ARTIGOS DE CAFÉ
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São Francisco | |
“Colocando
a Conversa no Prumo”
Diversos aspectos vêm sendo “deixados de lado” na análise do mercado de café. Elege-se um ou dois números e banalizam-se os demais. Gostaríamos de lembrar alguns fatos que estamos vivenciando os quais deveriam ser mais elucidados no intuito de assegurar uma análise verdadeira da situação.
Um ponto importante refere-se aos estoques mundiais: o estoque atual é o menor desde 1958, o qual foi de 24 milhões de sacas (fonte: livro “150 Anos de Café”, Marcelino Martins. páginas 310 a 312. E “Anuário Estatístico do Café”, Coffee Business. 1996. página 27.) Atualmente as diversas fontes citam 23 milhões de sacas em 30 de junho de 2000, ou seja, o menor estoque nessas últimas 4 décadas. Esses 23 milhões de sacas são oriundas da somatória dos estoques de café existentes nos diversos pontos do mundo, inclusive nos países produtores. Isso corresponde a aproximadamente 15 a 16 milhões de sacas nos consumidores e 7 a 8 milhões nos produtores. O fato é que o estoque inverteu de lado, mas, que tem pouco café no estoque não é novidade para ninguém.
Mediante as indefinições e prazos necessários para colocar a retenção em vigor pela APPC, os EUA, aproveitando-se, elegeram um único parâmetro para avaliar o mercado de café, que são os estoques no G.C.A. (Green Coffee Association) e que, em 15 de agosto de 2000, esse estoque estava em 6,1 milhões de sacas: sendo 2,9 milhões de sacas certificadas e 3,9 milhões de sacas não certificadas. Esse estoque no G.C.A. estava por volta de 2,6 milhões de sacas em dezembro de 1999. Iniciaram-se os movimentos de retenção; os países produtores dispararam a vender e os EUA a comprar; os mesmos “encostaram” esse número (G.C.A.) na Bolsa de Nova York e daí fazem o jogo todos os dias. Um único número banalizando todos os demais, ou seja, 6 milhões de sacas mandando em um mercado mundial de 110 milhões de sacas. Incrível, mas esse é o principal mensurador do mercado. Pois quando analisamos outros números em outros mercados a situação é totalmente distinta como demonstra o quadro a seguir:
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Estoques
de Café (milhões de sacas) |
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datas |
aumento |
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países |
Jan-00 |
Jun-00 |
(%) |
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Antuérpia |
1.4 |
1.6 |
14.29 |
|
Rotterdã |
0.5 |
0.5 |
- |
|
Bremen |
1.1 |
1.2 |
9.09 |
|
Hamburgo |
1.2 |
1.3 |
8.33 |
|
Trieste |
0.8 |
1.1 |
37.50 |
|
Japão |
1.2 |
1.2 |
- |
|
Outros |
2.7 |
2.9 |
7.41 |
|
TOTAL |
8.9 |
9.8 |
10.11 |
|
EUA |
3.1 |
5.5 |
77.42 |
|
fonte:
periódico "Coffee Business Diário". 07/00. |
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Enquanto todos os demais locais receptores de café juntos, demonstrados no quadro anterior, aumentaram somente 10% dos estoques, o que é perfeitamente normal, os EUA aumentaram em 77% seus estoques e usaram somente esse número como “termômetro” na Bolsa de Nova York e estão “batendo de Reio”. Mais uma vez 6 milhões de sacas mandando em 110 milhões.
Esses aspectos numéricos que acabamos de demonstrar não são suficientes para colocar a conversa “no Plumo”. Ultimamente viajei por diversas regiões cafeeiras e fiquei impressionado em constatar a situação de grande parte de nossas lavouras. O parque cafeeiro está muito heterogênio e aquelas lavouras que produziram de 20 a 30 sacas por hectare mostram-se como se tivessem produzido 50 sacas por hectare. É explicável pelo fato de que, entre os meses de maio a dezembro, houve déficit hídrico; melhorou de janeiro a abril deste ano e a situação de déficit retornou em maio último perdurando até agosto. Resumindo: dentro de 16 meses, as lavouras “passaram sede” em 12. “Não há planta que agüente” (fonte: MARA-PROCAFÉ, Varginha/MG). Com isso, houve um crescimento de somente 6,88 nós por ramo, contra 10,4 nós por ramo no mesmo período do ano passado (fonte: MARA-PROCAFÉ, Varginha/MG). Assim teremos uma queda direta na produção proporcional ao menor número de rosetas por ramo, nas regiões que sofreram déficit hídrico (pode-se dizer que abrange uma área de 70% do parque cafeeiro com exceção da Zona da Mata/MG, Espírito Santo e áreas irrigadas que não sofreram seca).
Comentei com o colega Eng° Agrônomo Marco Antônio Tartaglia que tem vasta experiência profissional nas regiões cafeeiras, e ele confirmou que “faz muito tempo que não vejo as lavouras assim”. Além disso, percebemos os efeitos das geadas de julho, onde encontram-se muitas lavouras queimadas, “chamuscadas” e até lavouras que morreram, principalmente as novas, e ainda vamos ver nos próximos meses, a “canela de geada” que liquidará muitas plantas de até 2 a 3 anos.
Outro fato importante é que a colheita 2000 está atrasada e muito atrasada em algumas regiões. Nós prevíamos isso em abril deste ano e o fato se confirmou; somado ao atraso da colheita chegaram as chuvas e a emissão de botões florais já é um fato. Já vi muitos botões florais saindo nas mãos dos colhedores ou nas varetas vibratórias das máquinas colhedoras; perder o botão floral é prejuízo direto. Juntamente com tudo isso, eu não vejo uma florada uniforme e compacta como a de 19 de setembro de 1999; vejo várias floradas pois é perceptível o nível de desigualdade de desenvolvimento das gemas florais dentro da mesma planta, em decorrência dos intempéries climáticos como seca e frio. Logicamente não podemos generalizar para todas as regiões dado a grande diversidade da nossa cafeicultura.
A fusão de todos esses fatores interferindo na produção trará um prejuízo para a colheita de 2001/2002. “Não tenho bola de cristal para chutar o número de qualquer jeito, mas tenho olho e visão agronômica para dizer que a safra 2001/2002 será outra safra minguada, e até com grande possibilidade de ser menor que as safras de 1999/2000 e 2000/2001”.
Autor:
Armando Matielli
Eng°
Agrônomo
Colaboração:
André L. Matielli
Eng°
Agrônomo
03/09/00
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