...........1942 ficou em minha memória como um ano muito atribulado.
Deu-se a minha transferência do Colégio Filhos de Ana (Sacramentinas)
para a Escola Ana Nery com as dificuldades naturais de adaptação
à vida escolar. Novos colegas, novas professoras, novos métodos
de ensino. Sob a ditadura de Getúlio meu pai também sofria com as
obrigações trabalhistas fiscalizadas pelos sindicatos. Não que ele
tivesse nada contra a organização sindical, mas com o procedimento
dos seus associados, muito parecido com a polícia da ditadura. Meu
pai nunca participou da política partidária mas tinha convicções
políticas sociais totalmente contrárias ao regime imposto por Getúlio
daí sofreu muita perseguição fiscal, trabalhista que lhes causaram
sérios prejuízos. Em dezembro, de férias, retornei à Catú onde encontrei
um ambiente de insatisfação. Os Pereira politicamente eram representados
por OSCAR PEREIRA DE SOUZA (tio Oscar, irmão de meu avô) que fazia
oposição a Getúlio Vargas e que depois se transformou no maior prócere
da UDN local. Toda a sociedade Catuense sentia-se incomodada com
a nomeação de um interventor na prefeitura local. Estava acostumada
a dirigir o seu próprio destino. Fora também nomeado um delegado
de policia originário de Salvador para impor a política de Vargas
prendendo e maltratando os filhos de Catú. Nesta ocasião meu avô
ainda sofrido com o encerramento das atividades do Trapiche passava
mais tempo na Faz. Canabrava do que em Catú. Com a sua ausência
física o seu exercício político foi transferido informalmente para
tio OSCAR PEREIRA DE SOUZA SOBRINHO (Oscarzinho) já integrado ao
movimento comunista e tia HELENITA PEREIRA DE SOUZA partidária de
tio Oscar Pereira, mas ligada fraternalmente a tio Oscarzinho porque
ambos comungavam dos mesmos sentimentos nacionalistas e democráticos
que caracterizavam a casa do velho ALFREDO. Próximo ao Natal o Sr.
Aristóteles, interventor de Catú, anunciou de forma espalhafatosa
como eram feitos os anúncios da ditadura, que o Ex° Sr. General
Pinto Aleixo, Interventor do Estado da Bahia, viria à Catú receber
as homenagens do seu povo. Tia Helenita indignada começou a liderar
um movimento de resistência àquele acinte. Como se pode usar o nome
do povo do Catú para prática tão absurda? Perguntava a todos. As
visitas de tio Oscarzinho à minha avó ADELAIDE que eram diárias,
passaram à ser quase que horárias, a todo instante ele conversava
com tia Helenita. Conspiravam. No dia e hora marcados o povo do
Catú estava em frente a Prefeitura Municipal. Enquanto aguardava-se
a caravana da romana presença do Sr. General Interventor, a briosa
Naninha como era chamada carinhosamente a Banda de Música 26 de
junho, deliciava a todos com os seus lindos dobrados e enchia de
brios os presentes. Ao espocar de foguetes e vivas da própria comitiva
o povo recebeu em silêncio o César bahiano. O sr Aristóteles em
discurso lido teceu loas à Getúlio Vargas e ao visitante. Mal acabara
de falar se ouviu a voz estridente de tia Helenita pedindo permissão
para na qualidade de representante do povo de Catú, reclamar o tratamento
que se estava dispensando a aquele povo, que não admitia grilhões
nem se submetia as ações policiais por não serem meliantes. Narrou
fatos e reclamou com veemência da administração pública. Concluiu
dizendo que aquela voz era de uma mulher de Catú porque o seu povo
quis tratá-lo com lhaneza mas que a voz dos homens de Catú
seria mais contundente se isso se fizesse necessário! Tia Helenita
não se casou, não teve filhos, mas todos os seus sobrinhos a consideravam
mãe! Pouco tempo depois foram nomeados Prefeito e Delegado, filhos
de Catú.
Talvez, este seja o último artigo que escrevo sobre os PEREIRA.
Conforme registrei no primeiro artigo trata-se da memória de um
garoto de 7 a 10 anos cheia de fantasias, escrita por um adulto
de 73 anos com suas perdas de memória. Peço aos meus primos que
também registrem suas lembranças sobre os nossos entes queridos
para que os nossos filhos e netos tenham a continuação da "Saga
dos Pereira" como Vírginia, denominou esta série........