I | II | III | IV | V | VI | VII
A Dona Os preparativos para a nossa entrada no McGregor Institute correram bem. Quer dizer, t�o bem quanto poderiam correr. Mischa estava muito animada. Era nauseante, quer dizer, em uma noite ela j� era a melhor amiga do perfeito estere�tipo de l�der de torcida. Eu n�o falei mais com ela. Com a Mih, quer dizer. Claro, eu dava bom dia pra ela e sorria quando ela contava uma piada. N�o que as piadas dela fossem brilhantemente engra�adas, mas eu tentava ser educada. Mas ela n�o parecia estar se esfor�ando muito para fazer o mesmo. Quer dizer, ela n�o sorria quando eu contava uma piada. Mas o pior � que ela achava engra�ado, dava pra ver. A gente nota quando algu�m que se conheceu a vida toda est� escondendo alguma coisa. Nem que seja um sorriso. E eu n�o sou exatamente brilhante em fazer as pessoas rirem, bom, n�o intencionalmente pelo menos. Tombos e desastres n�o contam. Ah, mas a Mih andava rindo bastante. Ela passava no m�nimo tr�s horas com Holly Bright no telefone. E dava risadas escandalosas, e notavelmente falsas. Mas eu n�o acho que a Holly notaria, ela n�o parecia ser muito brilhante. N�o que eu estivesse entreouvindo as conversas da Mih, mas... Quer dizer, intencionalmente. Mas todas as vezes que ela dizia alguma coisa com aquela grande dose de ironia, parecia passar por um minuto de constrangimento em seguida, e acabava com um ��, deixe�. Talvez a Mih fosse vazia o bastante para ficar discutindo produtos pra cabelo no telefone, mas ela n�o era est�pida. Ou n�o costumava ser quando a gente se falava. O que parecia ser h� muito tempo. Outro fato engra�ado que eu captei quando ouvi as conversas da Mih com a Holly foi � confian�a que minha prima tinha em se tornar l�der de torcida. Ah, francamente. Ela n�o era uma pessoa muito experiente nessa �rea. Mas parecia que a Bright a encorajava, que a vaga dela estava garantida. S� que eu imaginava que isso n�o se devesse as habilidades f�sicas de Mischa. Mas sim ao seu status de amea�a.Eu podia n�o ter visto Holly no seu territ�rio, a escola quero dizer, mas ela tinha todas as caracter�sticas que a Abelha Rainha devia ter. Porque ela era a Abelha Rainha. Eu apostaria nisso. Quer dizer, talvez n�o. Mas tinha quase certeza. Quase certeza � um p�ssimo termo, quer dizer, ou voc� tem certeza ou n�o tem. Mas eu tinha quase certeza, na falta de uma explica��o melhor. Sabe como �, quando voc� tem certeza de alguma coisa, mas tem medo de que tenha se enganado e passe por idiota. Enfim, eu n�o tinha certeza, eu supunha que Holly era a Abelha Rainha do McGregor Institute. E claro, ela se passava por bobinha, mas garanto que era boa em uma competi��o. Era l�der de torcida, pelo amor de Deus. E ela sabia do ditado. Mantenha seus amigos por perto e os inimigos mais ainda. E eu tinha a impress�o que no mundo da popularidade a linha que separa a amizade e a inimizade � bem t�nue. Sua melhor amiga � sua pior inimiga, pois � ela quem est� mais perto pra te roubar o trono. E ainda assim voc� prefere mant�-la por perto pra ter uma sensa��o de controle. E pra ser mais f�cil se voc� precisar derrub�-la. O fato � que aqueles com que ningu�m se importa s�o derrubados diariamente, ent�o se voc� o faz � s� uma coisa de rotina. Mas se voc� traz pra baixo um l�der, voc� assume a lideran�a. E n�o s� em termos escolares, � o que rege o universo. E n�o tem regido muito bem, mas quem � que vai explicar pro povo que a terra n�o � plana. Afinal � o que todo mundo acredita, e vai continuar acreditando, at� que algum idiota resolva contar a verdade. �Ei, a Terra � redonda!�. E da� depende, vai passar por rid�culo, ser queimado ou sei l�. Bom, nos dias de hoje o queimado seria metaforicamente, eu espero. Claro que vai ser ovacionado anos depois da sua morte, como sempre, e essa � outra Lei Mor. Mas eu realmente esperava por um revolucion�rio que fosse contar pros l�deres mundiais e pras abelhas rainhas que n�o � assim que o mundo funciona. E ser queimado, mas sei l� n�, algum masoquista podia se voluntariar.
Por sinal eu nunca entendi o termo �abelha-rainha�, ta certo que a sociedade das abelhas pode ser violenta, mas at� que � organizada. S� que pensando bem a sociedade escolar e a das abelhas � muito parecida. Voc� nasce oper�ria e pode se tornar dama da rainha um dia. Ah, mas as abelhas rainhas nascem no topo. Bom, n�o nascem como rainhas, mas j� nascem com aquele qu� de grandeza. E da� � s� elas vencerem a rainha anterior que elas v�o pro topo. Outra semelhan�a entre a abelha-rainha original e a escolar � que as duas s� usam os homens. Talvez por isso elas consigam governar todo mundo. Elas n�o se apegam. N�o tem escr�pulos pra explorar os menos favorecidos. Como a maioria dos grandes l�deres, tirando aqueles que n�s chegamos a gostar. Os que chegaram no topo de maneira justa, se � que existe tal coisa. Hum, eu come�ava a achar que a denomina��o abelha-rainha fazia sentido. O mais interessante � que quem � grande reconhece seus iguais. Holly Bright me ignorara quase que por completo, pois eu n�o representava uma amea�a. Mas a loira escultural e de olhos verdes, prestes a adentrar o seu reino, essa representava. Imagine se ela tivesse conhecido a Tia Maggie nos tempos de colegial! Se bem que ela ainda passava por uma aluna do colegial, que talvez tivesse repetido alguns anos, mas ainda assim. Pessoas como a Tia Maggie deviam ser aquelas que assombravam os sonhos de pessoas como a Holly. Imagine a surpresa dela ao ver que seu pior pesadelo mandara uma lembran�a para o mundo real, s� para assombr�-la. Holly Bright levou sua lembran�a pessoal pra fazer compras com ela. Sabe como �, escolher uniformes que combinassem com o resto da trupe da rainha. Com a bainha da saia 10 cent�metros acima do permitido. Eu, claro, n�o fui convidada para acompanh�-las. Mas eu n�o acho que iria se tivessem me convidado. S� que eu precisava de uniformes, ent�o mam�e saiu comigo.
Era um daqueles uniformes tradicionais, de saia azul e xadrez e um casaquinho combinando. Mas parecia ser daqueles uniformes cujo objetivo eram ser daquele jeito, mas que voc� podia fazer qualquer modifica��o e n�o se importariam. Tipo ir de saia xadrez e a camiseta da sua banda favorita. Mas eu n�o pretendia me arriscar a isso no primeiro dia de aula. Comprei um uniforme normalzinho, que tia Mag teve que ajustar, pois servia muito estranhamente. E comprei os livros tamb�m, e o material escolar de sempre. O nosso tempo de folga passou extremamente r�pido, e logo j� era a v�spera do meu primeiro dia de aula. Primeiro mesmo, apesar de eu ter visto um monte de filmes a respeito. N�o que eu confiasse em Hollywood, mas com certeza era mais do que eu sabia. Acho que foi da� que eu tirei aquelas id�ias da abelha-rainha... Ou daquele document�rio. O que me irritava � que esses filmes mostravam muito pouco da ral�. Que era com que eu estava preocupada. Mas supondo que eu fosse o contr�rio de uma l�der de torcida e quisesse me manter nesse papel, eu teria que mudar um pouco, pelo menos segundo os filmes. Fazer uma mudan�a de sexo, emagrecer muito, colocar �culos, comprar uma camisa xadrez, cal�as que servissem mal, e caprichar na acne. N�o preciso dizer que isso n�o estava ao meu alcance... Mas agora a o oposto feminino da l�der de torcida, Holly, Abelha Rainha, ou qualquer outro sin�nimo, eu ainda precisaria de �culos, engordar um pouquinho (bem menos do que o que eu precisaria emagrecer para me tornar a primeira op��o), e emprestar camisas floridas da minha av�. Eu n�o conheci minha av�, mas pelas fotos ela n�o era do tipo que usava camisa florida. Descartando as duas primeiras op��es, eu ainda tinha uma terceira razoavelmente aceit�vel. Ser eu mesma, e ser discriminada por isso. Quer dizer, nos filmes sempre dava certo. N�o sei porque eu estava preocupada com a discrimina��o que sofreria, afinal era inevit�vel e eu n�o precisaria me esfor�ar para que acontecesse.
E a humilha��o parecia ser conseq��ncia, ent�o pra que se preocupar, certo? Talvez eu n�o devesse ter usado com�dias adolescentes como meu modelo de vida escolar, pois estavam me dando pesadelos. E deram mesmo, quando eu fui me deitar naquela noite. Tinha sido um jantar normal, Tia Mag me desejara boa sorte porque n�o acordaria no dia seguinte. Mam�e disse que ir�amos de t�xi pra escola. De t�xi. Na verdade a escola era perto, e ela n�o queria que nos atras�ssemos se fossemos a p�. Eu achava que o certo seria o contr�rio, mas n�o estava a fim de discutir os impactos do tr�nsito na vida moderna, naquele momento. Fui dormir super cansada, e acabei com aqueles pesadelos. Algo envolvendo uma l�der de torcida me perseguindo com um pompom que na ponta tinha uma l�mina. E eu dizendo �N�o, eu n�o estava torcendo pro outro time!�. Assustador. Acordei com o despertador guinchando. Lembrete mental: despertadores peludos fazendo barulhos estranhos. E l� fui eu me arrumar e ficar linda e maravilhosa para meu t�o esperado primeiro dia de aula. Aham, com certeza. Tomei banho, e coloquei aquela roupinha esquisita. Felizmente depois dos ajustes da Tia Mag ela servira direitinho. Deixei os cabelos arrumados no normal deles, e terminei de arrumar a mochila que mam�e comprara pra mim. Dei uma ultima olhada no espelho e fiquei feliz em constatar que eu estava apta a passar por invis�vel. Se eu n�o trope�asse ou provocasse algum acidente, o que n�o era algo exatamente com que eu pudesse contar. Desci pra tomar o caf� da manh�, j� conformada com meu destino. Mam�e me abra�ou apertado, animada demais.
- Filha, seu primeiro dia de aula, estou t�o orgulhosa!
- M�e, esse discurso n�o devia ter acontecido quando eu tinha uns seis anos?
- Devia, mas seu pai n�o quis. E no fim foi culpa dele voc� ter que entrar na escola! Ele n�o sabe como �, ele e Maggie n�o freq�entaram a escola, s� eu mesmo...
- E como �? Alguma dica? � perguntei, me servindo com uma x�cara monstruosamente grande de caf� e torcendo que fosse f�cil achar os banheiros na escola.
- �... Curioso. A maquete da sociedade. Voc� vai gostar.
- Ah, claro. Porque voc� sabe como eu amo a sociedade, n�o �?
- N�o se preocupe, filha. Voc� se acostuma.
- Obrigada, m�e. � virei metade da x�cara de caf� de uma vez s�, o que quase fez com que minha camisa branca se tornasse marrom em dois segundos. Eu ainda estava tossindo quando Mischa entrou na cozinha.
- Bom dia, gente! � ela parecia muito animada. Muito mais que eu, pelo menos. E n�o preciso dizer que sua saia era bem mais curta que a minha, e a camisa tinha um la�arote na ponta, para tamb�m encurt�-la.
- Animada, querida? � mam�e perguntou.
- Ah, Tia, voc� nem tem id�ia! Holly me contou tudo, mal posso esperar pra ver com meus pr�prios olhos.
Papai levantou os olhos do jornal pela primeira vez naquela manh�, e me encarou interrogativamente. Eu dei de ombros e ele voltou a ler a trag�dia do dia.
- Fico feliz. Aqui est� o dinheiro pro t�xi. � ela passou uma nota para a minha m�o, enquanto arrancava o jornal das m�os de meu pai e sentava em seu colo. O tipo de cena que traz indigest�o para os filhos durante o caf� da manh�.
- Oks, estou indo. � dei beijos no rosto de meus pais, que nem se importaram com o meu vis�vel constrangimento. Mischa tamb�m se despediu, e logo est�vamos na rua, fazendo sinal para os t�xis. Loiras estonteantes n�o tem problemas para chamar a aten��o, ent�o o segundo t�xi parou para n�s. Eu n�o estava muito animada em passar o trajeto toda com minha prima, naquele sil�ncio, mas pelo menos a escola n�o era longe. Logo paramos na frente de um monstruoso edif�cio, de apar�ncia hist�rica e com um belo bras�o na frente. As escadas estavam cheias de alunos animados, contando as fofocas da noite anterior.
A secret�ria tinha nos dado instru��es pelo telefone para imediatamente irmos at� l� e preparar nossos hor�rios. Eu achei que eu e Mischa ainda seguir�amos juntas at� l�, mas essa impress�o logo passou quando vi Holly Bright levantando-se de um dos degraus da escadaria.
- Mischa! � ela correu para minha prima, com os bra�os abertos, e as duas se abra�aram. Todos os alunos que estavam ali por perto se viraram, para ver quem era a pessoa a quem Holly dedicava tanto afeto. Logo notei que Holly tinha em sua companhia mais umas quatro meninas, e todas encaravam Mischa. Assim que o primeiro abra�o terminou, todas aquelas estranhas come�aram a cumprimentar minha prima como velhas amigas. Eu tinha certeza que Mischa n�o conhecia aquelas outras garotas, mas nem por isso deixou que os observadores daquela reuni�ozinha percebessem. Logo as garotas perderam um pouco da aten��o, e eu me recordei que devia ir direto � secretaria. Como eu imaginei que todo aquele grupo acompanharia minha prima, resolvi ir andando e garantir n�o topar com elas t�o cedo.
A escola era enorme, e apesar dos uniformes era poss�vel notar a grande divis�o de grupos. Eu dei v�rias voltas at� encontrar a secretaria. N�o me sentia exatamente � vontade para sair pedindo informa��o. A secret�ria era uma senhora de aspecto enfadonho, que usava �culos com arma��es enormes, e nenhum p� facial. Ela me deu um formul�rio e me instruiu para preench�-lo, assim que eu me identifiquei como aluna nova. Tinha uns cursos interessantes, e alguns bem comuns, e indicava as mat�rias obrigat�rias. Escolhi algumas coisas aleatoriamente, e outras porque me interessei. Entreguei o formul�rio � secret�ria, e ela fez algumas anota��es numa velha m�quina de escrever. Depois me mostrou um mapa da escola, circulando pontos chaves, como os banheiros, o lugar do almo�o, e os locais dos cursos que eu escolhera. Depois me entregou os hor�rios dos meus cursos, e um manual com as regras da escola.
Eu sa� � procura da minha primeira aula, biologia, e felizmente encontrei a sala. O professor s� me deu boa sorte na escola e prosseguiu sua aula normalmente. As outras aulas foram mais ou menos a mesma coisa, apesar de eu ter me perdido para chegar � aula de c�lculo e uma professora raivosa ter me dado um serm�o sobre hor�rios e boa conduta escolar. Mas a aula mais interessante foi a que antecedeu o almo�o. O professor discursava brilhantemente sobre Shakespeare, e permitia que os alunos opinassem. Um aluno respondeu quase todas as suas perguntas, e adicionava conclus�es surpreendentes. A aula era t�o interessante que eu at� me arrisquei a responder uma das perguntas, e recebi um encorajamento do professor, que me incentivou a aproveitar o que minha nova escola tinha a oferecer. Quase compensou a bronca da professora de c�lculo, e eu fiquei triste quando acabou e eu tive que procurar o local do almo�o. Eu estava com fome, e fiquei feliz quando encontrei, mas a felicidade durou pouco. Todas as mesas pareciam estar tomadas. Tinham um ou dois lugares vagos, mas que j� pareciam estar destinados a algu�m. Eu me coloquei na fila da comida e catei um sandu�che e um refrigerante, e fui procurar outro lugar pra comer. Felizmente andei pouco at� encontrar uma porta de sa�da para o p�tio externo. N�o acho que seria um bom come�o ficar andando com o almo�o pela escola. Encontrei um meio fio em um canto escondido, e me sentei ali para comer meu sandu�che. O lugar tinha um cheiro desagrad�vel de cigarros, mas eu n�o me importei. Levei um susto quando descobri a origem do cheiro.
- Oi. � vi um vulto se aproximar e me cumprimentar.
- Ah, voc� me assustou. � coloquei a m�o no peito como reflexo do meu cora��o acelerado.
- Desculpe, � que geralmente ningu�m almo�a aqui. N�s n�o seriamos mal educados de fumar perto de pessoas com comida.
- Hum. Isso quer dizer que eu n�o deveria almo�ar aqui, n�?
- N�o vejo problemas, mas creio que voc� est� desconfort�vel. �Como ser� que ele adivinhou? S� porque eu me sentava num ch�o sujo e num meio-fio muito baixo? � Quer saber onde ficam as mesas vazias?
- Ainda existem mesas vazias nessa escola?
- Na �rea dos fumantes sim. Aqui fora, quero dizer. Pelo jeito voc� j� se acostumou com o cheiro.
- N�o � como se eu tivesse um olfato muito bom, de qualquer forma. Uma mesa cairia bem. � eu me levantei, apoiando uma m�o na parede e quase indo pro ch�o. Ele me olhou assustado, mas n�o se importou muito.
� � por aqui. � E indicou � mesa.
Eu segui pela dire��o indicada, e, de p�, finalmente consegui perceber os dois garotos que exalavam fuma�a. Sentei-me � mesa, e os dois fizeram o mesmo, sem necessidade de convite. Eu n�o fazia quest�o de companhia, mas corria o risco dos dois fazerem parte de uma gangue, ou simplesmente investigassem o hist�rico dos alunos novos para o jornal da escola. Mordi um enorme peda�o do meu sandu�che, para evitar perguntas pelo menos durante o tempo necess�rio para uma mastiga��o eficaz. O que me permitiu examinar os garotos com mais aten��o. Para minha surpresa, reconheci um deles. O que falara comigo era o mesmo que respondera as perguntas da aula de literatura. Ele era alto, magro, com cabelos arrumados de forma curiosa, e usava �culos de arma��o escura. Ele parecia querer dar a impress�o de ser um intelectual. Talvez funcionasse pros outros alunos, mas ele parecia um pouco fingido pra mim. Mas contrariando esse g�nero, ele era bastante simp�tico, e tinha tra�os bonitos. O outro era um pouco mais baixo, de cabelos escuros, e aquele ar de quem pretende desafiar a humanidade. Do tipo que a gente v� nos filmes, ainda mais com aquele cigarro. Ele me olhava de maneira curiosa, como se n�o estivesse acostumado em ver uma garota comer com tanto empenho. Mas n�o falou nada. Ao em vez disso, o mais alto prosseguiu.
- Voc� � a aluna nova da minha aula de literatura, certo? � ele perguntou, quando finalmente achou que eu estava prestes a engolir.
- Sim � ainda bem que ele acertou, pois eu finalmente consegui responder, depois de mandar todo aquele p�o pra dentro. � Boas respostas. � eu sorri, tentando ser simp�tica. Eu nunca conseguia.
- Obrigada. A sua tamb�m. � N�o pareceu sincero. Ele deu uma ultima tragada e jogou o cigarro num lixo pr�ximo.
- Quer um? � o outro garoto finalmente se pronunciou, me oferecendo um cigarro ap�s jogar o dele pr�prio no ch�o.
- N�o, obrigada. S� posso arruinar um de meus �rg�os, e prefiro que seja o f�gado. � logo ap�s soltar esse coment�rio, percebi que devia ter sido m� id�ia. Minha fam�lia me criou com um senso de humor pouco usual. Para minha surpresa os dois sorriram, e pareciam ter achado mesmo engra�ado. Ou talvez estivessem sorrindo porque eu era rid�cula. Eu nunca saberia.
- Ei, qual seu nome mesmo? � O garoto mais alto perguntou. Ele fez parecer que tinha esquecido o meu nome, mas duvido que algu�m j� tivesse falado de mim antes.
- Madeline Beetle. E voc�s? � eu n�o quis deixar muito espa�o para mais interrogat�rio, eu n�o era exatamente um �s em responder perguntas.
- Theodore Dashwood � foi o mais alto que falou de novo. Parecia que o outro simplesmente me ignorava. Para ser sincera eu preferia assim, era muito dif�cil ficar jogando conversa afora com dois estranhos. � E este � James Gray. � ele terminou a fala, indicando o amigo.
- Prazer em conhec�-los. � eu temia ter que continuar o assunto, mas fui salva pelo sinal que indicava o fim do almo�o. � Ah, tenho que ir. Algu�m sabe onde fica a sala de f�sica? Estou perdida. � eu n�o queria ter que pedir ajuda, mas antes pra eles do que pra algum inspetor mal encarado.
- Voc� est� com sorte. Minha pr�xima aula tamb�m � l�, podemos ir juntos. � o mais alto respondeu.
-Ah, obrigada... � eu n�o tinha muita certeza se era sorte ou n�o.
- Voc� tem aula do que agora, James?
- Quem se importa, eu vou indo.
- Voc� devia vigiar seu n�mero de faltas. � Theodore parecia sinceramente preocupado com o amigo. Ou talvez n�o.
- Eu sei. At� mais. � e ele virou as costas.
- Ele vai acabar falhando se continuar assim.
- Ah, �. Hei, n�o dev�amos estar indo pelo outro lado? � eu perguntei assustada, ao perceber que toda aquela paisagem era nova pra mim.
- � uma escola grande, voc� tem de saber alguns atalhos. � e que atalhos, n�s j� t�nhamos passado por uns cinco dep�sitos de lixo. � Voc� est� com seus livros a� n�? Meu arm�rio � ao lado da sala.
- Estou. � felizmente eu tinha previsto alguns imprevistos.
- Ainda bem. Estamos em cima da hora. � ele acelerou o passo e eu tive que correr para alcan��-lo, considerando que ele era v�rios cent�metros maior que eu.
Logo chegamos a um pr�dio como os outros, mas que ficava aos fundos da escola e era ligeiramente maior. O fluxo de alunos que entrava e saia era grande, o que me preocupou. Eu era uma �tima candidata a ser pisoteada.
- Por aqui. � Theodore come�ou a correr pela porta, e logo sub�amos as escadas. � Albine fica louco quando algu�m se atrasa.
Albine? Nome estranho. Eu estava come�ando a ficar nervosa, depois de tr�s lances de escada e n�s ainda n�o termos chego. Entramos num corredor longo e escuro, e meu acompanhante correu para uma fileira de arm�rios grudados a parede. Ele come�ou a correr para a porta no fim do corredor, e eu o segui. Entramos numa sala de tamanho m�dio, com uma pintura acinzentada nas paredes. Havia algu�m virado de costas perto da mesa do professor, e eu achei que fosse um aluno qualquer. Theodore foi silencioso at� o fundo da sala e eu fiz o mesmo. Ele sentou-se na �ltima carteira de uma das fileiras do meio, e eu na carteira ao seu lado. Eu preferiria que n�o houvesse lugares juntos e eu n�o tivesse que falar com ele, mas se eu procurasse outro lugar passaria por m� educada. Ele se virou para o aluno a sua frente e perguntou educadamente.
- Ele j� fez a chamada?
- N�o ainda. � o aluno virou rapidamente para o quadro, n�o parecendo muito satisfeito em ter que responder essa pergunta.
- Demos sorte. � Theodore virou para mim, n�o parecendo se importar com o aluno irritado � Ele expulsa quem se atrasa.
- Ah... Ele n�o parece f�cil. � eu j� n�o tinha comentado nada a muitas das informa��es de Theodore, e parecia errado n�o comentar de novo.
- E n�o �. Olhe r�pido pra frente que ele vai come�ar a chamada.
Eu estava com aquela cara de quem-vai-come�ar-a-chamada, j� que nem tinha visto o professor. At� que o aluno pr�ximo � mesa do professor se virou. S� que ele n�o usava uniforme. Ele era baixo, muito baixo. E claro, muito claro. Usava uns �culos de arma��es redondas, e examinava a lista de presen�a. Ele come�ou a chamar os alunos que tinha sobrenomes com a letra A. Eu ainda n�o acreditava que aquele era o professor.
- Theodore, esse cara... � o professor? � eu perguntei baixinho.
- �... Ele � meio estranho, mas voc� se acostuma. E pode me chamar de Th�o. Eu acenei com a cabe�a, em agradecimento. O Th�o havia dito �meio estranho�. Mas ele n�o era meio estranho. Era o professor mais estranho que eu j� havia visto na vida.
- Beetle. � eu me sobressaltei, procurando quem me chamava. Era o professor. Eu levantei a m�o, procurando que ele me visse.
- Voc� � a aluna nova, certo? Eu sou o Professor Albine. Fale comigo depois da aula.
- Ah, claro. � eu concordei, morrendo de medo de ter que falar sozinha com o professor no fim da aula.
Depois disso a aula transcorreu bem. Ele falava sobre mec�nica, e eu anotava calmamente o conte�do no meu caderno. Levei um susto quando a aula acabou, e todos come�aram a correr pra fora da sala. Th�o saiu tamb�m, e eu me dirigi at� a mesa do professor.
- O senhor queria falar comigo?
- Queria sim. Vai haver uma reuni�o de pais e mestres depois de amanh�, �s quatro da tarde, e um de seus pais precisa vir. Ainda mais voc� sendo aluna nova, n�o queremos que os professores n�o gostem de voc� e suas cartas de recomenda��o pra faculdade sejam ruins.
Por os professores ele parecia querer dizer �Eu�. Como se eu fosse pedir pra ele escrever minha carta de recomenda��o.
- Ah, est� bem. Eu o aviso.
- Ou a avisa. Pode ser sua m�e tamb�m, sabe.
- Claro. At� mais professor.
Eu acho que ele acenou, mas eu n�o notei ao correr pra fora. Levei um susto quando algu�m segurou meu ombro.
- Aaaah! � eu exclamei.
- Calma. S� queria saber como foi.
- Ah, n�o sabia que era voc�. � Pelo jeito Th�o tinha resolvido me esperar, j� que sem ele eu teria que confiar no mapa e ele tinha notado que eu n�o era muito boa lendo mapas.
- Ent�o?
- Ent�o o que?
- O que ele queria?
- Ah, isso. � ele me olhou assustada, considerando que eu me perdia facilmente no assunto � Queria que eu pedisse pros meus pais virem na reuni�o de depois de amanh�. Mas acho que eles n�o v�o querer vir.
- � melhor eles virem. Albine � louco com essas coisas. � ele j� come�ara a andar, e eu achei melhor ir junto. Dificilmente minha pr�xima aula tamb�m seria para aqueles lados.
- S�rio? Por qu�?
- Ele acha que todos os pais t�m que se envolver, e claro, dar gordas doa��es para a escola. Ele tamb�m enfatizou que sua m�e podia vir?
- Enfatizou. Assustador, na verdade. Mas por que ele faz isso?
- Ele � um solteir�o. Gosta de paquerar as m�es.
- Mas meus pais nem s�o divorciados!
- Ele n�o liga. Mas a maioria das m�es n�o gosta dele mesmo, n�o se preocupe.
- Ah... Tenho que ver qual � minha pr�xima aula... � eu comecei a procurar onde estavam meus hor�rios.
- Espero que n�o se importe. � Th�o me entregou tanto os hor�rios quanto o mapa � Mas eu marquei os melhores caminhos pra voc� chegar as suas aulas, assim voc� n�o se perde quando eu n�o puder te levar.
- Obrigada! � eu agradeci, ainda ligeiramente preocupada com o fato de ele ser t�o bonzinho � Mas como voc�... � eu olhei para os pap�is na minha m�o.
- Voc� precisa cuidar melhor das suas coisas. � N�s t�nhamos sa�do do pr�dio e eu nem tinha notado � Agora siga o mapa, e eu te vejo na sa�da. � e ele correu para a esquerda.
Eu consultei meu mapa e hor�rios, que agora estavam marcados com caneta vermelha. Estava surpreendentemente mais f�cil em localizar eu cheguei as minhas pr�ximas aulas sem maiores surpresas. Pelo menos at� o fim da pen�ltima aula. Meu �ltimo hor�rio era nos confins do campus, e eu estava tendo problemas em encontrar a sala, apesar do meu mapa bem indicado. Eu andava encarando o mapa, e levei um susto quando um vulto apareceu na minha frente.
- Oi!
-Ah! � eu estava perdendo a conta de quantas vezes eu tinha sido assustada hoje.
- Desculpe, assustei voc�?
- Ahn... N�o, tudo bem... � eu encarei o vulto.
- Voc� � a garota nova n�? Que veio com a Mih?
Eu estava surpresa que a escola inteira j� conhecesse minha prima pelo apelido, mas pela condi��o de Holly Bright eu j� devia ter esperado. Quer dizer, ela j� devia estar toda amiguinha das l�deres de torcida e tudo o mais. Mas o vulto � minha frente n�o parecia nada com uma l�der de torcida. Ela era p�lida, muito p�lida. Os cabelos eram escuros e lisos, mas tinham algumas ondas artificialmente moldadas. Os olhos eram claros, mas eu n�o conseguia distinguir se eram verdes ou azuis. Ela ainda me encarava, e eu finalmente me toquei que ela tinha feito uma pergunta.
- Sou. � as pessoas pareciam insistir em me entrevistar.
- Vamos, eu te acompanho at� sua pr�xima aula.
Ela espiou o hor�rio em minhas m�os e agarrou meu bra�o. Eu tive que catar minha mochila, antes que a garota come�asse a me arrastar. Eu tinha esperan�as de que ao menos ela estava me levando para o lado certo. Mas estava mais preocupada com o interrogat�rio. E ele continuou.
- Ent�o, o seu nome �?
- Madeline.
- Como naquele filme? Das menininhas, e a freira...
- Pois �. � eu n�o ouvia essa compara��o j� fazia algum tempo.
- Veio da onde?
- O que?
- De que lugar voc� �?
Essa eu n�o esperava. Meu pai sempre disse para eu nunca dizer para estranhos onde morava. Nunca. N�o sei se esse era o caso, mas eu n�o queria falar mesmo assim. Quer dizer, eu tinha a impress�o que aquela escola n�o ia muito com a minha cara. E aquela garota-rep�rter, ou o que quer que ela fosse, me deixava assustada.
- Ent�o? � minhas pausas estavam ficando muito longas.
- Ah, �... Do interior. � n�o era uma mentira, quer dizer, completa. N�o disse interior de que pa�s.
- Ah �? Eu conhe�o?
- � um lugar meio isolado, sabe... � meio isolado. Tente completamente isolado.
- Ah, que pena. Eu ia procurar sua antiga casa no google earth, mas se � t�o isolada assim.
- � mesmo, eu j� tentei procur�-la e � imposs�vel. � pelo menos isso era verdade. - Ah, bom. E como voc� conhece a Mih?
A pergunta que eu tanto temia. Eu tentava formular uma resposta que n�o me entregasse muito, mas n�o estava muito f�cil. N�s tamb�m and�vamos t�o r�pido que eu j� estava perdendo o f�lego. At� que eu senti algu�m segurando meu outro bra�o. Eu j� me perguntava se todas as escolas seriam assim com os novos alunos.
- Ei, Sarah, o que est� fazendo? Eu pensei em levar Madeline pra pr�xima aula, j� que � a mesma que a minha. E voc�s est�o indo na dire��o errada.
O que? Dire��o errada? Era s� o que me faltava.
- Desculpe, eu conhe�o voc�?
- Th�o Dashwood, n�s estudamos juntos desde o jardim de inf�ncia.
- Ah, claro.
- N�s temos mesmo que ir. � Th�o continuou.
- Tudo bem. Tchauzinho, Madeline. E, at� mais Trevor.
A garota p�lida nos deu as costas e saiu andando, aparentemente irritada. Eu virei para Th�o, horrorizada.
- Meu Deus, estamos indo na dire��o errada, eu vou perder o hor�rio... Pra que lado eu vou?
- Calma, sua aula foi cancelada.
- Cancelada?
- O professor faltou e n�o conseguiram encontram um substituto
- Ent�o por que voc� me apressou?
- Eu � que tenho que perguntar. Por que diabos voc� estava falando com Sarah McGregor?
- Eu n�o sabia quem ela era... Espera a�, voc� disse... McGregor? Aquela � a diretora, ela estava me investigando? Ah, meu Deus, eu n�o vou conseguir entrar nem pra faculdade comunit�ria...
- O que? N�o, ela n�o � a diretora...
- Mas, mas...
- Bom, vamos at� o gin�sio e eu te explico tudo.
Eu ainda tinha muito pra perguntar. E por que o gin�sio, eu odeio gin�sios... Mas eu n�o perguntei. O choque era muito grande. Eu o seguia, com a mochila mal acomodada em um s� ombro, e ainda ofegava. N�s finalmente adentramos um largo est�dio, em que alguns alunos se reuniam nas arquibancadas. A quadra ainda estava vazia. N�s seguimos at� a �ltima fileira de arquibancadas, e sentamos no canto mais isolado. Eu parecia estar voltando a respirar normalmente.
- O que voc� contou � Sarah? � ele parecia muito s�rio.
- N�o muito, meu primeiro nome, e da onde eu vim. Mas n�o contei nada exatamente, ahn, certo.
- Voc� deu sorte. Mas � minha culpa, eu devia ter lhe avisado sobre ela.
- D� pra voc� me explicar direitinho quem � ela?
- Sarah McGregor sabe tudo sobre todos. Ela sabe toda a verdade. Ao menos sobre as pessoas importantes. E ela sempre passa a verdade adiante. O problema � que depois que ela conhece, n�o vai mais ser a verdade. Ela manipula hist�rias, e tudo o mais. E a pior parte � que ela � editora do jornal da escola. Mas depois que ela assumiu, se tornou uma revista de fofocas.
- Isso � horr�vel... Mas pelo que voc� disse parece que ela quer... ser dona da escola ou algo assim.
- Na verdade ela � a dona da escola. A herdeira. O pai dela � o dono.
- Wow. Mas por que ela age como se n�o fosse... Bom, a dona.
- Para os alunos ela n�o �.
- Mas se ela sabe tudo sobre as pessoas importantes... Por que falou comigo?
- Voc� � aluna nova. Ela queria saber se voc� tinha potencial.
- Ent�o ela n�o vai me incomodar de novo. Mas porque n�s viemos at� o est�dio?
- Achei que voc� gostaria de ver a verdadeira dona da escola.
- A m�e dela est� aqui?
Th�o suspirou e apontou para a quadra. Eu tinha acabado de notar que o est�dio estava cheio. N�o completamente, mas bem cheio. Ser� que ningu�m ia pra aula n�o? E ningu�m se importava que todo mundo estivesse matando aula... No gin�sio de esportes? Mas ent�o eu notei a quadra. E percebi um monte de garotas de uniforme. At� a� tudo bem. Mas n�o era o nosso uniforme, eram roupas azuis ou vermelhas de tamanho muito apropriado. Quer dizer, se elas tivessem nove anos. Ent�o eu a vi. No centro, com a roupa mais curta. Mas ela n�o chamaria tanta aten��o se todo mundo n�o estivesse olhando para ela. Mas estavam. Ela pegava um microfone, o mar de cabelos loiros esvoa�ando. Holly Bright. Th�o notou meu olhar e respondeu o que deveria ser minha pergunta mental. Mas eu j� sabia a resposta.
- Ela � a dona.
- Holly Bright, eu sabia! � eu fiz um gestinho de comemora��o com os bra�os, e ele me olhou assustado.
- Voc� a conhece?
- Ela estava num jantar que meu tio promoveu. � filha de uma amiga dele.
- Mas por que voc� disse que sabia que ela era a... Dona.
- Eu sabia. Ela faz o tipo.
Mas ent�o a pr�pria Holly cortou nossa conversa. Ela testou o microfone e come�ou seu discurso.
- Ol�, colegas do McGregor Institute! Estamos aqui para o teste anual das novas l�deres de torcida. Como voc�s sabem, as Angel-Bees tem ganhado os campeonatos nacionais h� muito tempo, ent�o nossos padr�es s�o bem altos. Assistam, mas deixem o julgamento conosco! � ela piscou para a plat�ia � As candidatas est�o se preparando e j� v�o ser apresentadas. � ela se afastou do microfone e todos aplaudiram. Menos eu, que observava as candidatas com cuidado.
- Ah Meu Deus! � eu coloquei a m�o sobre a boca e Th�o me olhou assustado, algo que estava se tornando uma tradi��o nossa.
- O que foi?
Eu sacudi a cabe�a e ele entendeu que ia ter que esperar para ver. Ou s� ficou com medo de mim. Eu tinha certeza de que parecia muito assustada, e a ainda mais p�lida que o normal. Holly come�ou a chamar as candidatas. Umas tr�s garotas com sobrenomes com A.
Eu n�o prestei aten��o, mas elas deveriam ter ido muito mal, porque a plat�ia vaiava. E ent�o eu ouvi o que esperava. E mesmo assim meu cora��o disparou e meus olhos umedeceram. De nervosismo, n�o de tristeza.
- Beetle.
Th�o me olhou com aquela cara de achei-que-seu-sobrenome-era-t�o-estranho-que-ningu�m-mais-o-teria! Mas a minha express�o n�o o permitiu falar isso em voz alta. Mischa agora estava no meio da quadra e todos a olhavam. N�o com desprezo, como pras outras candidatas. Mas admirados. Sem palavras. Th�o n�o era exce��o. A minha express�o de frustra��o, raiva, nervosismo e incredulidade n�o prendeu a aten��o dele por muito tempo. Eu examinei todos os olhares do est�dio. Masculinos: encanto. Femininos: frustra��o. Mas eu podia apostar que s� eu tinha um motivo diferente pra parecer frustrada.
- Muito bem, Mih, pode come�ar. � Holly falou sorrindo.
Agora todos os olhares eram um s�. Mas eu n�o saberia dizer que sentimento exalavam. Era algo como: como-essa-novata-j�-est�-�ntima-da-Holly? E Mischa come�ou. Algumas piruetas, giros com o bast�o, e aquelas coisas que l�deres de torcida devem fazer e que Deus me proibiu de saber o nome. E todos aplaudiam. Mas eu n�o sabia por que. Ela fazia o mesmo que todas as outras. O mesmo. A apresenta��o dela terminou com aplausos ruidosos. Ela saiu e todos continuaram olhando pra ela. Mesmo com outras candidatas se apresentando. Menos Th�o, que reunira for�a sobrenatural pra falar comigo.
- Ela � sua... Parente? � ele perguntou o �bvio. Ele devia esperar que eu dissesse qual o nosso grau de parentesco. J� que n�s �ramos diferentes. Ela linda e eu... Assim.
- �.
Eu percebi que ele queria a resposta completa, mas n�o insistiu.
- Desculpe te trazer aqui. � uma tradi��o escolar.
- Sem problemas. � mas eu comecei a me levantar, catando minha bolsa � Tem problema se eu for indo?
- N�o, claro que n�o. Precisa de ajuda pra achar a sa�da?
- N�o, eu vou ficar bem. Obrigada pela ajuda hoje.
- Claro. At� amanh�.
- At�. � e eu sai andando, sentindo s� dois olhares para as minhas costas. Sendo que um eu n�o recebia faz tempo.