O Barroco em Minas Gerais - 1

        Descobertas no fim do século XVII, as minas marcaram o início do ciclo do ouro que impulsionou, sobretudo em Minas Gerais, centro de riqueza aurífera, a criação artística e o começo de um sentimento nativista na colônia. A concentração de riqueza acentuou as diferenças regionais num território tão extenso, fazendo surgir manifestações artísticas distintas em cada porção. Todas, porém, ligadas ao barroco que explodia no Brasil com mais de um século de atraso em relação à Europa. É por essa razão que, ao se ver a arte brasileira do século XVIII, obedecemos menos ao critério geográfico que aos aspectos artísticos.
        Até o fim da primeira metade do século XVI, tudo o que se sabia sobre o atual estado de Minas Gerais era que se tratava de uma região montanhosa, de cumes altos, sempre envoltos em espessa neblina, de impenetráveis florestas no fundo dos vales. A Metrópole recebia notícias imprecisas, que mais pareciam lendas, sobre riquezas escondidas nas dobras daquelas montanhas inacessíveis.
        Aos poucos, os paulistas, por sua conta, foram penetrando naquele mun-do misterioso, principalmente sob o pretexto de buscar índios para abastecer o mercado de mão-de-obra açucareira do Nordeste. Mas, em 1764, partiu para o sertão, em busca de minas, a bandeira de Fernão Dias Pais, atendendo às solici-tações pessoais do rei Afonso VI, que desejava desbravar aquelas terras do interior.
        Essa bandeira realmente constitui um marco na história mineira, porque foi a primeira racionalmente organizada para promover prospecções dentro do que de melhor se sabia na época. A empreitada falhou, mas rompeu o mistério. As tropas de Fernão Dias passaram muito ao norte de Diamantina, deixando para tras a serra do Cipó. Fundaram arraiais e plantaram roças de milho e de mandioca. E abriram caminho para os paulistas, especialmente aqueles de Taubaté, que passaram a palmilhar a vastíssima região montanhosa.
        Somente no final do século, porém, é que se começou a tirar ouro em quantidade das barracas dos rios e dentre os seixos das corredeiras. Em 1.693, o taubateano Antonio Rodrigues Arzão descobriu as minas chamadas de " Casa da Casca". Em 1698, outra bandeira de Taubaté, a de Antonio Dias, chegou às margens auríferas de Tripuí, ao pé de Itacolomi, hoje Ouro Preto. Depois foi a vez de um sacerdote bandeirante, o padre Faria.
        As notícias corriam rapidamente, o brado de ouro ecoava por toda a parte e aqui e ali surgiam arraiais de aventureiros. Os acessos às minas eram raros e difíceis. O mais conhecido era pela garganta do Embaú, nas proximidades da atual cidade de Cruzeiro. Apesar de tudo, os arraiais cresciam: os principais foram os de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, Ouro Branco, Sabará, Tijuco, Serro, Mariana, Caeté, Congonhas do Campo, São João Del Rei, Catas Altas e Conceição do Mato Dentro.
        A urgente necessidade de braços para as lavras levou para Minas a escravaria disponível no Norte do País, que, aliás, já estava conhecendo o declínio da produção açucareira e, por isso mesmo, prescindia de escravos.
        Nos processos inicias de fixação, as dificuldades materiais e a falta de recursos tolheram ou impediram uma imediata manifestação de cultura lusitana. Nas construções, no mobiliário, nos utensílios domésticos, nas ferramentas, nos vestuários e até mesmo nos mais rudimentares processos manufatureiros, como a cerâmica ou a tecelagem, os portugueses, voltados geralmente para os negócios, apelaram, a princípio, para as técnicas indígenas, mamelucas, mulatas ou negras, as únicas disponíveis na época.
        Era o mulato, intermediário entre o negro e o branco, que executava e criava obras de arte. E foi com o mulato, autenticamente brasileiro, que surgiu uma manifestação realmente nacional em termos culturais.
Em nossas sociedades antigas, tanto do litoral como nas do interior, a religião era a grande preocupação. Em Minas do século XVIII, no entanto, foi proibida a fixação de ordens religiosas e respectivos conventos. Os padres mineiros eram todos seculares. O poder governamental impunha o terror policial, zelando pelo ouro do Rei e pela ordem. A imprensa era proibida, assim como as escolas, que na área litorânea eram conventuais e irradiavam alguma cultura. A industria não existia _ só deixavam tecer algum pano rude para a tanga escrava; o resto vinha de fora, passando pelos " registros ", onde toda a mercadoria era examinada.
        Minas Gerais viveu seus dias de ouro trancada, com uma sociedade típica, estruturada de modo diverso do das sociedades patriarcais do litoral. Tal sociedade logo se subdividiu, não apenas em brancos, pardos e negros escravos, mas também em irmandades religiosas. Toda a população mineira, sem exceção, filiou-se a essas confrarias.

Página:  1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9

<<Principal>>

Hosted by www.Geocities.ws

1