CAP�TULO II

O EST�GIO ATUAL DA POLUI��O NO MUNDO

Os EUA, apesar de possu�rem apenas 5,7% da popula��o mundial, consomem 40% do aproveitamento total dos recursos naturais. Nos 70 anos de sua vida, o americano m�dio usa 98 milh�es de litros d'�gua, 70 milh�es de litros de gasolina, 4,5 toneladas de carne e 12 de leite. Para compor o problema, um levantamento Gallup indica que 41% dos americanos considera, como ideal, a fam�lia de quatro, ou mais, filhos. (59:43)

O resultado de uma produ��o em massa � imund�cie em massa. A cada ano, na Am�rica, acumulam-se 7 milh�es de autom�veis, 100 milh�es de pneus, 20 milh�es de toneladas de papel, 48 milh�es de latas e 28 bilh�es de garrafas. Os EUA produzem, tamb�m, 50% da polui��o industrial do mundo. As ind�strias descartam 165 milh�es de toneladas de res�duos s�lidos, e despejam 172 milh�es de toneladas de fuma�a e gases na atmosfera, a cada ano. (59:44)

Os 83 milh�es de autom�veis do pa�s causam 60% da polui��o do ar nas cidades. Pressionada, Detroit introduziu, em 1971, modelos que exalam 37% a menos de mon�xido de carbono que os de 1960; em compensa��o, houve acr�scimo na descarga de �xido de nitrog�nio. E o nitrog�nio � particularmente perigoso: sob a luz solar, ele reage com os hidrocarbonetos liberados na queima da gasolina, formando PAN que, com o oz�nio, constitui a mais t�xica parcela do smog. (53:43)

O ecologista Kenneth E. Watt diz que o ar da Calif�rnia possui, agora, 50% a mais de �xido de nitrog�nio. Isto tem um significado importante na qualidade da luz que alcan�a a superf�cie da Terra - e acrescenta - Na presente taxa de aumento do �ndice de nitrog�nio, ser� apenas uma quest�o de tempo, at� que a luz solar seja filtrada de tal forma, pela atmosfera, que nenhum peda�o de terra ser� aproveit�vel. (59:41)

O problema se agrava quando sabemos que 40% do oxig�nio consumido nos EUA n�o s�o produzidos dentro de suas fronteiras. E que, anualmente, � pavimentada uma �rea de 1 milh�o de acres anteriormente ocupada por �rvores produtoras de oxig�nio. (48) (59:44)

Cada vez mais, os produtos qu�micos substituem o estrume, enquanto as cidades se aproximam dos currais, resultando da� uma enorme polui��o da �gua, e conseq�ente problema sanit�rio. Calcula-se que, a cada segundo, oito milh�es de litros de esgotos e refugos industriais s�o lan�ados no sistema de �guas da na��o; por essa raz�o, a exporta��o de �gua para os EUA j� � um dos melhores neg�cios do Canad�. (48:85)

O Presidente Nixon prescreve uma dose refor�ada de tecnologia para a acura da polui��o, mas sua medica��o poder� causar efeitos secund�rios. Seu plano de US$ 10 bilh�es, para a constru��o de sistemas municipais de tratamento prim�rio e secund�rio das �guas, apresenta duas grandes falhas: ao contr�rio das esta��es terci�rias, mais caras, as do projeto n�o exterminam os v�rus, como, por exemplo, os causadores da hepatite infecciosa, e, convertendo mat�ria org�nica em compostos, especialmente fosfatados e nitrogenados, contribuir�o para a eutrofica��o dos lagos e dos rios. (59:42)

O uso de pesticidas e inseticidas tem sido t�o grande na Am�rica que o leite humano cont�m, em m�dia, duas vezes mais quantidade de DDT que a permitida no leite para venda comercial. (38:5)

Os EUA n�o s�o o �nico pa�s pesadamente atingido pela polui��o tecnol�gica. A Europa e o Jap�o apresentam, tamb�m, muitas das vezes, condi��es graves.

A asseada Su��a est� horrorizada ao constatar que os seus tr�s cristalinos lagos - Genebra, Constan�a e Neuch�tel - est�o se tornando lamacentos devido aos efluentes das cidades e das ind�strias ribeirinhas; a truta e a perca est�o praticamente extintas. (59:44)

O Reno, correndo 1.320km desde as minas de pot�ssio da Als�cia, atrav�s do vale do Rhur, at� o Mar do Norte, j� � conhecido como o "esgoto da Europa". O rio � t�o t�xico que at� a robusta enguia tem dificuldade em sobreviver. Os holandeses, vivendo na foz, reconhecem que "a Holanda � a lata de lixo da Europa". Acresce o fato de que s� nos Pa�ses Baixos � consumido mais adubo qu�mico que em toda a Am�rica do Sul. (59:44) (37:17)

Nas proximidades de Marselha, as f�bricas de alum�nio despejam, mensalmente, 6 mil toneladas de um sedimento vermelho, no Mediterr�neo. Se bem que 80% dele escorre para uma profunda fenda, o restante se deposita pelo fundo e, embora n�o sendo t�xico, cobre e mata todos os seres vivos. Al�m do mais, nesta �rea, � essencial a exist�ncia de �gua viva para purificar os esgotos da cidade. (59:44)

Embora os sovi�ticos levem vantagem quanto ao tipo de lixo, os res�duos industriais provocaram o in�cio, em 1967, da luta contra a polui��o. O Minist�rio da Agricultura, respons�vel pela defesa dos recursos naturais, estima em 30 bilh�es de cruzeiros os preju�zos causados pela polui��o. Apenas as f�bricas de alimentos de Moscou, Leningrado e Kazam jogam nos rios gordura bastante para fabricar 25% do sab�o consumido por essas cidades.

O problema figurou com destaque no relat�rio de Kossingin ao XXIV Congresso do PCUS, e ficou-se sabendo que o mar C�spio, fonte de 95% do caviar negro do mundo, est� secando por causa das barragens do Volga. A crise dos esturj�es j� causou a proibi��o da pesca em v�rias regi�es. O rio Ural, outrora abastecedor de bom peixe para todas as R�ssias, � hoje um curso d'�gua moribundo, envenenado pelos despejos industriais de Uralsk, Novotritsk e Oremburgo. (32:16)

A prov�ncia sueca de Smarland viu cair neve negra, devido � quantidade de fuligem espessa que atravessou o mar, procedente do continente. A situa��o no B�ltico tem a agrav�-la o fato de que se trata de um mar relativamente fechado. Estudos suecos conclu�ram que a �gua, ali, leva cerca de 30 anos para se renovar, o que vem contribuir como fator agravante de suas condi��es ambientais.

T�quio est� literalmente afundando, em alguns lugares, cerca de 30 cent�metros por ano, devido ao peso de sua industrializa��o e ao consumo de �gua. O evento importante que mostrou sua cegueira para o meio ambiente foi o primeiro fog fotoqu�mico ocorrido em julho de 1979. Os n�veis m�ximos alcan�aram um ter�o dos registrados em Los Angeles, mas intoxicaram 11 mil pessoas. (44)

Foi estabelecido, na capital japonesa, um Centro de Controle da Polui��o do Ar ligado, por linhas diretas, a 120 f�bricas, entre as quais as respons�veis pela produ��o de metade do di�xido de enxofre da cidade. Elas concordaram em reduzir a fuma�a em at� 70% quando os gases alcan�arem o que as autoridades chamam de n�vel de emerg�ncia - que pode ser menos que aqueles tolerados na Europa. (28)

A polui��o dita tecnol�gica n�o atinge apenas os pa�ses ou regi�es desenvolvidas. O cognome prov�m de sua origem, n�o do grau de adiantamento da �rea.

O Egito, assim, sofre um embate importante neste campo. Com a represa de Assuam, os nutrientes minerais do Alto Nilo n�o mais s�o transportados rio abaixo fertilizando as terras ao longo de sue curso; eles n�o mais atingem o mar para fazer crescer o plancton de Mediterr�neo, mar pobre em fosfatos. Ficam retidos atr�s das altas paredes da represa e descem vagarosamente para o fundo do Lago Nasser.

A conseq��ncia foi imprevista, mas devastadora. A pesca da sardinha no Mediterr�neo, fonte de alimenta��o e uma das mais importantes ind�strias eg�pcias, declinou acentuadamente. Em 1965, a produ��o foi de 18 mil toneladas. Em 1968, depois da constru��o da represa, caiu para 500 toneladas. A falta de aluvi�es ricos em nitrog�nio e fosfatos obriga o pa�s a enriquecer, por outros meios, o vale at� ent�o biblicamente f�rtil, principalmente com produtos qu�micos. Os minerais retidos no Lago Nasser, por sua vez, est�o favorecendo a multiplica��o explosiva de vegeta��o nas �guas contidas pela represa, decorrendo da� um aceleramento na evapora��o e uma redu��o no n�vel do Lago. (38)

A situa��o nos grandes centros populacionais � bastante dram�tica, pois, na medida em que novos meios tecnol�gicos s�o criados para um crescimento em progress�o geom�trica, o �ndice de polui��o cresce na mesma propor��o, provocado pelos pr�prios organismos que pleiteiam a progresso. (40)

O lixo tem sido um importante fator de polui��o. As cidades medievais sofreram pestes e epidemias gra�as � sujeira e imund�cie em que viviam, antes da chamada Revolu��o Higi�nica. Ainda hoje, o lixo apresenta problemas. Sua constitui��o varia de acordo com o grau de adiantamento e o n�vel de vida da popula��o de onde prov�m, e sua quantidade depende, principalmente, de fatores demogr�ficos. Nos EUA, apenas o recolhimento do lixo consome U$ 2,8 bilh�es anuais. S�o Paulo recolher�, em 1974, 7 mil toneladas, diariamente. Em muitos lugares, principalmente nas favelas - qualquer o nome que tenham, nos quatro cantos do globo - o problema � o destino dado ao lixo. (59:41) (58)

Cidades verdadeiramente polu�das, ao lado de Los Angeles e T�quio, s�o tamb�m Hong-Kong, Cingapura, Bombaim e Calcut�. A �ndia � um dos lugares mais cheios de imund�cie do planeta; al�m dos dejetos humanos, o Ganges recebe religiosamente os restos dos cad�veres cremados em ritual. A imagem de um indiano escovando os dentes com uma escova de pl�stico, nas �guas do Rio Sagrado, figura a polui��o tecnol�gica aliada � polui��o do subdesenvolvimento.

O Brasil, pa�s em evolu��o, deixando de maneira desordenada o subdesenvolvimento, apresenta problemas de polui��o de certa forma graves, principalmente porque alia a polui��o dos ricos com a polui��o dos pobres.

Das doze ind�strias de cloro e soda c�ustica do pa�s, seis, que produzem 70% do total consumido, utilizam o merc�rio, poluente altamente venenoso que se deposita no c�rebro, rins, sangue, ossos e m�sculos. No Cear� est� sendo constru�da uma ind�stria qu�mica que se utilizar� do mesmo processo antiquado, e produzir� o equivalente � das seis ind�strias citadas, reunidas. (37)

O Instituto Adolfo Lutz, em S�o Paulo, tem realizado exames para a medida e constata��o da polui��o nos alimentos. Como resultado de suas an�lises, foram constatados �ndices m�dios de BHC, nas carnes enlatadas, em n�veis que indicam contamina��o bastante apreci�vel. Embora a lei brasileira n�o permita res�duos de BHC no leite e seus derivados, as an�lises mostraram que todos os latic�nios de S�o Paulo est�o em desacordo com a legisla��o.

O est�gio atual de contamina��o ainda � incipiente, mas como se trata de um problema cumulativo, h� que se tomar precau��es antes que a situa��o se agrave. O Governo desencadeou uma a��o, a partir do Rio Grande do Sul, no tocante � qualidade da carne para o consumo, mas ainda n�o atacou, com �nfase, a fiscaliza��o da aplica��o de pesticidas na lavoura. H� uma Comiss�o Especial, na C�mara dos Deputados, estudando um projeto sobre a preven��o da polui��o ambiental em todos os seus aspectos. (10) (16)

As toneladas de detritos lan�ados � Ba�a da Guanabara est�o mudando sua forma. Em 1937, havia oito canais com uma largura total de 1.630 metros, canais estes de vital import�ncia para a renova��o das �guas. Em 1957, estavam reduzidos a dois, com uma largura total de 530 metros. Hoje, esta largura se v� reduzida a 17 metros. Cinq�enta e dois rios e canais cariocas e fluminenses despejam toneladas de mat�ria apodrecida, al�m do lixo do Rio e de mais oito munic�pios fluminenses, de onde vem o esgoto n�o tratado de 3,7 milh�es de pessoas. Acresce o despejo de cerca de um milh�o de litros de �leo vazados todos os anos dos terminais de combust�veis e navios. (37)

Em paralelo, no Maranh�o, de acordo com as Tabula��es Avan�adas do Censo Demogr�fico de 1970, apenas 16,4% das resid�ncias t�m abastecimento de �gua provenientes de rede geral, po�o ou nascente; s� 3,7% t�m esgotos ligados � rede geral ou possuem fossa s�pticas. � de se notar ainda que 8,5% das resid�ncias cozinham com fog�o a g�s, enquanto 21,3% utilizam a lenha, e 61,4% sequer possui fog�o. (37)

Nos Estados da Guanabara e Rio de Janeiro, polo oposto na escala de desenvolvimento, h� ainda grandes distor��es. Apenas 68,3% dos domic�lios t�m seu sistema de abastecimento de �gua feito por rede geral, e 41,9% servem-se da rede de esgotos. Na Grande S�o Paulo, dos 8 milh�es de habitantes, apenas a metade � servida por redes de abastecimento de �gua, e apenas 30% por redes de capta��o de esgotos. Quase 3 milh�es utilizam-se de po�os, estando sujeito a infec��es. Ultrapassa de 600 mil os po�os contaminados. (37)

Em Salvador, a rede de esgotos tem apenas 27km para atender a um milh�o de habitantes. Resultado: muitas praias est�o polu�das. (37)

O problema brasileiro � muito mais a polui��o bacteriana do que a polui��o provocada pelos autom�veis ou pela ind�stria. Esta, quando ocorre, � restrita a poucos centros, enquanto aquela se estende por todo o territ�rio, embora variando em �nfase. A morte de milhares de brasileiros por ano � provocada pela transmiss�o de doen�as por microorganismos porque as cidades n�o t�m uma rede de esgotos adequada, e a �gua n�o � convenientemente tratada.

Uma grave conseq��ncia da polui��o, principalmente para os pa�ses desenvolvidos, � o que poder�amos chamar de polui��o das mentes pela polui��o - a psicose da polui��o. A quantidade quase absurda de dados e efeitos da polui��o, a freq��ncia com que s�o divulgados pela imprensa e a dramaticidade dos ec�logos t�m efeitos consider�veis na opini�o p�blica mundial, superestimando as conseq��ncias decorrentes do est�gio de contamina��o do meio ambiente.

A situa��o, contudo, n�o � t�o grave como parecem querer nos mostrar. Londres, com o Clean Air Act de 1956, come�ou a se limpar. deixando de ser uma das cidades mais polu�das do mundo. Muitas esp�cies de p�ssaros voltaram aos parques da cidade que tinham sido abandonados. J� se pode pescar 57 variedades de peixes no T�misa. � um exemplo de que se pode eliminar a polui��o - ou pelo menos reduzi-la - por atos da vontade. (59:44)

Vimos, neste Cap�tulo, alguns aspectos de como a polui��o e seus efeitos v�m sendo sentidos em todo o globo. Graves em certos centros, como conseq��ncia da industrializa��o em massa, como subproduto do elevado n�vel de vida, ou pelo uso e abuso dos recursos. Grave em outros, como conseq��ncia da pobreza, como subproduto da ignor�ncia e do atraso, pela falta de medidas sanit�rias, ou pelo mau uso dos recursos.


 
 
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