Funcionalismo
Baseadas no princípio biológico segundo o qual os órgãos
dos seres vivos devem ser considerados de acordo com as funções que exercem, a
sociologia e também a psicologia e a antropologia passaram a aplicar modelo
semelhante no estudo de seus objetos, o que configurou uma abordagem que, a
partir do século XIX, passou a denominar-se funcionalismo.
Teoria antropológica e etnológica, sustentada principalmente por Bronislaw
Malinowski e A. R. Radcliffe-Brown, o funcionalismo adota como postulado básico
o fato de que todo sistema social tem uma "unidade funcional", cujas
partes se acham interligadas em grau suficiente de harmonia ou consistência
interna. Cada atividade representa a satisfação de uma necessidade e, conseqüentemente,
cada elemento cultural tem sua função. O elemento cultural desempenha uma função,
como os demais, e portanto os fatos culturais, em qualquer nível, explicam-se
pela função que exercem.
O funcionalismo destaca as necessidades biológicas como as primeiras e mais
importantes para a existência do grupo. Essas necessidades são, em sua
maioria, universais, como abrigo, segurança, repouso, alimentação, reprodução
etc., e delas decorrem as outras. Em decorrência dessas necessidades básicas,
surgem as respostas culturais. Assim, por exemplo, a reprodução é uma
necessidade para a vida do grupo e tem sua resposta cultural na existência do
parentesco. A necessidade de bem-estar do indivíduo ou do grupo encontra seu
elemento cultural na habitação; as necessidades de saúde são atendidas pela
higiene; as de segurança, pela proteção; enfim, cada necessidade básica cria
um elemento de cultura (necessidade derivada) com o fim de exercer a função de
atendê-la.
Imperativos culturais. A idéia do funcionalismo desenvolveu-se das
necessidades básicas para as derivadas, que são chamadas "imperativos
culturais". Em suas primeiras obras, Malinowski restringiu a quatro esses
imperativos : (1) economia; (2) controle social; (3) educação; (4) organização
política.
A economia representa o conjunto cultural das funções exercidas para atender
às necessidades fundamentais da vida. Compreendem-se aí as funções de
produzir alimentos, conservá-los e distribuí-los. Abrange, portanto, todo o
conjunto dos elementos que dizem respeito, em primeiro lugar, à alimentação,
e em segundo lugar, à preservação e defesa dos alimentos.
O segundo imperativo, o do controle social, refere-se às relações entre os
indivíduos e os grupos, e dos diversos grupos uns com os outros. Situa-se aí
tudo quanto diz respeito à conduta na vida social, às prescrições e normas
que devem ser mantidas nas relações em sociedade.
O terceiro imperativo, o da educação, compreende as normas culturais necessárias
à manutenção e à permanência do grupo: educação intelectual, disciplina,
manutenção dos valores culturais, continuidade dos hábitos e usos comuns.
Finalmente, a organização política constitui o conjunto de elementos
culturais por meio dos quais funcionam as relações entre os diversos elementos
do grupo, a constituição das autoridades, dos poderes e da hierarquia. Todos
os elementos culturais representativos do comportamento político estão incluídos
nesse grupo.
Essa classificação foi bastante criticada porque não incluiu elementos
fundamentais na vida do grupo, como, por exemplo, as idéias religiosas e artísticas.
Já que tais idéias existem em todos os grupos humanos, elas teriam portanto de
exercer uma função representativa das necessidades espirituais e artísticas.
Em obra posterior, Malinowski acrescentou dois novos imperativos culturais: a
religião e a estética. Na religião, compreendem-se todas as manifestações
espirituais, as novas idéias de religiosidade, como necessidades básicas na
vida do grupo; e na estética encontra-se o conjunto de atividades relativas à
criação artística.
Apesar das restrições ao funcionalismo, pode-se observar que suas idéias
muito contribuíram para o desenvolvimento da etnologia. Além disso, o
funcionalismo consagrou um princípio hoje adotado por todas as escolas: o que
estabelece, no estudo de um povo ou de um grupo, que devem ser considerados
todos os aspectos, e não apenas elementos isolados. Outros modelos
funcionalistas foram propostos pelos sociólogos americanos Robert Merton,
Talcott Parsons e Norbert Wiener.
Estruturalismo
A abordagem estruturalista dos fenômenos se baseia em duas
relações principais de oposição: a primeira delas se dá entre o histórico
e o atemporal; a outra, entre o voluntário e o contingente.
Corrente de pensamento que se caracteriza pela oposição à compartimentação
do conhecimento em capítulos heterogêneos, o estruturalismo surgiu no começo
do século XX e foi incorporado ao método de diversas disciplinas humanísticas,
como a lingüística, crítica literária, antropologia, psicologia e teoria dos
sistemas. O antropólogo funcionalista Bronislaw Malinowski expressou com
clareza a abordagem estruturalista da antropologia: uma cultura se estuda tal
como é numa determinada época, e não segundo seu desenvolvimento ou sua evolução
histórica. O funcionalismo foi decerto uma reação contra o evolucionismo e
afirmava o primado da ação recíproca entre os diversos elementos e instituições
de dada sociedade, mas o estruturalismo veio enfatizar ainda mais a concepção
de sociedade como todo indivisível.
Como método científico, o estruturalismo estuda seu objeto, trate-se de
cultura, linguagem, psiquismo humano ou outro qualquer, como um sistema em que
os elementos constituintes mantêm entre si relações estruturais. Ao tomar
este ou aquele objeto, o estruturalismo se propõe transcender a organização
primária dos fatos, observável na pesquisa, para descrever a hierarquia e os
nexos existentes entre os elementos de cada nível, para depois chegar a um
modelo teórico do objeto. A abordagem estruturalista foi aplicada a várias
disciplinas. Destacaram-se Ferdinand de Saussure e Leonard Bloomfield na lingüística;
Claude Lévi-Strauss na antropologia; Jean Piaget na psicologia e Louis
Althusser na filosofia.
O termo "estrutura", do qual provém o conceito de estruturalismo,
designa um conjunto de elementos solidários entre si, ou cujas partes são funções
umas das outras. Cada um dos componentes se acha relacionado com os demais e com
a totalidade. Daí pode-se dizer que uma estrutura se compõe mais propriamente
de membros que de partes, é mais um todo que uma soma. Os membros desse todo se
acham entrelaçados de tal forma que não existe independência de uns em relação
aos outros, mas antes uma interpenetração. Exemplos de estruturas seriam,
pois, os organismos biológicos, as coletividades humanas, as formas do
psiquismo, as configurações de objetos em determinado contexto etc.
O estruturalismo foi entendido também como o corpo teórico que marcou o início
da decadência das ideologias nas ciências sociais, já que a abordagem
estrutural excluiria a praxis (a ação, a prática), que o marxismo, por
exemplo, estabelece como critério supremo de verdade. É a estrutura (do latim
struere, construir) que explica os processos. Em contraposição, Althusser
pretendeu conferir forma estrutural ao marxismo, afirmando que o pensamento é
uma "produção", espécie de "prática teórica" exercida não
apenas por sujeitos individuais, mas na qual intervêm fatores sociais e históricos.
Em toda estrutura se distinguem três características básicas: (1) sistema ou
totalidade; (2) leis de transformação que conservam ou enriquecem o sistema; e
(3) auto-regulação, pois as transformações se efetuam sem que na estrutura
intervenham elementos exteriores. Uma vez descoberta a estrutura, deve ser possível
sua "formalização". Cabe ressaltar que a formalização é uma criação
teórica e que a estrutura é anterior ao modelo teórico e independe dele.
Quanto ao caráter de totalidade que a estrutura reveste, todos os
estruturalistas concordam em que as leis que afetam os elementos de um sistema não
se reduzem a associações cumulativas, mas se formam por composição, isto é,
conferem ao todo propriedades de conjunto distintas dos atributos dos elementos.
As leis de composição das totalidades estruturadas são estruturantes por
natureza e é precisamente essa atividade estruturante que assegura a existência
de um sistema de transformações. Um sistema, mesmo do ponto de vista
exclusivamente sincrônico (plano temporal concreto, em oposição ao enfoque
diacrônico, ou estudo histórico), não é imutável, pois aceita ou rejeita
inovações em função das necessidades impostas pelas uniões e oposições
existentes no próprio sistema.
Entende-se a auto-regulação das estruturas como sua capacidade de ajustar-se a
fim de garantir a conservação. Nesse sentido a estrutura se fecha sobre si
mesma, embora possa integrar, como subestrutura, uma estrutura mais ampla. A
modificação das fronteiras gerais não dá lugar à abolição das fronteiras
já existentes, pois o que se produz é uma confederação e não uma anexação.
As leis da subestrutura não sofrem alteração, mas se conservam, de modo que a
mudança representa um enriquecimento.
Algumas obras fundamentais do estruturalismo são Cours de linguistique générale
(1916; Curso de lingüística geral), de Saussure; Language (1933; A linguagem),
de Leonard Bloomfield; A Textbook of Psychology (1910; Manual de psicologia), de
Edward Bradford Titchener; e as obras de Lévi-Strauss Les Structures élémentaires
de la parenté (1967; As estruturas elementares do parentesco), Race et histoire
(1952; Raça e história), La Pensée sauvage (1962; O pensamento selvagem) e
Anthropologie structurale (1973; Antropologia estrutural).
Behaviorismo
No fim do século XIX, os psicólogos começaram a desenvolver
novas concepções e novos métodos. A expressão máxima da nova tendência
impôs-se na década de 1920, quando se consolidaram diferentes formas de
entender a construção da teoria psicológica. A mais ampla e influente,
sobretudo no mundo anglo-saxão, foi o behaviorismo.
Behaviorismo radical. Coube ao americano John B. Watson dar o grande
impulso à psicologia behaviorista. Num artigo de 1913, "Psychology as the
Behaviorist Views It" ("A Psicologia como o behaviorista a vê"),
ele já apresentava as linhas fundamentais de seu pensamento. Mas foi em
Psychology from the Standpoint of a Behaviorist (1919; A psicologia do ponto de
vista de um behaviorista) que as teses de Watson encontraram sua mais nítida
formulação. Nessa obra, ele definiu a psicologia como uma "ciência do
comportamento" que devia omitir o estudo da consciência e da
introspecção e basear-se apenas nos dados fisiológicos observáveis.
O behaviorismo radical watsoniano fundamentou-se em grande parte na escola
reflexológica russa, particularmente na teoria do condicionamento de Ivan
Pavlov, que explicava a forma como os estímulos se encadeavam com as reações
para produzir o comportamento. Os dois conceitos fundamentais do behaviorismo
foram, na verdade, a conexão estímulo-reação (reação do organismo diante
de um determinado estímulo físico) e o reflexo condicionado. Este último
baseou-se na descoberta de que um reflexo não condicionado a um estímulo
natural - por exemplo a secreção de saliva diante de um alimento - podia ser
associado a um estímulo diferente. Assim, em suas experiências com cachorros,
Pavlov fazia uma campainha tocar antes de lhes dar comida. Ao cabo de certo
tempo, os animais salivavam ao simples soar da campainha. A partir desta base,
Watson considerou que todo comportamento humano podia ser explicado como uma
sucessão de condicionamentos. Não haveria necessidade de recorrer a conceitos
introspectivos como consciência, emoção ou sentimento.
O principal discípulo de Watson foi outro norte-americano, Karl Spencer Lashley,
que contribuiu de forma notável para desenvolver a teoria comportamental. Suas
experiências apoiavam-se diretamente na tese de Watson segundo a qual a conduta
é composta por reações simples, como os reflexos, sejam eles condicionados ou
não. Por meio dessas experiências, ele tentava correlacionar o grau de perda
de uma habilidade adquirida pelos ratos e a destruição de determinada zona
cortical. Essa correlação era estudada com métodos experimentais e
quantitativos. Lashley comprovou que as reações perduram após eliminar-se a
base fisiológica do reflexo.
Na década de 1930, o americano Edwin R. Guthrie desenvolveu as teses
comportamentais de forma radical e afirmou que o complexo comportamento do
homem, em última instância, pode ser explicado como resultado de um
desenvolvimento evolutivo que o levou a aprender determinados padrões de
reação muscular diante de estímulos recebidos em dadas circunstâncias.
Caberia aos psicólogos, portanto, estabelecer as regras mais gerais que
descrevessem as condições observáveis em que se produzissem comportamentos
concretos, selecionando também os estímulos e as reações observáveis. Para
Guthrie, um estímulo é "qualquer mudança de energia física que ativa um
receptor e cria impulsos condutores no sistema nervoso". Reação, por sua
vez, é o movimento de qualquer músculo ou grupo de músculos, ou a secreção
de qualquer glândula. Assim, não se descreveriam "ações", mas só
movimentos.
Burrhus Frederic Skinner, em suas obras The Behavior of Organisms (1938;
Comportamento dos organismos) e Science and Human Behavior (1953; Ciência e
comportamento humano), afirmou que o objeto da psicologia era o estudo do
comportamento que exerce algum efeito sobre o ambiente onde se acha e, em
especial, daquele que produz uma realimentação ou retroalimentação
(feedback) capaz de influir sobre o comportamento futuro. Em outras palavras, é
preciso estudar a aprendizagem e os mecanismos de adaptação.
Para Skinner, as leis empíricas da psicologia devem descrever da forma mais
exata possível as relações que ocorrem com regularidade entre as variáveis
dependentes -- controladas pelo cientista -- e as independentes. Devem também
mostrar como uma reação concreta é função de um dado tipo de estímulo.
Diante de um determinado estímulo, o psicólogo tem que ser capaz de prever a
resposta subseqüente do organismo.
Neobehaviorismo. Diante das teses radicais dos autores citados, outros
behavioristas consideraram que a teoria do reflexo não bastava para explicar o
comportamento humano. O primeiro deles foi o americano Edward C. Tolman, que, em
Purposive Behavior in Animals and Men (1932; Comportamento proposital nos
animais e nos homens), sustentou que o comportamento se volta para um objetivo
e, portanto, não é possível reduzi-lo a uma mera conexão entre estímulos e
reações.
Coerente com essa tese, Tolman introduziu o conceito das "variáveis
intervenientes". Tais variáveis seriam representações, não de algum
estado mental, mas de propriedades funcionais que supostamente se encontram no
organismo e atuam como mediadoras entre os estímulos e as respostas. Isto não
significou o abandono do behaviorismo, pois não se pretendeu definir essas
variáveis como conteúdos concretos de consciência, mas sim estudá-las em
termos operacionais para modificar o comportamento, o que só pode ser feito a
partir de dados objetivos. Outro americano, Clark L. Hull, autor de The
Principles of Behavior (1943; Princípios do behaviorismo) também se afastou do
behaviorismo radical e ortodoxo e, assim como Tolman, defendeu a ação das
variáveis intervenientes. Hull sustentou que o organismo mantém com o meio uma
relação dinâmica que a psicologia tem condições de estudar, descobrindo
leis do comportamento que, em última análise, remetem à física e à
fisiologia. Para Hull, a maior parte da atividade animal e humana volta-se para
a satisfação de necessidades básicas. Esses "impulsos" (drives)
constituem autênticas variáveis intervenientes, assim como o hábito, que é
uma disposição para reagir de um modo específico, fixado mediante uma
determinada configuração do sistema nervoso em dadas condições do ambiente
externo. Nem os impulsos nem os hábitos podem ser observados, mas é possível
inferi-los a partir da ciência física e fisiológica e da observação das
conexões estímulo-resposta.
Repercussões do behaviorismo. As teses behavioristas exerceram grande
impacto sobre a vida intelectual, especialmente nos países anglo-saxões. Como
atitude metodológica e ideológica, ultrapassaram os limites da psicologia e
projetaram-se na filosofia, na literatura (Skinner foi autor do romance utópico
Walden Two) e, de modo geral, em todos os campos de debate ideológico. Junto
com a psicanálise, representam a tendência psicológica mais difundida.
Todos os psicólogos empíricos, bem como especialistas de outras disciplinas,
acreditam, em comum com o behaviorismo, em um ponto básico: o único modo
científico de estudar o comportamento consiste no estudo objetivo de suas
alterações. Assim, negou-se toda teoria especulativa. No entanto, a maior
parte das escolas psicológicas abandonou a tentativa de reduzir os conteúdos
mentais a meros produtos da reação estímulo-resposta. Nesse sentido, cabe
afirmar que o behaviorismo radical foi de certo modo superado pela própria
audácia de suas afirmações. Por outro lado, porém, contribuiu de forma
decisiva para dar à psicologia o caráter de ciência autêntica,
fornecendo-lhe uma metodologia indispensável e um critério de objetividade.
Modificação do comportamento. O behaviorismo constitui um corpo teórico
específico da psicologia. As técnicas de modificação de comportamento,
derivadas sobretudo da psicologia da aprendizagem e centradas no condicionamento
reforçado, pressupõem a aplicação prática desse corpo teórico. Mediante os
métodos de modificação de comportamento, o terapeuta tenta reforçar as
manifestações comportamentais que deseja fixar e debilitar as não desejadas.
Tanto em tarefas de recuperação como de treinamento comportamental,
utilizam-se meios específicos, de modo a reforçar ou inibir certos
comportamentos. Como reforços positivos, aplicam-se estímulos agradáveis
imediatamente após a obtenção da reação desejada. Como reforços negativos,
eliminam-se estímulos desagradáveis tão logo se apresenta o comportamento
visado.
O progresso rumo ao comportamento desejado pode partir do exercício dos
comportamentos mais elementares (formação passiva do comportamento), ou
limitar-se a sua progressiva modelagem. Para tanto, empregam-se por vezes
técnicas de autocontrole que implicam por parte do paciente a clara noção de
todas as regras e contingências a cumprir para obter o reforço. Quando se
pretende suprimir um comportamento, tenta-se eliminar os reforços obtidos pela
pessoa com sua realização ou reforçar os comportamentos opostos. Em casos
extremos, recorre-se a técnicas de dessensibilização, relaxamento, exclusão,
isolamento etc.
Gestaltismo
Surgida como reação ao elementarismo associacionista do
século XIX, a teoria da Gestalt enfrentou-se à afirmação segundo a qual a
psicologia devia considerar analiticamente o fenômeno psicológico, decompô-lo
em suas partes, chegar ao elemento básico e, a partir deste, formular teorias
explicativas dos mecanismos psicológicos.
A psicologia da forma, ou Gestalt (termo alemão que significa configuração,
forma ou estrutura) se fundamenta na moderna teoria da percepção, segundo a
qual um dado é percebido como totalidade organizada e o todo tem
características que não podem ser inferidas das partes isoladamente.
História. Em 1890, o psicólogo austríaco Christian von Ehrenfels
provocou um sério abalo na teoria psicológica associacionista ao demonstrar
teoricamente que uma forma é mais que a simples soma das partes que a integram.
Exemplificou com uma melodia, que se compõe de sons, e com uma figura,
integrada por linhas e pontos. Em 1912, Max Wertheimer publicou os resultados de
um trabalho experimental sobre a percepção que foi considerado o marco inicial
da escola psicológica da Gestalt. Sua pesquisa consistiu em exibir objetos
estáticos em rápida seqüência, de modo a produzir no observador ilusão de
movimento, que ele chamou phi-fenômeno. O experimento demonstrou que a
percepção se dá em relação ao todo e não quanto às partes que o integram.
Assim, Wertheimer estabeleceu o estudo da percepção como ponto de partida do
gestaltismo, ou psicologia da forma, baseado na premissa segundo a qual uma
totalidade é determinada por leis que lhe são próprias.
Princípios fundamentais. As funções psicológicas, como memória,
percepção, inteligência e emoções foram estudadas pela Gestalt de acordo
com os seguintes princípios:
(1) princípio da pregnância, ou lei da boa forma, que expressa a tendência de
cada estrutura de organizar-se psicologicamente da melhor maneira possível,
segundo uma forma tão completa e perfeita quanto as condições o permitam;
(2) lei da boa continuidade, segundo a qual os elementos de um conjunto tendem a
acompanhar uns aos outros, de maneira a favorecer a continuidade de uma linha ou
de um movimento e a atingir a forma estruturalmente mais estável;
(3) lei da simetria, que estabelece que os agrupamentos simetricamente
organizados tendem a ser mais facilmente perceptíveis do que os agrupamentos
assimétricos;
(4) lei do fechamento, que expressa a tendência de formas imperfeitas ou
incompletas de virem a se fechar ou completar para alcançar maior grau de
regularidade ou estabilidade;
(5) lei do destino comum, que expressa a preferência pelo agrupamento de
elementos que se movem ou se transformam numa direção comum;
(6) princípio da proximidade, segundo o qual os estímulos de maior proximidade
espacial ou temporal tendem a ser agrupados;
(7) princípio da semelhança, que diz que em condições iguais, os estímulos
mais semelhantes entre si, seja pela cor, tamanho, forma ou outra
característica, mostram tendência a agrupar-se.
Novos rumos. Nas décadas de 1930 e 1940, os princípios da psicologia da
forma estenderam-se a novos domínios, como a motivação, a psicologia social,
a estética e a economia. Os principais nomes ligados a essa generalização das
idéias da Gestalt foram Kurt Lewin, Solomon Asch, Rudolph Arnheim e George
Katona. Esse novo rumo, no entanto, determinou o fim da Gestalt como escola
psicológica, pela fusão com outras idéias da época, sem que se negasse a
importância de sua existência e o valor científico de suas descobertas e a
influência na história da psicologia.
Psicanálise
A imagem de uma pessoa que, deitada num divã, conta seus
problemas pessoais a um psicanalista, representa uma situação na qual o
paciente tenta descobrir por si próprio a origem das angústias, fobias ou
inseguranças em sua história de vida e o analista desempenha o papel de
instância estimuladora e alvo de transferência.
Psicanálise é a ciência dos processos mentais inconscientes. Constitui ao
mesmo tempo um método para a investigação dos processos mentais, de outro
modo inacessíveis; uma terapêutica, a psicoterapia, para tratamento das
desordens neuróticas; e um arcabouço de concepções psicológicas estruturado
a partir das duas práticas anteriormente citadas para constituir uma disciplina
científica. A psicanálise pode ser entendida como uma técnica de
interpretação.
A doutrina psicanalítica foi criada no final do século XIX pelo médico
austríaco Sigmund Freud, cuja preocupação inicial foi a de descobrir como
minorar o sofrimento causado pelos distúrbios emocionais. Em lugar de aceitar
que se devia amortecer esse sofrimento mediante a prescrição de remédios,
procurou descobrir quais fenômenos estavam em sua gênese. Concluiu que o
desejo era o que estava encoberto, e constatou também que a manifestação
dessa verdade provocava efeitos positivos sobre os sintomas, principalmente
sobre o sofrimento, cuja causa é o desconhecimento do desejo. Ou seja, a
revelação do desejo reprimido eliminava o sofrimento.
Baseado nas investigações de Josef Breuer, bem como nas de Jean Martin Charcot
e Pierre-Marie-Félix Janet, sobre a aplicação de catarse hipnótica em
pacientes com traumas psíquicos e morbígenos, Freud supôs que o sintoma
histérico poderia ser o substitutivo de um ato mental omitido ou uma
reminiscência da ocasião em que o mesmo fora praticado. Apesar dos excelentes
resultados advindos da terapêutica pela catarse hipnótica, rejeitou a
inevitável relação de dominação estabelecida entre médico e paciente por
essa técnica e, após amplas investigações, substituiu a hipnose por um
método de livre associação de idéias, feita espontaneamente pelo paciente em
estado de vigília. Com isso, estavam lançadas as bases da psicanálise.
Estrutura do aparelho psíquico. A perspectiva de Freud centraliza-se na
idéia do conflito. Distingue três regiões na estrutura do psiquismo, que não
correspondem a zonas estritamente delimitadas: a consciente, a pré-consciente e
a inconsciente. A região do inconsciente incluiria todos os processos e
representações voluntariamente inacessíveis à evocação, embora permeáveis
à análise. O pré-consciente cobriria todas as representações acessíveis, a
qualquer momento, ao processo evocador. Por atuação da censura, as três
instâncias se polarizariam e viriam a compor dois sistemas antagônicos, o
sistema consciente-pré-consciente e o sistema inconsciente, este portador de
certo grau de incompatibilidade com as representações e processos integrantes
do sistema consciente-pré-consciente.
Inicialmente, Freud identificou o sistema consciente-pré-consciente com a
instância do ego e conceituou o conflito como se opusesse esse sistema
consciente-pré-consciente ao sistema inconsciente. Porém, em 1923, propôs
outro esquema representativo do conflito, no qual distinguiu entre as
instâncias do ego, do superego e do id. O id seria a zona dos impulsos
instintivos; o ego, ou seja, a porção mais superficial do id, estaria sujeito
a modificações por influência do meio exterior; e o superego, que domina o
ego e representa a inibição dos instintos. Assim, a camada mais externa do ego
agiria no plano consciente, enquanto as zonas profundas do id permaneceriam
mergulhadas na inconsciência.
Aspecto dinâmico das situações conflitivas. A noção de conflito
implica a existência de forças antagônicas. Essas forças logo se revelaram
representadas, de um lado, pelas pulsões sexuais; de outro, pelo impulso de
autoconservação do ego, vinculado às funções orgânicas (nutrição,
respiração etc.). Esse esquema permaneceu até 1915, quando Freud iniciou um
processo de revisão e acabou por adotar o conceito de narcisismo. Desde então,
a libido -- emanada das pulsões sexuais -- centraliza-se no próprio ego e dele
deriva, parcialmente, para os objetos externos, de onde reflui para o ego. As
funções de autoconservação e sobrevivência passam, então, a ser
conceituadas como decorrências do investimento libidinoso do próprio ego. O
conflito não aparece mais representado pela oposição entre pulsões sexuais,
de um lado, e, do outro, pelo instinto de autoconservação do indivíduo.
Revela-se então como expressão de uma mesma energia libidinal que se bifurca,
centralizando-se em parte nos objetos e, em parte, investindo-se no próprio
ego.
Em 1920, no entanto, Freud publicou Jenseits des Lustprinzips (Além do
princípio do prazer), com nova concepção dualista, que opõe de um lado as
pulsões de vida e, de outro, as pulsões de morte. A idéia de um instinto de
morte implica a presença -- em todos os seres vivos -- de um impulso que visa
ao retorno ao estado inanimado. O impulso de morte visa à autodestruição. O
instinto de vida será então o conjunto de forças que operam contra o processo
de autodestruição. A libido, assimilada ao instinto de vida, teria por
função neutralizar a tendência autodestrutiva. Freud destaca a freqüência
com que comportamentos são repetidos compulsoriamente sem que haja vestígios
de satisfação libidinal.
Teoria da neurose. O estudo das neuroses envolve dois aspectos básicos:
o etiológico e o terapêutico.
Sobre o aspecto etiológico, ou seja, das causas das neuroses, Freud enfatizou
as determinações de ordem psicológica, embora os fatores somáticos sejam
reconhecidos em certos tipos de neuroses, especialmente as ditas atuais ou
narcísicas. Considerou também que os fatores genéticos podem predispor as
perturbações do comportamento.
Do ponto de vista terapêutico, a psicanálise interessa-se em remover as causas
que determinam os sintomas. Visa ao desrecalcamento e à interpretação. O
desrecalcamento realiza-se pela revivência e não por meio da simples
rememoração das experiências traumáticas. As dificuldades que se observam no
processamento do desrecalque exprimem o fenômeno da resistência.
Resistência. As experiências penosas e inaceitáveis sofrem um processo
de repressão por parte dos escrúpulos e temores éticos, e são relegadas a
áreas marginais e obscuras da consciência. Essas experiências recalcadas
tentam exteriorizar-se, mas as forças conscientes não o permitem e estabelecem
uma rigorosa censura sobre o que pode e o que não pode aflorar à consciência.
Esse mecanismo denomina-se resistência. Os impulsos instintivos reprimidos
conseguem, em muitos casos, burlar a censura por um processo de disfarce, como
por exemplo um sintoma neurótico que o substitui ou simboliza. Para a
interpretação na neurose, portanto, o que se propõe é a descoberta do que
subjaz reprimido e se manifesta por intermédio dela.
Tipos de neurose. Freud classificou as neuroses em dois grupos: as atuais
ou narcísicas e as transferenciais ou psiconeuroses. As primeiras se
caracterizam pelo caráter somático. Como não são determinadas por fatores
psíquicos, seus sintomas não comportariam interpretação, pois não teriam
significado. A neurastenia, a neurose de angústia e a hipocondria constituem os
três tipos de neuroses atuais ou narcísicas. As neuroses transferenciais podem
ser significativas e curáveis pela técnica terapêutica da psicanálise.
Caracterizam-se estas neuroses transferenciais por serem produzidas
psicologicamente em função das experiências infantis e por serem
significativas, isto é, por serem a manifestação de desejos recalcados. Suas
formas são a histeria, a neurose de ansiedade e a neurose obsessiva.
Teoria da sexualidade. A originalidade de Freud se revela na teoria da
sexualidade, principalmente na forma inversa com que a entendeu: em lugar de
partir das fases inferiores do processo genético, tomou as formas superiores
como ponto de partida. Examinou as fases que antes teriam sido vencidas,
mediante o exame dos processos de regressão. Com essa técnica, determinou
melhor a própria noção de sexualidade, fixou suas formas infantis e precisou
o verdadeiro sentido das perversões, vendo nelas formas de um processo de
regressão. Quanto à caracterização da sexualidade, Freud ampliou-lhe o
significado em duas direções: (1) mostrou a presença de manifestações
sexuais na infância; e (2) mostrou o caráter sexual de certas formas de
conduta, aparentemente desvinculadas de significado sexual.
Essa incorporação de manifestações aparentemente não-sexuais à sexualidade
foi, também, conseqüência da própria reestruturação do conceito de
instinto. Para Freud, o instinto é o conjunto dos atos psíquicos necessários
à realização de uma função fisiológica. O instinto visa à conservação
do indivíduo ou à conservação da espécie e apresenta quatro
características: (1) uma fonte; (2) uma finalidade; (3) um objetivo; (4) um
impulso. A fonte é caracterizada como uma condição ou necessidade do corpo e
sua finalidade é remover a excitação. O objetivo é aquilo que satisfaz uma
necessidade. O impulso é a sua força. O instinto é conservador e regressivo,
pois ao ser reduzida a sua tensão, volta o organismo ao estado de tensão
anterior. Ao caráter cíclico do instinto Freud denomina repetição
compulsiva.
A sexualidade infantil tem, para Freud, duas fases básicas: (1) auto-erótica;
(2) heteroerótica. A primeira é constituída da fase oral-sádica e da fase
anal-sádica. Nesse período inicial, a libido se volta difusamente para o
próprio corpo. A segunda fase, heterossexual, define-se como fálica e se
caracteriza por uma fixação libidinal transitória denominada complexo de
Édipo, que consiste na fixação da libido no genitor de sexo oposto, num
sentido evidentemente incestuoso. A essas duas fases básicas sucede o período
de latência, que termina na puberdade, quando a libido toma direção sexual
definida e se instala a sexualidade genital.
Por motivos de ordem cultural, recai sobre os instintos sexuais a mais intensa
repressão, mas, paradoxalmente, nesses casos os mecanismos repressivos
tornam-se mais falhos e permitem o aparecimento de sintomas neuróticos.
Transferência. A teoria freudiana da sexualidade permitiu à
psicanálise a formulação do conceito de transferência, mecanismo por
intermédio do qual desejos inconscientes se atualizam no contexto da relação
entre analista e analisando. A transferência é um dos principais instrumentos
de trabalho da psicoterapia analítica, pois permite a repetição de
protótipos infantis, vivida com sentimento de atualidade, facilitando a
solução de traumas e conflitos neurotizantes. A possibilidade de evocação
desse mecanismo prova que o adulto não superou a dependência infantil. Por
meio da sugestão, o terapeuta induz o paciente a superar suas resistências
internas e internas e trazer os conflitos à superfície.
Psicopatologia da vida cotidiana. Os lapsos, os esquecimentos, os erros
etc. são estudados na obra Zur Psychopathologie des Alltagslebens (1904;
Psicologia da vida cotidiana). Freud atribui-lhes um significado, por não
aceitar que sejam acidentais. Com isso, generalizou o princípio do determinismo
psicológico, que caracteriza todos esses atos como padrões expressivos de
motivações inconscientes.
A classificação dos atos falhos compreende três grupos: (1) atos
sintomáticos; (2) atos perturbados; (3) atos inibidos. Entende-se por ato
sintomático aquele que se cumpre sem recalque. O ato perturbado caracteriza-se
como o que se cumpriu só parcialmente, em face de um recalque incompleto. O ato
inibido é o que resulta de uma situação de conflito, na qual ocorre
recalcamento completo. Dentro da perspectiva psicanalítica, que sustenta a
continuidade entre o normal e o patológico, afirma-se que os atos sintomáticos
são comuns no homem normal. Seriam os gestos involuntários, que revelam aquilo
que o sujeito pretende não revelar. Já os atos perturbados são resultado de
uma intersecção de forças e expressam uma situação de conflito. Estes podem
ser de visão, de audição e de gesto, assim como podem estar presentes em
erros de memória. O ato inibido pode se manifestar no domínio cognitivo --
esquecimento -- como no domínio motor -- paralisia. Esse último situa-se na
esfera patológica, ou seja, nas manifestações histéricas.
Teoria do sonho. "O sonho é a realização de um desejo." No
livro Die Traumdeutung (1900; A interpretação dos sonhos), Freud tornou
possível o estudo interpretativo do sonho e introduziu o método da
associação. Esse estudo é definido por ele como a estrada real para o
inconsciente. Acreditava que diversas pressões motivacionais, além daquelas de
natureza sexual, podem provocar sonho. Do ponto de vista fisiológico, o sonho
constitui condição indispensável ao processamento do sono. Sonha-se para que
se possa dormir. A tendência perturbadora é o desejo a se reduzir ou se
satisfazer. Entre as propriedades do sonho, é preciso mencionar: (1) a
facilidade com que ele é esquecido; (2) o predomínio das imagens e, em
particular, das imagens visuais sobre os elementos de natureza conceitual, o que
o caracteriza como expressão do processo regressivo; (3) seu conteúdo
significativo redigido em nível metafórico, que impõe trabalho de
interpretação; (4) sua natureza hipermnésica, no sentido de que nele se
mobilizam experiências inacessíveis à evocação quando em estado de
vigília.
Há, no sonho, um conteúdo manifesto e um conteúdo latente, que são as
idéias oníricas encobertas. O conteúdo manifesto é o sonho tal como ele é
relatado. O conteúdo latente é o seu sentido oculto, sentido que justifica o
processamento da análise interpretativa. Os pensamentos latentes e o conteúdo
manifesto do sonho aparecem como dois relatos dos mesmos fatos, em línguas
diferentes ou em níveis diversos.
Teoria do chiste. O chiste ou trocadilho representa produção psíquica
muito próxima, em sua estrutura e em suas funções, dos processos do sonho.
A diferença decorre do sentido social do chiste, por oposição ao sonho,
marcado por caráter estritamente individual. Freud distinguiu dois tipos
fundamentais de chiste: o inofensivo e o tendencioso. Este, por sua vez se
divide nos que se caracterizam pelo sentido agressivo e os que se definem como
obscenos, ambos processamentos catárticos, que possibilitam redução de
tensão. Quanto aos chistes inofensivos, o que os caracteriza é o fato de que
neles a gratificação é intrínseca.
Teoria da cultura. A problemática sociocultural foi estudada por Freud,
fundamentalmente, em três obras: Totem und Tabu (1912-1913; Totem e tabu), onde
o tema é a origem da sociedade; Massenpsychologie und Ich-Analyse (1921;
Psicologia coletiva e análise do ego), na qual faz a análise das razões que
determinam a formação e a persistência dos grupos humanos; e Das Unbehagen in
der Kultur (1930; O mal-estar na civilização), em que considera a
possibilidade da felicidade, levando em conta o fato de que a sociedade impõe
uma drástica redução das satisfações individuais.
Movimento psicanalítico. Os primórdios da psicanálise podem ser
determinados por duas datas: 1895, ano da publicação do trabalho conjunto de
Freud e Breuer, intitulado Studien über Hysterie (Estudos sobre a histeria); e
1900, quando apareceu a obra de Freud Die Traumdeutung (A interpretação dos
sonhos). Em 1907, psiquiatras suíços, sob orientação de Eugen Bleuler e Carl
Gustav Jung, começaram a introduzir novos conceitos na teoria psicanalítica.
Um ano depois, em Salzburgo, houve uma reunião de adeptos da psicanálise
oriundos de vários países. Em 1909, as conferências feitas por Freud e Jung
na universidade americana de Clark despertaram interesse entre os europeus. As
principais críticas dos médicos visavam a questão da valorização dos dados
psíquicos em detrimento dos fatores físicos. Do ponto de vista filosófico,
criticou-se a prioridade dada à atividade mental inconsciente na formulação
dos conceitos universais.
Diretrizes freudianas. A despeito de tudo, porém, surgiram inúmeras
organizações psicanalíticas internacionais. Um artigo de Freud, publicado em
1926, mostra as linhas gerais do desenvolvimento técnico e teórico da
psicanálise nos anos que se seguiram. Segundo suas diversas diretrizes, o
movimento pode ser assim dividido:
(1) o esquema da organização psicológica teve sua importância limitada pelo
fato de, em seus últimos escritos, ter Freud se concentrado no estudo dos
problemas psicodinâmicos;
(2) o papel da ansiedade, bem como o dos processos conscientes e inconscientes
de que se vale o ego para controlar seus impulsos, ganhou importância na
pesquisa analítica;
(3) o incremento do interesse pelo estudo da psicoterapia aplicada à criança,
pois a partir das observações de Freud, Hermind von Hug-Hellmuth e Jung, a
análise infantil foi ampliada por Anna Freud, Melanie Klein e outros;
(4) os problemas da sexualidade feminina tornaram-se o principal objeto de
estudos por parte de Freud, Ernest Jones, Helene Deutsch, Ruth Mack Brunswick,
Sándor Radó, Karen Horney e outros;
(5) a técnica e a teoria psicanalíticas passaram a ser aplicadas ao estudo da
fisiologia e patologia orgânicas, o que culminou na nova diretriz terapêutica
da interpretação psicossomática de doenças; e
(6) outro direcionamento importante ocorreu nos setores antropológico e
sociológico, onde se destacaram Geza Roheim, Margaret Mead, B. Malinowski,
Abram Kardiner, John Dollard e outros.
Evolução da psicanálise. O movimento psicanalítico apresentou sérias
divergências. Assim, enquanto Freud atribuía importância capital ao aspecto
biológico nos processos do psiquismo humano, Jung seguiu diretriz mística; já
Otto Rank se referia à psicologia facultativa do século XVIII, ao passo que
Alfred Adler enfatizava um poder agressivo artificialmente isolado.
Controvérsias mais recentes dizem respeito a detalhes da técnica e da teoria
psicanalíticas. Os líderes desse movimento podem ser agrupados em duas
facções, os chamados "neofreudianos" e "antifreudianos".
Outras tendências divergentes no movimento psicanalítico são representadas
por Sándor Ferenczi, que a partir de 1927 se afastou da ortodoxia freudiana e
cujas experiências inspiraram a análise em grupo e o psicodrama; Wilhelm
Stekel, que preconizou terapia ativa e tratamento mais curto; e Wilhelm Reich,
que rompeu com Freud por considerar a psicanálise ortodoxa reacionária do
ponto de vista social. O movimento crítico deu origem a novas tentativas de
revisão no seio da psicanálise, cujo objetivo era uma aproximação com a
psicologia experimental, apesar da diferença de perspectivas entre as duas
disciplinas.
Influência cultural. A psicanálise determinou novos rumos para as
ciências humanas -- sociologia, antropologia e demais disciplinas --, para a
arte e para a religião. Sobretudo, influenciou o próprio estilo de vida e
costumes do homem do século XX, principalmente quanto à liberdade para a
discussão das questões ligadas à sexualidade.
Extraído da Enciclopédia Barsa
