(cr�dito: Aristides Duarte) Pop Five Music Incorporated
No Porto , em finais de 1967, formam-se os Pop Five Music Incorporated. A banda era constitu�da por David Ferreira (�rg�o Hammond, piano, guitarra e voz), Ant�nio Brito (baixo, guitarra e voz), Paulo Godinho (voz, teclas e guitarra- irm�o de S�rgio Godinho), �lvaro Azevedo (bateria) e Lu�s Vareta (baixo e voz).
O estilo da sua m�sica era caracterizado por ter grandes influ�ncias "jazz�sticas", pr�ximas da fus�o. No final do ano gravam o seu primeiro disco com o t�tulo da banda, para a editora Arnaldo Trindade, que inclu�a algumas vers�es de temas dos Beatles, Creedence Clearwater Revival, Traffic, Bee Gees e um tema de Bach "Jesus Alegria dos Homens". No entanto, essas vers�es n�o eram c�pias, inclu�am muitas improvisa��es dos membros da banda.
Foi um dos primeiros grupos portugueses a gravar em estereofonia, quando isso era raro pelas bandas deste jardim � beira mar plantado. A banda come�ou por gravar em duas pistas, nos Est�dios da RTP, no Monte da Virgem e, mais tarde, em Inglaterra, num est�dio com dezasseis pistas, o que era o m�ximo tecnicamente poss�vel, � �poca.
O grupo principiou a as actua��es em Festas e Bailes de Finalistas e resolveu modificar o seu repert�rio, passando este a incluir temas de Jeff Beck, Chicago e Blood, Sweat & Tears, ou seja, passou a estar mais pr�ximo de um tipo de m�sica mais pesado; que viria a ser chamado Hard-Rock.
Ant�nio Brito (mais tarde conhecido por Toz� Brito) saiu da banda para o Quarteto 1111 e David Ferreira tamb�m abandonou. Para os seus lugares entrou Miguel Gra�a Moura, pianista com forma��o cl�ssica e que determinou os novos rumos da banda. Este Miguel Gra�a Moura � o mesmo que at� h� pouco tempo dirigiu a Orquestra Metropolitana de Lisboa e que, nos anos 70 faria parte do grupo Smoog (nome derivado do sintetizador Moog.
Com a entrada de Miguel, a banda come�ou a escrever e interpretar originais que come�aram por ser cantados em portugu�s. Desta fase foram editados "Menina" e "Homens do Mar" que n�o tiveram grande aceita��o p�blica.
A banda resolveu regressar em for�a com um tema original cantado em ingl�s "Page One" (2) que ficaria conhecido como o indicativo do programa "P�gina Um" da R�dio Renascen�a . Este "single" inclu�a no lado 2 uma �ria de Bach e foi lan�ado em diversos pa�ses europeus e n�o s�.
Em 1970 gravam novo tema de sucesso: "Orange", um tema que inclu�a um longo solo de �rg�o tocado por Gra�a Moura. Em 1971 sai " Stand By", um tema de Rock Pesado, muito semelhante aos que faziam grupos como os Uriah Heep, Deep Purple ou Led Zeppelin. O lado B deste "single" era o tema "Golden Egg", composto por Miguel Gra�a Moura.
Actuam na edi��o de 1971 do Festival de Vilar de Mouros e obt�m grande sucesso, uma vez que o p�blico gostava da banda. Foi neste Festival que o p�blico pode apreciar as "performances" dos dois melhores teclistas da �poca: Miguel Gra�a Moura e Jos� Cid (que actuou no Quarteto 1111).
Um dos sonhos da banda tornar-se-ia realidade com a ida a Londres para gravar v�rios temas que seriam, posteriormente, editados em "single": "Take Me To The Sun", "No Time To Live", "That's The Way", etc.
Em 1972 a banda separa-se. �lvaro Azevedo far� parte dos Arte & Of�cio e Trabalhadores do Com�rcio. Gra�a Moura viria a dedicar-se � sua faceta de m�sico com forma��o cl�ssica, ap�s abandonar o Rock e Paulo Godinho participaria nas grava��es de v�rios discos de m�sicos portugueses , incluindo os do seu irm�o, at� emigrar. Toz� Brito tornar-se-ia cantor e, mais tarde, executivo de uma multinacional discogr�fica, com escrit�rio em Portugal.
J� em Fevereiro do corrente ano, foi lan�ado o CD duplo "Odisseia - Obra Completa 1968-1972", reproduzido na imagem, que inclui toda a discografia gravada pela banda, contendo ainda alguns temas gravados em Inglaterra e nunca editados. O CD, composto por 32 temas, cont�m "Mission Impossible", tema original da s�rie de televis�o, tr�s temas dos Beatles ("O Bla Di O Bla Da", "Blackbird" e "Birthday"), um tema dos Traffic ("Medicated Go""), o famoso "Proud Mary" dos Creedence, "To Love Somebody" dos Bee Gees, "Ad�gio" de Albioni, "Fire" de Jimmi Hendrix, "Hush" de Joe South (tema muito famoso numa vers�o dos Deep Purple) e todos os originais da banda, cantados em ingl�s e em portugu�s.
Como b�nus, este CD duplo inclui um DVD com a grava��o que a banda fez , no dia 3 de Janeiro de 2003, na Discoteca Estado Novo, no Porto, aquando da sua reuni�o com a forma��o original. A hist�ria do Pop/Rock portugu�s reservar� uma p�gina importante ao grupo referido nesta cr�nica.
Pop Five Music Inc
Artigo de Miguel Francisco Cadete no "P�blico" de 6 de Fevereiro de 2004Portugal. 1968. H� anos que o pa�s est� emaranhado numa guerra que tem lugar noutro continente mas sabe pouco do que se passa na Europa. Os Beatles, entretanto, j� tinham revolucionado o mundo - pelo menos o mundo ocidental - e em Lisboa, no Porto ou Coimbra surgiam as primeiras manifesta��es, ainda que inocentes, caricaturais ou simplesmente amadoras daquilo que era tomado como m�sica rock. Ou melhor, no princ�pio era o y�-y�, m�sica com guitarras el�ctricas para inconscientes bailes de finalistas ou folcl�ricos concursos no Teatro Monumental.
Em Coimbra, que atra�a os jovens com pretens�es acad�micas, nascia a m�sica de interven��o, nitidamente colada � oposi��o que se fazia ao regime. O Porto mantinha o seu estatuto provinciano, ali�s como o resto do pa�s. E as bandas de rock surgiam nos liceus e em zonas residenciais como as Antas e a Foz. Foi quando o y�-y� j� estava a dar o berro que surgiram os Pop Five Music Incorporated, tamb�m eles praticantes da readapta��o dos cl�ssicos da m�sica pop mas com orgulho suficiente para ousarem alguma criatividade.
Juntamente com o Quarteto 1111, os Pop Five Music Incorporated cometeram a proeza de inaugurar os anos 70 da m�sica rock em Portugal. Constitu�dos, � altura da sua forma��o, por David Ferreira (�rg�o, voz), Ant�nio Brito (baixo e guitarra, mais conhecido por T�z� Brito, hoje administrador da editora Universal), Lu�s Vareta (baixo e viola), Paulo Godinho (voz e viola, irm�o de S�rgio Godinho) e �lvaro Azevedo (bateria), os Pop Five estiveram quase a tornar-se um caso s�rio da m�sica rock quando assinaram contrato discogr�fico com a etiqueta Orfeu de Arnaldo Trindade, a mesma que editava os discos de Jos� Afonso e Adriano Correia de Oliveira, entre muitos outros nomes maiores da m�sica portuguesa. Durante cinco anos mantiveram uma carreira "imposs�vel" no tal pa�s "orgulhosamente s�", que lhes valeu a edi��o de um �lbum, dois EPs e seis singles. Findaram-se em 1972, quando a popularidade se desvanecia e a chamada para a guerra dos seus m�sicos desfazia a possibilidade de continuar.
Mais de 30 anos depois, a sua obra integral � reeditada em CD: "Odisseia - Obra Completa 1968-1972" � tamb�m um documento hist�rico sobre a juventude portuguesa no final dos anos 60. Afinal, tal como hoje, eles imitavam os seus �dolos e permitiam-se a evas�o de cantar em ingl�s para um povo maioritariamente analfabeto. Uma forma subtil de dizer que eram do contra? O baterista �lvaro Azevedo viria mais tarde a fazer parte dos Arte & Of�cio e dos Trabalhadores do Com�rcio (mas nunca esteve nos Psico, ao contr�rio do que apareec em v�rias biografias), e foi o principal obreiro desta reedi��o dos Pop Five Music Inc.
Hoje dedica-se � explora��o de um bar-discoteca no Porto, e n�o tem medo em confessar: "Todos os grupos nascem da mesma maneira. S�o grupos de amigos na adolesc�ncia, com 17 ou 18 anos, e a n�s aconteceu o mesmo. Quando nos junt�mos, s� quer�amos tocar em festas de amigos e nas garagens. Um de n�s tinha uma garagem grande e era a� que ensai�vamos, com um amplificador, uma aparelhagem de vozes e os instrumentos. N�o havia meios t�cnicos: lig�vamos o baixo, a guitarra e a organeta no mesmo amplificador. Mas as coisas foram evoluindo e das garagens pass�mos para as festas de finalistas e para os festivais no Ver�o com mais tr�s ou quatro grupos. N�s, tal como os grupos de baile, ouv�amos os Beatles e os Stones na r�dio - porque, na altura, os discos eram artigos de luxo - mas n�o nos limit�vamos a copiar. � �poca existiam grupos tecnicamente melhores mas n�s �ramos mais atrevidos. N�o � que transform�ssemos as m�sicas das quais faz�amos vers�es mas tent�vamos n�o copiar. Se n�o consegu�ssemos tirar o solo, faz�amos o solo � nossa maneira."
A situa��o era comum nos grupos portugueses que se dedicavam ao rock. As vers�es dos Beatles e dos Shadows faziam, quase obrigatoriamente, parte do report�rio. Mais do que forjar uma identidade pr�pria, os grupos dedicavam-se ao mais puro entretenimento, ainda que com varia��es introduzidas devido � falta de t�cnica, como acontecia com os Pop Five. A inexist�ncia de discos do g�nero no mercado criava tamb�m uma oportunidade, logo identificado pelas companhias discogr�ficas, que substitu�am os originais Beatles e Shadows pelos seus correspondentes portugueses.
No caso de Arnaldo Trindade e da marca de discos Orfeu, depois dos acontecimentos de 1968 em Fran�a, � natural que existisse uma associa��o do rock a uma certa contracultura. Em 1970, o primeiro �lbum dos Quarteto 1111 entra para a hist�ria como o primeiro disco de rock portugu�s a ser censurado pelo regime. E a bem dizer, os Pop Five Music Inc tamb�m fizeram parte do reviralho, ainda que de forma completamente inconsciente. "Os discos n�o chegavam c� a tempo e horas", continua �lvaro Azevedo, "e n�s come��mos a ser conhecidos no Porto e arredores devido �s festas que faz�amos. Isso chegou aos ouvidos da editora Orfeu, que na altura era representada pelo Carlos Cruz e pelo Viale Moutinho. S�o eles que nos aparecem no local onde ensai�vamos para que lhes toc�ssemos o 'Ob-la-di Ob-la-da" e o 'Blackbird', dos Beatles. Como esses discos n�o existiam no mercado, propuseram-nos gravar vers�es daquilo. N�o digo que fossem discos de ouro ou platina, mas vendiam-se muito bem. Por outro lado, n�o havia consci�ncia pol�tica. Mas recordo-me de, naquela altura, dormir com os discos do Zeca Afonso debaixo da cama. O Arnaldo Trindade pedia para n�s guardarmos aqueles discos que um dia destes viria busc�-los. E n�s nem sab�amos qual era o problema, se era a PIDE ou o que era... Recordo-me de ter 200 ou 300 discos debaixo da cama sem saber porqu�."
Isolado do mundo, Portugal mantinha-se como uma esp�cie de ave rara onde n�o sopravam os ventos dos "swinging sixties" londrinos. O bloqueio era apenas desfeito por programas de r�dio, como o "Em �rbita" ou pelos raros amigos que iam a Inglaterra e traziam as �ltimas novidades discogr�ficas. � assim que os Pop Five acompanham o que se vai fazendo l� fora, para mais tarde gravarem as suas vers�es. Os dois primeiros EPs, editados em 1968 e 1970 j� incluem, no entanto, um original de T�Z� Brito ("You'll see") no meio de vers�es dos Beatles ("Ob-la-di..." e "Birthday") e do "Adagio" de Albinoni, esta muito devido � forma��o cl�ssica que os teclistas dos Pop Five gostavam de ostentar.
Um virtuosismo que contrastava gritantemente com a candura das suas primeiras grava��es, registadas em inacredit�veis duas pistas nos est�dios do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. Mas da pop "bubblegum" dos seus primeiros dois EPs, os Pop Five aderem rapidamente a uma pompa e circunst�ncia s� poss�vel pela entrada de Miguel Gra�a Moura (at� h� pouco maestro da Orquestra Metropolitana de Lisboa), logo depois do abandono de T�Z� Brito e David Ferreira. O primeiro �lbum, ainda que exclusivamente repleto de vers�es de cl�ssicos (Beatles, Traffic, Bee Gees, Creedence Clearwater Revival, Jimi Hendrix, George Harrison) demonstrava uma maior maturidade e ambi��o, e at� foi gravado em quatro pistas. Intitulava-se "A Pe�a" e tinha in�cio com uma muito conceptual "Overture", a que se seguia uma vers�o jazz�stica de "Jesus, Alegria dos Homens", composi��o original de J.S. Bach. O dedo de Gra�a Moura fazia-se sentir.
"made in England". Os grupos portugueses de rock come�avam ent�o a despontar e, a par dos Pop Five, muitos outros iniciavam-se na grava��o de discos e a fazer concertos. Para Azevedo, vivia-se mesmo uma �poca fervilhante, ainda que sem a mediatiza��o que viria a marcar o rock portugu�s surgido na d�cada de 80. "Os nossos discos come�aram a ouvir-se na r�dio e at� surgiam algumas cr�ticas na revista 'Flama' e nalguns outros jornais. J� existiam os Chinchilas [de Filipe Mendes], os Zoo [de Guilherme In�s], o Quinteto Acad�mico, e ainda apanh�mos a fase final do y�-y�, dos Sheiks ou do Conjunto de Sousa Pinto. E existiam muitos grupos de baile... N�s �ramos diferentes, �ramos um grupo de rock, ou de pop. O que n�o impedia que muitas vezes, em algumas festas, nos viessem perguntar: 'Ser� que voc�s podem tocar um tango?'"
Para os Pop Five Music Inc, o reconhecimento chegaria logo em 1970, quando gravaram o tema "Page One" (2), indicativo de um programa de r�dio de Jos� Manuel Nunes, o "P�gina Um", emitido pela Renascen�a e que veio a ter uma import�ncia similar � do "Em �rbita" pela divulga��o que fazia da m�sica pop, rock e folk de origem anglo-sax�nica. Os Pop Five transformavam-se em estrelas � medida do pa�s. O single chegou mesmo a ser editado em v�rios territ�rios internacionais como o Brasil, Austr�lia, Holanda, Fran�a e Alemanha, com a particularidade de o lado B, "�ria para a 4� Corda", outra composi��o de Bach, ter sido escolhida nalguns casos como o tema principal.
A preponder�ncia de Miguel Gra�a Moura voltava a fazer-se sentir, levando os Pop Five para os caminhos de uma m�sica com pretens�es eruditas. No single seguinte, outro dos seus temas mais popularizados, "Orange", a import�ncia de Gra�a Moura volta a ser not�ria, n�o s� devido � orquestra��o mas tamb�m ao gigantesco solo de �rg�o. Os Pop Five mostravam-se a par do seu tempo, acompanhando o trabalho de bandas como os Procol Harum ou dos belgas Wallace Collection. E voltavam a acertar na "mouche".
Os dois �ltimos singles correram t�o bem, comercialmente falando, que a editora Orfeu levou os Pop Five para Londres, onde haviam de gravar os seus tr�s derradeiros singles. Para tr�s tinha ficado a tentativa de cantar em portugu�s, "mais por imposi��o dos homens da r�dio", que se veio a mostrar falhada com o single "Menina" / "Homens do Mar". Em Inglaterra, os Pop Five deparam-se nos Est�dios Pye - os mesmos onde Jos� Afonso gravou os �lbuns "Traz Outro Amigo Tamb�m" e "Coro dos Tribunais" - com uma megal�mana mesa de grava��o de 16 pistas e, pela primeira vez, passa a fazer sentido a express�o "made in England" que mandavam imprimir nas capas de todos os seus discos.
De uma assentada, o grupo grava os seis temas que viriam a constituir o report�rio dos seus tr�s �ltimos singles, publicados entre 1971 e 1972, mas sem nunca conseguir repetir o �xito dos tempos de "Page One" (2) e "Orange". "Stand By", "Take me to the sun" e "No time to live" viriam a marcar o decl�nio dos Pop Five Music Inc que, com alguns dos seus membros a cumprir servi�o militar obrigat�rio, se dissolveriam definitivamente em 1972.
Um ano antes, em 1971, um �ltimo momento de gl�ria: s�o um dos grupos portugueses que participam na primeira edi��o do Festival de Vilar de Mouros, ao lado de nomes como Manfred Mann e Elton John. Eram cada vez menos pop e mais rock, sendo not�ria a influ�ncia de bandas inglesas como os Led Zeppelin e Deep Purple, e at� a recente inspira��o em estados alterados da mente. Hoje, �lvaro Azevedo j� n�o tem nada a esconder: "As primeiras experi�ncias com droga que tive nessa �poca tamb�m eram um pouco inconscientes. Foi em Vilar de Mouros e, para ser sincero, nem se falava em droga. Esse chav�o, 'droga', s� surgiu mais tarde. Na altura falava-se em erva e nunca se dizia droga e a verdade � que, em Vilar de Mouros, toda a gente fumava. As pessoas davam umas passas, ficavam um bocado maradas e pronto. J� existiam outras drogas, mas os �cidos s� apareceram mais tarde, em 1972 e 1973, depois de termos conhecimento do que era o Maio de 68, dos encontros de artistas, dos movimentos contra a guerra, da contracultura,..."
O cotejo com os maiores nomes da m�sica popular internacional, como aconteceu em Vilar de Mouros, sublinhava a desigualdade de condi��es: "Hoje � imposs�vel subir para cima de um palco enquanto est� um grupo a tocar, mas no concerto do Elton John eu estava ao lado do baterista - que era o que me interessava -, a olhar para aquela bateria cheia de timbal�es. Tinha o meu 'kit' normal e quando vi o homem montar uma bateria com dez ou doze timbal�es s� pensava: 'Mas o que � isto?'"
Por outro lado, desenhava-se a disputa entre os dois melhores teclistas de rock em Portugal: Miguel Gra�a Moura dos Pop Five e Jos� Cid do Quarteto 1111. Pol�micas que ao p�blico passavam despercebidas. "Na altura, as pessoas chegavam-se ao p� do palco, o grupo come�ava a tocar e o p�blico ficava ali a ouvir. Havia um ou outro que punha o bra�o no ar e se estivesse uma rapariga ao lado, era natural que durante um slow se agarrassem para dan�ar. Mas o p�blico n�o participava da festa e era completamente passivo", conta ainda �lvaro Azevedo enquanto descreve o contexto do primeiro grande festival de m�sica em Portugal. Dois anos depois de Woodstock e um ano a seguir ao festival da Ilha de Wight, o p�blico portugu�s ainda n�o estava sintonizado com os novos rituais urbanos que procuravam o bucolismo do campo para celebrar a magia do rock. A Europa continuava longe e a MTV ainda n�o tinha iniciado as suas emiss�es. Em Portugal n�o foi certamente o rock que fez cair o muro, mas talvez tenha ajudado.
Reedi��o da obra dos Pop Five"No Princ�pio Eram Os Beatles"
Artigo de M.F.C. no "P�blico" de 6 de Fevereiro de 2004Para que n�o se arraste o equ�voco de que a m�sica urbana portuguesa n�o tem hist�ria, � preciso saudar a edi��o, quase simult�nea, da obra integral dos Pop Five Music Incorporated e da colect�nea "All You Need Is Lisboa", recentemente publicadas. Ambas se reportam ao per�odo que vai de meados dos anos 60 at� ao in�cio dos anos 70 e passam a constituir, desde j�, documentos hist�ricos imprescind�veis para conhecer o estado da m�sica pop em Portugal dos �ltimos 40 anos. A primeira por percorrer a biografia de um grupo ao longo da sua fugaz traject�ria entre 1968 e 1972, pelo que deixa perceber das inten��es, motiva��es, inspira��es e condi��es t�cnicas que enformavam as ambi��es de um punhado de rapazes do Porto. A segunda por sublinhar especificamente o papel dos Beatles no crescimento da m�sica pop em Portugal, n�o s� pela import�ncia pr�pria dos quatro de Liverpool, mas sobretudo pelas raz�es e pela forma como estes foram assimilados por artistas portugueses de variados quadrantes.
N�o, estes discos n�o t�m o valor musical das obras-primas. Mas real�am o papel perif�rico de Portugal relativamento ao resto do mundo numa �poca em que a guerra em �frica ou a censura condicionavam tamb�m o orgulho dos seus criadores. Como diz Lu�s Pinheiro de Almeida nas notas que acompanham "All You Need Is Lisboa", "os ventos irreverentes, rebeldes e contestat�rios sopravam fortes de Liverpool, mas entravam brisas em Portugal. O pa�s era obrigado ao 'orgulhosamente s�' de Salazar e Caetano, isolado do mundo, da modernidade (...). Provinciana, a malta, vigiada, gozava como podia."
N�o admira, por isso, que o grosso da obra completa dos Pop Five Music Incorporated, uma das bandas portuguesas mais importantes no deserto que era o rock em Portugal na viragem dos anos 60, fosse constitu�do por vers�es de cl�ssicos da m�sica anglo-sax�nica. Os Beatles, obviamente, mas tamb�m Jimi Hendrix, Bee Gees, Creedence Clearwater Revival, Lalo Schifrin ou Spencer Davis Group forneciam mat�ria-prima para deambula��es de um grupo de portuenses com 17 ou 18 anos dispostos a impressionar amigos e amigas em festas de liceu. Do pop "pastilha el�stica" e provocatoriamente adolescente dos seus dois primeiros EPs ("Those were the days" e "Ob-la-di Ob-la-da") at� ao primeiro �lbum, pomposamente intitulado "A Pe�a", percebe-se, no entanto, o esfor�o de acrescentar outra dignidade � m�sica que pediam emprestada.
Curiosamente, � quando se decidem a gravar um original, "Page One", ainda que nitidamente influenciado pela m�sica de Joe Cocker, que os Pop Five alargam o seu raio de ac��o e popularidade, chegando a alcan�ar um �xito � reduzida escala nacional. Os singles "Page One" e "Orange" quase fizeram deles artistas de corpo inteiro. Percorrendo os meandros do funk que j� haviam tentado na vers�o de "Miss�o Imposs�vel", ou os caminhos �nvios da m�sica sinf�nica, como acontecia em "�ria" ou "Jesus, Alegria dos Homens", iam descobrindo uma via pr�pria, ainda que � merc� das ambi��es de cada um dos seus elementos. A tentativa de cantar em portugu�s, por press�o dos radialistas mas tamb�m pela qualidade e �xito das can��es de alguns baladeiros como "Pedra Filosofal", veio, contudo, a revelar-se frustrante.
Quando a editora os envia para Londres a fim de gravarem aqueles que viriam a ser os tr�s �ltimos singles, os Pop Five j� tinham endurecido a sua m�sica de acordo com as coqueluches que surgiam, sobretudo, em Inglaterra. Gravam guitarras el�ctricas � Jimmy Page, assumem um certo psicadelismo e afastam-se definitivamente do r�tulo pop que havia marcado os primeiros passos. A dist�ncia relativamente ao pa�s real era cada vez maior e o fracasso das novas can��es correspondia � ida para a tropa dos seus m�sicos. Obviamente, foi o fim desta aventura.
Tal como acontecia com os Pop Five Music Inc, as vers�es dos Beatles eram quase obrigat�rias no report�rio de qualquer grupo portugu�s, tendo muitas delas passado � posteridade devido � sua edi��o em vinilo. � essa recolha que Lu�s Pinheiro de Almeida apresenta em "All You Need Is Lisboa", uma colect�nea em que a m�sica dos Beatles � revista � luz dos artistas portugueses dos anos 60. Sejam eles do rock ou do fado, da m�sica ligeira ou do y�-y�, respeitando o original ou permitindo-se desvios � norma, no ingl�s original ou em tradu��o portuguesa, o certo � que prestaram vassalagem aos Beatles ocupando, de certa forma, o lugar que a raridade ou inexist�ncia de discos e concertos em Portugal deixava em aberto.
Desde a alegria transbordante do Duo Ouro Negro para "I want to hold your hand" ao tom circunspecto de "Michelle" pelos Sheiks (de Paulo de Carvalho e Carlos Mendes), do hilariante e alfacinha fado casti�o de Carlos Bastos associado a "Hey Jude" (com arranjo para guitarra portuguesa de Ant�nio Chainho) at� ao original "Penina" de McCartney escrito num hotel do Algarve a altas horas da noite para os portugueses Jota Herre, encontra-se aqui de tudo - e at� algumas boas surpresas.
Nomes menos conhecidos da hist�ria da m�sica rock em Portugal como o Conjunto Universit�rio Hi-Fi (onde pontuava Carlos Correia, acompanhante de Jos� Afonso) ou o Conjunto Acad�mico Os Espaciais (do qual fazia parte Toni Moura, mais tarde dos Psico e dos Tantra), assinam vers�es quase perfeitas de "I call your name" e "When I'm 64". Simone de Oliveira d� azo ao seu virtuosismo, algures entre o bel-canto e Sandie Shaw, e o Quarteto 1111 encerra este ecl�tico alinhamento com a homenagem "Ode to the Beatles", cuja letra � constru�da com t�tulos de can��es dos Beatles. Irrepreens�vel � tamb�m o livreto que acompanha "All You Need Is Lisboa", com textos de Pinheiro de Almeida e do brasileiro Marcelo Fr�es, e a reprodu��o das capas dos discos de onde foram retirados todos os temas.
POP FIVE MUSIC INCORPORATED
Odisseia - Obra Completa 1968-1972
Movieplay
V�RIOS
All You Need Is Lisboa
EMI-VC
Venham mais cinco da pop portuguesa
Cr�dito: Porta da LojaCinco putos do Porto, no fim dos anos sessenta, fizeram um grupo rock e chamaram-lhe Pop Five Music Incorprated: �lvaro Azevedo, Toz� Brito, Paulo Godinho , Lu�s Vareta e Nuno Cameira, a que se seguiram, em substitui��o, David Ferreira e Miguel Gra�a Moura, tocavam em bailes, festas e festivais e as m�sicas eram quase sempre iguais quando n�o eram alheias.
Sabiam tocar os instrumentos, onde predominava o �rg�o Hammond de sonoridades envolventes e determinantes, que expelia a maestria contida do m�sico Gra�a Moura, ambientado em Conservat�rio. Por isso, num mesmo disco, misturavam "Ob La di Ob la da" com uma arranjada Aria de Bach. Como eram do Porto, cidade ligada a ingleses, ent�o em plena explos�o rock, recebiam os discos de l� e plagiavam-nos c�, em vers�es amanhadas de ouvido, mas atrevidas, de um fulgor de juventude que nem sequer estacava perante um Jimi Hendrix ou evitava a banda sonora de Lalo Schifrin para uma "Miss�o Imposs�vel".
Note-se que o Pop Five, na altura, era um grupo portugu�s entre outros. Noutro grupo da �poca, o Sindikato, tocavam Rui Cardoso, Jorge Palma, V�tor Mamede, R�o, entre os outros nove m�sicos que tentavam imitar os Blood Sweat and Tears. Os anos dos Pop Five terminaram em 1972, quando os putos atingiram a idade de ir � tropa que na altura se fazia no Ultramar.
No ano anterior, juntaram-se aos Sindicato, Psico, Quarteto 1111, Objectivo, Pent�gono, Chinchilas, Contacto e Celos, em Vilar de Mouros, para cerca de 20 mil pessoas ouvirem e onde se apresentou aos portugueses Elton John, antes de se tornar o "rocket man".
A aprecia��o cr�tica no Mundo da Can��o n� 21, pela pena implac�vel do cr�tico Jorge Cordeiro, que l� esteve, � expressiva e breve: "m�sica sem grande for�a e de execu��o med�ocre". A nota positiva de Vilar de Mouros 71, em m�sica rock nacional, foi para os Psico:" "conseguiram a primeira ades�o macissa(sic) do p�blico : para tal tiveram que executar um velho rock dos anos 50. O p�blico p�s-se de p�, entrou no balan�o e terminou apoteoticamente."
Nesse relato circunstanciado do festival, o cr�tico abalan�a-se ao retrato sociol�gico da juventude do Portugal de ent�o: "Nascia finalmente o Festival? N�o. E porqu�? N�o s� pela frieza do nosso p�blico que ainda est� imbuido de muitos preconceitos, mas por culpa dos pr�prios grupos. A m�sica praticada foi toda ela muito igual, muito semelhante mas principalmente porque entre cada actua��o queimavam minutos a afinar instrumentos verificar aparelhagem, experimentar microfones, numa min�cia rid�cula e cocabichinha, denunciadora de inseguran�a e at� cabotinismo."
Quais s�o as obras primas dos Pop Five? Duas: "Page One" de 1970 e "Orange" de 1971, esta gravada em Inglaterra e que apesar disso decepcionou, por falta de originalidade e n�vel musical, o cr�tico do jornal Disco de 1.9.1971, H�lio Sousa Dias que o assimilou abertamente � influ�ncia dos Wallace Collection, grupo menor e que chegou a visitar Portugal para tocar "Daydream"(1).
As primeira dessas m�sicas tem autoria equ�voca, atribu�da ao grupo, segundo �lvaro Azevedo que assim o escreveu no pequeno livreto de apresenta��o da colect�nea Odisseia, agora lan�ada e que reune toda a obra gravada do grupo: "o Toz� Brito tamb�m colaborou na sua cria��o", nas palavras a� escritas. Contudo, a autoria dever� atribuir-se a Miguel Gra�a Moura, o qual n�o s� n�o enjeita essa paternidade como a reivindica.
O tema "Page One", foi adoptado por um radialista da R�dio Renascen�a para anunciar o seu programa "P�gina Um". "Page One" � uma m�sica de marca��o funky, onde predomina a sec��o r�tmica baixo-bateria que lhe imprimia uma cad�ncia urgente, na abertura daquele programa de r�dio que se prolongou at� alguns anos depois do 25 de Abril e que normalmente passava em primeira m�o, as novidades discogr�ficas vindas de Londres, por via a�rea e contando com a colabora��o de portugueses a� emigrados, como era o caso de Ant�nio Cartaxo, hoje apresentador na Antena 2. A m�sica mais conhecida dos Pop Five � assim, uma reminisc�ncia de um bel�ssimo programa de r�dio e com uma sonoridade r�tmica inicial, tentadoramente copiada e semelhante � sonoridade funky de um Lee Dorsey de Get Out of My Life Woman ou de um Lowell Fulson de Tramp, ambos de 1966 e avoengos do Hip-Hop.
No in�cio de 2003, os Pop Five, minus Gra�a Moura, ocupado nessa altura noutros assuntos que o afastaram desse conv�vio revivalista, reuniram no Porto e retocaram algumas cantigas, num espect�culo gravado em DVD e que acompanha a "Odisseia".
(1) - "Daydream", can��o dos Wallace Collection lan�ada em 1969 cuja melodia principal era assumidamente uma c�pia de um tema do "Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky.(2) A can��o �Page One� foi inclu�da na colect�nea �Os Reis do Ritmo�, publicada em 2003 pela editora Valentim de Carvalho
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