as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua gl�ria,
Mas os seres n�o cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus bra�os
e eu levo-o ao colo para casa.

.............................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele � a Eterna Crian�a, o deus que faltava.
Ele � o humano que � natural,
Ele � o divino que sorri e que brinca.
E por isso � que eu sei com toda a certeza
Que ele � o Menino Jesus verdadeiro.

E a crian�a t�o humana que � divina
� esta minha quotidiana vida de poeta,
E � porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu m�nimo olhar
Me enche de sensa��o,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Crian�a Nova que habita onde vivo
D�-me uma m�o a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os tr�s pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que � o de saber por toda a parte
Que n�o h� mist�rio no mundo
E que tudo vale a pena.
A Crian�a Eterna acompanha-me sempre.
A dire��o do meu olhar � o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
S�o as c�cegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos t�o bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo �ntimo
Como a m�o direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como conv�m a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deix�-la cair no ch�o.
Depois eu conto-lhe hist�rias das cousas s� dos homens
E ele sorri, porque tudo � incr�vel.
Ri dos reis e dos que n�o s�o reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos com�rcios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta �quela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno at� ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E �s vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
P�e uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a crian�a, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me hist�rias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E d�-me sonhos teus para eu brincar
At� que nas�a qualquer dia
Que tu sabes qual �.
.....................................................................
Esta � a hist�ria do meu Menino Jesus.
Por que raz�o que se perceba
N�o h� de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os fil�sofos pensam
E tudo quanto as religi�es ensinam?


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