CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

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A ESTRAT�GIA
DA
INFORMA��O

O campo da informa��o, da forma��o das consci�ncias � um campo estrat�gico da luta pol�tica pelas transforma��es ou pela manuten��o da ordem, � um campo estrat�gico da mudan�a.

Betinho

Toda informa��o �, de certa forma, uma proposta ou elemento de formula��o de propostas e essa � a mat�ria prima fundamental da a��o pol�tica e, portanto, do trabalho cotidiano dos movimentos populares, particularmente quando se pretende que os movimentos n�o sejam meros reflexos passivos dos processos pol�ticos, mas atores ativos e conscientes de processos de transforma��o social, econ�mica, pol�tica e cultural.

Durante o longo per�odo das ditaduras militares, que marcaram profundamente a vida dos pa�ses latinoamericanos entre os anos 60 e 80, ficou evidenciada atrav�s do exerc�cio da censura oficial imposta aos meios de comunica��o de massa que informa��o era poder. Enquanto o mundo moderno entrava na era da inform�tica, os pa�ses do terceiro mundo lutavam pela democratiza��o da informa��o como uma pr�-condi��o para liberalizar seus regimes pol�ticos e colocar um fim � era das ditaduras militares.
Esse per�odo assistiu tamb�m ao surgimento ou � amplia��o do trabalho das Organiza��es N�o Governamentais (ONGs), que se confrontaram com os desafios da defesa dos direitos humanos, o agravamento das condi��es sociais, da luta pelas liberdades pol�ticas, da educa��o e organiza��o dos movimentos populares em condi��es extremamente dif�ceis. Nesse per�odo a quest�o da informa��o era absolutamente crucial como arma do poder dominante, sob censura oficial, e como elemento de luta pela democratiza��o, na medida de sua apropria��o pelos movimentos sociais.
As estrat�gias utilizadas privilegiavam os contatos diretos com os movimentos de base atrav�s de encontros, semin�rios, cursos, ou os meios alternativos de comunica��o que se caracterizavam por seu curto raio de a��o. Enquanto a sociedade civil se articulava e reagia a n�vel micro, aquele permitido pela aus�ncia ou baixo n�vel da repress�o, o Estado se impunha atrav�s dos meios de comunica��o de massa. Em v�rios pa�ses, nessa �poca, foram criadas as grandes redes de televis�o e modernizados os sistemas de telecomunica��o.
Na d�cada de 80 as ditaduras cederam lugar a diferentes processos de democratiza��o, ainda em .curso, e os meios de comunica��o de massa, particularmente as redes de TV, assumiram um papel cada vez mais vis�vel e preponderante na defini��o dos rumos dos processos pol�ticos p�s ditaduras.
Na medida em que as elei��es voltavam � cena e voltar significava definir caminhos e fazer op��es, a informa��o que constitui a consci�ncia desses caminhos e define os elementos dessas op��es por candidatos, programas e partidos, passou a ser um elemento de poder de primeira ordem, uma quest�o estrat�gica. N�o foi por acaso que a primeira elei��o direta no Brasil, depois de quase 30 anos de ditadura militar , foi em grande medida decidida atrav�s dos programas de televis�o em rede nacional. A import�ncia da m�dia foi tamb�m decisiva no processo chileno e peruano, para ficarmos com os exemplos mais recentes.
N�o se trata de reduzir a consci�ncia pol�tica de uma sociedade � m�dia, trata -se de identificar o papel estrat�gico da informa��o na forma��o da consci�ncia pol�tica e da m�dia de massa na defini��o dessa consci�ncia. Por outro lado, na medida em que passam a prevalecer os processos liberal democr�ticos em nossas sociedades, a luta pol�tica passa a ser decidida no campo das consci�ncias que formam a opini�o p�blica, que vota e define o poder do Estado.
Quando falamos de informa��o estamos tamb�m falando de seus conte�dos. Toda informa��o �, de certa forma, uma proposta ou elemento de formula��o de propostas e essa � a mat�ria prima fundamental da a��o pol�tica e, portanto, do trabalho cotidiano dos movimentos populares, particularmente quando se pretende que os movimentos n�o sejam meros reflexos passivos dos processos pol�ticos, mas atores ativos e conscientes de processos de transforma��o social, econ�mica, pol�tica e cultural. O campo da informa��o, da forma��o das consci�ncias � um campo estrat�gico da luta pol�tica pelas transforma��es ou pela manuten��o da ordem, � um campo estrat�gico da

mudan�a.
Quanto mais ampla a possibilidade de transforma��o atrav�s dos processos democr�ticos, mais fundamental e decisiva � a informa��o (formadora de consci�ncias e definidora de caminhos) como condi��o essencial do desenvolvimento do processo social e pol�tico. Nesse sentido nada h� de mais concreto que esse campo de a��o. Existe uma dist�ncia incomensur�vel entre a efic�cia de um po�o de �gua entregue a uma comunidade carente para matar sua sede e uma esta��o de televis�o que pode mobilizar milhares de fam�lias para reivindicar ou construir milhares de po�os de �gua, ou definir atrav�s da a��o pol�tica quais devem ser as prioridades da a��o governamental. A TV como informa��o que pode mudar o real � muito mais fundamental que a �gua que pode chegar como a �ltima gota para os despossu�dos. O mesmo se pode falar do car�ter concreto das id�ias, das propostas que abrem novas possibilidades, que superam obst�culos e que derivam das informa��es, das an�lises, do conhecimento. Afinal o que � concreto e decisivo na humanidade � a capacidade de mudan�a que deriva de sua consci�ncia, consci�ncia que mobiliza suas energias e define o sentido de seus passos.
Um movimento popular submetido � desinforma��o, desmobilizado pela inconsci�ncia do real, domesticado � submiss�o ou ao fatalismo n�o se constitui em protagonista de sua pr�pria mudan�a e est� condenado a cumprir passivamente o papel que o enredo dominante lhe destina, sofrer a mis�ria.
� medida que avan�am os processos de democratiza��o vai tamb�m ficando cada vez mais claro que a informa��o pela informa��o n�o basta. Democratizar a informa��o implica em democratizar seus conte�dos e em colocar a democracia como centro do pr�prio processo de democratiza��o da informa��o. Assim como os movimentos populares podem historicamente vir a apoiar processos pol�ticos autorit�rios, � tamb�m poss�vel que informa��es de conte�do autorit�rio sejam "democratizados" atrav�s de redes de comunica��o que alcan�am a todos de forma autorit�ria. Esse na verdade � o quadro que assistimos hoje em escala mundial, um mundo editado por algumas redes de comunica��o, que produzem e imp�em a sua imagem e vers�o do mundo.
A democratiza��o da sociedade, que se d� atrav�s da democratiza��o de todas as suas rela��es (sociais, econ�micas, pol�ticas e culturais) passa pela democratiza��o da informa��o e ela n�o est� efetivamente democratizada nem no primeiro nem no terceiro mundo. A censura oficial das ditaduras foi substitu�da pela censura empresarial dos grupos dominantes. O car�ter mudou mas o efeito � o mesmo: uns poucos decidem a mat�ria prima da consci�ncia (informa��o) que pode ser apropriada por milh�es ou bilh�es de pessoas no mundo. A guerra do Iraque se desenvolveu na vida e no v�deo. O mundo, no entanto, at� agora s� soube do que ocorreu no v�deo.
O destino da democracia em todos os pa�ses depende da resposta a essa quest�o. J� conquistamos o direito de nos organizar e de votar , falta agora conquistar o direito de nos informar e de formular as propostas para a constru��o de uma sociedade democr�tica. O desenvolvimento e a coopera��o internacional passam por essa porta e podem perfeitamente tamb�m ajudar a abri -Ia.
A democratiza��o de nossas sociedades se constr�i a partir da democratiza��o das informa��es, do conhecimento, das id�ias, da formula��o e debate dos caminhos e dos processos de mudan�a. Da� a necessidade de muitos e variados centros de produ��o e dissemina��o de informa��es e conhecimentos. Cada vez mais o desafio, no entanto, se desloca do micro para o macro, da interven��o local para a nacional e internacional, dos meios limitados que atingem alguns para os meios de massa que atingem todos. As ONGs em escala mundial est�o desafiadas a sair da clandestinidade, ou dos limites a que foram submetidas no passado, para poderem enfrentar os novos desafios do presente. A democracia � que desenvolve o mundo e ela se constr�i com e atrav�s da comunica��o.

Betinho

Herbert de Souza

Betinho

28 fev 91

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