O Barroco em Minas Gerais - 4

        Com a gradativa extinção do ouro, e com os acontecimentos políticos que culminaram com a Incônfidencia Mineira , houve uma espécie de esvaziamento, truncando-se o processo de evolução artística de Minas Gerais. E, além de tudo, outro valor se levantava: o Neoclássico, trazido pela Corte, que fugia de Napoleão.
        A talha em Minas assumiu um aspecto profundamente original e chegou a uma intensidade expressiva de alto nível, transcendendo os limites de adorno com a obra de Aleijadinho. O mestre mineiro, entretanto, encontrou numerosas soluções, já encaminhadas por um grupo de valentes entalhadores, responsáveis por uma linguagem amadurecida e peculiar, com características próprias já determinadas.
        Atribui-se as modificações e o amadurecimento da talha mineira a Francisco Xavier de Brito, autor da talha dos seis altares laterais da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro, onde introduzira, com seu colega Manuel de Brito, as figuras fortemente salientes, segundo a nova tendência surgida em Lisboa, na terceira década do século XVIII. É difícil, porém, estabelecer primazias, porque nos registros das despesas, frequentemente, aparecem anotações sobre o risco de um autor, alterado pelo ezecutante; na maior parte das vezes, o autor do risco é até silenciado. Como se isso não bastasse, os mesmos tres ou quatro nomes aparecem em todas as igrejas que possuem o novo tipo de talha.
        Cabe considerar ainda que, entre a composição da talha carioca de São Francisco da Penitência e a das várias manifestações mineiras, existem diferenças, como maior leveza e maiores espaços livres entre os ornatos.A constatação de certa homeogêneidade entre a talha das diferentes igrejas mineiras, independente de quem tenha sido o entalhador, leva a concluir que a qualidade plástica, o acentuado relevo e a movimentação sinuosa da estrutura tenham sido a consequência da interação de influências, cujo resultado sintoniza admiravelmente com as características da arquitetura mineira.
        O maior artísta mineiro é Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Reconhecido como o artista brasileiro mais importante da época colonial, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em razão de uma doença degenerativa que o acometeu por volta dos 50 anos de idade, é também aquele que suscita o maior número de pesquisas e de publicações na bibliografia da História da Arte brasileira.
        Filho do arquiteto português Manuel Francisco da Costa Lisboa e de uma escrava africana de nome Isabel, o mulato Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto. A data precisa de seu nascimento é um item de sua biografia a ser elucidado. Existe, no entanto, indicação, em um hipotético documento de batismo, da data de 29 de outubro de 1730, a qual não coincide com as indicações do seu Atestado de Óbito, conservado nos arquivos da Paróquia Antônio Dias, em Ouro Preto. Com efeito, segundo este último documento, Antônio Francisco Lisboa, "mulato, celibatário, de 66 anos", faleceu em 18 de novembro de 1814, o que ultrapassa em, aproximadamente, oito anos a data mencionada na certidão de nascimento.
        A mesma incerteza paira sobre sua formação. Informa-se que, provavelmente, ele não tinha outro ensinamento que as primeiras letras e, talvez, algo de Latim. Seu aprendizado artístico foi somente prático. De fato não havia, ainda, na Colônia brasileira, uma "Academia de Artes", e ele jamais viajou ao exterior. Seu primeiro mestre foi seu pai, arquiteto e mestre de obras de grande renome na época, com o qual Aleijadinho colaborou em trabalhos importantes como a Igreja do Carmo de Ouro Preto. Brêtas indica, ainda, dentre seus prováveis mestres, o pintor e desenhista português João Gomes Batista, que, em Lisboa, foi discípulo do gravador francês Antoine Mangin e, em Vila Rica, exerceu a função de gravador de medalhas em uma casa de fundição.
        A influência de Gomes Batista e a descoberta das gravuras européias que o fizeram conhecer as formas elaboradas do rococó, estilo que o artista assimilou fortemente e o adaptou às condições locais ao utilizar um novo material, a stéatite, nos relevos arquitetônicos e nos móveis religiosos das igrejas por ele projetadas.
Aleijadinho, o "talento múltiplo por excelência", além de arquiteto e ornamentista, era principalmente escultor. As origens de sua formação como escultor são imprecisas, mas, certamente, foi o escultor português Francisco Xavier de Brito quem mais o influenciou.
        A Vila Rica de Aleijadinho era marcada por uma religiosidade aguçada, que, assim como toda a capitania das Minas Gerais, passava por profundas mudanças econômicas e sociais, decorrentes da escassez do ouro. Aleijadinho superou suas deficiências físicas e conseguiu passar para as obras que executou toda a vibração típica dos grandes artistas. Tornou-as incrivelmente cheias de vida, "donas" de olhar e gestos, e capazes de transmitir todos os sentimentos e anseios do mestre no ato da criação.
        Era de cor parda escura, possuía voz forte, fala arrebatada e temperamento agastado.Antes de ficar doente, em 1777, teve um filho, ao qual deu o nome do seu pai. Dessa época até sua morte em 1814, doenças atacaram-no de forma terrível. Impossibilitado de andar, era carregado por escravos; usava sempre trajes fechados e só saía à noite ou de madrugada, para não ser visto.
        De sua produção artística, localizada basicamente nas cidades mineiras de Sabará, Tiradentes, Ouro Preto, Congonhas e Cachoeira do Campo, fazem parte verdadeiras preciosidades como o altar-mor e a portada da Igreja de São Francisco de Assis, a fachada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, ambas em Ouro Preto, a fachada da igreja paroquial de Tiradentes, a escultura Cristo Flagelado, exposta no Museu da Inconfidência em Ouro Preto, entre outras.
        Sua obra pode ser dividida em duas partes, tal qual sua vida: a primeira é constituída por um rococó alegre, leve - um trabalho que traduz uma existência saudável. A segunda, sofrida e séria, retrata toda a dor de sua doença, como expressa os Profetas de Congonhas, que pela acentuada carga expressionista só poderiam ter por autor alguém que, de certa forma, passou grande parte da vida entre o céu e o inferno. Era filho do arquiteto e mestre de obras português, Manoel Francisco Lisboa e de uma escrava deste, Isabel. O pai lhe transmitiu a veia artística, de gosto barroco; a influência africana da mãe foi, talvez, responsável pela tendência à escultura, de indole discretamente expressionista; e a alforria, recebida por ocasião do batismo, incutiu-lhe o sentido da libertação. A todas essas circunstâncias acrescenta-se as condições do meio _ a inquieta Vila Rica do século XVIII, emergindo da aventura do ouro, que para lá conduziu gente de origens diversas.

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