CAP�TULO I
A POLUI��O E A BIOSFERANos �ltimos anos, o planeta Terra deixou de ser considerado como uma infind�vel fonte de recursos. Compreendeu-se que os estoques s�o limitados e s� n�o foram ainda esgotados gra�as ao fen�meno da reciclagem. O conceito da necessidade do processo da reciclagem - de nada perder, nada destruir, tudo usar de novo - mostrou a amea�a da polui��o. Esta, inutilizando o recurso, causa a interrup��o do processo.
A Vida proveio da mat�ria inorg�nica e, desde o seu aparecimento, criou o processo com o qual, ao longo dos mil�nios, n�o s� construiu o ambiente que favoreceu � sua evolu��o, como o vem mantendo, dinamicamente, dentro de caracter�sticas favor�veis.
A transforma��o da mat�ria inorg�nica da atmosfera, da litosfera e da hidrosfera, em mat�ria org�nica da biosfera pelas plantas, o percurso desses elementos atrav�s das cadeias alimentares, e seu retorno � mat�ria inorg�nica, por a��o bacteriol�gica, constitui, em ess�ncia, o Ciclo da Vida.
A planta, recebendo energia do Sol, n�o s� cria mat�ria org�nica mas tamb�m o oxig�nio atmosf�rico, que n�o existiria nem poderia subsistir sem ela. � sempre o primeiro elo de todas as cadeias alimentares, formadas de diversas esp�cies animais, ao t�rmino da maioria das quais encontra-se o homem.
Os seres viventes procriam uma descend�ncia muito maior do que a que pode sobreviver, garantindo assim a preserva��o da esp�cie. O excedente produzido em cada esp�cie � consumido para a sobreviv�ncia de outras, mantendo-se um equil�brio biol�gico. Al�m desse equil�brio, regido pelas leis cadeias alimentares, h� aquele com o meio ambiente, o ecol�gico, que vem a determinar para cada comunidade vivente - biota - n�o s� as esp�cies ali existentes, como a quantidade de indiv�duos de cada uma, a forma em que est�o distribu�dos, o modo em que vivem e podem reproduzir-se.
O equil�brio ecol�gico � l�bil, e oscila em torno de uma situa��o m�dia enquanto n�o se modifiquem por completo as condi��es do meio ambiente; uma vez alterado o meio, a Natureza procura estabelecer um novo equil�brio, o que conseguir� se lhe for concedido o lapso de tempo necess�rio. Assim � que exemplares se adaptam ao meio, como os ratos que vivem no Armaz�m Frigor�fico do Porto do Rio de Janeiro, t�o peludos quanto gatos angor�. As monoculturas, por sua vez, influem no equil�brio por proporcionarem o aumento incontrolado de animais que se alimentam daquela cultura espec�fica, dando origem �s pragas. A capacidade de auto-regula��o tem limites e, uma vez rompido o equil�brio de forma irremedi�vel, a biota � degradada at� que novas condi��es permitam o estabelecimento de uma outra comunidade buscando um novo equil�brio. Quando se criam novos espa�os, como no surgimento de ilhas vulc�nicas, o acaso decidir� quais esp�cies proceder�o � primeira ocupa��o, mas as caracter�sticas deste novo espa�o vital � que determinar�o quais aquelas que poder�o manter-se e alimentar-se. (50) (41:18)
A primeira Revolu��o Agr�cola, ocorrida h� mais de dez mil anos, possibilitou ao ser humano ascender de um est�gio de predador, que at� ent�o ocupava, totalmente sujeito �s leis ecol�gicas, para uma posi��o que lhe possibilitou influir de modo mais efetivo e duradouro no seu meio ambiente. A vida menos perigosa que a da ca�a, e a oportunidade do exerc�cio de outras atividades, que n�o as ligadas � sobreviv�ncia, propiciou um acr�scimo sens�vel na taxa de crescimento demogr�fico e o surgimento das primeiras grandes civiliza��es. O homem convertera-se em dono e senhor de seu espa�o vital, passando a transformar a biocenosis da Natureza em antropocenosis.
Estimativas sugerem que antes da Era Moderna, a popula��o mundial dobrava em per�odos que variavam entre 1.000 e 2.000 anos; no s�culo XVII, esse per�odo caiu para menos de 200 anos; e, no s�culo XIX, para cerca de 100. Na taxa atual de crescimento, a popula��o dobrar� em 35 anos, o que significa um aumento de 8 vezes em um s�culo. Estat�sticas da ONU assinalam a popula��o atual em 3,6 bilh�es, prev�em, para 1980, 4,5 bilh�es, e, para o fim deste s�culo, 6,5 bilh�es. (63:29) (20)
O progresso tecnol�gico, por sua vez, tem influenciado n�o s� o crescimento demogr�fico, como contribu�do de forma significativa na gera��o de poluentes.
O lento crescimento demogr�fico, at� o s�culo XVII, que parece t�o regular, esteve longe de o ser; interrompiam-no, bruscamente, as fomes, as grandes mortandades epid�micas e as longas guerras. Fomes e guerras matavam sobretudo atrav�s das grandes epidemias, mormente quando, a partir de 1100, as popula��es come�aram a se agrupar em cidades maiores e tornavam-se mais vulner�veis �s epidemias. Se � f�cil atribuir o aumento da perspectiva de vida, e tamb�m da popula��o, �s grandes descobertas da Medicina, � preciso n�o olvidar que o fen�meno foi precedido de um lento progresso nas medidas higi�nicas.
Como n�o se disp�e de boas estat�sticas sobre os s�culos XVI, XVII e XVIII, a conclus�o de que a limpeza das cidades foi a principal causa de explos�o demogr�fica � conjectural e n�o cientificamente comprovada. Temos ind�cios interessantes ao constatarmos que, dos 22 herdeiros de Jaime I [1566-1625], apenas 10 atingiram a idade de 21 anos, e ao verificarmos a afirmativa da publica��o Fumifugium, edi��o de 1772, que de metade das criaturas nascidas em Londres n�o atingia a idade de 2 anos. Ainda no princ�pio deste s�culo, na Inglaterra, a mortalidade de crian�as, antes de completado o primeiro ano de vida, era 10%; hoje � 1,9%, conseq��ncia da virtual erradica��o de mol�stias como a difteria e a tuberculose. (25:11)
H� a acrescer a expectativa de vida m�dia; em 1870 era de 40 anos; em 1900, 46; em 1930, 55; em 1965, 65; e, em 1970, 75 anos. A mudan�a radical da taxa de mortalidade infantil, aliada � extens�o da expectativa de vida teve conseq��ncias dram�ticas no crescimento da popula��o. (25:11)
A Revolu��o Industrial trouxe o in�cio da queima das reservas de combust�veis f�sseis, dos quais consumimos em um ano o que a Natureza levou mais de cem s�culos para construir. No processo de queima, consumimos oxig�nio atmosf�rico, o que n�o vem a ser t�o significativo quanto a eleva��o do teor de di�xido de carbono, embora o oceano e a vegeta��o se incumbam de absorver parte dele. Durante o �ltimo s�culo, o teor de g�s carb�nico na atmosfera foi elevado em 10%. (48:12) (1)
Al�m disso, f�bricas e autom�veis lan�am diariamente milh�es de toneladas de gases e subst�ncias t�xicas no ar; algumas capazes de corroer at� metais e concreto. Mais de tr�s mil produtos qu�micos estranhos foram detectados na atmosfera, sem contar cinzas, fuligens, part�culas s�lidas e o fall out at�mico. Comprovou-se que o Coliseu sofreu mais efeito de corros�o nos �ltimos 20 anos, que em toda a sua exist�ncia at� ent�o. Nos �ltimos sete anos, houve uma perda de 5% na transpar�ncia da atmosfera, afetando seriamente o clima no globo. O smog que envolve muitas cidades industriais torna-se cada vez mais intenso e mais t�xico. (24:15)
O solo se compacta pelo esgotamento de mat�ria org�nica porque sua vida, indispens�vel � produtividade, decai e n�o consegue mais manter uma estrutura floculada, n�o consegue fixar o nitrog�nio necess�rio, nem mobilizar os nutrientes. Eros�o, enchentes, secas, pragas e doen�as, baixa produtividade e pouca resposta aos adubos, acidifica��o ou saliniza��o s�o as conseq��ncias do mau trato do solo. A elimina��o de bosques e florestas, a minera��o a c�u aberto, a urbaniza��o, a constru��o de estradas t�m contribu�do para a eros�o, e a explora��o dos recursos do subsolo tem afetado a qualidade da �gua dos len��is subterr�neos. (48:15)
Segundo os c�lculos da UNESCO, o primeiro quil�metro de profundidade da superf�cie terrestre cont�m tr�s mil vezes mais �gua doce do que todos os rios juntos. Em muitos pa�ses da Europa Ocidental, essas reservas asseguram 75 a 100% da demanda total de �gua. (64:94)
Nos �ltimos vinte anos, o homem viciou sua agricultura em pesticidas a tal ponto que ela, agora, exige seu uso continuado para resistir ao ataque dos insetos e das pragas. Sabemos, hoje, que esses produtos envenenam n�o s� as pragas, mas tamb�m os peixes, aves e muitos insetos �teis.
Os pesticidas e inseticidas t�m mostrado uma capacidade inigual�vel de saturar o sistema ecol�gico. O DDT foi usado, pela primeira vez, na II Guerra Mundial. Hoje, acha-se presente na �gua, na terra e no ar; armazenado na gordura animal, embebido no leite humano e at� na neve do Polo Sul, a milhares de quil�metros das mais pr�ximas opera��es de pulveriza��o. Mais de meio bilh�o de quilos de DDT foram descarregados em nosso meio ambiente desde o come�o do seu emprego, e estamos fazendo subir esses algarismos numa propor��o calculada em mais de 50 milh�es de quilos por ano. Grande parte do problema do DDT deve-se � sua persist�ncia, calculada entre 5 e 20 anos. Estima-se haver, no mundo, quase 700 milh�es de toneladas de DDT ativo. (27:5)
� interessante observar a fixa��o dos inseticidas nos organismos, o que obedece aos efeitos de um fen�meno conhecido por amplifica��o biol�gica. Assim �, por exemplo, admitindo uma concentra��o de 0,04ppm de DDT no plancton, o segundo elo da cadeia alimentar apresentar� 0,26ppm; o terceiro, 1,28ppm; e o quarto, 26,40ppm. A� a raz�o de se ter encontrado DDT e mais 5 inseticidas, do tipo de compostos de cloro, nos tecidos adiposos e no f�gado at� de ping�ins capturados na Ant�rtica. (64:141)
Estudos realizados comprovaram que os detergentes t�m efeitos extremamente t�xicos para os animais aqu�ticos. As experi�ncias mostraram tamb�m que os pequenos membros da comunidade de zooplanctos s�o particularmente suscept�veis a esses efeitos t�xicos dos detergentes; e isto pode ser s�rio, uma vez que estes animais s�o, agora, olhados como um elo fundamentalmente importante na cadeia alimentar da �gua doce e salgada. (60:124)
As impurezas do ar e do solo escorrem para os lagos e rios, e da� para o mar, onde, cedo ou tarde, tudo acaba por chegar. Os res�duos org�nicos, at� certa quantidade, s�o ben�ficos. Enquanto o corpo d'�gua que os recebe tem oxig�nio suficiente, bact�rias aer�bicas os consomem e os mineralizam em carbonatos, nitratos, sulfatos e fosfatos que, normalmente, v�o ao fundo, mas que a��es naturais, como o vento, fazem aflorar para, na zona euf�tica, serem reassimilados pelo plancto que, por sua vez, produzir� mais oxig�nio. Entretanto, o cont�nuo enriquecimento da �gua pode produzir tal quantidade de mat�ria vegetal que, n�o conseguindo ser consumida, vem a morrer. Sua decomposi��o absorve imensas quantidades de oxig�nio; esgotado este, s�o as bact�rias anaer�bicas que putrefazem a mat�ria org�nica, produzindo t�xicos. � o fen�meno da eutrofica��o.
O uso crescente dos adubos qu�micos, generalizado somente no s�culo XX, trouxe recompensa mir�fica; atribui-se a ele 25% da produ��o agr�cola mundial; mas um dos efeitos da aduba��o intensiva � a eutrofica��o dos lagos e rios, no que � auxiliado pelos fosfatos dos detergentes e pelos nitratos das descargas dos autom�veis. (25:13)
Al�m da eutrofica��o dos estu�rios, provocada principalmente pelos dejetos, que v�m influir de modo significativo na reprodu��o das esp�cies at� de peixes que habitam o oceano, a polui��o pelo �leo tem merecido cuidados.
O acidente do Torrey Canyon, em mar�o de 1967, deu uma nova dimens�o ao problema do controle e da regulamenta��o da polui��o do mar pelo �leo. Os preju�zos, n�o apenas os decorrentes do despejo de �leo em praias tur�sticas, mas tamb�m os da elimina��o da vida marinha da� advinda, fizeram com que o Reino Unido e outros pa�ses solicitassem uma convoca��o especial do Conselho da IMCO para tratar especificamente do problema.
O Ministro dos Transportes dos EUA, John A. Volpe, falando perante uma reuni�o da OTAN, prop�s um acordo internacional banindo a pr�tica de despejos oleosos no mar, tanto aqueles feitos pelos petroleiros fora das faixas de interdi��o, como os efetuados pelos demais navios, t�o longe da costa, quanto poss�vel, segundo a regulamenta��o da IMCO. A proposta, j� apoiada pela NATO, caso aceita, tornar� obrigat�rias v�rias modifica��es nos projetos de navios e nas instala��es dos terminais mar�timos, acarretando uma despesa mundial entre 1 e 5 bilh�es de d�lares. (32)
Outros tipos de polui��o, sofisticadas como a sonora e a visual, ou eufem�sticas como a educacional e a ideol�gica t�m servido como fontes para a previs�o de incapacidade f�sica e mental, ou para se atingir est�gios de submiss�o de parcelas da humanidade, e destrui��o dos princ�pios culturais e morais institu�dos pelo Homo Sapiens atrav�s dos mil�nios.
Restringindo-nos ao aspecto ecol�gico, podemos concluir que o crescimento populacional exagerado e o progresso tecnol�gico desordenado t�m criado condi��es para que a a��o do homem no meio ambiente torne-se uma consider�vel causa da modifica��o de fatores condicionantes da vida. A quebra do equil�brio biol�gico pela extin��o de esp�cies, o rompimento do equil�brio ecol�gico advindo das altera��es profundas no meio, o envenenamento dos recursos indispens�veis � manuten��o do processo de reciclagem t�m alterado as caracter�sticas da biosfera de tal forma que vem amea�ar a preserva��o da Vida no Planeta.
| Sum�rio | Introdu��o | Cap I | Cap II | Cap III | Cap IV | Cap V | Anexo | Bibliografia |