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OS TR�S CAMINHOS DA CULTURA
A primeira proposta econ�mica de Lula, presidente eleito, foi a de matar a fome de milh�es de brasileiros; em pol�tica internacional, estender a m�o aos argentinos; para o com�rcio entre pa�ses, prop�s o escambo!
Propostas bem diferentes das que eram aceitas como inevit�veis, dentro do pensamento �nico. Coerente com essa nova vis�o de Brasil, o programa de Lula para a cultura deve ser criador.
Mas o que � a cultura? Num sentido amplo, somos todos produtores culturais, porque o primeiro objeto do nosso cultivo � a pr�pria vida. Cultivamos a vida biol�gica, afetiva e social: o trabalho e o lazer, a guerra e a paz. Todos produzimos cultura: gente de uma mesma re- gi�o, etnia ou religi�o.
A vida, para que exista e persevere, exige. � das respostas que damos �s exig�ncias da vida que nasce a cultura. Cultura � o "fazer", "como fazer", "para que" e "para quem" se faz. Castores constroem sempre os mesmos diques, geneticamente programados; p�ssaros fabricam sempre o mesmo ninho, cantando a mesma can��o. N�s, seres humanos, somos capazes de inventar can��es e arquiteturas!
Inventamos a roda para viajarmos mais longe do que podem as pernas; a ponte, para cruzarmos o rio; constru�mos casa que nos abrigue e roupa que nos proteja do sol e do frio. A cultura constitui-se em todas as atividades que satisfazem necessidades, mesmo sup�rfluas. � o "como fazer" o que se faz. Esse � o primeiro cap�tulo de uma nova proposta para a cultura, em um governo que j� nasce inovando: a "Cultura como Voca��o". Somos todos produtores culturais, desde as estrelas de TV at� os camponeses do Acre, Rond�nia e Roraima.
Para cobrir a mesa � necess�ria a toalha. Qualquer costureira � capaz de cortar um pano: eis a toalha. Uma rendeira do Cear�, no entanto, faz toalhas e vai al�m: o produto que fabrica � arte. A rendeira responde �s suas necessidades est�ticas. Sua toalha cobre a mesa e agrada aos olhos. Seu valor � maior. T�o grande que pode ser imposs�vel us�-la como toalha que protege a mesa: � necess�rio proteger a toalha.
A arte faz parte da cultura. A cultura � o ser humano, � o que h� de humano no ser, � aquilo que o distingue dos outros animais. Os produtores culturais, por�m, n�o produzem apenas para si mesmos. Ao produzir para outros, seu produto torna-se mercadoria. O artista cria al�m do necess�rio imediato, cria o gozo. E o gozo pode tornar-se necess�rio e pode tornar-se mercadoria.
Perigo mortal: quando um artista produz arte, responde � sua maneira de sentir, ver e pensar. Quando sua arte se transforma em mercadoria, introduz-se a demanda externa priorit�ria. A arte, transformada em mercadoria, enfrenta o desafio das prateleiras e os rituais do leil�o. O artista responde n�o mais a si mesmo, mas � demanda do mercado, induzida pela propaganda. A voca��o cultural torna-se profiss�o.
Em uma exposi��o de arte ind�gena, um dos expositores confessou: "Em nossa aldeia, fazemos estatuetas sem as cores vivas com que pintamos para o mercado paulista -os compradores preferem as coloridas!" Aquele �ndio era artista, tornou-se artes�o: repete modelos. Fazia arte ind�gena; passou a fazer arte-para-o-branco. As leis do mercado s�o as leis dos mercadores, assim como a lei da selva � a lei do le�o.
Um programa com as id�ias e os ideais de Lula -que, alegres, compartimos!- deve proteger os artistas profissionais, nesse segundo cap�tulo, t�o importante: a "Cultura como Profiss�o".
No processo globalizador, cultura e arte passam a servir ao mesmo prop�sito do com�rcio em geral: o lucro, a propaganda e a despersonaliza��o dos artistas. Quando assistimos a um filme de Hollywood, n�o � s� o enredo que temos que engolir goela abaixo: s�o os chap�us texanos, o u�sque de Kentucky, os carros que explodem em modernas pontes de a�o e s�o jogados ao mar sulcado de jet-skis; s�o as sirenes policiais e as metralhadoras que ser�o usadas pelos nossos traficantes, "up-to-date" com inova��es b�licas. Um filme vende mais mercadorias do que os an�ncios comerciais expl�citos.
� importante para os globalizantes destruir as culturas nacionais, locais, pois elas s�o a identidade de quem as produz e, para dominar, � necess�rio destruir a identidade do dominado.
Para lutar pela nossa vida cultural, temos que estudar nosso passado, neste fant�stico presente que estamos vivendo, para podermos inventar nosso futuro: eis a terceira vertente de um inovador plano cultural: a "Cultura como Mem�ria do Passado e como Inven��o do Futuro".
Cultura n�o � luxo: sou eu, � voc�, � o Lula! � o povo na pra�a. " A pra�a que � do povo, como o c�u � do condor!" -j� dizia o poeta Castro Alves!
Augusto Boal - 2003
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