CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

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ACELERA��O
� MODA
BRASILEIRA

Um tema para reflex�o nos cinco s�culos de Brasil

Milton Santos

A �poca atualmente vivida pelo mundo pode apropriadamente ser chamada de acelera��o contempor�nea. Ela permite pensar que se suprimem dist�ncias e intervalos e que as id�ias de dura��o e sequ�ncia est�o substitu�das pelas de instante e efemeridade.
H� quem veja nesse aumento exponencial de todos os ritmos uma consequ�ncia apenas do progresso t�cnico. A verdade, por�m, � que a causa dessa mudan�a brutal na percep��o do tempo e do espa�o n�o est� na possibilidade te�rica e pr�tica de tornar efetivas velocidades at� agora insuspeitadas, mas se encontra nas for�as econ�micas que, em seu exclusivo benef�cio, imp�em um rel�gio � humanidade como um todo. Isso � obtido atrav�s do dom�nio inconteste do dinheiro e com a ajuda de uma informa��o enviezada, que justifica e alimenta as novas modalidades de domina��o.
Por isso, a acelera��o contempor�nea n�o apenas aumenta a desigualdade entre pa�ses, povos e pessoas, como leva a uma confus�o dos esp�ritos, uma esp�cie de atordoamento dos sentidos. A �poca se apresenta como algo de amedrontar e ao mesmo tempo como uma fatalidade insond�vel, levando muitos � conformidade e outros ao desespero, enquanto outros tantos buscam ardentemente compreender o mundo em que vivemos para melhor se situar em face do presente e do futuro.
� um tempo de paradoxos, isto �, de contradi��es em estado puro, todavia hoje percept�veis porque a pr�pria vida acaba por ensinar o que � ideologia e o que n�o �, na produ��o da hist�ria. A tomada de consci�ncia � uma quest�o de tempo. A grande causa dessa muta��o filos�fica est� na forma como nos inserimos no mundo do trabalho e como podemos avaliar os resultados.
E o Brasil?

Os nossos quinhentos anos s�o iguais aos de outros pa�ses, porque a aventura iniciada em 1500 marca a primeira grande abertura jamais conhecida em todos os tempos pela hist�ria. � a primeira vez que um continente conhece tal combina��o de novidades, a come�ar pela mistura de povos de origens diferentes, chegados a uma nova terra para exercer de forma pioneira atividades in�ditas. O nome buscado, pelas conting�ncias mesmas da aventura, ser� constitu�do pelo am�lgama de europe�smo, cristianismo e internacionalismos, todos mais ou menos falsificados.
Esse Brasil europeu j� surge disposto a olhar para os outros e esta ser� uma das marcas (profundas) de sua trajet�ria nestes cinco s�culos. Pode-se pensar que, desse modo, aqui se constitui uma sociedade embriagada pela id�ia fixa de a todo custo imitar a modernidade alheia. Mas tal sociedade misturada -pela fermenta��o clandestina de sua maioria -� tamb�m capaz de ir constituindo, dentro de casa, o que ser� o seu corpo e a sua alma, no espelho da terra. E este ser�, afinal, sua �ncora definitiva.
Abertura sem limites e constru��o aut�ntica de um povo s�o as duas pontas do eterno dilema brasileiro. A primeira interessa sobretudo aos senhores da terra e dos homens, enquanto a segunda constitui, para o grosso da popula��o, o fundamento de sua identidade. Ali�s, o trabalho de todos tem essas duas caras. E, como o trabalho hegem�nico � comandado por l�gicas exc�ntricas, as manifesta��es de fidelidade � terra surgem e se desenvolvem como resist�ncia e a cultura � a sua linguagem, cuja for�a, ali�s, apenas se tem revelado plenamente nos �ltimos anos.
Esse pode ser um tema para reflex�o, quando se comemoram cinco s�culos de Brasil, levando a uma reavalia��o das perspectivas trazidas com o que podemos chamar de acelera��o brasileira. Esta, felizmente, n�o � s� o que parece, isto �, a submiss�o aos ditames da modernidade � moda internacional, porque tamb�m constitui a vontade de criar, aqui mesmo, uma modernidade brasileira, com a preval�ncia dos valores culturais da maioria da popula��o.

Milton Santos - abr 2000

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