Sentimentos
Vivenciados pelo Casal Após a Separação
V.
O Casamento: Conceitos e Representações
Nem
sempre ao casamento se associaram amor-paixão e felicidade, que é como o
entendemos hoje. Amor-dever, amor-abnegação, amor-submissão foram os
cenários mais freqüentes do casamento. O casamento foi sobretudo vínculo
político, vínculo econômico, vínculo de reprodução. No Brasil, dos
meados do século XIX em diante passa a ser um vínculo de amor e felicidade
(Porchat, 1992, p106).
O
conceito de casamento tem passado por um processo de transformação
incontestável. A idéia do eterno, da união para a vida toda, embora ainda
exista, tem sido cada vez menos comum. Isto não corresponde a dizer que o
número ou mesmo o desejo de casar tenha diminuído. No entanto, não há como
negar que as mudanças pela qual passou e passa a sociedade ocidental vêm
contribuindo para uma nova visão acerca dessa nova instituição. Assim a
própria definição de casamento, segundo o dicionário Aurélio (1998, p133) o
"ato solene de união entre duas pessoas de sexos diferentes, capazes e
habilitadas, com legitimação religiosa e/ou civil", têm sofrido
transformações de acordo com o senso comum.
Durante o período colonial e até mais ou menos o século XIX, predominava o
sistema de patriarcalismo. Neste sistema as pessoas não tinham direito
de escolher com quem gostariam de se casar. Esta "tarefa" cabia aos
seus pais ou responsáveis (tutores). Se não era permitida a escolha que dirá
pensar num casamento baseado no "amor" e na relação sexual como
objeto de prazer. Bem longe desta percepção, o casamento nesta época visava
apenas a manutenção das propriedades, bens e interesses políticos. Conforme
Gonçalves (1989, p36): "até o século XIX, os casamentos por
conveniência, realizados pela intermediação das famílias dos noivos, parecem
ter sido habituais. A associação entre casamento e dote da mulher colocava a
mulher como importante elemento de troca, revelando o plano econômico que
articulava a união entre as famílias. Por intermédio do casamento e do dote
estabeleciam-se as alianças de patrimônio e família". À mulher cabia
servir a seu marido, ser submissa, dar a seu esposo filhos, de preferência
homens. Entre os casais predominavam, portanto, as relações de poder.
"Enquanto a um (homem) tudo era permitido, desde 'corrigir fisicamente' sua
mulher e ter a seu bel-prazer quantas outras lhe aprouvesse, ao outro, a mulher,
pouco ou nada era concedido, senão obedecer, cumprir suas obrigações de
esposa, procriar" (Porchat, 1992, p109). Com a mudança social, muda-se
também a concepção do casamento. É assim que no início do século XIX surge
a valorização do sentimento. Casa-se por amor, casa-se em busca da
satisfação dos impulsos afetivos e sexuais, de uma complementaridade. É o
chamado casamento burguês que permanecerá até mais ou menos a primeira metade
do século XX. Esse novo sistema, porém, não põe fim de vez ao patriarcalismo,
que permanecerá, até mesmo nos dias atuais, de maneira bastante sutil. No
casamento burguês: "A mulher que agora casa por amor, embora saindo e até
mesmo já começando a trabalhar no final do século, de fato continua a sua
relação de dependência e submissão em relação ao marido. Continua a
servir. Serve agora por amor ao marido e aos filhos. Tem neles, na sua
educação e no seu bem-estar, a sua intenção de vida. Reina num ninho
doméstico onde busca criar intimidade e conforto e mantém expectativas de
proteção e amor" (Porchat, 1992, p110).
Esse tipo de casamento burguês apresenta segundo Porchat (1992) dois padrões:
o tradicional que vigorou na primeira metade do século XX e o moderno que teve
início na década de 60 e prolonga-se até hoje. No casamento tradicional
prevalece a idéia de indissolubilidade, ou seja, o casamento é percebido como
algo que é para sempre, para a vida toda. Não há nesse tipo de casamento
qualquer exigência emocional ou desejo (ao menos manifesto) sexual. Há sim,
grande importância dada a execução de papéis, bem definidos. À mulher cabe
cuidar do lar, dos filhos, do seu marido. Ao homem é dado o sustento da
família, o predomínio da autoridade.
No padrão moderno o casamento passa a ser percebido como algo
transitório, o se "não der certo, separa". Exige-se intimidade,
comunicação. Há neste momento, uma grande mudança no que se refere aos
papéis desempenhados tanto pelo homem quanto pela mulher. Diferentemente do
casamento tradicional, onde os papéis encontravam-se bem delimitados, no
casamento moderno há uma "miscelânea" de atribuições. Da mulher
agora é esperado que exerça uma profissão, que divida com seu companheiro o
papel de provedora do lar, além é claro, de cuidar dos filhos, do marido, da
família como um todo. Do homem retira-se o papel de provedor exclusivo (como
observado esta função, agora, cabe também a mulher), exige que seja um pai
participativo, um marido dedicado e carinhoso. Assim como é grande o número de
papéis, é também a exigência feita sobre sua execução. Somada a estas
mudanças, fazem-se, neste momento, cobranças emocionais, psicológicas e
sexuais. As pessoas buscam um parceiro que satisfaçam os seus desejos, que as
completem de forma integral. Influenciado e formado pelo social, o indivíduo
aprendeu ao longo dos anos a desejar o desejo e a colocá-lo como indispensável
ao casamento. No âmbito psicanalítico "...o ser humano traz dentro de si
uma vivência de falta, inexorável e imprescindível, resultante da perda da
vivência monádica dos primórdios de sua existência" (Gomes, 1992,
p137). Partindo deste princípio, podemos afirmar que o sujeito é por natureza,
um ser desejante, em busca constante de preencher um "vazio" existente
dentro dele. Nada mais natural, portanto, que se exijam nas relações
matrimoniais a presença do desejo, dentre o qual os mais comuns são: o desejo
amoroso, o desejo de individualidade e o desejo de complementaridade. Por
exemplo, ninguém mais admite um casamento que não seja baseado no amor ou que
esteja fundamentado em interesses sociais, comerciais, assim como ocorria no
casamento patriarcal. Ou ainda, que se case sem uma afinidade sexual, sem o
direito ao prazer, com vista apenas à procriação.
O desejo de individualidade é segundo diversos autores, considerado o mais
evidente nos dias atuais. Os sujeitos tendem dentro deste ideal de desejo a
ficar voltados somente para si, para o seu próprio desenvolvimento e
crescimento pessoal. Acreditam que se há alguém que deve mudar, este alguém
é o outro e "se esta característica humana de se contemplar primeiro a si
próprio é uma realidade, certo é que a estrutura competitiva da sociedade em
que vivemos explora isto terrivelmente" (Dirani, 1986, p126). Vivencia-se
atualmente, na opinião de inúmeros autores, a época da supremacia do eu, onde
as pessoas "aprendem" que precisam zelar por sua individualidade, pela
sua identidade. Porém, é tamanho o medo de perder esta individualidade, o Eu,
que as acabam exagerando e dão início a uma verdadeira competição em todos
os tipos de relações. Segundo diversos autores, está relação competitiva
já pode ser observada no relacionamento conjugal. Em decorrência desta
"disputa" surge uma falta de cumplicidade e compromisso afetivo entre
os casais. De acordo com Dirani (1986), ambos "lutam" para
"ser" ao mesmo tempo, esperam que o outro contribua para a formação
de sua identidade e esquecem que, na realidade, estão juntos para auxiliar um
ao outro no encontro de seu eu, de seu crescimento. Esquecem que podem e devem
preservar a individualidade sem que isto comprometa a relação, o vínculo
afetivo. Não fazer (ou não saber fazer) isto pode levar muitas vezes há
inúmeros problemas, os quais serão vistos mais adiante.
Contrapondo-se a este desejo de individualidade, encontra-se o de
complementaridade. Inicia-se aqui um paradoxo. Se por um lado a sociedade
"exige" que o indivíduo não perca a sua identidade, de outro ele é
levado a buscar uma fusão com seu parceiro, de forma a "tornar-se um
só". Dentro da ótica da psicanálise, este estado de fusão é
inconscientemente desejado, é a tentativa de recuperação da "vivência
monádica primordial". Neste momento, de desejos ambivalentes, surgem na
opinião de Gomes (1992) inúmeras exigências contraditórias, difusas,
indefinidas, as quais os indivíduos por mais que se esforcem não conseguem
cumprir. Este fato possivelmente contribui para o conflito conjugal e uma
conseqüente separação.
Diante do exposto até o momento, pode-se afirmar sobre o casamento moderno:
"Menos delimitados por uma precisa e rígida definição de papéis, os
cônjuges parecem perder-se entre exigências de difícil ajustamento: por um
lado, a exigência de total complementação e conhecimento um do outro e, por
outro, exigências de liberdade de ser, de desenvolvimento pessoal, de
individualidade" (Porchat, 1992, p114).
Matarazzo (1992) faz uma analogia muito interessante para explicar a evolução
das expectativas dos indivíduos dentro deste contexto de
individualidade/complementaridade, que embora destituído de valor científico,
é bem interessante. Para ela, os tipos de relações estabelecidos pelos
indivíduos ao longo dos anos podem ser explicados através de equações
matemáticas. Conta-se assim com quatro equações, brevemente resumidas abaixo:
1/2+1/2=1
(as pessoas tinham a crença de que eram partes faltando e assim buscavam sua
outra metade)
1+1=1 (inicia-se o processo de individuação; os sujeitos desejam agora ser
inteiros, completos)
1+1=1+1 (a individuação atinge seu auge; em busca de uma independência
afasta-se afetivamente do outro)
1+1=3. (seria o indivíduo, o outro e a relação; é a "equação"
esperada: a preservação do eu sem destruir o vínculo afetivo)
Retomando, no
casamento contemporâneo um outro aspecto merece ser comentado: a questão da
legitimidade. A idéia de legitimação, proposta pelo "Aurélio",
embora ainda permaneça, não tem sido pré-requisito a fim de que as pessoas se
considerem casadas. Muitas são aquelas que dentro da idéia do casamento
moderno, têm aderido às relações informais, às chamadas uniões de fato,
pelo direito. "A esta união informal, se denomina, genericamente, de 'concubinato',
a significar vida em comum entre homem e mulher, com aparência de casamento, ou
formas assemelhadas de convivência, para fins de relacionamento sexual, com
suposta fidelidade das partes" (Lazzarini et al, 1995, p72). As
estatísticas revelam que hoje as uniões de fato praticamente se igualam aos
casos de uniões de "papel passado". Segundo dados do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, baseados em números do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE de 1996, 69% dos brasileiros de 25
a 35 anos têm um cônjuge, sendo 31% através de relações informais. Vários
podem ser os motivos que tenham contribuído para o aumento destas relações: a
emancipação da mulher, que de 7% (1976) passou para 21% (1997) em nosso país,
além da própria mudança de valores. Atualmente há até mesmo quem defenda a
idéia de que os famosos "papéis" chegam a atrapalhar a relação.
Pode-se verificar este fato na seguinte afirmação:
Para alguns
casais, viver junto favorece muito mais a construção de uma relação
dinâmica, com cuidados mútuos do que o casamento oficial, cuja imagem de
estabilidade e segurança traz o risco de acarretar a postura de descuido e de
estagnação, que termina por deteriorar o vínculo. É a noção de que o
eterno é o estagnado, uma vez conquistado não é preciso mais nada. Surgem
os pequenos descuidos, as desatenções, as coisas não faladas (Maldonado,
1986, p53).
No entanto,
apesar de muitos defenderem esse pensamento e do próprio Direito assegurar
essas relações informais, a verdade é que a idéia do casamento com
"papel passado" ainda é muito forte e presente em nossa sociedade.
Para muitos, a não oficialização de uma união traz um sentimento de culpa
muito grande. Na realidade, seja de modo formal ou informal, "casar-se
continua na moda" (revista Viver, abril/2000). Como bem diz (Dirani, 1986,
p96): "Se muitos preferem a relação mais descompromissada em termos de
instituição e papéis, a verdade é que a tendência a viver em pares
permanece. E continua em todos o desejo de uma convivência amorosa estável,
que traga satisfação através do afeto e do diálogo".
Idealização
do Casamento: O Amor Romântico
Dentro
desta perspectiva de "viver em pares" é que permanece a valorização
ao casamento, a união entre as pessoas. Mas o que leva as pessoas a se casarem?
Segundo Dirani (1986, p93): "Em geral, as pessoas se casam por ternura,
paixão, amor. Casam-se para ter companhia, alguém que as compreenda,
compartilhe as suas dificuldades, seus sentimentos, seus medos". Sheehy em
seu livro Passagens (1998, p143) cita outros fatores que levam o jovem ao
casamento, além do amor: "necessidade de segurança, necessidade de
preencher algum vazio em si mesmos, necessidade de sair de casa, necessidade de
prestígio ou de resolver problemas práticos". Há ainda as pessoas que se
casam simplesmente porque todas as outras se casam também. É o que Giusti
(1987) denomina de motivos superficiais ou conformismo.
Sejam quais forem os motivos que levam ao casamento, às relações conjugais em
si, se encontram eivados de expectativas, de sentimentos de dependência. É a
busca de uma relação utópica, impossível de concretizar-se. Na atualidade,
contribui para este estereótipo de casamento a própria mídia, através dos
meios de comunicação, especialmente a televisão. Quantas não são as novelas
e mesmo os filmes que passam a imagem de um "casamento perfeito"?
Músicas que trazem em suas letras o amor infinito? Sem contar que desde pequeno
se é estimulado a essa concepção idealizada. Quem não cresceu ouvindo
histórias de príncipes e princesas que ao final são felizes para sempre?
Assim é que se aprende a idealizar o casamento. Busca-se o parceiro ideal
influenciado pelos "ideais românticos". E pior, acredita-se que esse
parceiro ideal realmente existe. "Talvez um dos erros em que até hoje se
assenta o conceito de casamento seja o do amor romântico. Desenvolvido na Idade
Média, entre os séculos XII e XIII, este tipo de amor originou-se da
tradição cortesã praticada entre os nobres da França. Os trovadores e suas
damas se permitiam respirações ofegantes de emoção e sonhos frívolos, entre
suspiros e lenços perfumados" (Dirani, 1998, p.91). O amor romântico era,
assim, um amor idealizado, do qual o casamento não fazia parte. Johnson, em seu
livro We, através do mito de Tristão e Isolda, faz uma excelente análise
deste amor romântico surgido na sociedade ocidental da Idade Média. Através
da leitura percebe-se que o ideal do amor romântico foi transmitido ao longo
dos tempos, manifestando-se em diversas culturas. No entanto, a sociedade
ocidental moderna foi a única a fazer do romance a base do casamento e de
relacionamentos. "Lirismo, ciúme, exclusividade são algumas das
características deste sentimento, que deveria ter ficado perdido para sempre na
Idade Média. O que não aconteceu" (Dinari, 1986, p.91).
Deste amor romântico permaneceu o hábito de se "idealizar o outro e
também a relação", embora, o que exista hoje, segundo Camargo, professor
de teoria da comunicação na Universidade Anhembi Morumbi, seja apenas a
banalização desse ideal (2000, p25): "O amor é vendido até em bancas de
jornal. E proliferam os livros e revistas com as 'fórmulas' para conquistar o
amor ideal".
Só que hoje em dia, como bem afirma Campos (2000, p25) "não se morre mais
por amor". Contraditoriamente, a idéia de que "se não der certo
separa" parece estar sendo levada cada vez mais a sério. Assim é que
"hoje em dia, os casais continuam unindo-se movidos principalmente pela
paixão. Há aqueles que passam anos felizes lado a lado, realizam projetos de
vida juntos, têm filhos. Mas um dia se dá conta de que o amor acabou e
resolvem se separar. Amigavelmente ou não é outra história. Só que
permanecer juntos para resto da vida não é mais sinônimo de casamento que deu
certo" (revista Viver, abril/2000, p20).
A
Escolha Amorosa: Expectativas, Implicações e Conseqüências
Ao
contrário do que possa parecer, a escolha amorosa não é explicada de forma
tão simples. Usualmente as escolhas envolvem um processo de identificação, de
complementaridade entre os parceiros e principalmente um pacto conjugal nem
sempre explicito. Para Maldonado: "Escolhemos o parceiro que podemos: nem
sempre é quem a gente quer ou gostaria de poder querer. São muitos os fatores
- conscientes e inconscientes - que determinam a escolha do parceiro, a decisão
de casar-se e a manutenção do casamento: amor, complementação, carências e
necessidades neuróticas". (1986, p22). Na opinião de Dirani (1986, p90),
no entanto, a realidade é que "nenhum casal se escolhe à toa: no parceiro
ficam depositadas expectativas, necessidades, partes nossas que não conseguimos
manejar dentro da gente"
Dentro de uma visão psicanalítica, as escolhas amorosas e a relação conjugal
que irão ser estabelecidas a partir do encontro amoroso guardam estreita
relação com o processo simbiótico, vivido entre mãe e filho (um "tempo
de harmonia, de integração total, de segurança inviolável, amor
incondicional (...)", de identificação primeira com a mãe) e com a
elaboração dos édipos dos parceiros. Viorst resume muito bem esta questão
quando fala:
Nossas
primeiras lições de amor e a história do nosso desenvolvimento moldam as
expectativas que temos no casamento. Geralmente, estamos conscientes de
esperanças não realizadas. Mas, levamos também os desejos inconscientes e
os sentimentos mal-resolvidos da infância, e, orientados pelo nosso passado,
fazemos exigências no nosso casamento sem perceber que as estamos fazendo.
Pois, no amor do casamento, procuramos recuperar os amores dos nossos
primeiros desejos, encontrar no presente figuras amadas do passado: o pai ou a
mãe inacessível da paixão edipiana. A mãe do amor incondicional da
infância. E a união simbiótica em que dois se confundem, como antes. Nos
braços do nosso verdadeiro amor, procuramos unir os anseios e objetivos do
desejo do passado. E às vezes, odiamos nosso companheiro ou companheira por
não satisfazer esses desejos antigos e impossíveis (1998, p198).
Freud
classificou dois tipos de motivos que levam à escolha amorosa: a escolha
anaclítica e a escolha narcisista. Na primeira, a busca do parceiro
estaria ligada a representação que o indivíduo faz dos seus pais. Ou seja,
reproduz-se com o parceiro a mesma relação que se tinha com o parente do sexo
oposto, o pai ou a mãe. De certa forma, neste tipo de escolha, a pessoa busca
encontrar um companheiro(a) que contenha características ou mesmo que
desempenhe funções antes ministradas por seus pais, é a idéia de encontrar
alguém que continue "cuidando" dela.
O segundo tipo de escolha amorosa proposta por Freud baseia-se na imagem que o
sujeito faz de si. A escolha, portanto, é feita a partir do que a pessoa é,
foi ou gostaria de ser. É o que se denomina projeção. O sujeito deposita-se
no outro, características próprias ou que gostaria que existissem. Dentro
deste contexto: "Freqüentemente casa-se não com o outro, mas com o
próprio desejo (...), passam-se anos de luta num casamento, cada um
esforçando-se para modelar o outro na maneira que lhe convém. Vemos, então,
uma relação entre personagens. Ao invés de um relacionamento entre pessoas
inteiras, há uma ligação parcial e dicotamizada" (Maldonado, 1986, p26).
No dizer de Dirani (1986, p126): "Freud descobriu que cada um de nós,
ainda que não tenha consciência, repete interminavelmente a tragédia do mito
de Narciso", ou seja, a atenção volta-se para o próprio Eu. Ao que
Viorst completa (1998, p60): "Freud diz que o amor que sentimos por nós
mesmo, antes de tomar consciência de que outras pessoas existem, é um
narcisismo original - um narcisismo primário. Diz também que mais tarde,
quando desistimos de nosso amor pelos outros para amar a nós mesmos estamos
demonstrando um narcisismo secundário", causando grande risco às
relações. Embora o narcisismo nunca tenha sido visto como algo "bom e
saudável", já existem, segundo Viorst (1998), vários psicanalistas que
defendem o contrário. Acredita-se que o ideal seria uma certa quantidade de
narcisismo considerada como "desejável".
Ocorre aqui uma grande disputa entre o ego e o ego ideal.
Essa disputa entre os egos pode acarretar um grande problema já que com o tempo
corre-se o risco de não conseguir mais diferenciar o ego do objeto externo.
"As identificações em jogo são tão intensas que, por vezes, os sujeitos
tendem a se equivocar em relação a si próprios" (Féres Carneiro, Seixas
Magalhães).
Seja qual for o motivo que tenham contribuído para a escolha amorosa:
identificação, complementaridade, estes irão incidir durante toda a vida
conjugal. O ideal seria que todo e qualquer indivíduo mantivesse sua
individualidade e não visse o outro como um complemento essencial para a
formação de sua identidade. Aliás, a falta de separação-individuação é
que provoca, segundo Dirani (1986), o fim da maioria dos casamentos. Atingir uma
relação ideal não é uma tarefa fácil, mesmo porque, com raríssimas
exceções se está acostumado a idealizar o outro, a esperar que ele
corresponda a todas as expectativas criadas.
Porém, fazer exigências, esperar que alguém satisfaça os seus desejos, é o
grande erro das relações, sejam elas quais forem. Acreditar que o casamento
concretiza este ideal traz uma grande frustração. É comum e mesmo natural que
se fantasie, se idealize um amor perfeito, entretanto como bem afirma Matarazzo
(1996, p48): "Se você fizer isso, vai se ligar na magia em vez de examinar
a relação tal como ela é. Temos de aprender a não ficar nos debatendo na
armadilha das imagens, pois dessa forma corremos atrás de uma coisa e acabamos
encontrando outra".
De acordo com Viorst mesmo para as pessoas que se casam com uma visão realista
do que deve ser o casamento e da pessoa com quem está se casando, a condição
de casado pode não corresponder a algumas, e às vezes a todas as expectativas:
De
que sempre estarão ali um para o outro. De que sempre serão fiéis e leais.
Que aceitarão as imperfeições um do outro. Que jamais se ofenderão
gravemente. Que, embora esperando discordar em muitas coisas sem importância,
sem dúvida, concordarão nos assuntos importantes. Que serão honestos e de
coração aberto um para o outro. Que um sempre defenderá o outro. Que o
casamento será um santuário, bom refúgio, o "céu num mundo sem
coração" (1988, p196).
A
verdade, é que "os indivíduos se unem muitas vezes sem saber por que e
para quê. Ficam esperando que ocorra o milagre da transformação - o grande
amor" (Dirani, 1986, p113) e frustram-se, desesperam-se quando isto não
acontece.
Com o fim das idealizações dá se início aos problemas: começa-se a se
perceber a falta de pontos em comum, a comunicação vai se tornando ausente,
constata-se uma falta de afinidade sexual, enfim, dá-se início as diferenças
conjugais. E, sejam quais forem as diferenças elas tem sido responsáveis pelo
grande aumento do número de separações.
