O Clima é Limitante
O
clima, dentre muitos outros, é o principal fator que limita a produção de café.
No início do mês de agosto passado, alertamos para o perigo da seca , baseado
em evidências de fatos que predominavam naquela situação:
·
Déficit
hídrico de 83 mm, em 30/07/1999;
·
Da
2a quinzena de março até aquela data, 30/07/1999, choveu por volta
de um terço da média nas principais regiões cafeeiras;
·
O
mês de agosto caracteriza-se predominantemente seco e setembro como muito
heterogêneo, nas principais regiões cafeeiras;
·
No
final de julho as plantas de café estavam apresentando visualmente alto nível
de estresse.
Diante
desse quadro não precisava ser um exímio metereologista para alertar sobre os
prejuízos na produção de café da safra 2000/2001. Segundo Matiello
(“O Café – do cultivo ao consumo”), déficit hídrico acima de 150 mm
causam prejuízos na produção de Café Arábica de 30% ou superior. Atualmente,
em 30/11/1999, uma importante fonte que é A ESTAÇÃO DE AVISOS DO MINISTÉRIO
DA AGRICULTURA DE VARGINHA – MG – PROCAFÉ está acusando um déficit hídrico
de 305,8 mm, portanto, mais que o dobro daquele nível de 150 mm que causa prejuízo
histórico de 30% ou superior. Matematicamente esses 305,8 mm dariam um prejuízo
na produção de 60% ou mais. Penso, que assegurar que o prejuízo é
de 60% ou mais demonstrarei pouco otimismo, mas com certeza terá regiões
com prejuízo acima de 60% e nunca abaixo de 30%.
A
seca assolou Minas Gerais, São Paulo e com menor intensidade o Estado do Paraná,
estados que correspondem em praticamente 75% do parque cafeeiro nacional e, onde
se concentra a produção de Café Arábica. Instalado nos Estados do Espírito
Santo, Rondônia e Bahia, o Café Robusta (Conillon),
foi abençoado pelas “Mãos Divinas”.
Nos
próximos dias teremos a previsão oficial da produção 2000/2001 elaborada
pela EMBRAPA, onde 220 Engenheiros Agrônomos, com alto nível de conhecimento e
comprometimento profissional, estão trabalhando com critérios técnico de
amostragem em 3500 propriedades cafeeiras distribuídas dentro das principais
regiões produtoras, respeitando todos os processos de confiabilidade, e, com
certeza, teremos um número oficial e seguro da produção 2000/2001 pois a
EMBRAPA esperou terminar a colheita 1999, a florada, o “pegamento das flores”,
e iniciou as análises em uma fase mais segura, ou seja, saindo do estágio
“Chumbinho” /Expansão onde se constata com maior segurança os níveis de
produção.
Prever com muita antecedência, esquecendo que o
clima é soberano
na produção de café, pode vir a ser uma imprudência. Em 1999, essa imprudência,
causou um enorme prejuízo ao nosso País, pois, antes de iniciar a última
colheita, começaram a surgir números de 40 milhões de sacas, para a safra
2000/2001, derrubando os preços a níveis comprometedores. Com isso vendemos
café de excelente qualidade e de uma safra “pequena” a preços de anos de
safra “alta”. Estamos em um País de livre expressão mas o meu “Nono” (avô)
já dizia: “Prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém”. Vendemos
muito café, ganhamos market share, mas agora estamos na já prevista enrascada
com nossa logística do Agronegócio Café; prejuízo para todos que estão
envolvidos.
Sabemos
que a nossa cafeicultura está instalada a céu aberto, à mercê de muitas
adversidades climáticas como veranicos na época produtiva, na florada, do
mesmo jeito chuvas de granizo, além de outros; somando a isso tudo ainda temos
as famigeradas e destrutivas geadas.
Aqui, deixo de longe de ser pessimista, ou oportunista, ou articulista mas sim,
ser REALISTA.
Desde 1994, elas não ocorrem. REALISTA
é saber que as geadas podem, e normalmente ocorrem, em média uma
a cada década. Portanto estamos entrando no sexto ano sem geada.
Estamos frisando isso, pois nem acabamos de sair dos prejuízos da atual seca e
já, tem gente dando números da colheita 2001/2002. OK, pode prever, mas não
esquecer do CLIMA,
e que ainda temos 18 meses pela frente antes da safra 2001/2002, onde teremos 2
invernos e outras intempéries.
O
Brasil é o maior produtor mundial de café e logicamente um dos mais visados
pelos incidentes climáticos. Somente, para refrescar a memória, vamos lembrar
dos mais fortes incidentes que quebraram a nossa produção das últimas três décadas:
|
ANO SAFRA |
PRODUÇÃO (MILHÕES DE SACAS) |
INCIDENTES CLIMÁTICOS |
|
1970/71 |
11.00 |
seca de 1968 |
|
1976/77 |
9.30 |
geada de 1975 |
|
1980/81 |
21.50 |
geada de 1979 |
|
1986/87 |
13.90 |
seca de 1985 |
|
1995/96 |
16.80 |
geada de 1994 |
|
média |
14.50 |
- |
|
2000/2001 |
??????????? |
seca de 1999 |
|
fonte: USDA - Departament of Agriculture |
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Anuário Estatístico do Coffeebusiness - 1996 - página 32 |
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Portanto, nos últimos 30 anos, tivemos diversos e diferentes incidentes climáticos que prejudicaram a produção. Acima na tabela, mostramos os 6 incidentes mais expressivos e podemos verificar uma assombrosa média das 5 safras posteriores às adversidades climáticas de 14,50 milhões de sacas.
No
Agribusiness Café podemos controlar quase tudo, mas, não podemos controlar na
produção o fator soberano que é o CLIMA.
Dependemos de São Pedro: ”que às vezes fecha a torneira e aí o bicho
pega”.
Autor:
Eng.
Agrônomo Armando Matielli
Colaboração:
André
L. Matielli
(aluno
de graduação do 5° ano da ESALQ/USP)
12/12/1999