CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

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Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST

O SAL DE NOSSA TERRA

Maurice Lemoine � jornalista e redator-chefe adjunto do "Le Monde Diplomatique". Em janeiro passado, publicou "La Dette" (A D�vida, ed. Atalante, 17,53 euros), que chama de "docuroman", "romance-document�rio". O livro aborda os conflitos de terra no norte do Brasil, em especial na regi�o do Bico do Papagaio (fronteira dos Estados do Par�, Tocantins e Maranh�o ).
A hist�ria se centra na luta dos posseiros pelo direito � terra e na figura do padre Josimo Moraes, assassinado em 10 de maio de 1986 por sua participa��o em defesa dos camponeses. Imposs�vel n�o se sentir implicado. Os fatos, apesar de romanceados, s�o reais, monstruosamente reais. Estupidez, horror, crueldade, qualquer substantivo seria pouco para falar da dem�ncia do poder, no n�vel mais baixo da mesquinhez.
Antes e depois da morte do padre Josimo -eis o mais tr�gico- pouca coisa mudou. O enredo sinistro parece se repetir com mon�tona atrocidade. De um lado, os posseiros, seus l�deres e os religiosos da Pastoral da Terra; do outro, a gangue de policiais comprados, ju�zes corruptos, fazendeiros prepotentes e a legi�o de pistoleiros mercen�rios. Os primeiros lutam para sobreviver ou levar a s�rio o cristianismo que professam como ministros da Igreja; os �ltimos s�o caricaturas humanas, ro�das pela insanidade da cobi�a.
O esquematismo da apresenta��o �, certamente, infiel ao painel social tra�ado por Lemoine. " A D�vida" n�o � um pastiche de hist�rias de bandidos e mocinhos. Desde as primeiras p�ginas, somos jogados, direto, no "cora��o das trevas". E, como na obra-prima de Joseph Conrad (1857-1924), n�o sabemos o que � pior, a realidade ou a fic��o.
A seq��ncia dos eventos retoma, etapa por etapa, a mesma l�gica previs�vel e desumana. Fazendeiros, grileiros e seus prepostos procuram intimidar os posseiros, acusando-os inclusive de infra��es por eles inventadas. Os posseiros recorrem � Justi�a e � pol�cia, que, acovardadas pelo dinheiro ou pelas armas dos poderosos, nada fazem. A tens�o sobe. Religiosos e l�deres leigos insistem com os posseiros para que n�o renunciem � busca de solu��o legal das disputas, embora conhe�am a esp�ria cumplicidade dos poderes p�blicos com os interesses privados dos grandes propriet�rios.
A escalada cotidiana de provoca��es e humilha��es, no entanto, continua at� que os posseiros, desesperados com a in�rcia da "lei", explodem e passam a se defender como podem. A repres�lia �, ent�o, aterradora. Quem duvidar veja o document�rio sobre a morte do padre Josimo, exibido recentemente no programa "Linha Direta", de uma emissora de televis�o brasileira.
Mesmo com as limita��es do g�nero, as cenas mostradas no programa nada devem aos massacres de civis no Vietn�. Bandos equipados com um helic�ptero, granadas, fuzis e metralhadoras se abatem sobre trabalhadores brasileiros desarmados, incendiando casas, matando pessoas e saqueando tudo o que encontram pela frente.
� o" Apocalipse Now" com o "jeitinho brasileiro". Ou seja, em boa parte da imprensa a culpa dos tumultos � dos padres e sindicalistas "comunistas" que insuflam o "populacho" miser�vel e ignorante. Sem esses agitadores, inimigos da propriedade privada e da "ordem legal", tudo estaria tranquilo, isto �, os fortes continuariam a esmagar os fracos sem que nada ou ningu�m viesse perturb�-los.
Cal�nias, difama��o, sonega��o de informa��es -mostra Lemoine-, tudo serve quando se trata de privar quem tem pouco do pouco que tem. Nesse peda�o do Brasil n�o bastam a fome e as doen�as end�micas para dizimar vidas. A f�ria da gan�ncia � insaci�vel; o inferno da explora��o s� tem um limite, a morte dos explorados.
N�o por acaso um dos personagens do romance diz, a certa altura: "H� quem diga que a vida da gente � o nada do mundo". Padre Josimo pensava diferente. Certa vez, por ocasi�o de uma passeata-protesto que ajudara a organizar, um jagun�o se referiu aos posseiros dizendo: " Agora, padre, retire seu gado, seus animais, ou n�o respondo por nada". Ao que padre Josimo respondeu: "N�o s�o animais, (...) s�o o sal da terra, s�o crist�os". Lemoine vai adiante e fornece a longa lista dos que foram amea�ados de morte, como o padre Ricardo Rezende e frei Henri des Roziers, ou dos que morreram pela mesma causa de padre Josimo: padre Ezechiele Ramiro, morto em 1985; Paulo Fontelese Jo�o Carlos Batista, deputados, mortos, respectivamente, em 1987 e 1988; Jo�o Canuto, presidente do sindicato dos trabalhadores rurais, morto em 1985; Br�s Antonio de Qliveira e Ronan Rafael Boaventura, sindica1istas, mortos em 1990; Paulo e Jos�, filhos de Jo�o Canuto, mortos em 1990; Expedito Ribeiro de Sot�za, sucessor de Jo�o Canuto, morto em 1991 e, enfim, Carlos Cabral, sucessor de Expedito, v�tima de atentado no mesmo ano.
O que fazer? Antes de tudo, n�o vamos fingir ser o que n�o somos. Nem todos possu�mos a eleva��o espiritual de Simone Weil, ao dizer: " As fadigas de meu corpo e de minha alma se transformam em alimento para um povo que tem fome". A identifica��o com o sofrimento do outro � um processo mental limitado. Salvo exce��o, nos identificamos apenas com a dor daqueles a quem amamos. Isso n�o nos torna indiferentes ao sofrimento humano, s� mostra que n�o podemos sentir tudo que, talvez, gostar�amos de sentir em mat�ria de emo��o.
Mas, justamente por termos consci�ncia disso, criamos sentimentos morais que suprem a ex�gua espontaneidade das emo��es puramente sens�veis. Assim, se a impiedade nos choca, n�o � por nos identificarmos com a dor f�sica ou moral de seus milh�es de v�timas, padecendo imaginariamente os mesmos sofrimentos. � porque nossa vontade nos fez adquirir, de forma deliberada, o poder de sermos sens�veis ao desprezo pela vida humana. O "amor ao pr�ximo" do cristianismo ou o "respeito ao pr�ximo" do ide�rio democr�tico nos fazem sentir a dor e a humilha��o do outro como algo que avilta a imagem do humano que queremos preservar como ideal �tico.
O cora��o tem raz�es que as l�grimas desconhecem. Solidariedade n�o � compaix�o sentimental. � compromisso com a dec�ncia; � rep�dio ao que insulta o outro em seu direito � vida, � liberdade e � felicidade.
O dever moral, portanto, nos convoca a apoiar, no que for poss�vel, esses religiosos e leigos que d�o suas vidas pelo melhor de nossas vidas. Eles s�o a garantia e o emblema da liberdade que prezamos. A d�vida para com eles n�o nasce da culpa ou da m� consci�ncia, nasce da gratid�o.
" A D�vida" e livros semelhantes falam da grandeza da coragem e da a��o dos que t�m esperan�a. � com eles, por eles e neles que o "nada do mundo" se faz "sal de nossa terra".


Jurandir Freire Costa


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