A Saga dos Pereiras
Capítulos:
I
, II , III, IV ,V, VI , VIII, IX

 

Cap VII

...........1942 ficou em minha memória como um ano muito atribulado. Deu-se a minha transferência do Colégio Filhos de Ana (Sacramentinas) para a Escola Ana Nery com as dificuldades naturais de adaptação à vida escolar. Novos colegas, novas professoras, novos métodos de ensino. Sob a ditadura de Getúlio meu pai também sofria com as obrigações trabalhistas fiscalizadas pelos sindicatos. Não que ele tivesse nada contra a organização sindical, mas com o procedimento dos seus associados, muito parecido com a polícia da ditadura. Meu pai nunca participou da política partidária mas tinha convicções políticas sociais totalmente contrárias ao regime imposto por Getúlio daí sofreu muita perseguição fiscal, trabalhista que lhes causaram sérios prejuízos. Em dezembro, de férias, retornei à Catú onde encontrei um ambiente de insatisfação. Os Pereira politicamente eram representados por OSCAR PEREIRA DE SOUZA (tio Oscar, irmão de meu avô) que fazia oposição a Getúlio Vargas e que depois se transformou no maior prócere da UDN local. Toda a sociedade Catuense sentia-se incomodada com a nomeação de um interventor na prefeitura local. Estava acostumada a dirigir o seu próprio destino. Fora também nomeado um delegado de policia originário de Salvador para impor a política de Vargas prendendo e maltratando os filhos de Catú. Nesta ocasião meu avô ainda sofrido com o encerramento das atividades do Trapiche passava mais tempo na Faz. Canabrava do que em Catú. Com a sua ausência física o seu exercício político foi transferido informalmente para tio OSCAR PEREIRA DE SOUZA SOBRINHO (Oscarzinho) já integrado ao movimento comunista e tia HELENITA PEREIRA DE SOUZA partidária de tio Oscar Pereira, mas ligada fraternalmente a tio Oscarzinho porque ambos comungavam dos mesmos sentimentos nacionalistas e democráticos que caracterizavam a casa do velho ALFREDO. Próximo ao Natal o Sr. Aristóteles, interventor de Catú, anunciou de forma espalhafatosa como eram feitos os anúncios da ditadura, que o Ex° Sr. General Pinto Aleixo, Interventor do Estado da Bahia, viria à Catú receber as homenagens do seu povo. Tia Helenita indignada começou a liderar um movimento de resistência àquele acinte. Como se pode usar o nome do povo do Catú para prática tão absurda? Perguntava a todos. As visitas de tio Oscarzinho à minha avó ADELAIDE que eram diárias, passaram à ser quase que horárias, a todo instante ele conversava com tia Helenita. Conspiravam. No dia e hora marcados o povo do Catú estava em frente a Prefeitura Municipal. Enquanto aguardava-se a caravana da romana presença do Sr. General Interventor, a briosa Naninha como era chamada carinhosamente a Banda de Música 26 de junho, deliciava a todos com os seus lindos dobrados e enchia de brios os presentes. Ao espocar de foguetes e vivas da própria comitiva o povo recebeu em silêncio o César bahiano. O sr Aristóteles em discurso lido teceu loas à Getúlio Vargas e ao visitante. Mal acabara de falar se ouviu a voz estridente de tia Helenita pedindo permissão para na qualidade de representante do povo de Catú, reclamar o tratamento que se estava dispensando a aquele povo, que não admitia grilhões nem se submetia as ações policiais por não serem meliantes. Narrou fatos e reclamou com veemência da administração pública. Concluiu dizendo que aquela voz era de uma mulher de Catú porque o seu povo quis tratá-lo com lhaneza mas que a voz dos homens de Catú seria mais contundente se isso se fizesse necessário! Tia Helenita não se casou, não teve filhos, mas todos os seus sobrinhos a consideravam mãe! Pouco tempo depois foram nomeados Prefeito e Delegado, filhos de Catú.

Talvez, este seja o último artigo que escrevo sobre os PEREIRA. Conforme registrei no primeiro artigo trata-se da memória de um garoto de 7 a 10 anos cheia de fantasias, escrita por um adulto de 73 anos com suas perdas de memória. Peço aos meus primos que também registrem suas lembranças sobre os nossos entes queridos para que os nossos filhos e netos tenham a continuação da "Saga dos Pereira" como Vírginia, denominou esta série........

( Luiz Carlos Batista )
 

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