Sentimentos
Vivenciados pelo Casal Após a Separação
VI.
Separação
Ah,
se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se ao te conhecer
Dei pra sonhar
Fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo
Queimei meus navios
Me diz pra onde é que ainda posso ir
(Tom Jobim e Chico Buarque, Eu te amo)
Está
cada vez mais comum ouvir falar de separação entre os casais. Já se tornou
lugar comum a frase "Se não der certo separa", desde a cerimônia.
Não é por acaso que atualmente, uma em cada quatro uniões se desfaz a cada
ano, no Brasil (revista Veja).
Isso, porém, não significa que separar-se é algo simples e fácil. Pelo
contrário, em qualquer circunstância o processo de separação é extremamente
doloroso, envolvendo aspectos emocionais, afetivos, sociais. Na verdade, a
separação é um fenômeno comum e presente em toda nossa vida. Logo ao nascer,
o indivíduo passa pela dura experiência de separação da mãe, com a saída
do útero e o corte do cordão umbilical. Passa para um mundo novo,
"desprotegido", dependendo por um bom tempo ainda dos cuidados
maternos para a sua sobrevivência. Até que, gradualmente, vai saindo de uma
fase extremamente dependente, passando por sucessivas separações. E assim,
segue durante toda a sua vida: uma transferência de cidade, de colégio, saída
de um emprego, a separação de amigos, de namorados, de amantes e mesmo uma
separação repentina pela morte de alguém próximo. Ainda assim, talvez uma
das mais difíceis formas de separação seja a da conjugalidade: "Em todas
as separações há perdas, da pessoa física e de tudo o que de significativo a
ela se vincula ou dela deriva. Na separação podem-se perder amigos, filhos,
estilos de vida, posição socioeconômica e também auto-estima e significado
de vida. Assim as perdas abrem um espaço, ou criam um vazio difícil de
suportar" (Porchat, 1992, p103).
Diferentemente do momento em que decidem se unir pelo casamento, formal ou não,
quando as pessoas são movidas pelo "amor", fazem planos, projetos de
vida para desenvolver juntas, a separação traz à tona a sensação do sonho
desfeito, o sentimento de fracasso. Quem opta por se separar passa por fases
extremamente difíceis, tem dúvidas: Será este mesmo o melhor caminho?
Enfrenta o medo de lidar com o novo, com as perdas, o receio da discriminação
da família, dos amigos, da sociedade.
Tal como o casamento, a separação tem passado por diversas concepções,
sofrendo ao longo dos anos inúmeras transformações. Enquanto um sempre foi
incentivado pela família, pela sociedade como um todo, encarado como algo
"sublime", a separação durante muito tempo foi fortemente condenada,
sendo considerada o último recurso para por fim a um casamento infeliz. Na
família burguesa, por exemplo, a mulher separada era socialmente representada
como a mulher que "não presta", destituída de valor. Porchat (1992,
p120), por exemplo, observa: "Tendo a vida familiar como projeto e
significado de vida, a mulher desse período passa a ser socialmente 'um nada',
quando separada. Além do mais, com freqüência é marginalizada socialmente,
na medida em que é considerada uma potencial ameaça para 'as bem
casadas'". Conquanto para o homem a discriminação fosse menor, não
deixava de existir. Em muitas ocasiões, a ele foi atribuída a culpa do
abandono na sua missão de proteger e prover a esposa (que guardava estreita
relação de dependência com o marido) e filhos. Diante dessa realidade, o
casal, em especial a mulher, tendia a desenvolver um grau de aceitação muito
forte no que lhe era imposto e esperado socialmente. Favorecia-se a intensa
resignação das mulheres e a atribuição de poder aos homens, o que
proporcionava muitas vezes a continuidade dos casamentos e, às vezes, a
aparente felicidade do relacionamento.
Quem se separava era, portanto, desde tempos imemoriais considerado um
fracassado por não ter conseguido manter o casamento e assim cumprir o ideal do
"vínculo eterno", de acordo com a ideologia socialmente instituída e
aceita pela maioria das pessoas. Era bastante freqüente, nesse contexto, que as
pessoas envolvidas em casamentos arruinados permanecessem nele, pelo receio da
discriminação, da sensação de fracasso e mesmo de lidar com os sentimentos
que o desenlace conjugal poderia ocasionar. Conforme Giusti (1987, p27):
"Geralmente a alternativa para a separação, considerada um remédio
extremo para um mal irremediável, era a de agüentar passivamente uma
situação intolerável na vida conjugal".
De certa maneira, homens e mulheres cresciam internalizando a concepção da
indissolubilidade do casamento. A célebre frase "O que o homem uniu só
Deus separa" servia como justificativa para quem cogitasse em desfazer a
união. Ainda hoje as igrejas em sua maioria a utilizam como premissa para
aqueles que insistem em romper o enlace conjugal. Do ponto de vista religioso,
portanto, o casamento continua indissolúvel. E somente há muito pouco tempo
deixou de o ser para as leis brasileiras. Anteriormente as pessoas até podiam
se separar, mas não havia nada que as protegesse, que regulamentasse suas
decisões. O divórcio, no Brasil, só veio a surgir no ano de 1977.
Antes disso, o indivíduo separado estava impossibilitado de reconstruir uma
nova relação legalmente reconhecida: "Quem se separava permanecia para
sempre um 'separado', tachado como pessoa estranha e diferente, emocionalmente
instável, pouco séria e pouco confiável" (Giusti, 1987, p66).
Provavelmente, a regulamentação forneceu o apoio que faltava para que os
indivíduos pudessem se separar com maior segurança e com menos sentimento de
culpa, embora a discriminação e o sofrimento tenham continuado a existir.
Parafraseando Giusti (1987), quem se separa nunca sabe com certeza qual será a
reação da família, dos amigos, dos colegas de trabalho. Possivelmente os
tipos de reação serão inúmeros e imprevisíveis.
"As reações dos outros são tão mais violentas quanto mais inconscientes
forem: quem pensou em separar-se sem concretizar seus desejos por falta de
coragem ou por outros motivos sentirá uma espécie de inveja; quem, por outro
lado, está insatisfeito, reprimido ou preso a rígidas concepções (por
exemplo, 'é melhor sacrificar-se do que procurar uma realização plena') só
poderá condenar o separado com acidez e recriminação; quem, enfim, já passou
pela experiência de uma separação tenderá a identificar-se em tudo, sentindo
um forte sentimento de solidariedade" (Giuisti, 1987, p48).
Maldonado (1986, p124) acrescenta: "Muitos se afastam, criticando e
condenando a pessoa que resolveu se separar. São muitas as ameaças: a mulher
que evita questionar o próprio casamento e teme que a amiga separada 'fique de
olho' no seu marido; o homem que teme que a mulher separada seja mau exemplo
para sua esposa, ou que o amigo separado 'dê em cima' de sua mulher sem a menor
cerimônia; a mulher que teme que o amigo separado vá incentivar o seu marido a
fazer o mesmo".
No entanto, não há como negar que com a legalização o fim do casamento
passou a ser mais amplamente admitido. Vale ressaltar, contudo, que o
aparecimento do divórcio surgiu como conseqüência das mudanças que
começaram a ocorrer na própria instituição do casamento, na sociedade na
qual o casal se insere. Nos últimos anos, constatou-se o ingresso da mulher no
mercado de trabalho, o surgimento de uma diversidade de papéis impostos aos
casais pela sociedade, novos padrões de comportamento masculino e feminino. Nas
palavras de Sheehy (1984, p153), nos últimos anos: "Há mulheres que ficam
solteiras até suas carreiras estabilizarem, e maridos que realmente executam
grande parte da troca de fraldas e da catação do arroz. Existe até mesmo a
total inversão dos papéis: o marido-artista que fica em casa e trabalha nos
intervalos entre fazer as crianças dormir e cuja mulher telefona para ele do
escritório para dizer que vai levar alguém para jantar". Atualmente
verifica-se que "... o homem perdeu o status de único provedor; a mulher,
a resignação" (revista Veja, 22/03/2000, p123). Todos esses
acontecimentos trouxeram uma nova concepção de casamento e conseqüentemente
de separação. Embora continue sendo um processo de difícil aceitação para
muitos, a quebra do vínculo conjugal não é percebida mais como uma
"catástrofe" como anteriormente. Segundo Giusti (1987, p64) a
separação tem se tornado cada vez mais comum no dia a dia das pessoas,
"(...) começando a fazer parte tanto da cultura social e moral quanto do
patrimônio institucional de toda a sociedade". Quem não conhece ou nunca
ouviu falar de alguém que esteja se separando ou mesmo que já esteja separado?
Hoje em dia, portanto, ao mesmo tempo em que enfraquece a idéia do vínculo
eterno, a separação deixa de ser vista como uma exceção à regra.
Em decorrência dessas mudanças, as razões pelas quais as pessoas se separam
também são muito recentes comparadas às de outras épocas. A partir da
década de 1980 até os dias atuais, as causas que mais têm contribuído para o
rompimento do vínculo matrimonial na contemporaneidade são: a ausência de
comunicação, de diálogo entre os parceiros, infidelidade, insatisfação
sexual, a percepção de que os projetos de vida e a forma de educar os filhos
não são tão afins como se imaginava ser. Conforme Giusti (1987, p26) todos
estes fatores enquadram-se na chamada incompatibilidade dos cônjuges. Pensar em
algumas destas possibilidades há alguns anos era simplesmente impossível.
Afinal, o contexto social e cultural era outro. Não existia ainda a exigência
emocional, psicológica e sexual que se verifica nos dias de hoje. A dupla de
pesquisadoras americanas Florence Kaslow e Lita Schwartz analisou uma série de
estudos, realizados nos Estados Unidos entre os anos 50 e 90 e concluiu que,
antes da década de 70, as alegações para os divórcios eram coisas bem mais
concretas: infidelidade, dificuldades financeiras, problemas com a família do
cônjuge, violência doméstica, negligência do lar (revista Veja, 22/03/2000,
p121).
Um outro fator que tem levado ao desenlace conjugal nos dias de hoje é a busca
do desejo pelos indivíduos. Conforme Barcia Gomes (1992, p134): "No
passado, os cônjuges se consideravam capazes de viver bem, sem a presença do
desejo no casamento: atualmente a ausência do desejo no vínculo matrimonial é
sinal de prostituição." Parafraseando Colares (2000), dentro de uma
visão ocidental contemporânea as pessoas casam e se separam, motivadas que
estão, por exemplo, pelo desejo de serem felizes. Poucos são os casais que
ainda hoje se sentem "obrigados" a manter um casamento fracassado,
especialmente no que concerne a mulher. Em decorrência das mudanças sociais, a
ordem agora tem sido, segundo Rose Campos (revista Viver Psicologia, abril/2000,
p21): "a administração vertical do lar, doce lar, a reengenharia dos
papéis domésticos, o equilíbrio, ou, se possível, o ganho no
custo-benefício da relação. Quando nenhuma dessas 'fórmulas' funciona, a
mulher já não pensa duas vezes antes de se apoiar na independência
recém-conquistada e mandar às favas um relacionamento que não a
satisfaz".
Além da busca da felicidade, no casamento atual anseia-se, de um lado, pela
preservação da individualidade, e de outro, pela complementação. Para
muitos, no entanto, a satisfação dessas necessidades nunca se concretiza,
fundamentadas que estão no processo de idealização, comum, segundo Muszkat
(1992), na cultura ocidental. Esse tipo de idealização, na opinião dela,
"acaba por criar uma capa de frustração permanente que sobrecarrega a
relação, prejudicando o nível de satisfação que ela possa oferecer. Quando
essa sobrecarga se torna insuportável, conclui-se erroneamente que há algo
errado no casamento".
Constatar que um casamento esteja chegando ao fim não é fácil, mesmo havendo
toda essa disseminação da idéia de separação. Nas palavras de Giusti:
"Chegar a se dar conta do fato de que a união com o próprio cônjuge não
funciona é uma trajetória íntima muito árdua e sofrida, carregada da
tentação de procurar desmentidos para o próprio sentir". As pessoas
passam, usualmente, por um período de muita dúvida e insegurança antes de
decidir por uma separação propriamente dita. É comum que inicialmente o
indivíduo acredite em um milagre que o "faça voltar aos felizes tempos em
que ele era amante, esposo e companheiro de vida" (Giusti, 1987, p36). A
verdade é que, mesmo em um casamento ruim, em algum momento todos já tiveram,
como bem expressa Dolores Duran, sua fase "de carinho apaixonado, de fazer
versos, de viver sempre abraçados, naquela base de só vou se você for".
Diante destas lembranças, as pessoas no fundo temem que a separação seja uma
decisão da qual se arrependerão profundamente. O medo de errar, de jogar fora
anos de convivência, projetos de vida em comum, provoca, no dizer de Giusti
(1987, p41): "(...) um estado de contradição interna que alimenta medos
de todos os tipos: de ferir os parentes, de ficar sozinho, de não conseguir
auto-suficiência econômica, de nunca mais encontrar alguém que goste da
gente, de ser ridículo (principalmente quando se tem uma certa idade), enfim,
mil e um temores, todos aparentemente justificados".
Dar-se conta que a união acabou é, portanto, apenas o início de uma longa
trajetória, que pode ou não terminar em separação. Se a decisão de
separar-se for levada adiante, começará um processo de desvinculação que
pode durar anos, dependendo da constituição psíquica de cada um. Segundo
Maldonado (1986, p112): "No processo de desvinculação que se inicia nas
etapas finais do casamento e perdura por algum tempo após a separação, se
ressaltam o desencanto, a desilusão, a decisão, o choque, a tristeza e a
raiva, o ódio e o ataque, a vontade de que o outro se dê mal, a denegrição
(...)." Todos esses sentimentos são considerados normais, afinal a
separação, mesmo para aqueles que a desejaram, é uma quebra repentina da
rotina familiar.
Para Giusti (1987), o fim da união é sempre doloroso. Nas palavras dele,
"trata-se daquele estado emotivo provocado pela perda do objeto de amor,
quer externo (perda da pessoa amada, que nos abandona), quer interno (perda do
amor pela pessoa que abandonamos). Em ambos os casos sobrevém uma sensação de
falta e solidão, cuja intensidade varia de acordo com a intensidade emotiva do
apego". Não é por acaso que muitos são os casais que ainda
"preferem" permanecer em casamentos fracassados, insuportáveis, por
não conseguirem (ou não poderem) lidar com estes ou outros sentimentos e
situações. Muitas vezes os próprios filhos, quando existem, são utilizados
como motivo para a continuidade da relação. É o que nos afirma Colares (2000,
p19): "É difícil assumir o desejo de separação. Muitas vezes, acaba-se
por manter a aparência do casamento; estabelecem-se relações extraconjugais,
paralelas, para suportar a relação oficial, e os filhos são meras desculpas.
É o discurso consciente sobrepondo-se ao desejo inconsciente".
