Queda de Frutos

 

Nos últimos dias, recebemos consultas sobre o controle da queda de frutos do cafeeiro, sempre acompanhadas de preocupações com relação aos prejuízos que provocará na produção. Essas consultas e também informações surgiram de diferentes regiões dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e até do Paraná. Na minha opinião, após tantos anos de experiência na área de Fitossanidade Vegetal, a preocupação a princípio, com problemas fitopatológicos é colocada em segundo plano, pois, consideramos que essa queda de frutos está muito mais relacionada com fatores fisiológicos. Primeiramente tivemos um extenso período com baixa umidade relativa do ar (U%), com isso baixo potencial de inóculos de agentes causadores de doenças, principalmente dos fungos. Apesar de que nessa situação de debilidade de “pegamento dos frutos” associado a outros fatores é uma porta de entrada para os fungos oportunistas.

O déficit hídrico do ano de 1999, foi extremamente longo e com intensidades marcantes, como podemos observar pelo quadro a seguir:
MÊS DÉFICIT HÍDRICO (mm) NO DIA 30 DE CADA MÊS
maio 45
junho 45
julho 80
agosto 190
setembro 230
outubro 290
novembro 305
dezembro 185
*fonte: ............. Estação de Avisos de Varginha - MG
M.A. - DFA / SSV - PróCafé (dados aproximados)


             O período que atravessamos com déficit hídrico, praticamente 8 meses, demonstrado no quadro anterior, provocou desarranjos fisiológicos nos cafeeiros de Minas Gerais e, de outras regiões produtoras que também apresentaram problemas de seca, com intensidades variáveis, logicamente mais agravadas naqueles locais que sofreram maior seca. Portanto o ponto importante é a quantidade de água disponível para o processo de expansão rápida, principalmente no seu primeiro mês, que ocorre cerca de 8 a 12 semanas depois do florescimento, e sob efeito de tensões hídricas, as quedas são inevitáveis (MONTOYA & SILVAIN, 1962; HUXLEY & ISMAIL, 1969 – pág. 51 do livro “CULTURA DO CAFEEIRO – FATORES QUE AFETAM A PRODUTIVIDADE – POTAFOS”). Como a florada ocorreu em 18 e 19 de setembro nas principais regiões produtoras, estamos no período de expansão rápida, já entrando para o período de granação. Os frutos também podem cair quando as disponibilidades de carboidratos são baixas (CANNEL, 1971 a; CARVALHO et allii, 1984 a do livro “CULTURA DO CAFEEIRO – FATORES QUE AFETAM A PRODUTIVIDADE – POTAFOS”). É lógico que o período de longa estiagem prejudicou o balanceamento de carboidratos.

            Devemos lembrar que o tamanho do fruto cereja depende acentuadamente da chuva caída de 10 a 17 semanas após o florescimento (WORNER, 1964; CANNEL, 1971 a e 1974 do livro “CULTURA DO CAFEEIRO – FATORES QUE AFETAM A PRODUTIVIDADE – POTAFOS”), período que temos a fase de expansão rápida do fruto, ao final se dá o endurecimento do endocarpo. Além da queda dos frutos, mesmo com o regime pluviométrico a normalizar nos próximos meses, com certeza terão frutos mal granados e de tamanho inferior o que provocará diminuição na renda da próxima colheita. É importante lembrar que as sementes oriundas de frutos formados sob condições adversas, como essa última, de deficiência hídrica forte e prolongada, não só germinam mal como dão origem a plantas fracas. Sementes pequenas podem produzir plântulas com taxas de crescimento menores do que aquelas obtidas de sementes médias e grandes (OSÓRIO & CASTILLO, 1969 do livro “CULTURA DO CAFEEIRO – FATORES QUE AFETAM A PRODUTIVIDADE – POTAFOS”).

            Como estamos acompanhando esse período de seca e conhecendo essas bases técnicas, procuramos retratar os fatos na prática, e para isso, conduzimos alguns trabalhos de campo em lavouras de café Mundo Novo IAC 379/19 com 10 anos de idade, cultivados no município de Guapé, região Sul de Minas Gerais. A seguir o resumo dos resultados:

 

Data da Condição Local dos Data da 1a N° de rose- N° de frutos N° de frutos % de
Florada das Plantas Ramos Contagem tas/ramos por ramo em no ramo em "vingamento"
          3/10/99 2/1/00  
18-09-99 65% de terço - 3/10/99 12 164 42 26
  enfolhamento médio          
18-09-99 50% de terço - 3/10/99 13 154 42 27
  enfolhamento superior          
*fonte:......... A. Matielli e
A. L. Matielli

Conclusão:

  Pelos dados obtidos constatamos um “vingamento” efetivo até 02/01/00, de somente 26 e 27% o que é considerado um nível muito baixo e comprometendo demasiadamente a produtividade.

            Com os argumentos técnicos citados e com os dados anteriormente constatados, podemos ressaltar que a situação atual com relação aos prejuízos na produção, é mais crítica do que aquela já vivenciada nos meses de novembro e dezembro de 1999.  

 

 

Autor: Eng. Agrônomo Armando Matielli

Colaboração: André L. Matielli

(aluno de graduação do 5° ano da ESALQ/USP)

09/01/00

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