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Girando
Tudo bem eu estava errada. Eu realmente n�o devia ter dito para o Th�o que conseguiria achar a sa�da. J� fazia uns vinte minutos que eu estava rodando o col�gio. E era a quinta vez que eu passava por uma fonte deteriorada no meio do p�tio dos professores. Mas como eles j� tinham ido embora, n�o tinha ningu�m l� pra me dizer pra que lado eu deveria ir. Eu tentava refazer todos os caminhos que j� tinha seguido, procurando uma alternativa, mas acontece que eu estava distra�da demais com os acontecimentos do dia. Decidi tentar uma porta que deveria dar pra sala dos professores. Ela estava trancada, como eu tinha suposto. Mas na minha situa��o eu j� estava quase me conformando em arrombar. E da� eu ouvi um barulho, perto de uns lat�es de lixo que fediam pra valer. Se fosse um rato eu podia colocar esse como o n�mero 1 na lista dos piores dias da minha vida. Mas felizmente eu s� vi uma garrafa rolando para o lado. Eu podia dizer de longe que era de uma bebida alco�lica cuja porcentagem de �lcool devia ser proibida nos Estados Unidos. Eu vi uma nuvem de cabelos pretos se aproximando e n�o sabia se devia ficar feliz por finalmente sair dali ou desesperada por ter quase certeza que ia ganhar uma deten��o no meu primeiro dia. Quem sabe se eu continuasse me perdendo eles me expulsassem e eu pudesse voltar a estudar em casa. Mas n�o era um professor. O garoto que estava com Th�o na hora do almo�o parecia ter surgido ali por teletransporte, sendo que suas part�culas tinham se reconstitu�do com velocidade absurdamente alta. Ou ele tinha pulado o muro. Ele me olhou assustado, mas pareceu fazer um reconhecimento r�pido de que eu n�o era um professor.

-Ah, � voc�. A garota do almo�o.

Eu fiquei tentando ler o tom na voz dele. Desprezo, surpresa ou tinha sido s� uma observa��o? E qual era o nome do cara mesmo? Joey, George? Era algo menos bobo n�o era?

-Pois �. - achei melhor n�o usar nenhum vocativo fora 'voc�'.

-T� fazendo o que aqui?

-Eu... me perdi procurando a sa�da.

-Ah. - ele n�o riu, diferente de todas as pessoas que eu j� tinha conhecido at� o presente momento � Eu tava indo pra l�, me siga antes que v� parar na sala de seguran�a.

Parecia ter sido uma piada, mas conhecendo bem o meu senso de dire��o era bem plaus�vel.

 Obrigada. O que voc� tava fazendo aqui? - eu estava apenas tentando manter contato, e percebi tarde demais que aquela pergunta poderia ser considerado invasiva.

 Quando eu saio mais cedo volto por aqui pra que eles me vejam saindo em hor�rio normal.

O tom dele era t�o indiferente que eu duvidava muito que ele achasse que eu contaria pra algu�m. Afinal de contas, se eu contasse seria admitir que estava passeando no p�tio dos professores.

-Ah.

-Mas voc� n�o deve ter ficado perdida por muito tempo. O teste das l�deres de torcida acabou faz cinco minutos. Foi o que Th�o disse, pelo menos.

-Eu sai nos primeiros dez minutos.

-Ent�o voc� devia estar come�ando a achar que nunca mais sairia daqui.

-Na verdade eu tinha certeza que nunca mais sairia daqui.

Em menos de um minuto n�s est�vamos na sa�da. E eu estava t�o concentrada em n�o fazer nenhuma piada idiota que n�o tinha a m�nima id�ia que caminho n�s t�nhamos seguido.

-Acha que consegue achar o caminho pra sua casa?

-Duvido muito. Mas imagino que o taxista consiga.

-Mora longe?

-N�o, mas como eu j� estou atrasada talvez seja melhor ir de carro pra n�o se preocuparem. E como eu disse, eu n�o acharia o caminho.

-Provavelmente est� certa. At� amanh�.

-At�.

Ele deu as costas e saiu andando. Eu consegui chamar o segundo t�xi que passou por mim e ele seguiu assim que eu lhe dei o endere�o. Comecei a fazer o balan�o do dia. Ent�o, todas aquelas hist�rias que eu tinha visto nos filmes que primeiros dias eram ruins tinha se mostrado falsas. Primeiros dias eram p�ssimos, horrorosos, imposs�veis. Minha prima, que tinha se criado praticamente como minha irm�, tinha contrariado tudo que ela parecia acreditar. Tinha sido aceita como l�der de torcida! Ela que nem sabia dar uma estrela corretamente. Eu poderia dizer que tinha feito um amigo. O Th�o tinha me ajudado um monte, e n�o teria me levado para o gin�sio se soubesse que eu ia ficar daquele jeito. Ele era definitivamente prestativo, e se eu tivesse ainda mais distra�da que o normal poderia ter achado que ele realmente gostava de mim. Mas sei l�, ele olhava para as l�deres de torcida com tanta idolatria que eu tinha quase certeza de que ele s� tinha se tornado um intelectual depois de ter tentado ser atleta. Dificilmente o tipo de pessoa com quem eu teria muitos pontos de vista em comum. Se tudo isso ainda n�o fosse o bastante, eu tinha sido interrogada por uma editora de jornal fofoqueira e o professor de f�sica estava excessivamente animado para conhecer minha m�e. E tinha o cara que tinha me ajudado a achar a sa�da. Eu n�o tinha conseguido ler nada nele. Ele parecia absolutamente indiferente a tudo e a todos. O carro parou e eu paguei o taxista sem exigir troco. Abri a porta da frente da casa e entrei procurando por todos. Na cozinha, a geladeira estava cheia de bilhetinhos.

Numa letra caprichada, num bilhetinho alaranjado : � Fomos ao sal�o. Mel e Maggie�. Em alguns rabiscos praticamente ileg�veis: �Volto s� � noite. Zach�. E numa caligrafia arrendondada: � Fui as compras com a Holly, volto ao anoitecer. Mih�.

Ent�o al�m de ter tido um dia p�ssimo na escola todos menos eu pareciam ter planos super empolgantes. Por mais que eu adorasse ficar mofando no meu sof�, eu n�o ia dar essa satisfa��o � ningu�m. Peguei um dos bloquinhos que estavam em cima da geladeira e escrevi: �Volto no fim da tarde. Mad�. Eu devia ter dito aonde iria pra n�o preocupar minha m�e, mas tinha o pequeno problema de que eu n�o fazia a menor id�ia. Subi at� o mercado pra trocar o uniforme por umas roupas b�sicas e pegar minha bolsa. Em dois minutos eu j� estava na cal�ada em frente � casa. Eu sabia que havia muitas lojas ali por perto, ent�o resolvi seguir sem rumo pelo lado direito. A cidade era muito movimentada, havia vitrines lotadas com roupas de marca, caf�s conchegantes, e pr�dios de escrit�rios que deveriam ter profissionais de absolutamente todas as �reas executivas. Eu acabei entrando num beco que parecia ter parado no tempo. As vitrines ainda tinham os letreiros originais. Acabei entrando em uma com o letreiro t�o gasto que eu n�o poderia saber do que era. Mas o livro surrado na vitrine me convenceu. Era minha vers�o particular do para�so. O cheiro de caf� feito na hora perfumava o ar, e em todos os lados havia prateleiras com livros antigos. Num canto havia a cafeteria e algumas mesinhas velhas de madeira. Outra pessoa poderia achar que o lugar era mal cuidado, mas eu tinha certeza que ele era daquele jeito propositalmente, mantendo aquela atmosfera aconchegante. Me lembrava um pouco a biblioteca do castelo, s� que em menor escala. Eu senti um aperto pela saudade de casa e de uma vida sem tantos padr�es sociais. Eu estava lendo o card�pio dos caf�s na parede quando algu�m chamou pelo meu nome. Eu quase dei um pulo com o susto. Olhei para os lados e encontrei os dois colegas que eu tinha visto mais vezes no dia hoje. N�s parec�amos estar se topando demais. Eu entreouvi o que os dois sussurraram.

-Voc� convidou ela? - o garoto que eu tinha esquecido o nome perguntou.

-N�o, eu juro. - Th�o respondeu.

Eles n�o tinham id�ia de como isso fazia eu me sentir bem-vinda. Mas era tarde demais pra dar meia volta.

-Oi. - eu me sentei com eles.

-Que coincid�ncia voc� tamb�m gostar daqui. - Th�o me disse sorrindo.

-Na verdade eu n�o conhecia esse lugar, eu fui dar uma volta e acabei parando aqui.

-Voc� sempre acaba nos lugares mais estranhos. - o outro me disse.

-E voc� sempre me encontra neles. - era uma piada e eu estava torcendo pra que ele n�o me fuzilasse com os olhos. Mas ele n�o pareceu se importar. Era aquela indiferen�a imposs�vel de ler. Mas o Th�o achou gra�a.

-Ela te pegou com essa, James. - James! O Th�o estava me ajudando demais hoje, eu sabia que eventualmente teria que chamar o cara pelo nome.

Uma gar�onete se aproximou da nossa mesa. Para qualquer um que se importasse menos com isso o uniforme dela n�o seria uma alus�o perfeita � Dorothy em o M�gico de Oz. Mas pra mim era.

-Quer alguma coisa, senhora?

Senhora? Ou eu estava muito acabada ou tinha cara de estar casada. Fiquei com a hip�tese da gar�onete ter esquecido seus �culos em casa.

-Um caf� preto puro e com creme, por favor.

Eles tinham sabores demais, e eu n�o estava em condi��es de cuspir tudo de volta na x�cara caso n�o gostasse do que pedisse, ent�o fiquei com o tradicional.

-E pode trazer mais caf�s para n�s, por favor. - Th�o pediu.

Eu ouvi risadinhas na mesa ao lado. Duas garotas, com o uniforme do McGregor Institute, estavam com as cabe�as juntas atr�s de um livro cochichando, e de vez em quando davam olhares de esguelha para os garotos da minha mesa. Eu tinha absoluta certeza de que elas n�o estavam lendo um livro de 500 p�ginas em latim.

A gar�onete voltou com nossos caf�s, saindo fuma�a de t�o quentes e colocou � nossa frente. Eu teria de esperar um pouco pra poder tomar.

-N�s dev�amos pegar alguns livros � Th�o se dirigiu ao amigo � Madeline n�o conhece a sele��o.

-Claro. Algum em especial? - James me perguntou.

-O que voc�s recomendarem. - eu sorri agradecendo.

Os dois se levantaram e as duas garotas da mesa ao lado explodiram em risadinhas. Elas deviam estar um ano abaixo do meu, mas pareciam infantis demais pra isso. Elas come�aram a cochichar, mas n�o baixo o bastante para que eu n�o pudesse ouvir.

-Th�o � t�o alto e... Lindo. - uma das garotas, baixinha e de cabelos enrolados, suspirou.

-E o James... Voc� viu o bra�o dele? - a outra, que tinha cabelos loiros escorridos, falou em tom hist�rico.

Ok, eu tenho que admitir, esses coment�rios pediam por uma risadinha hist�rica da minha parte. Mas eu me segurei.

-Ser� que eles v�o querer ir com a gente? - a baixinha perguntou.

-Eu espero que sim. Al�m do que, a Holly disse que nos ajudaria, eles n�o v�o poder dizer n�o. - a loira respondeu.

Holly... N�O. Elas n�o podia estar falando daquela Holly, Eu estava prestes a largar meu caf� e sair correndo, mas nesse mesmo instante um mar de cabelos loiros passou pela vitrine e Th�o e James voltaram pra mesa. Tarde demais.

-Aqui est�, um dos melhores que eles tem. - Th�o me entregou com aquele sorriso de sempre.

-Ob... Obrigada. - minha voz estava tr�mula e eu tinha certeza que deveria estar mais p�lida que o normal. Eu beberiquei meu caf� pra disfar�ar, mas mesmo assim James me olhou desconfiado.

O sino da porta tocou e a rainha do McGregor Institute adentrou o recinto. Eu n�o podia pensar em ningu�m que parecesse mais inadequado naquele lugar, nem mesmo as garotinhas bobas da mesa ao lado. Pra deixar minha situa��o ainda melhor e empolgante, Mischa estava com ela. Ela n�o parecia inadequada ali pra mim, mas para os outros deveria ser tanto quanto a Holly. Eu baixei os cabelos no rosto, mas eu tinha certeza que ela tinha me visto. Th�o entendeu imediatamente o meu desconforto, mas n�o trocou um olhar de entendimento comigo. Ele n�o conseguia desgrudar os olhos da Mih. Eu olhei de relance, e ela parecia estar tentando ignor�-lo, sem muito sucesso. James, como j� estava se tornando um costume, parecia completamente indiferente. Isso meio que me incomodava. Holly e Mischa juntaram-se as garotinhas, e a de cabelos enrolados come�ou a cochichar um monte de coisas no ouvido de Holly. Eu n�o consegui escutar. Estava t�o nervosa, que quando notei j� tinha terminado meu caf�. Eu devia ter tomado muito r�pido, tentando evitar conversa. Coloquei a x�cara de lado e abri o livro que os dois tinham me trazido. Nem olhei qual era o t�tulo. Os dois garotos pareciam ignorar as garotas na mesa ao lado, e apenas de vez em quando faziam algum coment�rio sobre o que estavam lendo. Nada que exigisse mais do que um 'Pois �' da minha parte. Eu vi Holly se levantando e senti um calafrio pelas costas. Ela veio at� nossa mesa. E sentou-se. �timo, o que mais agora.

-Ol� Theodore, James. - ela cumprimentou os dois com uma voz sedutora. Ela me ignorou completamente, dificilmente sabia quem eu era. E aposto que s� sabia o nome dos dois porque as garotinhas tinham acabado de lhe dizer.

-Hey. - s� Th�o lhe respondeu.

-Ent�o... Susan e Mary gostariam de lhes perguntar uma coisa sobre o baile. Aposto que voc�s j� sabem o que �. E a menos que j� tenham convidado outras garotas voc�s n�o tem desculpa. E esse baile � obrigat�rio, voc�s sabem.

Eu fiquei extremamente surpresa com isso. Um baile obrigat�rio? Que tipo de piada doentia era essa? Eu tamb�m estava chocada com o jeito manipulador com que Holly falava com eles.

-Na verdade... - Th�o come�ou a responder � Eu ia chamar uma garota do nosso ano. - ele parecia sincero demais para uma desculpa espont�nea.

-Ah, mas j� � tarde. Todas j� est�o ocupadas. E voc� n�o vai encontrar ningu�m melhor que a Mary. Vou cham�-las aqui.

E ela se levantou com gra�a, indo chamar as garotas. Th�o parecia... aterrorizado. Nem um pouco ansioso em ir ao baile com a Mary. Que devia ser a de cabelos enrolados. Mas aposto que ele n�o sabia. As duas meninas se aproximaram da mesa, mas n�o se sentaram, j� que s� havia um cadeira sobrando.

-Ol� Th�o... - Mary o cumprimentou � Ser� que... voc� iria comigo ao baile da semana que vem? - ela sorriu, mostrando os dentes.

-Claro, Mary. - ele sorriu para ela, se esfor�ando o m�ximo para parecer sincero.

-Ah, que �timo! - Mary o abra�ou pelos ombros e lhe deu um beijo na bochecha.

Ele sorriu, mas o seu olhar estava em Mischa. Eu tinha certeza de que ele estava se perguntando com quem ela iria ao baile. Na verdade eu tamb�m estava. Ent�o Susan come�ou a falar. Eu estava imaginando como James iria responder. Ele n�o era nem de perto t�o simp�tico quanto o Th�o.

-Ent�o, James... Voc� poderia ir ao baile comigo n�o �?

-Sinto muito. Eu j� vou com algu�m do nosso ano. - Ele devia estar blefando, j� que a Holly tinha nos assegurado que todas as garotas j� tinham com quem ir.

- N�o vai n�o. Holly entrevistou todas as garotas depois do treino das l�deres de torcida e nenhuma delas disse que ia com voc�. - ela estava indignada que ele estivesse � tentando enganar quando ela, provavelmente, tinha decorado o nome de todas as garotas e seus pares. Na verdade eu tamb�m n�o entendia aonde ele estava querendo chegar.

- Voc� esqueceu que nem todas as garotas estavam no treino.

- Ahn? - foi a resposta dela. Na verdade era mais ou menos o que se passou pela minha cabe�a tamb�m. - Ah. - e seu rosto se transformou em compreens�o.

Eu continuava sem entender at� que senti um toque no meu ombro. E da� a compreens�o se espalhou pelo meu rosto tamb�m. Ele sabia que eu n�o estivera no treino das l�deres de torcida e sabia pela minha cara quando eu ouvi que o baile era obrigat�rio que eu n�o estava nem um pouco a fim de ir e que provavelmente n�o iria. Eu era a desculpa perfeita. Que �timo, era tudo que eu precisava para fechar o dia com chave de ouro.

-Ent�o... Tudo bem. - Susan deu as costas, e parecia estar a beira de um ataque de l�grimas. Eu tinha quase certeza de que minha cara n�o estava muito diferente. S� que pelo motivo contr�rio. Ela n�o poderia ir ao baile porque n�o tinha par. E eu seria obrigada a ir porque tinha. N�o podia nem fingir que estava triste e desprezada demais pra ir ao baile sozinha. Eu examinei o rosto das garotas na mesa ao lado. Elas estavam incr�dulas, e por motivos diferentes. Holly ou porque tinha esquecido de entrevistar a aluna nova ou porque duvidava que em um dia ela teria par. Mary estava decepcionada com a abelha-rainha e parecia triste pela amiga. Mas ela provavelmente ainda dava pulinhos de alegria por dentro, j� que iria com Th�o. E Mischa simplesmente n�o entendia como que eu, justamente eu, tinha arranjado um par para um baile da escola, em um dia de aula, sem a ajuda de uma l�der de torcida influente. E na verdade eu concordava com ela. S� que eu n�o queria um par e j� come�ava a bolar na minha cabe�a que doen�a tropical contagiosa eu iria contrair. Os garotos pagaram a conta, inclusive a minha parte, e se ofereceram para me acompanhar at� em casa. Acho que eles imaginaram que era perto demais e que eu nunca encontraria o caminho sozinha. Eu lhes disse o endere�o e eles foram me guiando. Mas n�s n�o conversamos. Nem sobre o fato de um deles ter, aparentemente, alegado ir ao baile comigo sem nem ao menos me pedir. E ele n�o pediu. Eles se despediram de mim na porta de casa. As luzes j� estavam acesas, e a Mih j� devia ter chego de t�xi. E minha cabe�a estava girando. Eu entrei em casa e minha m�e gritou pra mim do sof�.

-Filha!

-Oi, m�e. - eu me juntei para abra��-la.

-Voc� parece mal. N�o gostou do seu primeiro dia?

-Pois �.

Ela n�o insistiu. Ela tinha mesmo ido no sal�o. Estava com as unhas vermelhas com pontos pretos, como v�rios morangos. O cabelo tamb�m tinha sido aparado e arrumado. Tia Maggie tamb�m apareceu. Os cabelos estavam enrolados e as unhas de cor alaranjada. As duas provavelmente adorariam ir a um baile de escola. Mas duvido que algum estranho as convidaria apenas como desculpa. Meu pai n�o tinha chego. E eu n�o perguntei dele. Resolvi subir para tomar banho e ver se relaxava um pouco.

Mas eu ouvi algu�m no telefone.

-Nossa, eu imagino, a Susan deve ter ficado p�ssima. Mas n�o se preocupe, amiga, ela n�o vai ousar falar algo de ruim sobre voc� pras outras garotas do ano dela. Afinal, a Mary conseguiu um encontro e seria muito humilhante pra Susan admitir que ela estava junto mas n�o conseguiu. �, eu sei, mas a culpa foi toda daquele garoto. Pois �! Eu nem imagino porque aquela menina n�o estava no treino.

Demorou um pouco at� que eu percebesse que me encontrava parada na metade da escada para o segundo andar. Escutando. Eu estava chocada. A Mih estava fingindo pra Holly que n�o me conhecia. Mas o problema � que a Holly tinha me conhecido tamb�m. S� que n�o lembrava de mim. Mas a Mih j� era sua melhor amiga. Isso era estranho.

-Est� bem. �, eu tamb�m tenho que ir. At� amanh�, amiga!

Eu esperei mais uns trinta segundos antes de anunciar que estava subindo as escadas. Eu dei uma olhada no quarto da Mih, mas ela nem se virou pra mim. Meu quarto estava razoavelmente bagun�ado mas eu n�o me importei. N�o levou muito tempo at� que todas as minhas obriga��es estivessem feitas. E eu adormeci.

Eu tive um sonho estranho comparado ao meu padr�o de sonhos estranhos. Era uma sal�o cheio de gente. De gente dan�ando. Mas eles dan�avam a marcha f�nebre. E a Mih estava num palco, em cima de um caix�o, fazendo uma performance. E todos aplaudiam. Eu acordei assustada. Meu subconsciente estava confirmando que na minha cabe�a baile e morte eram sin�nimos. Ou talvez eu s� fosse louca. Era mais cedo, como eu tinha planejado, assim eu poderia ir andando pra escola. Era com certeza menos torturante do que dividir um t�xi com minha prima. Finalmente aquela hist�ria de que caminhada era saud�vel fazia sentido pra mim. Eu estava com medo de n�o encontrar a escola, mas eu lembrava que n�o havia muitas ruas pra virar no caminho at� l�, ent�o n�o podia ser t�o dif�cil. Eu me despedi da mam�e, a �nica que tinha acordado. Ela parecia bastante preocupada em pensar que eu acabaria na zona pesada da cidade se fosse a p�, ou algo assim. Mas ela deixou. Mais ou menos na metade do caminho eu topei com James e Th�o saindo de uma rua. Eu n�o tinha processado como exatamente os dois podiam ser t�o diferentes e ainda assim amigos. Mas deveria gerar um certo equil�brio, entre a simpatia de um e a imprevisibilidade do outro. Eles ficaram muito surpresos em me ver. Na rua. Eles n�o achavam que eu chegaria na escola sozinha, e pareciam muito surpresos que eu tivesse na metade do caminho sem parecer confusa ou afobada. Eles me cumprimentaram e n�s seguimos juntos. O que foi uma tremenda sorte, porque bem naquele ponto eu n�o tinha a menor id�ia pra onde seguir. Dessa forma, os dois acreditariam que eu n�o era t�o perdida e eu ficaria em seguran�a. N�s acabamos chegando a um combinado de sempre n�s encontrarmos ali. Eu n�o corria risco de acabar jogada numa valeta se pegasse o caminho errado. Talvez hoje n�o fosse ser t�o ruim quanto ontem. Quando n�s est�vamos a uma quadra da escola, um t�xi com duas loiras passou por n�s.

-Eu ainda n�o acredito como elas nos encurralaram ontem. - Th�o reclamou. Eu fiquei muito grata a ele. Os assuntos do dia anterior iam acabar vindo a tona mais cedo ou mais tarde, e n�o queria que fosse eu quem os mencionasse. E tinha certeza que tamb�m n�o podia contar com o monossil�bico James pra isso. Eu tinha acabado de notar que eu era o intermedi�rio dos dois opostos. Desintencionalmente eu parecia ter acabado no lugar certo. No �nico grupo em que eu traria equil�brio, e n�o desordem. Era incr�vel como o Universo tinha trabalhado para que eu acabasse me encaixando. Claro que eu tinha me encaixado no grupo dos desencaixados, se � que isso faz algum sentido, mas eu estava contente. Eu notei que fazia alguns segundos que Th�o tinha proferido seu coment�rio, e ele esperava retorno. Equil�brio, lembra.

-Pois �. Elas sempre fazem isso? Com os alunos, quer dizer? Obrigam eles a fazer o que � melhor pra elas?

-Sim. N�o sempre com a gente. Mas com os outros. Geralmente com as outras garotas.

-Tipo, as que n�o s�o do s�q�ito da rainha?

-O que voc� quis dizer com isso?

Opa. Piadas que ningu�m entende, Mad�.

-Hum, nada. Mas o que elas fazem exatamente?

-Vingam-se. De quem atrapalha seus planos.

-N�o fa�a soar como um filme de terror. - James falou. Mesmo.

-Filme de terror ou n�o, eu estou assustada.

-Voc� acha que elas v�o vir atr�s de voc�? Por causa do que houve na cafeteria?

D�.

-Talvez. Aposto que elas j� incomodaram gente por menos.

-Sim, mas, voc� n�o devia se preocupar tanto com isso. Foi o James que as atrapalhou, n�o voc�.

N�s est�vamos discutindo isso quando chegamos � escola e fomos atr�s dos nossos arm�rios. Eles pelo menos, eu nem imaginava onde o meu ficava. Provavelmente num lugar inacess�vel.

-Mas elas n�o ligam pra homens que atrapalham. Homens s�o manipul�veis e descart�veis. �teis de qualquer forma. Mas aposto que uma garota nova que atrapalha � um prato cheio pra elas.

Th�o n�o disse nada. Minha reflex�o devia ser extremamente confusa. Mas James respondeu. Ele estava falante hoje.

-A menos que voc� esteja planejando seguir carreira como antrop�loga, devia parar de analisar as pessoas e compar�-las com abelhas. Minha aula � aqui. Vejo voc�s depois.

-O que ele quis dizer falando de abelhas?

-Longa hist�ria. Nossa primeira aula � a mesma, n�?

E n�s seguimos juntos. James tinha me confundido. Ele n�o s� tinha conversado conosco, n�o estava matando aula, o que segundo Th�o era a primeira vez no m�s. E tinha entendido minhas cita��es � sociedade das abelhas. Ningu�m nunca entendia minhas cita��es. Muito menos as que envolviam abelhas.

Depois da primeira aula eu s� fui encontr�-los de novo no almo�o. Eles tinham me esperado do lado de fora da sala para garantir que eu encontrasse o refeit�rio. E eles at� pegaram comida. No dia anterior eles s� estavam fumando. N�s fomos os �nicos � sentar na �rea dos fumantes. Mas eles n�o fumaram. Talvez eu estivesse mesmo trazendo equil�brio, pelo menos uma das minhas an�lises antropol�gicas estava fazendo sentido. Quando eu estava quase terminando meu almo�o, e Th�o e James discutiam algum filme de vanguarda, um mar de cabelos escuros e pele clara vieram se sentar conosco. Era Sarah McGregor, a herdeira. A �nica que n�o se encaixaria como abelha. Ela era um dos humanos que cuidava da colm�ia, que s� aparecia para roubar o mel.

-Oi gente.

Claro, cumprimente um bando de gente com quem voc� nunca fala como se fossem seus velhos conhecidos.

-Oi. - eu e Th�o respondemos.

-Ent�o, Madeline, eu tenho um assunto muito importante para tratar com voc�. Ser� que eles podem nos deixar sozinhas?

Th�o e James automaticamente se levantaram. O que fez com que eu arregalasse os olhos, estendesse minha m�e direita pra eles e fizesse minha cara de desamparada.

-Aanhh. - o som aproximado do meu ru�do de desamparo � Como eu vou chegar at� a sala sozinha? - uma maneira adaptada de se dizer ' O QUE VOC�S EST�O FAZENDO ME LARGANDO COM A HUMANA LOUCA???'. Eu esperava que eles soubessem ler nas entrelinhas.

-N�s vamos estar te esperando no corredor. - James respondeu. Ele entendia minhas refer�ncias e adapta��es.

-Madeline, eu ouvi umas coisas � seu respeito. A essa altura voc� j� deve saber que sou eu quem cuido do jornal. Eu sou os olhos e os ouvidos dessa escola. Eu ouvi Holly e algumas das suas amigas discutindo que... Que tinham de lhe ensinar as regras. Que voc� n�o devia desafi�-las. E talvez como aluna nova voc� ainda n�o tenha no��o do que elas s�o capazes. Ent�o, eu tenho uma proposta pra lhe fazer. Junte-se � mim no jornal. � o �nico jeito delas n�o te destru�rem. Voc� vai notar que elas n�o mexem comigo. E n�o � porque eu n�o incomodo, eu incomodo bastante. Ent�o pense com carinho e me d� um retorno no fim da aula. Eu vou estar na sala de editora��o do jornal. Ela me encarou com aqueles olhos claros, exatamente no limite entre o azul e o verde. Ela tinha despejado tanta coisa em cima de mim que eu ainda estava assimilando.

-Tudo bem. Vou pensar.

E ela foi embora. Eu tinha concordado em considerar o que? Algo sobre o jornal. A segunda vez em menos de vinte e quatro horas que minha cabe�a girava desordenadamente. James estava me esperando do lado de fora. Ele n�o perguntou o que Sarah queria.

-Th�o teve de ir, a sala dele � mais longe.

-Ah.

Ainda bem que James n�o era falante. Tinha coisas demais na minha cabe�a, e provavelmente eu s� geraria grunhidos como resposta a qualquer coisa que ele me dissesse. N�s chegamos � sala r�pido.

-N�o se perca. N�s encontramos com voc� na sa�da.

Pelo resto do dia eu pude refletir sobre o que Sarah me dissera. As aulas eram ma�antes o bastante para que meus pensamentos voassem livres. Por que eu escolhera aquelas mat�rias mesmo? Bom, elas definitivamente estavam vindo a calhar agora. Por mais que Sarah tivesse uma fama de fofoqueira incontest�vel, o que ela tinha dito fazia sentido. Comigo no jornal, Holly n�o ousaria nada. Eu retornaria ainda pior. Eu tamb�m podia acabar com ela. Fora que o risco dela molhar a m�o da Sarah pra falar mal de mim no jornal se tornava quase nulo. Se eu me tornasse bra�o direito da Sarah... Tudo seria mais f�cil. Eu n�o ia passar o resto da minha vida escolar fugindo de Holly Bright. Eu teria influ�ncia o bastante para n�o me tornar o alvo preferido dela. Eu n�o precisava ser amiga da Sarah. Ningu�m era. Ser um pouquinho mais civilizada com ela j� me faria melhor que todos os outros. Fora que, eu podia at� tentar incluir algumas mat�rias de conte�do no jornal. Tudo se encaixava. A aula acabou antes do que eu esperava. Th�o e James me encontraram na porta da sala da minha �ltima aula. Era �timo, apesar de que eu nunca teria independ�ncia pra me mexer na escola sozinha. Mas numa escola desse tamanho isso nunca aconteceria mesmo.

-Ah, gente, onde que � o editorial do jornal?

-Voc� vai falar com a Sarah outra vez? - Th�o perguntou assustado.

-Pois �. Ela me convidou pra fazer partem do jornal. E eu realmente gostaria disso, entende? Quem sabe posso at� colocar algumas mat�rias informativas em companhia dos tabl�ides de sempre.

-Ah, tudo bem, a gente te leva at� l�.

-Obrigada!

Claro que eu n�o tinha contado todos os meus motivos para entrar no jornal. Eu os assustaria. Mas como eu tinha notado que James me lia bem melhor do que lia � ele, talvez ele tivesse entendido. Eu bati na porta com o nome do jornal.

-Entra.

-Oi, Sarah... Ent�o... Eu decidi aceitar a oferta.

-Sabia que aceitaria, Madeline. - e ela se levantou pra me abra�ar. Foi estranho. - Te vejo amanh� depois da aula, n�o vou fazer voc� come�ar agora.

-Ah, obrigada... At� amanh�.

-At�.

Os dois me convidaram pra ir at� a cafeteria de novo, mas eu recusei dizendo que tinha de estudar. Eu realmente tinha de estudar. Eles me deixaram em casa, j� que de qualquer forma era caminho pra eles. Eu cheguei em casa muito mais satisfeita do que no dia anterior. Nem liguei que n�o tinha ningu�m em casa. Minha cabe�a girou de novo. Mas de anima��o.

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