Monografia
Home Curriculum Áreas de Atuação Monografia Pensamentos

 

Psicologia
Os Fundamentos
Os Sistemas
As Psicoterapias
Os Psicólogos
Glossário
Links

Sentimentos Vivenciados pelo Casal Após a Separação

VII. Sentimentos

Não importa se uma pessoa tem 20, 30, 40 anos ou mais. Ninguém está imune. Todos sentimos um certo desespero quando o amor se vai. Ninguém gosta de se sentir um amante abandonado, de não ter com quem passar a noite, com quem fazer amor, com quem brigar (Matarazzo, 1986, p122).

A separação não se dá simplesmente, da noite para o dia, mas é um processo longo, vivido pelo casal de forma mais ou menos intensa. Quando um casal decide pela separação, normalmente já tentou tudo que podia para que isto não acontecesse. Afinal, separar-se, como visto, não é uma tarefa fácil, como muitos tentam fazer pensar. Na opinião de Maldonado: "(...) quando a separação acontece, deixa um sentimento de tristeza e dor, mesmo quando o convívio está insuportável. São sonhos desfeitos, projetos interrompidos, descrença junto com renovação de esperança de que dia melhores virão". A dissolução de uma relação conjugal irá suscitar, portanto, nos casais os mais variados tipos de sentimentos, tenha sido esta relação oficializada ou não. Afinal ter sido casado não é simplesmente uma formalidade legal, "(...) é mais substancialmente um vínculo entre duas pessoas, consolidado pela vida em comum e pelos hábitos que dela decorrem, pelas promessas feitas e pelos acordos acertados e sofridos" (Giusti,1987, p47).
Embora, como pondera Dirani (1986, p121): "o número de separações venha aumentando, o processo de dor não desaparece. Se os integrantes de uma relação que se desfaz estão preparados, as coisas podem ser mais fáceis. Principalmente no sentido prático. Não menos dolorosas." É bem verdade que o sofrimento pode variar de pessoa para pessoa, a depender da estrutura de personalidade e história de cada um, mas, provavelmente, como afirmam diversos autores, estará presente em todas as separações e de forma semelhante para todas as pessoas. No dizer de Porchat (1992, p120):

Para uns, a dor da separação parece ser tão catastrófica como a de antigamente, para outros, ela parece ser um acidente de percurso, doído, mas que deve ser superado o mais rapidamente possível. Essa variação nas reações à separação parece derivar, em certa medida, da internalização que os cônjuges fizeram das características do casamento moderno. Mormente as relacionadas ao sentido do casamento em suas vidas; ora um projeto primordial e vital, ora apenas um projeto significativo. Intensa ou não intensa, o fato é que a dor parece estar sempre presente.

De acordo com Giusti (1987), a separação conjugal constitui uma quebra, um trauma interno que não adianta negar, fingir que não existe, acreditando assim que o sofrimento não vai ocorrer. Segundo ele: "Quase sempre a separação provoca um abalo emotivo que, na escala das causas de estresse, vem imediatamente após a morte de um parente ou o choque de ser preso, e que pode ser considerado equivalente ao trauma causado pela perda da única fonte de subsistência" (p49). Assim, podemos afirmar que a mobilização emocional, o desprendimento de energia psíquica após o rompimento de um vínculo matrimonial costuma ser muito intenso.
Para a grande maioria dos autores aqui pesquisados, entre os sentimentos mais comumente vivenciados pelo casal após uma separação estão: perda, raiva, culpa, desamor, solidão, fracasso, depressão, desespero, arrependimento, indiferença, ciúme, posse, desilusão, dúvida, entre tantos outros. É preciso ressaltar, contudo, que tanto o sentimento quanto a maneira pela qual ele será vivenciado dependerá do contexto no qual a separação se insere. Giusti (1987) e Porchat (1992) consideram nesse contexto: a história individual dos cônjuges, a organização psíquica do casal, a idade dos parceiros, o tempo e a intimidade da união, as razões da separação, a existência ou não de filhos e principalmente as expectativas frente à instituição do casamento. O sofrimento, por exemplo, na separação de um casal com filhos costuma ser mais difícil do que quando da relação não resultou prole.
Nesse caso, conforme Maldonado (1986), o sentimento de perda é muito intenso: perde-se a possibilidade de juntos se ver os filhos crescerem, se desenvolverem. Normalmente surge o sentimento de culpa por estar através da separação causando sofrimento aos mesmos. Conforme Giusti (1987, p39): "Em torno dos filhos, para quem os tem, gira a maior carga de temores e sentimentos de culpa: como é que eles vão nos julgar? Que imagem terão de nós? Que repercussões terá em suas vidas? Como poderemos criá-los e educá-los sozinhos?"
Muitos casais em "nome dos filhos", ainda hoje optam por permanecer em casamentos infelizes. No entanto, segundo Porchat (1992, p123) esta atitude tem diminuído consideravelmente no casamento moderno: "(...) pelo desejo e obrigação dos pais de 'viverem a sua própria vida', não mais sacrificando a sua existência por amor aos filhos". Assim, se para a grande maioria das pessoas, os filhos "dificultam" uma separação, há também quem pense o contrário, verificado no seguinte depoimento (Naffah Neto, 1992, p75): "Às vezes me pego lamentando a falta de filhos. Na verdade nem sei bem por que, pois o que todos dizem é o contrário: que se tivéssemos filhos seríamos obrigados a uma convivência forçada, além de todos os traumas que a separação acarretaria para eles. Mas é como se a presença deles hoje pudesse diminuir, pelo menos em parte, essa sensação horrível de que não sobrou nada". Casais que por determinado motivo optaram por não ter filhos e separam-se em idade mais avançada parecem compartilhar mais intensamente deste sentimento. No dizer de Porchat: "Se o casal é jovem, há o sentimento de ter a vida pela frente, há a expectativa e disponibilidade para achar um outro parceiro e reorganizar sua vida; talvez então a separação não lhe pareça tão catastrófica. Se o casal está na idade madura, as dificuldades para esta reorganização costumam ser maiores. E o sentimento de solidão e abandono pode intensificar-se, assim como o sentimento de ter fracassado na vida e não haver mais tempo para uma recuperação" (1992, p105)."
Um outro aspecto que merece ser comentado e no qual a maioria dos autores parece concordar, é que, independentemente das razões que levaram ao desenlace conjugal, tanto quem quis a separação quanto quem foi "abandonado" pelo parceiro passará por sentimentos de "(...) amor, ódio, culpa, tristeza, medo, solidão, sensação de abandono, sentimento de fracasso, desorientação, quadros de estresse emocional e físico", podendo estes sentimentos, constituir "a vida psíquica dessas pessoas por longo tempo" (Porchat, 1992, p97). Nem todo processo de separação, porém, na opinião de Giusti (1987) traz sentimentos negativos e catastróficos, principalmente para aqueles que expressaram a vontade de romper a união. Muitas pessoas ainda, na opinião de Maldonado (1986, p109) "entram em conflito entre o que verdadeiramente sentem e o que acham que deveriam sentir, de acordo com o que os outros dizem ou com o que aprendem como sendo correto. Procuram direcionar, julgar, censurar ou aprovar seus sentimentos e vivências, mais do que permitir que estes possam emergir espontaneamente".
Conforme se observa, quase sempre a separação traz a tona inúmeros sentimentos, os quais, não raras vezes, divergem entre si. A maioria dos autores que escreverem sobre o tema da separação conjugal, parece concordar, no entanto, que embora sejam vários os sentimentos vivenciados após o término de uma união, alguns são particularmente mais dolorosos e difíceis de superar, estando presentes em quase todas as separações, ainda que possam variar em intensidade e qualidade. Um deles é o sentimento de perda.
Separar-se significa perder muita coisa. Perde-se estabilidade e padrão social. Perde-se todo um projeto de vida. E mais, perde-se o parceiro, objeto do amor, e junto com ele a esperança inconsciente de restabelecer o vínculo simbiótico, aquele estado de unicidade, de amor incondicional que se tinha originalmente com a mãe. Resta, ao final, um Ego profundamente abalado, precisando se recompor com urgência. Nas palavras de Porchat (1992, p122):

Perder um parceiro pareceria então o mesmo que perder uma parte de si próprio, "pedaços faltando". Em realidade, ou apenas no desejo de que assim seja, o parceiro é aquele que completa, que preenche. No rompimento, essas partes, de fato ausentes posto que projetadas no parceiro, voltam ao seu lugar de origem. Muitas delas reintrojetadas, agora de forma diferente. E cada um dos cônjuges vê-se diante de uma terrível solidão e desamparo de ser apenas parar si e por si.

Usualmente, conforme afirmam diversos autores, as perdas quaisquer que sejam elas, deixam marcas, lições que reaparecem em outros momentos da vida de cada um. A literatura psicanalista acredita que todas as perdas pelas quais o indivíduo passa têm relação com aquelas vivenciadas na primeira infância. Nas palavras de Viorst (1986, p33), portanto: "Todas as nossas experiências de perdas relacionam-se com a Perda Original, a da conexão mãe-filho". Ou seja, a forma de lidar com as relações estabelecidas e de reagir a elas depende de como se deram as separações nos primeiros anos de vida de um indivíduo, embora, conscientemente, em geral não se tenha lembrança dessas experiências. Assim, diante da perda provocada por uma dissolução conjugal, as experiências da primeira infância tendem a reaparecer. No dizer de Giusti (1987, p52):

As pessoas que quando crianças viveram traumaticamente a experiência do abandono, por exemplo, certamente encontrarão maiores dificuldades. Elas sentem o afastamento com particular ansiedade: uma verdadeira angústia do abandono, causada por uma fundamental insegurança afetiva, com profundas raízes na infância. É inevitável que no novo afastamento sejam confirmadas muitas razões de insegurança: "ninguém me ama!" é um leitmotiv que se ouve com freqüência e que reflete uma convicção bem arraigada.
Por outro lado, aquelas pessoas que, ao contrário, viveram uma infância gratificada pelo afeto, criadas em uma atmosfera serena, encontram em sua bagagem de vida muitos recursos para enfrentar melhor os momentos de solidão; estas terão menos probabilidades de conhecer a verdadeira angústia (Giusti, 1987, p52).

Parafraseando Maldonado (1986, p13): "A cada transição do desconhecido para o novo, se reavivam sensações e emoções de separações e perdas anteriores, até mesmo as mais arcaicas. Estas vivências regressivas são revividas, sob novas capas ou representações, intensificando o que normalmente está arquivado." O fragmento de depoimento, extraído do texto de Alfredo Naffah Neto (1992, p80) confirma:

(...) Pude perceber que a dor que me tomava era infinitamente maior do que a perda que a fizera eclodir. Não era apenas a perda da Carmem que eu chorava, mas também a da Adriana, a dos fetos abortados, a da minha mãe, a de todas as mulheres importantes que eu já tivera e perdera. Quiçá eu chorasse também pelo meu lado mulher, abortado nessa figura de homem, nessa escolha inconsciente que os genes e posteriormente a cultura nos impõe desde o nascimento e sobre a qual não temos opção.

Assim como qualquer outra situação de perda, a separação conjugal traz consigo um trabalho de luto que pode durar anos. O luto, neste caso específico, explica Caruso (1984, p47): "É uma tentativa de defesa contra o vazio, a negação e a depauperação do Ego." Esse luto é semelhante ao vivido pela morte de uma pessoa querida, representa a "morte real" de alguém que possuía significado para o outro. Se antes o indivíduo encontrava-se em estado de identificação e união com o parceiro, agora deve reaprender a viver sozinho. Afinal, aquele deixou de fazer parte para "sempre" de sua vida, do seu dia a dia. A constatação dessa realidade é analisada por Caruso (1984, p51) como uma das sensações mais terríveis que o homem pode sofrer, conforme se expressa no seguinte relato: "Nunca mais dormirei ao calor de um corpo! Nunca mais: quanto frio! Quando me dei conta disso, pensei que fosse morrer". Apresenta-se aí um outro sentimento vivenciado por quem está separado e, na visão de Caruso (1984), um dos mais preocupantes, a vivência de morte: morte do outro em nossa consciência e a nossa morte na consciência do outro. Na musicalidade de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, "(...) ao morrer, então é que se vê que quem morreu fui eu e foi você, pois sem amor estamos sós, morremos nós". Segundo Matarazzo (1992, p120): "É brutal o sofrimento de se ver morrendo no psiquismo do outro e ver o outro morrendo dentro de nós". Isto certamente não se dá da noite para o dia. O certo é que no outro são depositadas diversas expectativas, introjetado um ideal de parceiro, acreditando-se na união total... Desfazer-se de tudo isto não é simples e leva tempo. Muitas vezes os indivíduos chegam a desejar por um momento a verdadeira morte do outro como se isto pudesse fazer desaparecer todo o sentimento de perda, de fracasso, de abandono, decorrente da separação: "Se você já não existisse eu estaria íntegro (curado); assim, pois o mesmo se diga de mim para você (Caruso, 1984, p52)". Infere-se que possivelmente para quem a idealização do parceiro foi maior, a perda do objeto de identificação será mais difícil e o sentimento de morte resultante da separação mais penoso. É natural que durante o processo recíproco de aceitação da morte do outro na consciência de cada um, sinta-se imensa solidão e uma conseqüente saudade do companheiro(a), dos bons momentos em que viviam juntos, dos programas realizados por ambos, na tentativa inconsciente de retomar um passado que ficou para trás. Com a separação "não há mais ninguém com quem almoçar, com quem dormir, com quem trocar opiniões, com quem observar e comentar cada dia o crescimento das crianças! Acostumado como se estava à presença e ao contato com outra pessoa, agora em casa só há um pesado silêncio" (Giusti, 1987, p79). A dor da perda do objeto de identificação e a saudade decorrente da separação é expressa na música "Pedaço de Mim" (1977-1978), de Chico Buarque:

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

A perda do objeto de identificação, na maior parte das vezes leva a uma crise de identidade. Há freqüentes relatos de pessoas que após a separação afirmam não saber mais quem verdadeiramente são, habituadas e fundidas que estavam com o outro. É provável que a raiva sentida por elas seja bastante intensa. Nas palavras de Caruso (1984, p84), com a separação "de fato, destruiu-se uma identidade, a identidade própria por identificação com o outro. Dizendo de maneira mais exata, a identidade sucumbe mais ou menos lenta e dolorosamente, pois a identificação que no caso fundamente a própria identidade não pode ser abandonada e substituída por outra, da noite para o dia".
Junto à perda da identidade pode vir a surgir outro sentimento: a perda da auto-estima, especialmente se a pessoa foi abandonada: "Sinto-me um zero à esquerda, acho que nunca mais vou conquistar alguém" (Maldonado, 1986, p84). Na opinião de Caruso (1984, p59): "Quem se decide pela separação intui a possibilidade de perda da auto-estima, graças a ruptura do modelo introjetado do Ideal do Ego. Sente titubear seu Ideal do Ego e, conseqüentemente, seu próprio Ego está se desidealizando - o que vem acompanhado de um aumento de sentimento de culpa e de agressividade". A culpa habitualmente sentida pelo sujeito separado origina-se do sentimento de fracasso do casamento, por não se haver feito o possível para que desse certo ou mesmo por não se haver tomado a decisão há mais tempo. Com freqüência, as pessoas tendem a culpar o outro, na busca de aliviar o próprio sofrimento e responsabilidade para o fim da união. No dizer de Maldonado (1986, p9): "Acusar ou arrasar de culpa parece muito mais fácil do que ter a noção de como ambos contribuíram para a construção e término do casamento. É difícil encarar a frustração de um projeto interrompido e o fracasso de uma intenção". A existência de filhos, como já mencionado, também pode intensificar esse sentimento.
Sentimentos de fracasso e de frustração também costumam estar presentes após a separação. Mesmo aqueles que a desejaram se sentem perdidos. Surge "a sensação de ter desperdiçado tanto tempo, principalmente se as esperanças e as promessas recíprocas não foram realizadas" (Giusti, 1987, p54). Na opinião de Mellone (1999, p22) todo mundo "quer que o seu próprio casamento dê certo, quer ficar velhinho ao lado da pessoa amada, cheio de histórias para contar, netos para brincar, enfim, quer ter a certeza que acertou na escolha (...)". Mas quando isso não ocorre é muito frustrante, especialmente para o casal que está se separando. Um trecho da música de Chico Buarque, "A Rita", transcrita a seguir, expressa a perda causada pelo fim da união:

A Rita matou o nosso amor
De vingança nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo um violão

Sentimentos de desespero e de medo também estão freqüentemente associados à separação: "Tenho um verdadeiro pavor de viver: medo da solidão e medo do futuro" (Giusti, 1987, p51). Este sentimento, na opinião de Maldonado (1986) tende a ser mais intenso quando além da ruptura da convivência, há mudanças muito radicais de vida, tais como queda brusca do nível financeiro, perda de apoio da infra-estrutura na casa, necessidade de a mulher procurar um emprego quando sempre só realizou tarefas da casa. No dizer de Caruso (1984) este desespero é resultado da morte que é produzida na consciência com a separação: "duas pessoas estavam fundidas numa união dual que tem um único modelo, a 'díade' mãe-filho; a perda do objeto de amor, que é ao mesmo tempo um forte elemento de identificação, conduz a uma autêntica mutilação do Ego. Ocorre aí uma catástrofe, graças à perda de identidade, e uma considerável regressão que ameaça o Ego" (Caruso, 1984, p25).
Uma outra reação muito encontrada nas pessoas separadas é o sentimento de raiva, que pode surgir dentro de vários contextos: raiva pelo fracasso do casamento, por ter que mudar o padrão de vida, por ter sido abandonado, etc. Esse sentimento, segundo Maldonado (1987), tende a ser mais intenso quando o grau de investimento da relação foi muito alto (pessoas que deixaram de trabalhar ou de estudar por causa do cônjuge, pessoas que mudaram drasticamente o padrão de vida por conta da divisão dos bens, etc) e/ou quando o indivíduo estava preso a uma relação simbiótica. Neste caso o indivíduo não suporta ter de abandonar, "abrir mão" do outro, fundido que está com ele. Na opinião de Caruso (1984) e Maldonado (1986) a raiva é freqüentemente transformada em desprezo e desvalorização do parceiro. Esta desvalorização precisa acontecer, "para que o Ego, profundamente ferido, possa se reconciliar com um ideal do Ego abalado e tenha condições de continuar vivendo" (Caruso, p26). É comum, ouvir verbalizações em que se acusa o parceiro: "ela engana todo mundo, se faz passar por uma mulher maravilhosa e não é nada disso, eu estava cego esses tempo todo". (Maldonado, 1986, p101). Em uma investigação feita com 70 famílias californianas, que se divorciaram, para saber a experiência relacionada ao divórcio nas crianças, adolescentes e seus pais durante o período de 1971 a 1977, constatou-se que sentimentos zangados associados ao casamento fracassado e ao divórcio encontraram expressão em 4/5 de todos os homens e uma proporção ainda maior de raiva e amargura foi expresso pelas mulheres (Kelly). Na referida investigação verificou-se que: "A intensa raiva estava associada a uma séria depressão originada pelo divórcio e a um desequilíbrio severo e desorganizador. Mas era a raiva que estava visível e que funcionava em parte para afastar uma depressão potencialmente mais devastadora. Paradoxalmente, as tiradas raivosas e o comportamento zangado tinham uma influência organizadora sobre esses indivíduos destroçados".
Juntamente com a raiva podem surgir o ciúme e o sentimento de posse, comuns na união simbiótica. Neste tipo de relação, diz Maldonado (1987), o indivíduo não consegue suportar que o outro possa existir sem ele e construir um outro rumo em sua vida. Segundo Giusti (1987, p56): "O ciúme e os sentimentos de posse afloram especialmente quando se perdem todos os direitos: se antes tínhamos 'o direito de amor exclusivo' sobre uma pessoa, quando ele cessa de existir surge uma profunda sensação de frustração e de surda impotência". Retoma-se aqui a vivência de morte, a constatação de que um não faz parte mais da vida do outro. O ciúme e/ou o sentimento de posse pode ser sentido também por quem nunca o sentiu antes, como pode se verificar no seguinte relato: "foi incrível perceber que eu estava sentindo ciúmes dele depois que eu mesma decidi pela separação. Quando soube que ele estava namorando, fiquei louca de raiva. Eu sabia que não o queria, mas mesmo assim sentia ciúmes" (Maldonado, 1986, p110). Citando Caruso, no que se refere ao ciúme (1987, p57):

O Ego pode desejar ao outro o que há de melhor, entretanto, sofre também de uma ferida narcisista, provocada em grande parte pela separação; quase sempre de modo inconsciente, essa dor nasce da certeza de que o outro encontra satisfação em situações não relacionadas comigo. Aqui está uma das raízes do ciúme. Não obstante o desejo consciente de que o amado viva feliz, existe uma idéia aflitiva que se associa à dor da separação: a de que o amado está feliz, independente de mim.

A separação pode trazer também total indiferença, embotamento afetivo ou defesa de anestesia afetiva total para se proteger do impacto emocional provocado pela separação (Maldonado, 1986). Caruso (1984, p121) parece compartilhar desta idéia: "(...) a indiferença (inibição afetiva e indecisão) acompanha de maneira mais ou menos clara a elaboração da separação. Além do mais, ela se parece com uma retirada ou evasão: quem se separou evita uma realidade psíquica ameaçadora". Essa indiferença é sentida no seguinte depoimento extraído do livro de Maldonado (1986, p98):

(...) eu estou tão estranha, não consigo sentir nem alegria nem tristeza. Estava louca para conseguir aquele emprego, fui entrevistada, não fiquei aflita. Quando a moça falou que estava tudo bem, recebi a notícia tão friamente, tão sem entusiasmo... Aí fui na nossa casa tirar mais um pouco das minhas coisas, pensei que ia ter vontade de chorar, de desabar mesmo quando fiquei lembrando das coisas boas, deitada na cama, vendo aqueles travesseiros e as roupas dele, as nossas coisas. Mas que nada, de repente estava arrumando tudo tão friamente como se nada de importante estivesse acontecendo. Tenho medo de ficar assim para sempre, sem sentir nada.

Uma outra maneira de se anestesiar da dor causada pela separação, no dizer de Maldonado (1986), é a fuga maníaca ou fuga para adiante. Neste tipo de reação o indivíduo tende a buscar a realização de outras atividades que lhe façam não pensar na perda da relação. Na opinião de Caruso (1984, p27), esta fuga caracteriza-se pela "(...) busca dos prazeres, em geral proposta pelo Id; essa fuga também está presente ainda que às vezes de forma muito sublimada. As doses flutuantes de libido buscam novos objetos. Muitos chegam a pensar em procurar um substituto. Nesse caso, é de considerável importância o mecanismo de substituição: mata-se melhor quando já se tem um substituto para o morto". As pessoas buscam um outro parceiro acreditando que assim conseguirão superar a perda mais facilmente.
Porém, ficar solteiro novamente não significa necessariamente a tão sonhada liberdade, a oportunidade de se fazer tudo aquilo que o casamento não permitia. "A separação não constitui apenas no rompimento com um passado que não pode mais viver, ela constitui também, um impulso (ou condição para um impulso) afirmativo frente a própria vida" (Giusti, 1987, p61).
Muitas pessoas sentem um verdadeiro alívio após permanecerem anos em uma vida conjugal fracassada. Seja qual for o sentimento vivenciado por quem se separa, a realidade, é que "Em um momento já distanciado da lembrança, o espelho de cristal partiu-se. Emendar espelho é impossível. A imagem refletida é uma imagem partida, dividida e cheia de desfigurações e distorções".
E finalmente, há quem tenha reações que nunca imaginou ter um dia na vida. São segundo Maldonado (1986) as descobertas de si próprio, nem sempre agradáveis: "Ontem me arrependi, depois que lhe meti a mão na cara. Mas não sei o que aconteceu, não entendo como é que ela consegue me tirar do sério. Olhe que não é fácil, que eu sou calmo e pacato. Pelo menos é o que dizem os amigos (Naffah, p74)".

Voltar Home Acima Avançar

Hosted by www.Geocities.ws

1