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Oasis
Depois de mais alguns minutos de caminhada n�s chegamos ao bosque. Ele n�o tinha exatamente uma entrada, era apenas uma pequena trilha que come�ava entre dois grandes carvalhos. O caminho ali n�o era mais de pedras, mas apenas de terra com muitas plantas em volta. Entramos pela trilha, e a temperatura diminuiu suavemente. O vento esvoa�ou nossos cabelos, o que fez com que n�s duas solt�ssemos grandes exclama��es de frio. Como a trilha era estreita, and�vamos muito juntas para garantir que ningu�m se perderia e tamb�m porque aquilo parecia nos aquecer. Minha prima foi quem quebrou o sil�ncio congelante.

- Ent�o, o que vamos procurar hoje? � ela perguntou, sorrindo.

- N�o sei. � eu respondi distraidamente � Sinto como se j� tiv�ssemos procurado tudo que essa floresta pode ter...

- Voc� quer dizer tudo que est� ao nosso alcance enquanto a trilha ainda � vis�vel.

- Est� sugerindo que nos embrenhemos pela floresta? � perguntei incr�dula.

- E que mal h� nisso? N�s passeamos por aqui desde que t�nhamos idade suficiente para andar, merecemos algum cr�dito...

- Eu sei, mas isso se refere a voc�. Eu me perco at� mesmo na trilha...

- Ora, Madeline! Ainda estamos na manh�! A floresta � cheia de frutas, portanto n�o teremos problema se tivermos fome! E dificilmente ainda estaremos aqui quando escurecer! Vamos, o tio e a tia sa�ram e mam�e est� perdida em suas costuras... Provavelmente voltaremos antes de seus pais!

- Tudo bem ent�o, mas espero que voc� saiba mesmo o caminho. Mam�e nos encheu de recomenda��es e n�o quero pensar o que ela dir� se chegar e ainda n�o tivermos voltado...

- N�o se preocupe, estaremos seguras.

E ela virou para a direita saindo da trilha e indo mais fundo para a floresta. Eu a segui de perto, com medo de me perder. Tentava n�o me assustar, apesar de que cada vez �amos mais para longe da trilha e o lugar ficava mais escuro. S� ouv�amos nossos passos a quebrar galhos e esmagar folhas no ch�o, e os poucos p�ssaros que cantavam com anima��o. N�o conseguia notar nenhuma mudan�a na paisagem, ent�o finalmente me preocupei o bastante para fazer a pergunta.

- Voc� tem id�ia pra onde est� indo?

- Claro que tenho! Estamos vendo a maravilha de nossa floresta! � ela me respondeu confiante.

- Bom, j� faz alguns minutos que eu n�o noto diferen�a nessa maravilha... - Est� sugerindo que eu me perdi?

- Voc� que est� falando.

- Mad�! As florestas tendem a ser parecidas, quer dizer s� h� �rvores nelas! Mas se voc� olhar com aten��o vai ver que as �rvores t�m mudado...

- Ainda acho que seria melhor voltarmos a trilha.

- Pare de ter medo, est� bem? J� andamos bastante, e vamos parar assim que encontrarmos uma regi�o mais aberta e com algumas frutas...

- Se encontrarmos.

Ela n�o me respondeu, mas eu podia ver que por mais que quisesse confiar que estava na dire��o certa, n�o parecia acreditar realmente no que me dissera. O p�nico parecia querer me dominar, mas eu ainda o controlava, sabia que assim que me desse por vencida n�s ter�amos problemas ainda maiores. O mesmo pensamento parecia cruzar a face de minha prima. N�s continuamos a andar, silenciosas, com aquela linha de tens�o entre n�s que se recusava a ser quebrada. Ent�o ouvimos um som diferente.

- �gua! � exclamamos em un�ssono.

Respiramos fundo de al�vio, enquanto tent�vamos descobrir de que lado vinha o som.

Percebemos que a nossa direita a claridade parecia aumentar gradativamente, trocamos ent�o olhares animados.

- Vamos por aqui! � minha prima apontou confiante.

Caminh�vamos r�pido na dire��o da �gua e da claridade, mas elas pareciam nunca chegar. Eu j� me sentia pronta para deixar o p�nico voltar e me invadir completamente quando avistamos uma pequena queda d��gua.

- Ali! � eu apontei sorrindo com al�vio.

N�s duas continuamos o caminho correndo, at� que finalmente nos encontr�vamos a beira de uma pequena lagoa. Sentamos juntas em uma pedra larga, e passamos a observar o local. Era mais que s� um lago. Uma clareira vasta, lotada de �rvores frut�feras e dominada completamente pelo sol se estendia por muitos metros. N�s respiramos fundo aquele ar quente, at� que eu finalmente resolvi quebrar o sil�ncio do al�vio.

- Demos muita sorte! Voc� n�o tinha id�ia pra onde estava indo...

- Claro que tinha! Eu imaginei que para este lado haveria alguma vertente do lago e geralmente h� clareiras com elas, voc� sabe...

- N�o minta, voc� est� t�o aliviada quanto eu.

- Que seja. � ela deu de ombros � tem id�ia de que horas s�o?

Eu olhei para meu pulso e notei que esquecera de colocar o rel�gio. Passei ent�o a Encarar o c�u, observando atentamente a posi��o do sol e calculando por quanto tempo hav�amos andado. A segunda parte se mostrou mais dif�cil do que eu esperava, j� que as horas tendem a correr mais devagar quando estamos assustados. Ainda que eu descontasse umas duas horas adicionais relacionadas ao p�nico, dev�amos ter andando pelo menos tr�s horas.

- Algo entre meio-dia e uma hora. � respondi terminando meus c�lculos.

- Ah! Temos sorte que Tia Mel tende a se demorar durante as compras... Vamos poder aproveitar o sol daqui por mais tempo!

- N�o se anime tanto, sabe-se l� quanto tempo demoraremos para achar a trilha de novo! � eu retruquei preocupada.

- N�o importa, ainda � cedo. Vamos descansar um pouco.

Ela se levantou da pedra e dirigiu-se a um monte de folhas secas. Largou a jaqueta em um canto e deitou-se nas folhas, fechando os olhos e sentindo o sol. Eu me levantei tamb�m, me desequilibrando e por pouco n�o ca� no lago. Ela n�o notou minha proeza, pois mantinha os olhos bem fechados. Larguei meu casaco na pedra e me deitei tamb�m no monte de folhas secas. Ali era bem mais quente do que no resto da floresta, e eu poderia dormir ali, n�o fossem os protestos de meu est�mago depois de uns dez minutos de descanso.

- Ah, estou com fome! � eu me rendi finalmente.

- Hum. � ela respondeu abrindo os olhos � Vamos procurar alguma coisa, tem muitas �rvores por aqui...

Ela se levantou e ent�o me ajudou a deixar o ch�o. Logo circund�vamos a clareira catando grande n�mero de frutas e as colocando em nossos casacos, com que hav�amos improvisado um pequeno saco. Voltamos as folhas e nos sentamos, estendo os casacos � nossa frente. Peguei um pequeno canivete que costumava carregar no bolso e me entreti cortando frutas de todos os tamanhos e sabores. Logo parec�amos duas crian�as em um piquenique, a rir e se sujar.

- Porque ser� que eles nunca nos trouxeram aqui? � eu perguntei entre uma mordida e outra.

- N�o sei... � ela me respondeu pensativa � Mam�e provavelmente nunca veio aqui, mas o tio conhece esses caminhos melhor do que qualquer um...

- Foi o que pensei. Quer dizer, ele conhece o castelo e toda a propriedade em geral muito bem, e nunca nos leva para conhecer novos lugares! Ele sabe que j� nos cansamos de fazer sempre a mesma coisa, mas s� sugere o lago, o bosque e a biblioteca quando perguntamos o que fazer. Aposto que al�m desse aqui h� muitos outros lugares interessantes pela regi�o, mas eles insistem em nos criar longe de todo o mundo.

- Voc� quer dizer que gostaria de ir ao centro?

- N�o, n�o ao centro. Voc� sabe que o que eles chamam de �a cidade� quando saem � s� essa pequena vila que fica a quil�metros daqui!

- �, eu sei... Voc� acha que est� na hora de nos revoltarmos por eles n�o nos terem mostrado �o mundo�?

- N�o, n�o � isso que quero dizer. Eles n�o precisavam ter nos mostrado, s� podiam esconder menos...

- Mas eles sempre nos deram acesso a todas as tecnologias e aos livros, o que n�o nos deixou sermos ignorantes, n�o �?

- Acho que sim. Mas parece que tem algo que eles escondem... Mam�e nunca me disse como ela e papai se conheceram! E papai quase nunca sai daqui! E por que ser� que algu�m como ela concordou em vir morar no meio do nada, s� com o marido e a cunhada?

- Bom, voc� sabe que ela gosta do tio. E � meio dif�cil algu�m que se recuse a morar num castelo...

- Talvez. Mas nos dias de hoje? Por que ela n�o o fez vender a propriedade e compraram uma casa na cidade? Viveriam muito bem, e mam�e iria adorar! Voc� sabe como ela ama sair e conhecer pessoas...

- �, mas n�o sei, o amor deve mudar opini�es.

- Ainda assim nossa propriedade parece um lugar mais adequado para se passar os ver�es e n�o a vida... E se um dia resolvermos sair, como o pai e a tia, como vamos nos relacionar com as pessoas? N�s j� lemos sobre isso, mas nunca vivenciamos... Eles esperam que fa�amos amigos? E quando nos perguntarem � que escola fomos vamos responder que fomos educadas em casa, num castelo no meio do nada para ser mais espec�fica, e que aprendemos tudo por conta? N�s j� temos personalidades peculiares o bastante sem adicionar esses detalhes.

- Ent�o o seu medo � que sejamos julgadas quando sairmos daqui?

- �, tamb�m. E que n�o consigamos nos dar bem na vida, e acabamos presas aqui como sua m�e meu pai...

- Nossos pais n�o se deram bem na vida porque n�o quiseram, eles n�o precisam disso! Eles perceberam que tinham tudo aqui e que n�o valia a pena abandonar!

- Mas e quanto a n�s? Eles nunca pensaram que n�s poder�amos n�o ter tudo aqui?

- Eles tentaram fazer com que tiv�ssemos.

- N�s moramos no interior, no meio do nada. Eles sempre souberam que isso seria imposs�vel...

- De qualquer forma eles devem ter achado que isso era o melhor. N�o h� muito que podemos fazer.

N�s raramente t�nhamos conversas t�o s�rias. Fal�vamos do cotidiano, e dos mais variados assuntos do mundo, mas raramente nossas pr�prias vidas eram colocadas como t�pico de conversa. Mas acho que ela entendeu que a minha indigna��o fora fruto dos mist�rios que a ida a cidade do papai trouxera. Por mais que ele perguntasse se quer�amos ir, sempre sab�amos que n�o era para ouvir as suas pr�prias discuss�es, mas apenas para passear por aquele vilarejo calmo e sem gra�a. Papai j� fora � cidade verdadeira, aquela que os filmes sempre retratavam. Mas para essa n�s nunca �ramos convidadas. Nem a mam�e ele levava. E o fato de que, al�m disso, ele nos privava de conhecer as belezas de nossa pr�pria casa, como aquele o�sis em que nos encontr�vamos, era bastante perturbador. Eu e Mischa terminamos de almo�ar aquelas frutas saborosas, e passamos mais algum tempo deitadas aproveitando o calor e o sol, t�o escassos naquela �poca do ano. Finalmente percebemos que j� passara algum tempo e que poder�amos demorar em voltar ao castelo. Eu me sentei nas folhas e me dirigi a ela.

- Acho que j� devemos voltar. Voc� sabe o caminho?

- Claro que sei. Eu memorizei como chegamos aqui.

Eu revirei os olhos e ela continuou.

- Eu prestei bastante aten��o, ok? Sabia que �amos acabar tendo que voltar sem chegar a lugar nenhum, e no fim chegamos aqui ent�o n�o h� com o que se preocupar.

- Ent�o vamos logo, j� deve ser umas tr�s horas, e dependendo do quanto n�s demoremos para chegar ao castelo, papai e mam�e j� v�o estar l�!

- Est� bem. � ela se levantou � Vamos!

Eu me levantei tamb�m, e logo n�s nos embrenhamos na floresta. Depois de deixar aquela claridade extrema, a escurid�o parecia ainda maior. O frio tamb�m aumentava, e por mais que Mischa apre�asse para que e cheg�ssemos logo a trilha, o tempo passava r�pido e a dist�ncia parecia n�o diminuir. Eu andava com as m�os nos bolsos, e o casaco fechado at� o ultimo bot�o, mas o vento ainda incomodava. N�s duas estar�amos correndo, n�o fosse o caminho fechado pelo qual and�vamos, que fez com que eu ca�sse algumas vezes. N�o havia tempo de tirar as folhas e galhos que se prendiam a nossas roupas e cabelos, o que me fez perceber que fic�vamos cada vez mais sujas. Depois de duas horas e meia de caminhada, aproximadamente, n�s avistamos a trilha.

- Gra�as a Deus, voc� encontrou!

- Eu disse que sabia como voltar, voc� n�o acreditou?

- Claro que acreditei! � eu deixei a ironia bem clara na voz, o que fez com que n�s duas r�ssemos enquanto apres�vamos o passo at� a trilha.

Logo encar�vamos a trilha estreita, com aquela terra seca que deixava-nos cada vez mais sujas. Mais animadas, passamos a andar um pouco mais devagar e a voltar a conversar normalmente.

- Ser� que mam�e e papai j� est�o chegando? � eu perguntei, imaginando qu�o perto do horizonte o sol j� estaria.

- N�o sei... Acho que temos pelo menos mais uma hora para chegarmos at� o castelo. � ela me respondeu.

- Uma hora? N�o sei se notou, mas n�s estamos imundas! - Eu encarei minhas pr�prias roupas e ela fez o mesmo com as dela. � Vamos demorar alguns minutos s� para ficarmos decentes de novo!

- Tem raz�o, com exce��o da parte dos decentes.

- Que horror, Mih! � eu revirei os olhos � Vamos ao menos aparentar estar decentes est� bem?

- Assim est� melhor. � ela riu � Ser� que eles nos trouxeram lembran�inhas? - Voc� s� pensa nisso, n� sua interesseira? � eu ri.

- Na verdade n�o, mas n�s fomos criadas esperando presente todas as vezes que os mais velhos saiam!

- Ah, isso � verdade. Mam�e sempre escolhe as coisas mais bonitas!

- Todas as coisas bonitas que se pode achar numa vila daquele tamanho � ela riu pensativa.

- Ah, os vendedores devem ficar radiantes quando mam�e vai a vila! Ela costuma comprar o que h� de mais bonitos e mais novo!

- E mais caro.

- Pois �. Olha, j� da pra ver o castelo!

- Ainda bem, vamos ter pelo menos uma hora pra parecer que chegamos cedo ao castelo e nos comportamos direitinho.

- Mas foi isso que fizemos.

- Claro que foi.

N�s corremos para deixar o bosque, e chegamos rapidamente a trilha de pedras que levava do jardim ao castelo. A fonte espalhava a �gua nas plantas, que pareciam muito bem, considerando a �poca do ano. Papai amava cuidar do jardim, e fazia isso sozinho, n�o se sabe como. N�s admiramos as folhas secas que davam encanto a paisagem, enquanto caminh�vamos pelas pedras. Chegamos a entrada do castelo, e subimos a escadas correndo, diminuindo o passo apenas enquanto est�vamos no terceiro andar, para que Tia Maggie n�o notasse que hav�amos chegado t�o tarde. Felizmente ela n�o nos escutou, e fomos calmamente para nossos quartos, se aprontar para que mam�e e papai chegassem. Tomei um banho r�pido, secando de leve os cabelos para parecer que o fizera j� fazia algum tempo. Coloquei uma cal�a jeans bem simples, e uma blusa de l� azul. Arrumei os cabelos, havia tido problemas para lav�-los devido � infinidade de folhas que haviam se grudado a eles durante a caminhada no bosque. Calcei meus t�nis, e logo eu e Mischa j� corr�amos at� a biblioteca, para que parecesse que est�vamos l� desde depois do almo�o. Quase como se tiv�ssemos cronometrado o tempo, ouvimos os sons de pessoas na sala. Minha m�e adentrou a biblioteca, e eu e Mischa baixamos os livros que hav�amos escolhido aleatoriamente para parecer que est�vamos lendo h� bastante tempo.

Ol�, meninas. � ela nos cumprimentou, muito mais s�ria do que era seu costume, e n�s acenamos. � Zachary quer que voc�s des�am para a sala, n�s precisamos conversar com voc�s e com sua tia, vou estar esperando voc�s l�.

N�s esperamos que ela desse as costas, e n�s entreolhamos. O olhar significativo deixou claro que n�o t�nhamos id�ia do que se tratava, mas era s�rio sem d�vida. Deixamos nossa poltrona e fomos andando devagar em dire��o � sala.

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