O Barroco em Minas Gerais - 9 Autor de volumosa obra, de alta qualidade, dono de traços ora calmos, ora torturados, e de uma paleta rica e complexa, mistura de força agreste e delicado requinte, Manuel da costa ataíde agiganta-se no acanhado panorama da pintura colonial brasileira.
Nascido em Mariana, presumivelmente em 1762, muitos autores acreditam que Ataíde era mulato _ ou porque pintou santos, anjos e madonas mulatos, ou porque eram mulatos alguns dos maiores artistas brasileiros. Entretanto, o pintor foi irmão da Ordem Terceira de São Francisco, em Ouro Preto, e da Ordem Terceira do Carmo, em Mariana, e essas irmandades só admitiam gente branca.
Com vinte anos, em 1782, Ataíde recebeu pagamento por um trabalho não identificado, realizado na capela da Ordem Terceira do Carmo, de sua cidade. Em 1794 recebeu outras encomendas da Ordem Terceira de São Francisco, também de Mariana. Em maio de 1799, foi encarregado de fazer a barra da capela-mor da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, de Ouro Preto, e as pinturas dos Passos _ Ceia, Flagelação e Crucificação_ de Congonhas do Campo. Poucos outros trabalhos são documentados, por isso não é facil estabelecer uma cronologia.
Sua vasta obra pode ser dividida em quatro partes essenciais: os forros em perspectiva, os forro-quadros, as pinturas sobre telas e as pinturas decorativas. Quanto aos forros, sabe-se apenas que, entre 1800 e 1809 concluiu o da nave da Igreja da Ordem de São Francisco, em Ouro Preto; em 1822 declarava ter pintado e dourado a Igreja de Sto Antônio, em Sta Bárbara, e a Matriz de Itaverava e, em 1823, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Mariana.
A mais expressiva obra de mestre Ataíde é o teto da nave da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Ouro Preto. A forma da Igreja_ octogonal irregular, com as quatro paredes menores convexas_ e a solução de abóbada à barrete de clérigo certamente facilitaram a magnifica composição. Sobre as paredes convexas estão os quatro púlpitos com doutores da Igreja, espetacularmente favorecidos pela arquitetura.
O quadro central, pintado a óleo, é o que apresenta espaço metafórico mais amplo, tanto na obra de Ataíde quanto na pintura brasileira. No centro vê-se uma Nossa Senhora mulata, entre nuvens povoadas de anjos, igualmente pardos. Além da cabeça de Nossa Senhora, o espaço se dilata, subindo para as alturas.
Manuel da Costa Ataíde é fruto maduro do mundo artesanal, sem escolas formais, voltado para a execução e não para a criação. Entretanto, Ataíde executa e inova. Inova nos traços fisionômicos, na composição, na localização e número das personegens. Todas elas mostram um tipo característico, de nariz arrebitado, levemente beiçudo, pouco queixo, pálpebras pesadas, grandes olhos, ombros largos e almofadados, coxas redondas, pés arqueados, antebraço curvo, mãos moles e dedos às vezes em garra. As figuras não são reais, como as paisagens e os céus; o indeterminado, originário das gravuras diferentes ganha, à luz dos trópicos, o envolvimento brasileiro e a bonomia natural do pintor das cores claras, em constante harmonia. Dir-se-ia que, Manuel da Costa Ataíde viveu sintonizado com a circunstância e a usou livremente, sem polêmicas.
O barroco brasileiro se caracterizou, como em toda a Europa, por uma grande influência religiosa, e ainda por ter começado quase com um século de atraso com relação à mesma. A medida que o século XVII chega ao fim, as imagens religiosas perdem em força e caráter: no século seguinte irão banalizar-se, mercê de uma comercialização intensa, que levaria diretamente a uma fabricação maciça e indiscriminada.
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