O Barroco em Minas Gerais - 2 As irmandades, que eram independentes como organizações civis, praticamente reduziam os padres a simples empregados e lutavam entre si: a dos brancos contra as pessoas de cor, estabelecendo "termos", que interditavam o ingresso de pretos, de mulatos e de brancos casados com gente preta ou parda; as dos pretos contra as dos mulatos, como Rosário e Mercês, rivais em Diamantina. Sem duvida, foram as irmandades as grandes impulsionadas da Arquitetura em Minas . Em geral bastante ricas, inclusive as dos negros, procuravam sempre levantar suas igrejas e salas de reuniões visando, antes de tudo, a ostentar maior importância ou prestígio.
A grande beneficiária dessa emulação foi aquela Arquitetura Barroca, que nos situa como donos de um passado artístico de suma importância no panorama da arte universal.
Mas essa arquitetura não se definiu logo. Os paulistas haviam orientado as primeiras construções dos arraiais em formação, instalações provisórias e rudimentares, ranchos de sapé com armações de paus toscos, de vãos barreados.Com o tempo, já nas construções importantes, feitas para durar, foi tentada a taipa de pilão, técnica típica de São Paulo. Mas, na verdade, esse modo de construir não deu certo Minas. Os solos pedregosos tornavam difícil o transporte das raras terras argilosas do fundo dos vales; além disso, as encostas de pedras mal permitiam os terraceamentos necessários às instalações dos taipais.E ainda havia as enxurradas dos repentinos aguaceiros, que erodiam a terra socada, comprometendo a construção. A teimosia paulista, no entanto, insistiu tanto na taipa de pilão que ela até hoje ainda se encontra aqui e ali, em igrejas e residências.
Logo a atenção dos construtores, tanto paulistas como portugueses recém-chegados, foi desviada para a técnica das estruturas autônomas de madeira, cujos vãos eram preenchidos por teipa de sebe com pau-a-pique, que nos inventários bandeirantes aparece com o nome de " taipa de mão ".
As construções de pedra surgiam pouco a pouco, começando pelas casas modestas e pelas capelas humildes _ no início, para constituir embasamentos de estruturas mais complexas de madeira. As peças estruturais sempre transmitiam, pelas sembladuras, esforços verticais aos esteios fincados no chão duro. Essas construções sempre tinham ângulos retos, paredes brancas contidas por esteios, baldrames e frechais coloridos _ na maioria das vezes, azuis, graças ao anil de certas plantas das redondezas.
Um pouco mais tarde foram construídas grandes igrejas de taipa ou de pedra. Os acabamentos dessas igrejas evidenciavam a diferença de origens e estágios culturais dos que nela atuaram. É que os taipeiros mamelucos podiam trabalhar junto com os velhos carpinteiros do Reino, pedreiros do Algarve e, principalmente, construtores do Norte, gente do porto e também de Tras-os-Montes, peritos em cortar pedras para fazer longos muros.. O exterior, muito simples, não permitia imaginar a riqueza da decoração interior: altares entalhados, retábulos, douramentos e pinturas cenográficas. O melhor exemplo disso é a pequena Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, onde riqueza, fausto e bom gosto se escondem atrás de singelas paredes brancas, emolduradas pela estrutura tosca. A Igrejinha do Ó, erguida no século XVIII, é uma das mais importantes construções religiosas do País. O nome da igreja vem de um fato curioso. A festa da padroeira era comemorada na semana que antecede o Natal, quando eram cantadas as ladainhas, repetindo-se a cada dia as sete antífonas (versículos) sempre precedidos por um Ó, o que levou-a a ser popularmente chamada assim. Em termos arquitetônicos a fachada da igreja apresenta detalhes orientais. O arco-cruzeiro tem painéis com motivos chineses pintados a ouro. O interior da construção remonta à primeira fase do barroco mineiro. A ornamentação é complementada com painéis laterais e pinturas que representam o nascimento e vida pública de Cristo.
Sabará é ampla fonte de estudo para pesquisadores. No centro urbano, de fácil acesso, encontra-se exemplos das três etapas do barroco mineiro. A Matriz de Nossa Senhora da Conceição apresenta talhas representativas das primeira e segunda fases em Minas com trabalho de talha sobre madeira de extremo bom gosto. Construída em 1701, a igreja é composta por três naves e arcos de separação em cedro recoberto por talha dourada. Além do altar principal, existem seis laterais. Interessante destacar a existência de uma capela interna que teria funcionado como capela mortuária, a julgar pelas pinturas fúnebres do teto. Toda suntuosidade e riqueza da talha barroca constrasta violentamente com a grande simplicidade da arquitetura externa causando certo espanto ao visitante menos visado. Os altares mór e laterais abertos em talha dourada deslumbram a Matriz de Sabará pelo riquíssimo recinto.
Também construída no século XVIII pela Irmandade Ordem Terceira do Carmo de Sabará, tem ornamentação em estilo rococó com diversas obras do Mestre Aleijadinho. A construção segue o traçado do barroco português contando com a influência local no material empregado como o itacolomito utilizado nos cunhais e o serpentinito usado na portada. Cenas do Novo Testamento foram gravadas nos púlpitos. No teto da capela-mor, há pinturas mostrando Nossa Senhora do Carmo entregando o escapulário a um Santo da Ordem.
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