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A Pergunta (Elomar)

A Meu Deus um Canto Novo (Elomar)

Arrumação (Elomar)

Ai que Saudade de Ocê (Vital Farias)

Alvoroço (Capinam-Xangai)

Amanheceu, peguei a Viola (Renato Teixeira)

A Função (Elomar)

Ai D'Eu Sodade (Anônimo)

Amora (Renato Teixeira)

A Donzela Tiadora (Elomar)


A Pergunta (Elomar)
(de "O Tropeiro Gonsalin")

Tropeiro
O Quilimero assunta meu irirmão
iantes mêrmo que nóis dois saudemo
eu te pregunto naquele refrão
qui na fartura nóis sempre cantemo
na catinga tá chuveno?
ribeirão estão incheno?
na catinga tá chuveno?
ribeirão estão incheno?
me arresponda meu irirmão
cuma o povo de lá tão.

Quilimero
Só a terra que você dexô
quínda tá lá num ritirou-se não
os povos as gente os bichos as coisa tudo
uns ritirou-se in pirigrinação
os ôtro os mais velho mais cabiçudo
voltaro pru qui era pru pó do chão
adispois de cumê tudo
cumêr' precata surrão
cumêr' côro de rabudo
cumêr' cururú rodão
e as cacimbas do ri Gavião
já deu mais de duas cova d'um cristão
inté aquela a da cara fêa
se veno só dexô a terra alêa
foi nas pidrinha cova de serêa
vê sua madrinha
evêi de mão c'ua vea
na catinga morreu tudo
qui nem percisô caxão
meu compadre João Barbudo
num cumpriu obrigação
vai prá mais de duas lua
que meu pai mandô eu i no Nazaré
buscá u'a quarta de farinha
eu e o irmão Zé Bento vinha andano a pé
mãe lua magrinha qui está no céu
será qui cuano eu chegue in minha terra
aína vô incontra o qui é meu
será qui Deus do céu aqui na terra
de nosso povo intonce se iequeceu
na catinga morreu tudo
qui nem percisô caxão
meu compadre João Barbudo
num cumpriu a obrigação


A Meu Deus um Canto Novo (Elomar)

Bem de longe na grande viagem
Sobrecarregado paro a descansar,
emergi de paragens ciganas
pelas mãos de Elmana, santas como a luz
e em silêncio contemplo, então
mais nada a revelar
fadigado e farto de clamar às pedras
de ensinar justiça ao mundo pecador
oh lua nova quem me dera
eu me encontrar com ela
no pispei de tudo
na quadra perdida
na manhã da estrada
e começar tudo de nôvo
topei in certa altura da jornada
com um qui nem tinha pernas para andar
comoveu-me em grande compaixão
voltano o olhar para os céus
recomendou-me ao Deus
Senhor de todos nós rogando
nada me faltar
resfriando o amor a fé e a caridade
vejo o semelhante entrar em confusão
oh lua nova quem me dera
eu me encontrar com ela
no pispei de tudo
na quadra perdida
na manhã da estrada
e começar tudo de nôvo
bôas novas de plena alegria
passaram dois dias da ressurreição
refulgida uma beleza estranha
que emergiu da entranha
das plagas azuis
num esplendor de glória
avistaram u'a grande luz
fadigado e farto de clamar às pedras
de propor justiça ao mundo pecador
vô prossiguino istrada a fora
rumo à istrêla canora
e ao Senhor das Searas a Jesus eu lôvo
levam os quatro ventos
ao meu Deus um canto nôvo


Arrumação (Elomar)

Josefina sai cá fora e vem vê
olha os fôrro ramiado vai chovê
vai trimina riduzi toda a criação
das banda da lá do ri Gavião
chiquêra prá cá já ronca a truvão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó
Mãe Purdença inda num culheu o ai
o ai rôxo essa lavora tardâ
diligença pega panicum balai
vai cum tua irmã, vai num pulo só
vai colhê o ái, ái ds tua avó
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó
luã nova sussarana vai passá
"sêda branca" na passada ela levô
ponta d' unha lua fina risca no céu
a onça prisunha a cara de réu
o pai do chiquerô a gata comeu
foi um truvejo c'ua zagaia só
foi tanto sangue de dá dó
os ciganos já subiro bêra ri
é só danos todo ano morca vi
paciência já num guento a pirsiguição
já sô um caco véi nesse meu sertão
tudo qui juntei foi só prá ladrão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó.


Ai que Saudade de Ocê (Vital Farias)

Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da sua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que lhe mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que não lhe vejo
Ai que saudade de ocê

Se um dia você se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não lhe vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim

E se quiser recordar
Daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê


Alvoroço (Capinam-Xangai)

Um passo formoso é a moça
Uma árvore frondosa
é o seu dorso
Uma tarde fresca uma noite estrelada
São seu colo sereno e seus olhos de alvoroço
Um amor fervoroso põe a mão no seu rosto
E moreno ele sonha,
ele queima, ele voa
Ela roça suas asas
Ela cai sobre as casas como a luz da manhã
Ela cai sobre a gente
Como a chuva quente luminosa e temporã
Um passo formoso é a moça
E sua boca é de louça
Seu cabelo é de algodão
Seu colo é de sonhar
Seu sim é de matar
E é de morrer o seu não
É de matar o seu sim
E é de morrer o seu não


Amanheceu, peguei a Viola (Renato Teixeira)

Amanheceu eu peguei a viola
Botei na sacola e fui viajar
Sou cantador
e tudo nesse mundo
Vale prá que eu cante
e possa praticar
A minha arte
sapateia as cordas
E esse povo gosta
de me ouvir cantar
Amanheceu...
Ao meio dia eu tava
em Mato Grosso
Do sul ou do norte,
não sei explicar
Só sei dizer
que foi de tardezinha
Eu já tava cantando
em Belém do Pará
Amanheceu...
Em Porto Alegre
um tal de coronel
Pediu que eu musicasse
um verso que ele fez
Para uma china,
que pela poesia
Nem lá em Pequim
se vê tanta altivez
Amanheceu...
Parei em Minas
prá trocar as cordas
E segui direto para o Ceará
E no caminho
fui pensando, é lindo
Essa grande aventura
de poder cantar
Amanheceu...
Chegou a noite
e me pegou cantando
Num bailão,
lá no norte do Paraná
Daí prá frente
ninguem mais se espanta
E o resto da noitada
eu não posso contar
Anoiteceu e eu voltei prá casa
Que o dia foi longo
e o sol quer descansar
Amanheceu...


A Função (Elomar)

Vem João
trais as viola siguro na mão
pega a manduréba atiça os tição
carrega pru terrêro os banco e as cadêra
e chama as minina prá rodá o baião
Nós dois sentado junto da foguêra
vamo fazê a nossa brincadêra e cantá
a lijêra moda de lovação
em homenage ao nosso São João
e prá acabá cum a saudade matadêra
voce canta lijêra, canto moirão
voce canta lijêra, canto moirão

ai meu São João, lá das aligria
ai meu São João, lá das aligria
a saudade cada dia mais me doi no coração

Vem João, vamo meu bichin cantá o moirão
tem um bicho roeno o meu coração
cuano eu era minino a vida era manêra
não pensava na vida junto da foguêra
brincano cun's irmão a noite intêra
sem me dá qui êsse tempo bom
havéra de passá
e a saudade me chegá essa féra
quem pensá qui êsse bicho é da cidade
s'ingana a saudade nasceu cá no Sertão
na bêra da foguêra de São João
na bêra du'a foguêra de São João

ai meu São João, lá das aligria
ai meu São João, lá das aligria
a saudade cada dia mais me doi no coração


Ai D'Eu Sodade (Anônimo)

Marido se alevanta
e vai armá um mundé
prá pegá u'a paca gorda
prá nois fazê um sarapaté
Aruera é pau pesado
num é minha véa
cai e machuca meu pé
e ai d'eu sodade

Intonce marido
se alevanta
e vai na casa da tua vó buscá
a ispingarda dela
pro cê caçá um mocó
só que no lajedo tem cobra braba
num é minha véa
me morde e fica pió
e ai d'eu sodade

Marido se alevanta
e vai caçá u'a siriema
nois come a carne dela
e faiz u'a bassora das pena
quem me dera tá agora
num é minha véa
nos braço d'uma roxa morena
e ai d'eu sodade

Sujeito se alevanta
e vai na casa do venderão
comprá u'a carne gorda
prá nois cumê um pirão
é que eu num tenho mais dinhero
num é minha véa
fiado num compro não
e ai d'eu sodade

Marido se alevanta
e vai na venda do venderin
comprar déis metro de chita
prá fazê ropa pros nossos fiin
aí dent'o tem um cochão véi
num é minha véa
dismancha e faiz u'as carça prá mim
e ai d'eu sodade

Disgramado te alevanta
dexa di cê priguiçoso
o home qui num trabaia
num pode cumê gostoso
é que trabaiá é muito bom
num é minha véa
mais é um poco arriscoso
e ai d'eu sodade

Marido se alevanta
e vem tomá um mingau
qui é prá criá sustança
prá nois fazê um calamengau
brincadera de manhã cedo
num é minha véa
arrisca quebrá o pau
e ai d'eu sodade

Marido seu disgraçado
tu ai de morrê
cachorro ai de ti lati
e urubú ai de ti cumê
se eu sobesse disso tudo
num é minha véa
eu num casava cum ocê
e ai d'eu sodade.


Amora (Renato Teixeira)

Depois da curva da estrada
Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá
Sinto o coração fechado
Cansado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração
Vou contar para seu pai
Que você namora
Vou contar prá sua mãe
Que você me ignora
Vou pintar a minha boca
Do vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora


A Donzela Tiadora (Elomar)

E a donzela Tiadora
qui nas asa da aurora
vei À sala do rei
infrentá sete sábios
sete sábios da lei
venceu sete perguntas
e de bôca-de-côro
recebeu cumo prenda
mili dobra de ôro
respondeu qui a noite
discanso do trabai
incobre os malfeitores
e qui do anjericó
beleza dos amores
e qui da vilhilice
vistidura de dores
na eterna mininice
foi-se num poldo bai
isso vai muito longe
foi no seclo do pai


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© 1997, 1998 Fernando da Costa Grossi [email protected]


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