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Adler, Alfred
Adler foi um dos primeiros soldados do "bravo exército", na expressão do próprio Freud, de integrantes da Sociedade Psicanalítica de Viena, mas também o primeiro a provocar sua divisão, por desejar conferir à psicanálise uma maior preocupação com temas sociais.
Alfred Adler nasceu em Penzing, na Áustria, em 7 de fevereiro de 1870. Formou-se em medicina na Universidade de Viena, dedicando-se à neuropsiquiatria. Em 1901 conheceu Freud e, impressionado com sua nova teoria e seus trabalhos à frente da Sociedade Psicanalítica de Viena, passou a integrar o grupo. Já em sua primeira obra, Studie über Minderwertigkeit von Organe und die seelische Kompensation (1970; Estudo sobre a inferioridade dos órgãos e sua compensação psíquica) afirmou sua concepção original: muitos comportamentos normais e patológicos seriam tentativas, com êxito ou inadequadas, de resolver as frustrações desencadeadas por inferioridades físicas, que impedem a pessoa de alcançar suas finalidades.
Em 1911, no Congresso de Weimar, Adler rompeu definitivamente com Freud e seus seguidores, fundando a Sociedade de Psicanálise Livre. Sobrevindo a primeira guerra mundial, entrou para o exército austríaco como médico e, terminada a guerra, voltou-se principalmente para os problemas da criança, organizando em Viena as primeiras clínicas dessa especialidade. A partir de Über den nervösen Character: Grundzüge einer vergleichenden Individualpsychologie und Psychotherapie (1912; O temperamento nervoso: estudo comparado da psicologia individual e da psicoterapia), definiu claramente sua própria teoria psicológica, que desenvolveu e completou em sua obra mais conhecida, Menschenkenntnis (1927; Conhecimento do caráter humano).
Na concepção de Adler, a questão da neurose deve ser tratada no âmbito estrito da "psicologia individual", isto é, das reações de cada pessoa, especialmente na infância, às circunstâncias familiares e sociais que ela tenta dominar. Como o conflito com as pressões externas, em grande parte dos casos, não permite à criança o domínio ou controle da situação, ela é tomada pelo "sentimento de inferioridade", que representaria o lado feminino da pessoa humana. Ao esforço em sentido contrário chamou de "protesto masculino" ou, em termos nietzschianos, a "vontade de poder", sendo seu principal resultado a "supercompensação". A incapacidade de chegar a esse ponto transformou o "sentimento de inferioridade" em "complexo de inferioridade", estado psíquico de desequilíbrio, neurose, tendendo a se expressar, cada vez mais, pela agressividade.
Deixando de lado o inconsciente, as funções da libido e outros componentes fundamentais da visão freudiana, Adler concebia a saúde emocional como um ajustamento da personalidade ao "interesse social". Morreu em Aberdeen, na Escócia, em 28 de maio de 1937.

Bettelheim, Bruno
Os estudos de Bettelheim sobre crianças com problemas mentais, sobretudo autistas, situam-no como um dos mais conhecidos psicólogos de nosso tempo.
Bruno Bettelheim nasceu em Viena a 28 de agosto de 1903. Discípulo de Freud, doutorou-se pela Universidade de Viena em 1938. Nesse mesmo ano foi internado pelos nazistas nos campos de concentração de Dachau e Buchenwald. Libertado em 1939, emigrou para os Estados Unidos.
Baseado em suas observações e experiências nos campos de concentração, publicou em 1943 um artigo de muita repercussão, "Individual and Mass Behaviour in Extreme Situations" ("Comportamento individual e coletivo em situações extremas"), em que examina a adaptação dos indivíduos aos rigores de um campo de concentração e os efeitos do terror nazista sobre a personalidade. A partir de 1944 começou a trabalhar com crianças vítimas de distúrbios emocionais graves, principalmente as autistas. Grande parte de suas obras deriva dessa experiência, inclusive os livros Love Is Not Enough (1950; Amor não basta) e Truants from Life (1954; Gazeteiros da vida).
Bettelheim pesquisou terapias capazes de aliviar os sofrimentos emocionais das crianças e ajudá-las a se integrarem socialmente. Um de seus livros mais conhecidos é The Uses of Enchantment (1976; A psicanálise dos contos de fada), em que demonstra a importância da fantasia para o desenvolvimento da criança. Children of the Dream (1967; Filhos do sonho) trata da educação de crianças nas comunidades agrícolas de Israel. Bettelheim suicidou-se em 13 de março de 1990, em Silver Spring, Maryland, deprimido pela morte da esposa em 1984 e depois de sofrer um derrame em 1987.

Binet, Alfred
Os trabalhos de Alfred Binet enriqueceram a psicologia experimental e a converteram em instrumento básico para o desenvolvimento da educação.
Alfred Binet nasceu em Nice, França, em 8 de julho de 1857. Estudou direito mas, atraído pelos trabalhos sobre a hipnose empreendidos por seu compatriota Jean-Martin Charcot, abandonou a carreira das leis e, a partir de 1878, dedicou-se inteiramente aos estudos médico-científicos no hospital da Salpêtrière, em Paris, onde permaneceu até 1891. Quatro anos depois foi nomeado diretor do laboratório de psicofisiologia da Sorbonne, cargo que ocupou pelo resto da vida. Em 1895 fundou a revista L'Année Psychologique.
As pesquisas do psicólogo inglês Sir Francis Galton no sentido de registrar as diferenças individuais mediante testes padronizados levaram Binet a adaptar esse sistema para o estudo da psicologia de artistas, matemáticos e jogadores de xadrez eminentes, apoiando-se em avaliações como a observação do tipo físico, a caligrafia e outras características. Em 1903 publicou L'Étude expérimentale de l'intelligence (Estudo experimental da inteligência), análise comparada das personalidades de suas duas filhas que abriu caminho para a psicologia diferencial.
Entre 1905 e 1911, em associação com Theodore Simon, desenvolveu escalas -- chamadas de Binet-Simon -- para medir a inteligência de crianças, nas quais introduziu o conceito de idade mental e que foram a base de todos os testes de inteligência posteriores. Binet morreu em Paris em 18 de outubro de 1911.

Birman, Joel
Psicanalista e escritor carioca, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor-adjunto do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Formou-se em Medicina pela UFRJ com especialização em Psiquiatria. Em 1976, tornou-se mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) e, em 1984, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Fez pós-doutorado na Universidade de Paris-II, entre 1994 e 1996. Atua na área interdisciplinar, entre a psicanálise e a filosofia. Seus livros abordam temas variados da vida contemporânea: A psiquiatria como discurso da moralidade (1978), Enfermidade e loucura (1980), A sexualidade na instituição asilar (1980), Os descaminhos da subjetividade (1986), Por uma estilística da existência (A psicanálise, a modernidade e a arte) (1996), Estilo e modernidade em psicanálise (1997).

Chomsky, Noam
Em oposição ao behaviorismo e ao estruturalismo, que haviam centrado seus estudos no sistema formal da língua, a gramática generativa e transformacional desenvolvida por Noam Chomsky introduziu novamente a pesquisa das relações entre pensamento e linguagem.
Nascido em 7 de dezembro de 1928 em Filadélfia, Estados Unidos, Avram Noam Chomsky seguiu os passos do pai, um erudito judeu dedicado à lingüística histórica. Em 1955 obteve o doutorado. Dois anos depois apareceu seu primeiro trabalho importante, Syntactic Structures (Estruturas sintáticas), que versava sobre os fundamentos matemáticos e lógicos das análises sintáticas dos estruturalistas. Nessa obra, o autor já assinalava que a lingüística não pode se limitar a descrever a estrutura formal de uma língua, e sim deve oferecer um modelo que permita determinar as estruturas lingüísticas "profundas", comuns a diferentes construções sintáticas, e também explicar seus processos de transformação.
As teses de Chomsky foram estabelecidas em Aspects of the Theory of Syntax (1965; Aspectos da teoria da sintaxe), em que se expunham os princípios básicos da gramática generativa. Partindo da idéia de que todo sujeito possui um conhecimento inato dos mecanismos profundos da linguagem, Chomsky afirmava que os enunciados lingüísticos assentam sobre certo número de modelos abstratos; a partir destes e mediante as regras de transformação, cada indivíduo falante poderia criar um número ilimitado de frases corretas. Existe na língua, portanto, uma "criatividade" que não pode ser explicada como mera aprendizagem - no sentido estrito da psicologia behaviorista - nem por uma análise estrutural descritiva.
Em obras posteriores, Chomsky acentuou a necessidade de que a lingüística servisse de base para desenvolver uma "gramática universal", subjacente a todas as línguas, que permitisse o estudo das bases do pensamento: Language and Mind (1968; Linguagem e pensamento). Tal postura, que situa o homem como centro de toda reflexão, também levou o autor a expressar de forma contundente suas opiniões políticas; assim, American Power and the New Mandarins (1969; O poder norte-americano e os novos mandarins) mostrava sua oposição à intervenção americana na guerra do Vietnam.
Em suas obras seguintes, Chomsky tendeu cada vez mais a enquadrar os estudos lingüísticos numa reflexão geral sobre questões éticas, filosóficas e sociais. Exemplos dessa fase são títulos tão como The Political Economy of Human Rights (1979; Economia política dos direitos humanos) e Language and Responsibility (Linguagem e responsabilidade).

Claparède, Édouard
As pesquisas experimentais de Claparède no campo da psicologia infantil tiveram grande influência na criação da pedagogia moderna, que incentiva a atitude participante do educando.
Édouard Claparède nasceu em Genebra, Suíça, em 24 de março de 1873. Estudou na cidade natal, em Paris e em Leipzig. Formado em medicina, ocupou a cátedra de psicologia na Universidade de Genebra, onde sucedeu a Theodore Flournoy, seu mestre. Tido como um dos principais representantes europeus da escola funcionalista de psicologia, formulou a lei do interesse momentâneo, segundo a qual o pensamento é uma função biológica a serviço do organismo humano. Dedicou-se também à pesquisa em psicologia comparada.
Sua concepção de "escola ativa", que estimula a independência intelectual da criança, fazendo-a atuar sobre o que aprende, opõe-se à educação tradicional e teve grande impacto sobre a psicologia mecanicista da época. Com os livros Psychologie de l'enfant et pédagogie expérimentale (1905; Psicologia da criança e pedagogia experimental) e L'École sur mesure (1921; A escola sob medida), entre outros, e os trabalhos em psicologia pedagógica desenvolvidos no Instituto Jean-Jacques Rousseau, que fundou em 1912, exerceu um papel renovador e pioneiro na educação moderna, que seria retomado por seu conterrâneo Jean Piaget. Édouard Claparède morreu em Genebra, em 29 de setembro de 1940.

Ebbinghaus, Hermann
Psicólogo alemão (1850-1909), pioneiro da psicologia experimental. Em sua obra, destaca-se a monografia Sobre a memória, pesquisas de psicologia experimental (1885) e Fundamentos de Psicologia (1902).

Erikson, Erik
Os estudos e ensaios do psicanalista Erik Erikson não só influíram sobre a prática terapêutica e propiciaram maior entendimento de problemas psicossociais, como foram determinantes na expansão do campo de interesse da psicanálise.
Erik Homburger Erikson nasceu em Frankfurt-sobre-o-Meno, Alemanha, em 15 de junho de 1902. Em 1927, depois de estudar arte e viajar pela Europa, passou a lecionar em Viena a convite de Anna Freud, filha de Sigmund Freud. Sob orientação dela, submeteu-se à psicanálise e tornou-se ele próprio psicanalista. Em 1933 emigrou para os Estados Unidos e naturalizou-se americano.
No início da carreira, o interesse de Erikson esteve voltado para o tratamento de crianças. Em 1936 transferiu-se para um centro de estudos de relações humanas e começou a estudar a influência de fatores culturais no desenvolvimento psicológico. Com base nessas pesquisas formulou a teoria segundo a qual as sociedades criam mecanismos institucionais que propiciam e enquadram o desenvolvimento da personalidade, embora as soluções específicas para problemas similares variem de cultura para cultura.
Na década de 1940, Erikson concebeu o modelo que expôs em Childhood and Society (1950; Infância e sociedade), de acordo com o qual o desenvolvimento psicológico do indivíduo, estendendo-se por toda a vida, comportaria oito estágios. A passagem a cada novo estágio dependeria da superação e internalização das crises pessoais. Erikson publicou livros sobre Martinho Lutero e Gandhi e escreveu ensaios em que relaciona psicanálise a história, política, filosofia e teologia, como Life History and the Historical Moment (1975; A história da vida e o momento histórico). Criador da expressão "crise de identidade", Erik Erikson morreu em 12 de maio de 1994, em Harwich, estado de Massachusetts.

Fechner, Gustav Theodor
Físico por formação e filósofo por vocação, Gustav Theodor Fechner passou à história como um dos pioneiros da psicologia moderna, graças a seus estudos sobre a psicofisiologia das sensações.
Gustav Theodor Fechner nasceu em Gross Särchen, Alemanha, em 19 de abril de 1801. Em 1834 foi nomeado professor de física da Universidade de Leipzig. Inicialmente dedicado ao estudo da óptica e da eletricidade, após alguns anos ficou parcialmente cego em conseqüência da observação direta do Sol durante estudos sobre pós-imagens visuais (ou imagens persistentes).
Vivendo desde 1844 de uma modesta pensão concedida pela universidade, Fechner consagrou-se a estudos de filosofia e formulou uma teoria segundo a qual o dualismo entre corpo e alma, próprio do homem, se verifica em todas as esferas do universo. Fechner expôs seu pensamento em Zend-Avesta: oder über die Dinge des Himmels und des Jenseits (1851; Zend-Avesta: ou sobre as coisas do céu e do outro mundo).
A obra mais importante de Fechner, porém, foi Elemente der Psychophysik (1860; Elementos de psicofísica). Nesse livro, estudou a relação entre as sensações (psíquicas) e os estímulos (físicos) que as originam e formulou a lei que estabelece essa relação, batizada com seu nome. Embora depois se tenha verificado que a lei de Fechner tem valor relativo, a metodologia de Fechner e seu enfoque do tema fizeram de Elemente der Psychophysik um marco no progresso da moderna psicologia experimental. Fechner morreu em Leipzig, em 18 de novembro de 1887.

Ferenczi, Sándor
Um dos mais íntimos colaboradores de Freud, Ferenczi, tornou-se famoso pelas experiências em clínica psicanalítica que mais tarde constituíram as bases do psicodrama e da análise de grupo.
Sándor Ferenczi nasceu na cidade de Miskolc, Hungria, em 1873 e formou-se em medicina aos 21 anos pela Universidade de Viena. Quando conheceu Freud, em 1908, já se especializara em neurologia e neuropatologia e adquirira experiência com a hipnose. Logo passou a integrar a Sociedade de Psicanálise de Viena, que reunia os mais próximos colaboradores do criador da psicanálise, com quem estabeleceu uma grande amizade pessoal.
Muitas das experiências em clínica psicanalítica de Ferenczi foram publicadas no livro The Development of Psychoanalysis (1924; O desenvolvimento da psicanálise), escrito em colaboração com Otto Rank. Suas pesquisas acabaram por afastá-lo da ortodoxia psicanalítica e de Freud. Nos últimos anos de vida, modificou suas posições e adotou a tese de que o terapeuta deve ser livre para manifestar afeição pelo paciente e encorajá-lo a reviver experiências traumáticas da infância. Ferenczi morreu em Budapeste, em 1933.

Freire Costa, Jurandir
Psicanalista brasileiro, nasceu em 1944 em Camaragibe, Pernambuco e diplomou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor titular do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Jurandir Freire Costa foi eleito, em 1987, homem de idéias pelo Jornal do Brasil. É autor de diversos artigos e livros, entre os quais, Ordem médica e norma familiar (1983), A face e o verso, vencedor do Prêmio Jabuti (1996) e Sem Fraude, nem favor (1998).

Freud, Anna
Psicanalista austríaca (1895-1982), filha de Sigmund Freud, destacou-se por suas contribuições à psicanálise infantil e ao estudo de mecanismos de defesa. Uma de suas obras foi Tratamento psicanalítico de crianças (1971).

Freud, Sigmund
A cultura do século XX muito deve a Sigmund Freud, psiquiatra e neurologista austríaco, criador da psicanálise, cujos fundamentos teóricos e aplicação prática tornaram-se fonte inesgotável para a compreensão do psiquismo humano e influenciaram a arte, a literatura e outros campos do conhecimento.
Sigmund Freud nasceu em Freiberg, na Morávia (hoje Príbor, na República Tcheca), em 6 de maio de 1856. Quatro anos depois, sua família transferiu-se para Viena, onde ele passou a maior parte da vida. Em 1873, ingressou na Universidade de Viena para estudar medicina e sofreu restrições devido a sua condição de judeu. Trabalhou no laboratório de fisiologia com Ernst Wilhelm von Brücke entre 1876 e 1882 e concentrou-se em pesquisas sobre a histologia do sistema nervoso. A essa altura já revelava grande interesse pelo estudo das enfermidades mentais, bem como pelos métodos utilizados em seu tratamento.
Dedicou-se à clínica psiquiátrica a partir de 1882, embora relutasse em abandonar a pesquisa. Sentindo as limitações de Viena no tocante às possibilidades de aperfeiçoamento, planejou uma viagem a Paris a fim de assistir aos cursos proferidos por Jean-Martin Charcot. Para tanto, dispôs-se a obter o mestrado em neuropatologia, o que conseguiu em 1885. No mesmo ano ganhou bolsa para um período de especialização em Paris.
O encontro com Charcot foi fundamental no desenvolvimento da obra de Freud. Segundo seu próprio relato, foi Charcot quem lhe chamou a atenção para as relações existentes entre a histeria e a sexualidade, tese de que nunca abriu mão. Ainda em Paris, Freud concebeu o plano de um trabalho destinado a estabelecer uma distinção entre as paralisias orgânicas e as paralisias histéricas. A tese de Charcot, de que a histeria não era uma doença mental exclusiva da mulher, foi inteiramente absorvida por Freud, o que lhe valeu violentas críticas dos meios acadêmicos de Viena, tão logo a expôs por ocasião de seu regresso.
Durante o período compreendido entre 1882 e 1896 foi intensa a colaboração entre Freud e Josef Breuer, que criara o método catártico e descobrira a íntima relação existente entre os sintomas histéricos e certos traumas de infância. Freud teve a oportunidade de conhecer a experiência de Breuer num caso de histeria cujos sintomas enfraqueciam à medida que a paciente, hipnotizada, descrevia os fatos ocorridos na época em que contraíra a doença. Publicou, em colaboração com Breuer, dois trabalhos, dos quais o mais célebre é Studien über Hysterie (1895; Estudos sobre a histeria), que marca o início de suas investigações psicanalíticas.
Pouco depois, Freud rompeu com Breuer e substituiu a hipnose pelo processo da livre associação de idéias, o que lhe permitiu isolar e estudar os fenômenos de resistência (mecanismo de defesa que o paciente apresenta ao sentir que se revelam suas experiências recalcadas) e de transferência (o vínculo emocional entre o paciente e o analista). Desde então os dois fatores passaram a formar uma peça central na técnica da psicanálise.
Em 1897 passou a observar a natureza sexual dos traumas infantis causadores das neuroses e começou a delinear a teoria do chamado complexo de Édipo, segundo o qual seria parte da estrutura mental dos homens o amor físico pela mãe e o ímpeto de assassinar o pai. Na luta contra esse complexo tanto os homens podiam desembocar na neurose como na superação, em si mesmos, de idéias herdadas, e no impulso de refazer o mundo. Nesse mesmo ano, chamou a atenção sobre a importância dos sonhos na psicanálise.
A primeira obra psicanalítica propriamente dita de Freud foi Die Traumdeutung (1900; A interpretação dos sonhos), por ele considerado seu principal trabalho, ao qual se seguiram Zur Psychopathologie des Alltagslebens (1904; Psicopatologia da vida cotidiana) e Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie (1905; Três ensaios sobre a teoria da sexualidade), entre outras obras.
Depois de um período de isolamento, Freud fundou a Sociedade Psicanalítica de Viena em 1908, com o pequeno grupo que semanalmente com ele se reunia. Ocorreu, então, o contato com Eugen Bleuler e com Carl Gustav Jung. O interesse revelado por Bleuler, um dos mais notáveis psiquiatras da época, pela psicanálise representou uma espécie de reconhecimento do valor das técnicas e doutrinas freudianas. No mesmo ano, realizou-se o primeiro congresso de psicanálise em Salzburg, onde se decidiu a publicação de um anuário dirigido por Freud e Bleuler, cujo redator-chefe era Jung.
Em 1909 Freud pronunciou um ciclo de conferências nos Estados Unidos, a convite da Clark University, em Worcester, fato que representou a primeira aceitação oficial da psicanálise. Em 1910, por ocasião do segundo congresso internacional de psicanálise, realizado em Nuremberg, fundou-se a Associação Psicanalítica Internacional, que congregou os psicanalistas de todo o mundo. Ao anuário psicanalítico somou-se uma revista especializada, dirigida por Alfred Adler e W. Stekel, e a Imago, sob a responsabilidade de Otto Rank e H. Sachs, esta destinada a estudos não médicos e às aplicações culturais da psicanálise.
Entre 1911 e 1913 ocorreram várias defecções no seio da sociedade. Adler e Jung se afastaram e, com este último, toda a chamada escola de Zurique separou-se de Freud. O afastamento de Jung era previsto, especialmente após desentendimento com Karl Abraham acerca da natureza das psicoses, quando este adotou a perspectiva freudiana, frontalmente oposta à de Bleuler. Em 1911 realizou-se o Congresso de Weimar.
No trabalho de Freud estão intimamente ligados os aspectos clínico, teórico e técnico. Seu método de livre associação tornou-se essencial à técnica terapêutica e também importante instrumento de pesquisa psicológica. Dentre suas obras, destacam-se, além das já citadas: Totem und Tabu (1913; Totem e tabu), em que examina os problemas da antropologia social à luz da psicanálise; Das Unbehagen in der Kultur (1930; O mal-estar da civilização), em que expõe toda uma teoria sobre a evolução social da humanidade; e Der Mann Moses und die monotheistiche Religion (1939; Moisés e o monoteísmo), seu último livro, escrito aos 83 anos.
A ascensão do nazismo e as crescentes perseguições aos judeus atingiram Freud. Inicialmente, porém, ele rejeitou o convite para instalar-se no Reino Unido e preferiu continuar em Viena. Com o agravamento da pressão nazista, porém, e graças à ajuda financeira de Marie Bonaparte, Freud mudou-se para Londres, onde morreu, em 23 de setembro de 1939. Trabalhava a esse tempo, em colaboração com sua filha Anna, na redação de uma obra dedicada à análise da personalidade de Hitler.

Fromm, Erich
A obra de Fromm pôs em relevo o papel dos conflitos sociais na formação psíquica individual. Esse encaminhamento sociológico da psicanálise fez dele um dos mais populares pensadores da cultura de seu tempo.
Erich Fromm nasceu em 23 de março de 1900 na cidade alemã de Frankfurt. Estudou direito e sociologia em Frankfurt e Heidelberg. Para ampliar sua formação, mudou-se em 1922 para Munique e depois para Berlim, onde estudou no Instituto de Psicanálise. Nomeado membro da Sociedade Berlinense de Psicanálise, iniciou sua prática clínica.
Fromm entendia que a doutrina psicanalítica de Sigmund Freud se situava numa perspectiva essencialmente individualista e deixava de lado a influência da sociedade como elemento formador da personalidade. Depois de conquistar uma sólida reputação como psicanalista, ante a ascensão do nazismo na Alemanha mudou-se em 1933 para os Estados Unidos, país cuja nacionalidade adotou. Sua primeira obra importante, Escape from Freedom (1941; O medo da liberdade), é um estudo sobre as relações entre estrutura e indivíduo na sociedade ocidental e sobre a insegurança psicológica que leva à aceitação dos regimes totalitários.
Docente de diversas universidades americanas, Fromm foi nomeado em 1951 professor de psicanálise no México e em 1962 tornou-se diretor do departamento de psiquiatria da Universidade de Nova York. Em The Sane Society (1955; A sociedade sã) ele afirmava estar o homem moderno alienado pela orientação consumista da sociedade industrial. Outros de seus trabalhos, como The Art of Loving (1956; A arte de amar), atraíram grande número de leitores não especialistas. Produziu também textos em que analisava o pensamento marxista e a psicanálise, como The Crisis of Psychoanalysis (1970; A crise da psicanálise).
Fromm passou os últimos anos de vida na Suíça, dedicado ao estudo. Morreu na cidade de Muralto em 18 de março de 1980.

Gesell, Arnold Lucius
Psicólogo e pediatra americano (1880-1961), estabeleceu os modelos de conduta observados nas diferentes etapas do desenvolvimento infantil. Observou centenas de crianças e filmou seus comportamentos, o que lhe permitiu acumular grande quantidade de informação descritiva sobre a psicologia infantil. Em suas publicações inclui-se o Atlas de comportamento infantil (1934).

Grumbet, Helmut
Psicólogo e professor brasileiro, nascido em 1936, em Joinville, Santa Catarina. Formado em Filosofia (1965), pela Universidade do Estado da Guanabara, e em Psicologia (1970) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Psicologia Aplicada ao Trabalho (1975) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutor em Psicologia (1984) pela mesma fundação. Exerce o cargo de professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (graduação e pós-graduação, desde 1977); da UERJ (graduação e pós-graduação, desde 1971) e da Fundação Getúlio Vargas. A partir de 1993, tornou-se coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia da UERJ. Publicou vários artigos e o livro Introdução à Psicologia Social (1986).

Horney, Karen
Psiquiatra alemã (1885-1952), fundou uma escola de psicanálise neofreudiana a partir da hipótese de que as neuroses são o resultado de relações interpessoais e de conflitos emocionais que começam na infância. Entre suas obras destaca-se Neurose e Desenvolvimento humano (1950).

James, William
O filósofo e psicólogo americano William James foi o maior representante do movimento filosófico conhecido como pragmatismo, e da perspectiva funcionalista da psicologia, dominante nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX.
William James nasceu em Nova York a 11 de janeiro de 1842. Filho de uma família rica, tanto William quanto seu irmão, o escritor Henry James, receberam uma educação ampla e liberal em sua cidade natal e em diversos países europeus. Em 1865, participou da expedição Thayer à Amazônia brasileira, como assistente do naturalista Louis Agassiz. Estudou fisiologia na Universidade de Berlim (1867-1868) e, em 1869, obteve o grau de doutor em medicina pela Universidade de Harvard. Iniciou sua carreira de professor, em 1872, como instrutor de fisiologia do Harvard College, e começou a cristalizar seu interesse pela psicologia e pela filosofia. Em 1889 passou a professor de psicologia -- não a psicologia tradicional, mas no sentido fisiológico.
Em 1890 publicou seu trabalho The Principles of Psychology (Princípios de psicologia), reconhecido como totalmente inovador, no qual compara a ciência da mente às disciplinas biológicas e considera a consciência como um estado de adaptação da espécie. A tese fundamental de James, de que existe uma relação causal entre os fenômenos psíquicos e as sensações nervosas foi vulgarizada por meio da fórmula de que são as perturbações viscerais que originam os estados emocionais e não o inverso, como se sustentava tradicionalmente. Sua teoria das emoções expressa-se na frase: "Alguém está triste porque chora, e não chora porque está triste".

Janet, Pierre
Psicólogo e psiquiatra francês (1859-1947), estudou com Jean Martin Charcot e se dedicou a estudar o tratamento científico da neurose e da histeria. Destaca-se sua obra Neurosis (1898).

Jaspers, Karl
A preocupação do homem com sua própria existência foi o principal tema tratado pelo filósofo Karl Jaspers, um dos mais importantes existencialistas alemães. Rejeitou a violência do nazismo na Alemanha e defendeu, na fase final de sua obra, uma nova unidade de pensamento que denominou "filosofia universal".
Karl Theodor Jaspers nasceu em 23 de fevereiro de 1883 em Oldenburg, Alemanha. Estudou direito e medicina em Heidelberg onde, em 1909, estabeleceu-se como médico. Na clínica psiquiátrica da universidade local firmou sua reputação ao aplicar à prática clínica os métodos da fenomenologia: investigação e descrição dos fenômenos tal como a consciência os percebe, excluindo toda teorização sobre sua causa. Sobre essa experiência, publicou Allgemeine Psychopathologie (1913; Psicopatologia geral).
Psychologie der Weltanschauungen (1919; Psicologia das concepções do mundo), inpirada em suas palestras, não é uma obra intencionalmente filosófica, mas já prenunciava os temas fundamentais da filosofia que Jaspers sistematizaria a partir de então. Entre 1920 e 1930, o filósofo dedicou-se a elaborar as idéias que, junto com as de seu compatriota Martin Heidegger, formariam a base do existencialismo alemão.
Os frutos dessa fase apareceram nos livros que publicou no início da década de 1930. Philosophie (1932) é possivelmente a mais sistemática apresentação da filosofia existencialista em língua alemã. Para Jaspers, o homem só toma consciência de si mesmo quando posto em "situações limites", como a luta, a culpa, o sofrimento e a morte. Só encontra a si mesmo por meio do outro e só se torna livre na medida em que o outro se liberta.
Jaspers afastou-se de Heidegger quando este se filiou ao partido nazista. Destituído em 1937 do cargo de professor de filosofia em Heidelberg, foi reintegrado em 1945. Recusou, em 1942, a autorização para deixar o país sem sua mulher, de origem judia. Em 1948 transferiu-se para a Universidade de Basiléia, na Suíça. Em Die grossen Philosophen (1957; Os grandes filósofos), discute até que ponto o pensamento passado pode ser inteligível. Quando morreu, em Basiléia, em 26 de fevereiro de 1969, tinha trinta livros publicados.

Jung, Carl Gustav
Um dos primeiros seguidores de Sigmund Freud, criador da psicanálise, Jung afastou-se do mestre em 1912 e fundou sua própria teoria, a psicologia analítica, para a qual é inaceitável a tese freudiana de que todos os fenômenos inconscientes se explicam por influências e experiências infantis ligadas à libido.
Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, Suíça, em 26 de julho de 1875. Filho de um pastor protestante, desistiu da carreira eclesiástica para estudar filosofia e medicina, nas universidades de Basiléia e Zurique. Interessado nos problemas de transtorno de conduta, seguiu os ensinamentos do neurologista e psicólogo francês Pierre Janet no hospital de la Salpêtrière de Paris. De novo em Zurique, trabalhou com o psiquiatra suíço Eugen Bleuler, que se tornaria célebre pelos estudos da esquizofrenia.
A partir de 1907, Jung entrou em contato com Sigmund Freud, com quem manteve estreita relação. Discípulo predileto do mestre, tornou-se o primeiro presidente da Sociedade Psicanalítica Internacional. A publicação, em 1912, de seu livro Wandlungen und Symbole der Libido (Transformações e símbolos da libido) significou o início de suas divergências com Freud, que culminariam com o afastamento de Jung do movimento psicanalítico. Naquela obra, Jung opunha-se ao caráter exclusivamente sexual da libido e considerava que esta constituía, antes, uma energia de caráter universal. Em Psychologische Typen (1920; Tipos psicológicos), observou que, conforme essa energia vital se dirigisse para o interior ou para o exterior, ensejaria o aparecimento de um dos dois tipos psicológicos fundamentais: a introversão ou a extroversão.
Outros conceitos centrais da psicologia analítica -- nome com o qual o próprio Jung designou seu método -- foram o de complexo (conjunto de representações psíquicas cuja influência se manifesta sem nenhum controle efetivo do eu) e o de inconsciente coletivo. Jung afirmou que as sociedades humanas participam de arquétipos comuns a todas elas, que se expressam por meio dos mitos, das religiões, da arte, dos sonhos e, também, da loucura e das enfermidades psíquicas. Em obras posteriores, com destaque para Psychologie und Religion (1939; Psicologia e religião) e Psychologie und Alchemie (1944; Psicologia e alquimia), esforçou-se por determinar a natureza daquelas constantes arquetípicas, numa aventura espiritual que foi considerada, em algumas ocasiões, próxima do misticismo.
Para a análise do inconsciente coletivo (e dos sonhos), Jung estudou sobretudo os símbolos das religiões orientais (Índia, China) e os da alquimia medieval, que considerava um fenômeno religioso. Jung deixou uma obra original e de ampla influência na cultura universal. Faleceu em Küssnacht, Suíça, em 6 de junho de 1961.

Klein, Melanie
As observações de Melanie Klein sobre o comportamento lúdico infantil tornaram possível a psicanálise de crianças de apenas dois ou três anos. Ela demonstrou que, ao brincar, a criança desvenda as fantasias de sua vida inconsciente.
Melanie Klein nasceu em Viena em 30 de março de 1882. Interessou-se pela medicina, projeto que abandonou aos 21 anos por um casamento infeliz, do qual teve três filhos. Em Budapeste foi aluna de Sándor Ferenczi, que a incentivou a dedicar-se à psicanálise de crianças. Em 1919 escreveu seu primeiro trabalho nessa área. Dois anos mais tarde foi trabalhar em Berlim e em 1926 mudou-se para Londres.
No livro The Psychoanalysis of Children (1932; A psicanálise da criança), Klein expõe seu método psicanalítico. Certa de que o brinquedo é um caminho simbólico para aliviar a ansiedade, dedicou-se a observar a conduta infantil durante as brincadeiras, com o objetivo de determinar os impulsos e as idéias próprias dos primeiros anos de vida. Para ela, a técnica do brinquedo é essencial, sobretudo na fase pré-verbal ou quando a comunicação verbal se torna difícil. Em Developments in Psychoanalysis (1952; Fases na psicanálise) considera que as primeiras experiências resultantes da amamentação do bebê e as relações maternais iniciam um tipo de relação objetal que é básica na explicação da conduta infantil. A capacidade crescente do ego para criar defesas que o habilitem gradualmente a resolver as ansiedades e a reparar as relações objetais é parte essencial do processo de desenvolvimento.
Melanie Klein morreu em Londres, em 22 de setembro de 1960. Seu livro Narrative of a Child Analysis (Narrativa da análise de uma criança), baseado em notas tomadas em 1941, foi publicado em 1961.

Köhler, Wolfgang
Psicólogo alemão (1887-1967), fundador da psicologia de Gestalt. São famosas suas experiências com macacos sobre percepção e aprendizagem. Entre suas obras destaca-se Psicologia da forma (1929).

Kraepelin, Emil
O rigor metodológico aplicado pelo psiquiatra Emil Kraepelin em seu sistema de classificação das doenças mentais contribuiu de maneira notável para os trabalhos posteriores sobre o tema.
Emil Kraepelin nasceu em 15 de fevereiro de 1856 em Neustrelitz, Alemanha. Doutorou-se em medicina pela Universidade de Würzburg em 1878 e continuou os estudos com renomados neuroanatomistas e com Wilhelm Wundt, fundador da moderna psicologia experimental. Kraepelin utilizou as técnicas de Wundt para estudar os efeitos das drogas, do álcool e da fadiga no comportamento psíquico.
Em 1883 publicou Compendium der Psychiatrie (Compêndio de psiquiatria), no qual apresentou pela primeira vez sua classificação das desordens mentais, divididas em exógenas -- decorrentes de condições externas e curáveis -- e endógenas, de origem biológica, incuráveis. Embora os conceitos pesquisados por Kraepelin não tenham sido criados por ele, foi o primeiro a sistematizá-los em esquemas adequados ao tratamento das doenças mentais.
Nomeado professor da Universidade de Heidelberg em 1891, continuou aperfeiçoando sua classificação com diversas revisões do Compêndio. Em 1903 tornou-se professor da clínica psiquiátrica da Universidade de Munique e mais tarde dirigiu o Instituto de Pesquisas Psiquiátricas daquela cidade. Emil Kraepelin morreu em Munique, em 7 de outubro de 1926.

Kristeva, Julia
Psicanalista franco-búlgara (1941), escritora, teórica e professora de lingüística na Universidade de Paris VII.
Nasceu em Sófia, mas mora na França desde 1966, ano em que iniciou seus estudos de lingüística na École Pratique des Hautes Études. Logo passou a freqüentar o círculo de amigos de Roland Barthes. Publicou seus primeiros artigos sobre linguagem poética, semiótica e psicanálise nas revistas Critique e Tel Quel. Em 1969, publicou Semiótica, uma coletânea de artigos aos quais se seguiram O texto do romance (1970) e A revolução da linguagem poética (1974), onde analisa a noção de subjetividade na linguagem e na História. Uma viagem que fez à China lhe serviu de inspiração para Sobre as chinesas (1974), um texto sobre o papel das mulheres na Revolução Cultural.
Kristeva começou a praticar a psicanálise em 1979. Também a partir deste ano, iniciou experiências com diversas formas e assuntos literários. Em Histórias de amor (1983) e Sol negro: depressão e melancolia (1987) analisa as representações do amor e da melancolia na cultura ocidental. Entre suas obras mais recentes destacam-se o estudo A idade sensível: Proust e a experiência literária (1993) e As novas doenças da alma (1993), uma coletânea de ensaios, em parte, autobiográficos.
Os samurais (1990), o primeiro de seus dois romances, baseia-se em Os mandarins (1954), de Simone de Beauvoir, e enfoca a intelligentsia parisiense. Este livro é um roman-à-clef (um romance onde as personagens reais se disfarçam de fictícios), ambientado, nas palavras da autora, no "pequeno triângulo entre a École d’Études Supérieures, o Institut d’Analyse Culturelle e Saint-Germain-des-Prés". A búlgara Olga, protagonista do romance, se assemelha a um trator, de acordo com Armand Bréthal, personagem que representa Roland Barthes. O velho e os lobos, seu outro romance, foi publicado em 1991.

Lacan, Jacques
A influência de Lacan, tido como intérprete original da obra de Freud, estendeu-se além do campo da psicanálise e fez dele uma das figuras dominantes na vida cultural francesa na década de 1970.
Jacques Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, de família burguesa e católica. Formou-se em medicina, especializando-se em psiquiatria, e foi interno de Gaétean de Clérambaut, a quem considerava seu único mestre no campo psiquiátrico. Com a tese de doutorado La Psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité (1932; A psicose paranóica em suas relações com a personalidade), mostrou impressionante erudição e simpatia pela psicanálise, numa época em que preconceitos obstavam sua disseminação na França.
Lacan buscou a companhia dos artistas do surrealismo, atraídos pelo caráter revolucionário das teses freudianas. Acompanhou o famoso seminário de Alexandre Kojève sobre Hegel e se ligou a intelectuais de ponta do pensamento francês, entre eles Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty e Georges Bataille. Em 1934, entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris. Em 1936, apresentou num congresso seu trabalho sobre o "estágio do espelho". A partir daí, sua história se confunde com a da própria psicanálise.
Conhecedor profundo da obra de Freud, Lacan empreendeu ao mesmo tempo um retorno e uma revolução em direção a uma psicanálise que para ele havia perdido o sentido original. O retorno visou resgatar os fundamentos psicanalíticos, que para Lacan se encontram no próprio conceito de inconsciente. Para empreender sua grande crítica às vertentes americana e francesa da psicanálise, cujo tema central é a discussão sobre o imaginário, pesquisou a linguagem e deduziu que é ela a condição de existência do inconsciente, que só existe no sujeito falante.
Numa retomada crítica dos conceitos saussurianos de "significante" e "significado", Lacan afirmou a autonomia do significante e o inseriu na origem simbólica, constituída pela linguagem. Afirmou que o significante preexiste ao sujeito e sobrevive a ele, faz do sujeito homem ou mulher, traça seu destino e o priva de qualquer relação natural com o mundo.
Lacan não é um autor simples nem fácil. Seus conceitos demandam, além de uma carga exaustiva de leitura, uma inversão do pensamento racional e linear a que está habituada a cultura ocidental. Em seus Écrits (1966; Escritos) e vinte seminários abordou temas tão complexos quanto polêmicos, como a ética da psicanálise, a transferência, o princípio do prazer e conceitos fundamentais da psicanálise, entre outros.
Em 1980, dissolveu a Escola Freudiana de Paris, que fundara em 1964, e criou a Escola da Causa Freudiana. Lacan faleceu em Paris, em 9 de setembro de 1981.

Laing, Ronald David
Os métodos inovadores de R. D. Laing, no tratamento da esquizofrenia, motivaram o surgimento do movimento conhecido como antipsiquiatria, que rejeita os conceitos tradicionais de doença mental, normalidade e cura.
Ronald David Laing nasceu em 7 de outubro de 1927 em Glasgow, Escócia. Estudou medicina e psiquiatria na Universidade de Glasgow, doutorando-se em 1951. Dois anos depois tornou-se professor daquela universidade, e a partir de 1956 começou suas pesquisas na Clínica Tavistock. Suas inovações conceituais desenvolveram-se a partir do estudo das causas da esquizofrenia. Em The Divided Self (1960; O eu dividido), Laing defendeu a teoria de que a insegurança sobre a própria existência gera uma reação defensiva na qual o "eu" se manifesta em dois componentes separados, o que dá origem aos sintomas psicóticos característicos da esquizofrenia.
Em The Self and Others (1961; O eu e os outros), analisou a dinâmica interna da esquizofrenia. Com Aaron Esterson, publicou Sanity, Madness and the Family (1965; Saúde mental, loucura e família), estudos sobre pessoas com transtornos mentais, que ele acreditava originarem-se do relacionamento com outros membros da família. Nessas obras Laing desenvolveu o conceito de antipsiquiatria, segundo o qual "doença mental" não passa de um nome criado pela sociedade para marginalizar aqueles que, ante a pressão social ou familiar, expressam-se de formas diferentes.
Tais teses foram detalhadas em The Politics of the Family (1971; A política da família), na qual tentou explicar certos sintomas da esquizofrenia como resultado da tentativa, por parte do indivíduo, de preservar sua identidade e integridade, o que contradizia a idéia de que esses transtornos seriam de origem biológica ou química. Laing morreu em Saint Tropez, França, em 23 de agosto de 1989.

Lewin, Kurt
Na teoria do campo psicológico, formulada por Kurt Lewin, as variações individuais do comportamento humano com relação à norma são condicionadas pela tensão entre as percepções que o indivíduo tem de si mesmo e do ambiente psicológico em que se insere, a que deu o nome de espaço vital.
Kurt Lewin nasceu em 9 de setembro de 1890 em Mogilno, então na Alemanha. Estudou em Freiburg, Munique e Berlim, onde se doutorou em 1914. Serviu no Exército alemão durante a guerra e trabalhou no Instituto Psicanalítico de Berlim. Em 1933 foi, como professor visitante para os Estados Unidos e, com a ascensão do nazismo, não mais retornou à Alemanha. Trabalhou nas universidades de Stanford, Cornell e de Iowa e, em 1945, fundou o Centro de Pesquisa de Dinâmica de Grupo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que dirigiu até a morte.
Lewin dedicou-se às áreas até então pouco pesquisadas de motivação, personalidade e processos sociais, às quais aplicou os princípios da psicologia da Gestalt. Sua teoria do campo psicológico e do espaço vital abriu novos caminhos para o estudo dos grupos humanos. Autor de A Dynamic Theory of Personality (1935; Teoria dinâmica da personalidade) e Principles of Topological Psychology (1936; Princípios de psicologia topológica), Lewin morreu em Newtonville, Massachussetts, Estados Unidos, em 12 de fevereiro de 1947.

Luria, Aleksandr Romanovitch
Neurofisiologista e psicólogo soviético (1902-1977), pioneiro da psiconeurologia. Luria procurou explicações fisiológicas para problemas como o retardamento mental e distúrbios da linguagem. Entre suas publicações destaca-se O cérebro em ação (1974).

McDougall, William
Ao estruturalismo de Wilhelm Wundt e às teorias semifisiológicas do behaviorismo, o psicólogo inglês McDougall opôs o funcionalismo, que causou impacto no meio científico.
William McDougall nasceu a 22 de junho de 1871 em Chadderton, Lancashire. Formou-se em medicina na Universidade de Londres, e em 1899 integrou a expedição de um grupo de antropólogos e biólogos de Cambridge ao estreito de Torres, entre a Austrália e a Nova Guiné, onde aplicou testes psicológicos nos nativos. Sua obra An Introduction to Social Psychology (1908; Introdução à psicologia social) contribuiu em muito para ativar o interesse pelos fundamentos do comportamento social. Em Physiological Psychology (1905; Psicologia fisiológica) e Psychology, the Study of Behaviour (1912; Psicologia, o estudo do comportamento), prestigiou o enfoque biológico.
Publicou Body and Mind -- A History and Defense of Animism (1911; Corpo e mente -- história e defesa do animismo), que teve forte reação. Lecionou, a partir de 1920, na Universidade de Harvard, Estados Unidos, e em 1927 transferiu-se para a Universidade Duke, em Durham. McDougall morreu em Durham, Carolina do Norte, em 28 de novembro de 1938.

Menninger, Família
Psiquiatras americanos que fundaram dois dos principais centros psiquiátricos do mundo. Charles Frederick (1862-1953) abriu, em 1925, a Clínica Menninger para tratar os pacientes com distúrbios mentais. Karl Augustus (1893-1990) criou a Fundação Menninger para a formação e a investigação psiquiátrica. William Claire (1899-1966) foi o administrador dessa Fundação.

Meyer, Adolf
Psiquiatra americano (1866-1950), um dos fundadores do movimento da higiene mental, capacidade para conseguir e manter a saúde mental. Lutou para que a psiquiatria fosse reconhecida como uma especialidade da medicina.

Mira y López, Emílio
Psicólogo e psiquiatra espanhol (1896-1964), ocupou a primeira cátedra de psiquiatria da Universidade Autônoma de Barcelona.
Nascido na ilha de Cuba, em pouco tempo mudou-se para a cidade de Barcelona. Lá estudou medicina e realizou uma grande obra antes de exilar-se com o fim da Guerra Civil. Emigrou primeiro para a Inglaterra e mais tarde para a América do Sul, estabelecendo-se no Brasil onde permaneceu até sua morte.
Foi a alma da psicotecnia catalã até a guerra e, por causa de seu exílio forçado, converteu-se na figura central do desenvolvimento da psicologia e psiquiatria sul-americanas. Merecem destaque seus trabalhos experimentais, os primeiros feitos na Espanha, seu legado técnico ao psicodiagnóstico miokinético (PMK) e a análise da psicologia de guerra.
O PMK é uma prova experimental que gozou de uma grande difusão e que estabelece uma forte conexão entre vida mental e corporalidade. Na fundamentação teórica deste teste aparecem claramente anotados os elementos para uma teoria dos dois cérebros, emocional e simbólico, no homem.
No Brasil, fundou o Instituto de Seleção e Orientação Profissional e a revista Arquivos brasileiros de psicotecnia, em 1945. Obras destacadas: Manual de psiquiatria (1935), Psicología experimental (1955) e Manual de orientación profesional (1957).

Pavlov, Ivan Petrovitch
O conceito de reflexo condicionado do fisiologista e médico russo Ivan Pavlov abriu novos caminhos à psicologia experimental, permitiu a elaboração de técnicas como o chamado "parto sem dor" e influenciou a corrente behaviorista da psicologia.
Ivan Petrovitch Pavlov nasceu em 26 de setembro (14 de setembro, pelo calendário juliano) de 1849, em Riazan. Filho de sacerdote ortodoxo russo, em 1870 abandonou a carreira eclesiástica para cursar química e fisiologia na Universidade de São Petersburgo. Graduou-se na Academia de Cirurgia e Medicina, depois transformada em Academia Militar de Medicina. Doutorou-se em 1883 e fez estágio na Alemanha, de 1884 a 1886, com os fisiologistas Karl Ludwig e Rudolf Heidenhain. Em 1890 foi nomeado professor de farmacologia e depois de fisiologia da Academia Militar de Medicina, onde permaneceu até 1924.
Pavlov destacou-se inicialmente por seus estudos sobre o sistema circulatório, mas logo seu interesse voltou-se para a fisiologia do aparelho digestivo. Desenvolveu técnicas cirúrgicas precisas, com as quais realizou experimentos com animais, especialmente cães, sem alterar-lhes as condições vitais normais. Os resultados de seu trabalho sobre as relações entre a atividade do sistema nervoso e a função digestiva, expostos numa conferência publicada em 1897, valeram-lhe o Prêmio Nobel de medicina e fisiologia em 1904.
A teoria do reflexo condicionado, apresentada no congresso mundial de medicina realizado em Madri em 1903, foi sugerida a Pavlov pelas experiências hoje clássicas sobre a secreção salivar nos cães, que pode ser desencadeada por um estímulo associado à função digestiva de modo indireto e artificial, como o som de campainha que acompanha a apresentação de alimento. Pavlov chamou esse reflexo de condicionado para distingui-lo do reflexo incondicional ou primário, e definiu-o como resultado de associações secundárias estabelecidas pelo sistema nervoso a partir da relação causa-efeito original, constitutiva do reflexo primário. Convencido de que os fenômenos vitais ditos psíquicos diferiam dos fenômenos físicos apenas por sua maior complexidade, Pavlov realizou, nos anos seguintes, pesquisas sobre os aspectos psicofísicos de fenômenos como histeria e hipnose.
Em 1921, o governo soviético criou especialmente para Pavlov um centro de pesquisas biológicas, que o cientista dirigiu até a morte, embora mantivesse posições anticomunistas públicas. Em obra fundamental sobre o reflexo condicionado, Dvadsatiletnii opit objektivnovo isutchenia vichei nervnoi deiatelnosti -- povedeniia -- jivotnikh (1923; Vinte anos de estudos objetivos da atividade nervosa superior --comportamento -- dos animais), revela mudanças em relação ao estrito mecanicismo e determinismo anteriores e admite a existência de uma função psíquica especificamente humana, baseada no desenvolvimento da linguagem como um "segundo sistema de sinais". O que diferencia a psicologia humana da psicologia animal é a intervenção da linguagem, do conceito, ou seja, da inteligência. Ainda assim, Pavlov manteve a convicção de que toda atividade mental, humana ou animal, é resultado de uma cadeia de associações realizadas pelo sistema nervoso a partir dos dados fornecidos pelos sentidos. Defendeu sempre o princípio da unidade entre o fisiológico e o psicológico, entre o objetivo e o subjetivo.
Pavlov morreu em São Petersburgo, então Leningrado, em 27 de fevereiro de 1936. Em comemoração ao centenário de seu nascimento, a Academia de Ciências da União Soviética publicou suas obras completas entre 1940 e 1949.

Piaget, Jean
As conclusões do psicólogo suíço Jean Piaget sobre a evolução da inteligência infantil provocaram uma revolução nos antigos conceitos relacionados à aprendizagem e à educação.
Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 9 de agosto de 1896. Aos dez anos de idade publicou artigo sobre a observação de um pardal albino e, aos 15, era conhecido dos zoólogos europeus por ensaios sobre moluscos. Em 1918, doutorou-se em ciências pela Universidade de Neuchâtel, onde também estudou filosofia. Logo depois, interessou-se por psicologia e epistemologia e foi para Zurique, onde estudou com Carl Gustav Jung e estagiou na clínica psiquiátrica de Eugen Bleuler.
A partir de 1919, estudou durante dois anos na Sorbonne e trabalhou na criação e aplicação de testes de leitura em crianças. Os erros que elas cometiam despertaram seu interesse pelo processo cognitivo infantil. Publicou suas primeiras observações sobre as características do pensamento infantil em 1921, ano em que voltou à Suíça como diretor do Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra. A preocupação de Piaget com a teoria do conhecimento transparece em trabalhos como Le Langage et la pensée chez l'enfant (1923; A linguagem e o pensamento na criança), seguido por Le Jugement et la raisonnement chez l'enfant (1924; O juízo e o raciocínio na criança). Lecionou filosofia na Universidade de Neuchâtel e tornou-se professor de psicologia infantil na Universidade de Genebra em 1929, onde permaneceu até sua morte.
Para Piaget, a criança continuamente cria e recria seu modelo de realidade. Ele procurou explicar a evolução da conduta cognitiva da infância à idade adulta. A evolução mental passa por quatro estágios, determinados por um modelo genético universal: o estágio sensório-motor vai do nascimento a cerca de dois anos de idade; o pré-operacional, até os seis ou sete anos; o operacional concreto, até os 12 anos e o das operações formais prolonga-se até a maturidade.
Em 1949 Piaget esteve no Rio de Janeiro e recebeu da Universidade do Brasil (posterior Universidade Federal do Rio de Janeiro) o título de doutor honoris causa. Com auxílio da Fundação Rockefeller, fundou em Genebra o Centro Internacional de Epistemologia Genética em 1955, dedicado a assuntos interdisciplinares. Entre 1957 e 1973, publicou Études d'Épistemologie Génétique. Jean Piaget morreu em Genebra, Suíça, em 17 de setembro de 1980.

Pinel, Philippe
A busca de um tratamento mais científico e menos supersticioso para a loucura fez do médico francês Pinel um dos precursores da psiquiatria moderna.
Philippe Pinel nasceu em Saint-André d'Alayrac, Tarn, em 20 de abril de 1745. Filho de médico, formou-se em Toulouse em 1773 e mudou-se para Paris em 1778. Sustentou-se por um período como tradutor de obras de medicina e professor de matemática. Seu interesse pelas doenças mentais surgiu depois da tragédia de um amigo que, enlouquecido, fugiu para uma floresta, onde morreu devorado por lobos.
A partir de 1793 chefiou os serviços médicos do manicômio de Bicêtre e assumiu as mesmas funções no hospital da Salpêtrière, para mulheres, em 1795. Data dessa época a revolução que empreendeu nos métodos de tratamento de doentes mentais. Sua primeira medida foi libertar pacientes que, em muitos casos, estavam acorrentados há vinte ou trinta anos. Proibiu a prática de tratamentos como a sangria, os vomitivos e purgantes e adotou um contato amistoso com os pacientes.
Pinel repudiou crendices até então vigentes, como a de que o louco é um ser possuído pelo demônio, e buscou explicações científicas para as doenças mentais. Para ele, a causa de tais enfermidades eram alterações patológicas no cérebro, decorrentes de fatores hereditários, lesões fisiológicas ou excesso de pressões sociais e psicológicas. Classificou as doenças mentais em Nosographie philosophique (1798; Nosografia filosófica), mas sua obra mais importante é o Traité médico-philosophique sur l'aliénation mentale (1801; Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental), onde expõe seus métodos. Philippe Pinel morreu em Paris em 25 de outubro de 1826.

Rank, Otto
Psicólogo e psicoterapeuta austríaco (1884-1939), um dos primeiros discípulos de Sigmund Freud. Seu primeiro trabalho, O mito do nascimento dos heróis (1909), se converteria num clássico da literatura psicanalítica.

Reich, Wilhelm
Iconoclasta e revolucionário, Reich foi o primeiro a entender a sexualidade como um direito e o primeiro a defender a educação sexual. Marxista e psicanalista, mas renegado igualmente pelos adeptos de Marx e de Freud, teve sua obra queimada ou proibida por comunistas, nazistas e americanos.
Wilhelm Reich nasceu em Dobrzcynica, região da Galícia (hoje na Polônia), em 24 de março de 1897. Cursou medicina na Universidade de Viena e, em 1920, tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica. Rompeu com Freud por considerar a psicanálise socialmente reacionária: enquanto que para Freud a civilização é necessariamente repressiva e a sublimação é indispensável para que a energia humana se volte para o trabalho, para Reich é indispensável reconhecer o direito humano a uma sexualidade saudável. Sem pôr em dúvida a origem sexual das neuroses, interessou-se pelas condições sociais dos pacientes. Acreditava que as emoções reprimidas manifestavam-se também como tensões musculares e que tal armadura mental e física podia ser desfeita por meio de manipulações diretas e por um processo de conscientização, o que expôs em Die Funktion des Orgasmus (1927; A função do orgasmo).
Em 1929, expôs conceitos verdadeiramente revolucionários numa conferência, que assumiu proporções de provocação quando afirmou que a educação e a moral do sistema capitalista eram responsáveis pelas neuroses. No ano seguinte, radicou-se em Berlim, onde o ambiente científico era mais aberto e, no mesmo ano, publicou Geschlechtsreife, Enthaltsamkeit, Ehemoral (Maturidade sexual, abstinência e moral conjugal), primeira versão do livro que seria editado em 1945 com o nome de The Sexual Revolution (A revolução sexual), uma de suas obras mais conhecidas. Contracepção, aborto e prazer eram temas de suas audaciosas palestras. A partir de 1934, dedicou-se à disciplina que ele chamou orgonomia, ou estudo dos "orgônios", que ele descreveu como unidades de energia cósmica dotadas da propriedade de estimular o sistema nervoso. Expulso do Partido Comunista e da Sociedade Psicanalítica, iniciou um longo périplo por várias cidades européias até que, finalmente, em 1939, radicou-se nos Estados Unidos.
Foi professor da New School for Social Research, em Nova York, e inaugurou em 1941 o Orgone Institute. Criou a "caixa de orgônio", cabine especial destinada a curar impotência, câncer e outros males, que obteve grande sucesso comercial e motivou contra ele uma acusação de fraude. Condenado à revelia, foi diagnosticado como paranóico e encarcerado na prisão de Lewisburg, onde morreu oito meses depois, em 3 de novembro de 1957.

Rodrigues, Aroldo
Psicólogo (1933), professor universitário e importante estudioso da psicologia social no Brasil. Carioca, seu nome completo é Aroldo Soares de Souza Rodrigues. Formado em Direito, jamais exerceu esta profissão. Grande parte de sua carreira esteve associada à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chegou a diretor do Departamento de Psicologia e lecionou ao voltar dos cursos de mestrado e doutorado concluídos nos Estados Unidos, na década de 1950. Na década de 1990, transferiu-se para a Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno. É autor de algumas importantes obras acadêmicas, entre elas, Psicologia social.

Rogers, Carl
Criador do método não-diretivo em psicologia, Rogers enfatizou os aspectos pessoais do relacionamento entre psicoterapeuta e cliente -- considerado formalmente "paciente" -- e propugnou que a este coubesse os rumos e a duração do tratamento.
Carl Ransom Rogers nasceu em Oak Park, Illinois, Estados Unidos, em 8 de janeiro de 1902. Aspirante a pastor protestante, estudou no Union Theological Seminary, na cidade de Nova York, mas trocou a religião pela psicologia e psiquiatria. Completou os estudos na Universidade de Colúmbia e se especializou em problemas infantis na Sociedade para a Prevenção da Crueldade contra Crianças, em Rochester, estado de Nova York, da qual foi diretor a partir de 1930.
De 1935 a 1940, deu aulas na Universidade de Rochester e escreveu, com base em sua experiência, The Clinical Treatment of the Problem Child (1939; O tratamento clínico da criança-problema). Como professor na Universidade de Ohio, desenvolveu o então polêmico método não-diretivo, que descreveu em Counseling and Psychotherapy (1942; Aconselhamento e psicoterapia). Criou, com outros, um centro de aconselhamento na Universidade de Chicago, na qual lecionou psicologia entre 1945 e 1957. Levou suas idéias à prática, com bons resultados, e combinou essas conclusões com novas abordagens teóricas, que expôs em Client-Centered Therapy (1951; Terapia centrada no cliente) e Psychotherapy and Personality Change (1954; Psicoterapia e alteração na personalidade). Lecionou na Universidade de Wisconsin entre 1957 e 1963, quando escreveu On Becoming a Person (1961; Tornar-se pessoa).
Em 1963, mudou-se para La Jolla, Califórnia, e passou a atuar no Centro de Estudos da Pessoa. Entre seus últimos livros publicados se incluem Carl Rogers on Personal Power (1977; Carl Rogers sobre o poder pessoal) e Freedom to Learn for the 80's (1983; Liberdade de aprender para a década de 1980). Carl Rogers morreu em La Jolla, Califórnia, em 4 de fevereiro de 1987.

Róheim, Géza
Pioneiro na aplicação da abordagem psicanalítica na antropologia cultural, Géza Róheim concebeu a cultura numa relação com a "maturação retardada" da condição biológica humana, a qual condena o homem à busca de sucedâneos para a satisfação encontrada na vida intra-uterina.
Géza Róheim nasceu em 1891, em Budapest, Hungria, então parte do império austro-húngaro. Enquanto estudava filosofia na Universidade de Berlim, tomou contato com as teorias de Sigmund Freud, e em 1915 estudou e praticou psicanálise com o húngaro Sándor Ferenczium, discípulo do mestre alemão. Nomeado professor de antropologia da Universidade de Budapest, mostrou conexões entre a doutrina freudiana e os conhecimentos antropológicos da época em tratados como "Nach dem Tode des Urvaters" (1923; "Pela morte dos pais primais").
Em 1928, estudou os povos aborígines na Austrália e realizou pesquisas nas ilhas d'Entrecasteaux da Nova Guiné. Publicou alguns desses resultados em Animism, Magic, and the Divine King (1930; Animismo, mágica e o rei divino). Em 1938 fixou-se nos Estados Unidos, onde, a partir de 1940, lecionou no Instituto Psicanalítico de Nova York e fez atendimento como psicanalista.
Em The Origin and Function of Culture (1943; A origem e função da cultura), sua obra fundamental, Róheim estuda mitos populares e folclore. Postula que a origem da cultura teria raízes nos laços sociais e emocionais resultantes da dependência dos filhos em relação à mãe, pois as formas da cultura seriam sublimações do desejo narcísico de contentar a libido. Entre os últimos trabalhos do autor se incluem Psychoanalysis and Anthropology (1950) e Magic and Schizophrenia (1955; Magia e esquizofrenia). Géza Róheim morreu em Nova York, a 7 de junho de 1953.

Silveira, Nise da
O uso da pintura, escultura e modelagem no tratamento psiquiátrico, como esclarecedor dos processos patológicos e agente terapêutico, permitiu a Nise da Silveira renovar o trabalho clínico e criar o Museu de Imagens do Inconsciente, extraordinário e original acervo de obras de arte produzidas por psicopatas.
Nise da Silveira nasceu em Maceió AL, em 15 de fevereiro de 1905. Formada em medicina na Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro RJ, onde ingressou, por concurso, no Serviço de Assistência a Psicopatas. Foi residente do Instituto de Neurologia Deolindo Couto, de onde transferiu-se para o Centro Psiquiátrico Pedro II.
Denunciada em 1936 como simpatizante do Partido Comunista, passou 16 meses na prisão. De volta ao Pedro II, rejeitou as agressivas terapias psiquiátricas que se aplicavam então e passou a dirigir o Serviço de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) da instituição. O trabalho do STOR se orientava pelas teses do psicanalista Carl Gustav Jung, de cuja obra Nise da Silveira passou a ser grande divulgadora.
Nos ateliês de pintura, escultura, modelagem e carpintaria, Nise da Silveira descobriu que no psiquismo do paciente sobrevivia um estímulo para a produção de imagens mesmo quando a personalidade se desagregava. Sua terapia humanizadora incorporou outro elemento inusitado: cachorros e gatos, levados ao hospital para conviver com os pacientes, os quais estabeleciam com os animais relações de companheirismo e demonstravam, assim, que sua afetividade não se encontrava anulada.
Dos trabalhos dos internos do STOR em pintura, desenho e escultura, nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente, fundado em 1952. Seu acervo, com mais de 250.000 peças, é periodicamente exposto no Brasil e no exterior. Em 1956, Nise da Silveira fundou a Casa das Palmeiras, clínica dedicada ao atendimento de ex-internos de instituições psiquiátricas que incentiva as atividades criativas. Entre suas obras estão uma biografia de Jung, o ensaio Imagem, ação, afeto e o livro Imagens do inconsciente (1981).

Skinner, Burrhus Frederic
Como behaviorista, Skinner acreditava que o comportamento é uma reação do indivíduo ao ambiente. Defendia o estudo experimental dessa resposta como o meio mais direto de conhecer a natureza humana.
Burrhus Frederic Skinner nasceu em Susquehanna, Estados Unidos, em 20 de março de 1904. Seu interesse pela psicologia foi despertado pelo trabalho do fisiologista russo Ivan Pavlov sobre o reflexo condicionado, por artigos de Bertrand Russell sobre o behaviorismo e pelas idéias de John B. Watson, fundador do behaviorismo. Em 1931 doutorou-se pela Universidade de Harvard e ali trabalhou como pesquisador durante cinco anos. Iniciou suas atividades docentes na Universidade de Minnesota em 1936, onde publicou seu primeiro livro: The Behavior of Organisms (1938; Comportamento dos organismos). No estudo da interação entre o indivíduo e o meio, Skinner descartou a existência de motivações psíquicas para o comportamento humano, que, para ele, era programado, na verdade, pelas condições impostas pelo ambiente.
Em 1945, como professor de psicologia da Universidade de Indiana, Skinner ficou amplamente conhecido depois que inventou uma espécie de berço, que consistia numa caixa esterilizada e à prova de som, cujo objetivo era oferecer o ambiente ideal à criança até os dois anos de idade. Em 1948, publicou uma de suas obras mais polêmicas, Walden Two (1948; Walden dois), romance sobre a vida numa comunidade utópica projetada segundo seus próprios princípios de engenharia social.
A partir de 1948, quando passou a lecionar na Universidade de Harvard, Skinner influenciou uma geração de psicólogos e inventou vários tipos de equipamentos experimentais, com os quais treinou animais de laboratório para executarem tarefas complexas e, por vezes, excepcionais. Entre os exemplos mais interessantes está o dos pombos que aprenderam a jogar tênis de mesa. Uma de suas invenções mais famosas, a caixa de Skinner, uma gaiola cuja manipulação correta pelo animal fornece uma série de recompensas, foi adotada pela pesquisa farmacêutica para observar o efeito das drogas sobre o comportamento de cobaias.
As experiências sobre treinamento animal levaram Skinner a formular os princípios da instrução programada, que, segundo acreditava, podia ser realizada com a ajuda das chamadas máquinas de ensinar. São de fundamental importância para esse método os conceitos de reforço e recompensa. O estudante, ao usar a máquina de acordo com seu próprio ritmo de aprendizado, é recompensado por responder corretamente às perguntas sobre o tema estudado, o que reforça o aprendizado.
Além do amplamente difundido Science and Human Behavior (1953; Ciência e comportamento humano), Skinner escreveu diversos outros livros, entre os quais Verbal Behavior (1957; Comportamento verbal), The Analysis of Behavior (1961; A análise do comportamento) e Technology of Teaching (1968; Tecnologia de ensino). No ensaio Beyond Freedom and Dignity (1971; Além da liberdade e da dignidade), argumenta que os conceitos de liberdade e dignidade podem levar à autodestruição e formula o conceito de "tecnologia do comportamento". Sua autobiografia em três volumes saiu entre 1976 e 1979, e seu último trabalho, Recent Issues in the Analysis of Behavior (Questões recentes na análise do comportamento), em 1989. Skinner morreu em Cambridge, Massachusetts, em 18 de agosto de 1990.

Terman, Lewis Madiso
Psicólogo americano (1877-1956), introduziu o termo Quociente de Inteligência (QI) e desenvolveu os testes de inteligência de Stanford-Binet. Entre suas obras destaca-se O estudo genético dos gênios (5 volumes, 1925-1959), análise de 1.500 crianças superdotadas.

Watson, John Broadus
Muito influente sobre a escola americana de psicologia, John Watson lançou as bases teóricas do behaviorismo, teoria psicológica que tem por objeto o estudo do comportamento.
John Broadus Watson nasceu em Greenville, Carolina do Sul, Estados Unidos em 9 de janeiro de 1878. Em 1903 doutorou-se em psicologia na Universidade de Chicago, onde já ensinava, e em 1908 tornou-se professor de psicologia da Universidade John Hopkins, de Baltimore. Em 1913 conquistou grande notoriedade com a publicação do artigo "Psychology as a Behaviorist Views It" ("Psicologia como o behaviorista a vê"), em que estabeleceu pela primeira vez de maneira radical os princípios fundamentais do behaviorismo: repúdio tanto à noção de consciência como ao método introspectivo, e explicação do comportamento humano, cujo estudo devia ser realizado em laboratório, unicamente em termos de estímulos, proporcionados pelo ambiente, e respostas, "de natureza inteiramente físico-química".
As teses de Watson, ampliadas com estudos comparados de psicologia animal e humana em Behavior: an Introduction to Comparative Psychology (1914; Comportamento: uma introdução à psicologia comparada) e Psychology from the Standpoint of a Behaviorist (1919; Psicologia do ponto de vista de um behaviorista), encontraram sua formulação mais acabada em Behaviorism (1925; Behaviorismo). Mesmo tendo abandonado o exercício da psicologia na década de 1920 para dedicar-se aos negócios, Watson manteve o prestígio nos meios acadêmicos e suas idéias foram adotadas por numerosos especialistas americanos. Morreu em Nova York, em 25 de setembro de 1958.

Wundt, Wilhelm
Conhecido como fundador da psicologia experimental, o fisiologista alemão Wilhelm Wundt estudou os conteúdos mentais tanto pela experimentação quanto pela auto-observação.
Wilhelm Wundt nasceu em Neckarau, localidade próxima a Mannheim, Baden, em 16 de agosto de 1832. Graduou-se em medicina pela Universidade de Heidelberg em 1856 e se tornou auxiliar do fisiologista Wilhelm von Helmholtz dois anos depois. Em 1862 deu o primeiro curso de psicologia científica, disciplina que até então era considerada um ramo da filosofia e, por isso, guiada pela análise racional. Escreveu nesse período o trabalho Beiträge zur Theorie der Sinneswahrnehmung (1858-1862; Contribuições para a teoria da percepção sensorial), no qual procurou definir para a psicologia um lugar como disciplina independente e capaz de estabelecer ligação entre as ciências naturais e as sociais. Em 1864, Wundt foi nomeado professor-assistente de fisiologia.
Preterido em 1871 na sucessão de Helmholtz, Wundt dedicou-se a demonstrar a especificidade da psicologia e escreveu a obra em dois volumes Grundzüge der Physiologischen Psychologie (1873-1874; Princípios de psicologia fisiológica). Estabeleceu um paralelismo psicofísico entre corpo e alma, formulou o conceito de apercepção -- tomada de consciência de uma percepção -- e investigou as experiências imediatas da consciência, tais como sensações, sentimentos, volições, e as idéias. Desse modo procurou integrar observações fisiológicas e experiências de laboratório com o exame dos sentimentos e atos da consciência pela introspecção.
A partir de 1875, Wundt dedicou-se ao ensino de filosofia na Universidade de Leipzig, onde, em 1879, criou o primeiro instituto de psicologia experimental dotado de laboratórios. Também fundou a influente revista Phylosophische Studien (1881; Estudos de psicologia). Entre os trabalhos posteriores do psicólogo destacam-se os dez volumes de Völkerpsychologie (1900-1920; Psicologia dos povos), que, pela análise da configuração dos valores espirituais nos diferentes grupos humanos, tencionava estabelecer as bases da psicologia étnica. Wilhelm Wundt morreu em Grossbothen, próximo a Leipzig, Alemanha, em 31 de agosto de 1920.

Extraído das Enciclopédias Barsa e Encarta

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