CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

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CARTA ABERTA A
ERNESTO
CHE
GUEVARA

Che Guevara

Querido Che
Passaram-se trinta anos desde que a CIA te assassinou nas selvas da Bol�via, a 8 de outubro de 1967. Tu tinhas, ent�o, 39 anos de idade. Pensavam teus algozes que ao cravar balas em teu corpo, ap�s te capturarem vivo, condenariam tua mem�ria ao olvido. Ignoravam que ao contr�rio dos ego�stas, os altru�stas jamais morrem. Sonhos libert�rios n�o se confinam em gaiolas como p�ssaros domesticados. A estrela de tua boina brilha mais forte, a for�a dos teus olhos guia gera��es nas veredas da justi�a, teu semblante sereno e firme inspira confian�a nos que combatem por liberdade. Teu esp�rito transcende as fronteiras da Argentina, de Cuba e da Bol�via e, chama ardente, ainda hoje inflama o cora��o de muitos revolucion�rios.
Mudan�as radicais ocorreram nestes trinta anos. O Muro de Berlim caiu e soterrou o socialismo europeu. Muitos de n�s s� agora compreendem tua ousadia ao apontar, em Argel, em 1962, as rachaduras nas muralhas do Kremlin, que nos pareciam t�o s�lidas. A hist�ria � um rio veloz que n�o poupa obst�culos. O socialismo europeu tentou congelar as �guas do rio com o burocratismo, o autoritarismo, a incapacidade de estender ao cotidiano o avan�o tecnol�gico propiciado pela corrida espacial e, sobretudo, revestiu-se de uma racionalidade economista que n�o deitava ra�zes na educa��o subjetiva dos sujeitos hist�ricos: os trabalhadores.
Quem sabe a hist�ria do socialismo seria outra, hoje, se tivessem dado ouvidos �s tuas palavras: "O Estado �s vezes se equivoca. Quando ocorre um desses equ�vocos, percebe-se uma diminui��o do entusiasmo coletivo devido a uma redu��o quantitativa de cada um dos elementos que o formam, e o trabalho se paralisa at� ficar reduzido a magnitudes insignificantes: � o momento de retificar".
Che, muitos de teus receios se confirmaram ao longo destes anos e contribu�ram para o fracasso de nossos movimentos de liberta��o. N�o te ouvimos o suficiente. Da �frica, em 1965, escreveste a Carlos Quijano, do jornal Marcha, de Montevid�u: "Deixe- me diz�-lo, sob o risco de parecer rid�culo, que o verdadeiro revolucion�rio � guiado por grandes sentimentos de amor. � imposs�vel pensar num revolucion�rio aut�ntico sem esta qualidade".
Esta advert�ncia coincide com o que o ap�stolo Jo�o, exilado na ilha de Patmos, escreveu no Apocalipse h� 2.000 anos, em nome do Senhor, � Igreja de �feso: "Conhe�o-vos a conduta, o esfor�o e a perseveran�a. Sei que n�o suportais os maus. Apareceram alguns dizendo que eram ap�stolos. V�s os provais e descobristes que n�o eram. Eram mentirosos. Sois perseverantes. Sofrestes por causa do meu nome e n�o desanimastes. Mas h� uma coisa que eu reprovo: abandonastes o primeiro amor"(2, 2-4).
Alguns de n�s, Che, abandonaram o amor aos pobres que, hoje, se multiplicam na P�tria Grande latino-americana e no mundo. Deixaram de se guiar por grandes sentimentos de amor para serem absorvidos por est�reis disputas partid�rias e, por vezes, fazem de amigos, inimigos, e dos verdadeiros inimigos, aliados. Minados pela vaidade e pela disputa de espa�os pol�ticos, j� n�o trazem o cora��o aquecido por ideais de justi�a. Ficaram surdos aos clamores do povo, perderam a humildade do trabalho de base e, agora, barganham utopias por votos.
Quando o amor esfria, o entusiasmo arrefece e a dedica��o retrai-se. A causa como paix�o desaparece, como o romance entre um casal que j� n�o se ama. O que era "nosso" ressoa como "meu" e as sedu��es do capitalismo afrouxam princ�pios, transmutam valores e, se ainda prosseguimos na luta, � porque a est�tica do poder exerce maior fasc�nio que a �tica do servi�o.

Teu cora��o, Che, pulsava ao ritmo de todos os povos oprimidos e espoliados. Peregrinastes da Argentina � Guatemala, da Guatemala ao M�xico, do M�xico a Cuba, de Cuba ao Congo, do Congo � Bol�via. Sa�stes todo o tempo de ti mesmo, incandescido pelo amor que, em tua vida, se traduzia em liberta��o. Por isso podias afirmar, com autoridade, que "� preciso ter uma grande dose de humanidade, de sentido de justi�a e de verdade para n�o cair em extremos dogm�ticos, em escolasticismos frios, em isolamento das massas. Todos os dias � necess�rio lutar para que este amor � humanidade viva se transforme em fatos concretos, em gestos que sirvam de exemplo, de mobiliza��o".
Quantas vezes, Che, nossa dose de humanidade ressecou-se calcinada por dogmatismos que nos inflaram de certezas e nos deixaram vazios de sensibilidade com os dramas dos condenados da Terra! Quantas vezes nosso sentido de justi�a perdeu-se em escolasticismos frios que proferiam senten�as implac�veis e proclamavam ju�zos infamantes! Quantas vezes nosso senso de verdade cristalizou-se em exerc�cio de autoridade, sem que correspond�ssemos aos anseios dos que sonham com um peda�o de p�o, de terra e de alegria.
Tu nos ensinaste um dia que o ser humano � o "ator desse estranho e apaixonante drama que � a constru��o do socialismo, em sua dupla exist�ncia de ser �nico e membro da comunidade". E que este n�o � "um produto acabado. As taras do passado se trasladam ao presente na consci�ncia individual e h� que empreender um cont�nuo trabalho para erradic�-las". Qui�� tenha nos faltado sublinhar com mais �nfase os valores morais, as emula��es subjetivas, os anseios espirituais. Com o teu agudo senso cr�tico, cuidaste de advertir-nos de que "o socialismo � jovem e tem erros. Os revolucion�rios carecem, muitas vezes, de conhecimentos e da aud�cia intelectual necess�rios para encarar a tarefa do desenvolvimento do homem novo por m�todos distintos dos convencionais, pois os m�todos convencionais sofrem a influ�ncia da sociedade que os criou".
Apesar de tantas derrotas e erros, tivemos conquistas importantes ao longo destes trinta anos. Movimentos populares irromperam em todo o continente. Hoje, em muitos pa�ses, s�o melhor organizados as mulheres, os camponeses, os oper�rios, os �ndios e os negros. Entre os crist�os, parcela expressiva optou pelos pobres e engendrou a Teologia da Liberta��o. Extra�mos consider�veis li��es das guerrilhas urbanas dos anos 60; da breve gest�o popular de Salvador Allende; do governo democr�tico de Maurice Bishop, em Granada, massacrado pelas tropas dos EUA; da ascens�o e queda da Revolu��o Sandinista; da luta do povo de El Salvador. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores promove, numa centena de cidades administradas por seus militantes, uma "revolu��o de baixa intensidade"; na Guatemala, as press�es ind�genas conquistam espa�os significativos; no M�xico, os zapatistas de Chiapas p�em a nu a pol�tica neoliberal.
H� muito a fazer, querido Che. Preservamos com carinho tuas maiores heran�as: o esp�rito internacionalista e a Revolu��o Cubana. Uma e outra coisa hoje se intercalam como um s� s�mbolo. Comandada por Fidel, a Revolu��o Cubana resiste ao bloqueio imperialista, � queda da Uni�o Sovi�tica, � car�ncia de petr�leo, � m�dia que procura sataniz�-la. Resiste com toda a sua riqueza de amor e humor, salsa e merengue, defesa da p�tria e valoriza��o da vida. Atenta � tua voz, ela desencadeia o processo de retifica��o, consciente dos erros cometidos e empenhada, malgrado as dificuldades atuais, em tornar realidade o sonho de uma sociedade em que a liberdade de um seja a condi��o de justi�a do outro.
De onde est�s, Che, aben�oes todos n�s que comungamos teus ideais e tuas esperan�as. Aben�oes tamb�m os que se cansaram, se aburguesaram ou fizeram da luta uma profiss�o em benef�cio pr�prio. Aben�oes os que t�m vergonha de se confessar de esquerda e de se declarar socialistas. Aben�oes os dirigentes pol�ticos que, uma vez destitu�dos de seus cargos, nunca mais visitaram uma favela ou apoiaram uma mobiliza��o. Aben�oes as mulheres que, em casa, descobriram que seus companheiros eram o contr�rio do que ostentavam fora, e tamb�m os homens que lutam por vencer o machismo que os domina. Aben�oes todos n�s que, diante de tanta mis�ria a erradicar vidas humanas, sabemos que n�o nos resta outra voca��o sen�o converter cora��es e mentes, revolucionar sociedades e continentes.
Sobretudo, aben�oe-nos para que, todos os dias, sejamos motivados por grandes sentimentos de amor, de modo a colher o fruto do homem e da mulher novos.

Frei Betto

Frei Betto - 1997

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