O Barroco em Minas Gerais - 3 A arquitetura de interiores, a decoração barroca, não podia expandir-se assim. Fugindo às paredes, soluções decorativas pouco ortoxodas surgiram no Barroco mineiro. É o caso da Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto. Construída em 1736 pelo português Francisco Antônio Pombal, sua nave foi toda recompossta de madeira, forçando uma planta poligonal contida pelas quatro paredes de uma velha construção de taipa de pilão. Álias, os escultores, entalhadores, marceneiros, estofadores, com uma linguagem mais descompromissada da técnica construtiva, tinham mais liberdade de expressão.
Foi um processo difícil, até se conseguir, afinal, a harmonização entre construção e interior. Assim mesmo, só em uma pequena, mas rica região de Minas, delimitada por São João Del Rei, Congonhas do Campo, Mariana, Sabará, Caeté e outros arrraiais que hoje, têm mais ou menos como centro a cidade de Belo Horizonte
Todos os executores conseguiram, enfim, uma unidade plástica onde tudo se entrelaça, determinando espaços envolventes e contínuos por meio de paredes sinuosas, cimalhas ondulantes e de ornatos serpenteantes. Assim demosntraram, pela primeira vez, a grande capacidade de imaginação e sensibilidade que, valendo-se de elementos emprestados, ou copiados, consegui recriar composições e inventar uma nova e autêntica expressão barroca. Uma verdadeira expressão de liberdade, que eclodiu em pleno regime de opressão: liberdade de infringir todas as regras trazidas pelo Europeu, de criar soluções inesperadas, como se todos estivessem numa deliberada tentativa de desobedecer à orientação erudita emanada do governo.
Na primeira metade do século XVIII, quando todos ainda estavam tentando as soluções de novos rumos de uma arte em região policiada e isolada do mundo, e as construções ainda não haviam se desligado da tradição antiga, dos singelos frontões triangulares e das janelas de vergas retas, pouca influência teve, por exemplo, a presença do brigadeiro José Fernandes Pinto de Alpoim, engenheiro militar com importante bagagem de obras executadas, principalmente no Rio, onde trabalhara no Mosteiro de São Bento.
As alvenarias de pedra dura, de "canga", como era chamado o minério de ferro, foram aperfeiçoadas, mormente a partir do uso normal da cal em vez do barro das taipas. As paredes ficaram mais altas, mais delgadas e curvadas à vontade.
Os aperfeiçoamentos na arte de construir foram sucessivos. Os mestres, os pedreiros, os canteiros, e os entalhadores começaram a ter oportunidade de trabalhar em conjunto. As irmandades estimulavam o aparecimento de artistas. Criou-se uma consciência profissional. Arquitetos e mestres davam pareceres e estipulavam regras e condições. Faziam-se concorrencias públicas apoiadas em verdadeiros "cadernos de encargos", como se faz hoje.
Já não se faziam frontões de empenas retas, mas tímpanos recortados e profusamente decorados, sugerindo na sinuosodade das pedras entalhadas a cristalização de uma nova unidade artística. Surgiram as portadas magníficas onde o Aleijadinho impôs seu gênio inventivo. As torres recobertas por telhadinhos pirâmidais de telhas de barro passaram a ser coroadas por abóbodas de pedra, cujos bulbos anunciavam uma arquitetura nova.
Definiu-se, também, o partido das igrejas : duas torres cilíndricas nos flancos dos frontispícios, quase soltas, ao contrário das soluções anteriores, onde eram solidamente implantadas nos cantos dos retângulos das plantas de três naves, como nas matrizes de Sabará ou Mariana,obras do começo do século. A nave torno-se única, com o coro em cima da entrada e tendo ao fundo a comprida capela-mor ladeada por dois corredores em destino à sacristia,salão corrido pela parte de trás. Entre a capela-mor e a sacristia, havia a escada que levava ao salão superior de reuniões das irmandades.
Esse partido geral praticamante sofreu poucas alterações nessa época de definição do Barroco mineiro. É claro que houve exceções, mas foram raríssimas, como as igrejas de São Pedro dos Clérigos, em Mariana, e de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Ouro Preto. Suas plantas são basicamente compostas de duas elpses que se interpenetram, determinando espaços envolventes, de grande significação na sintaxe barroca.
Essas igrejas possuiam ainda um pequeno espaço abrigado anterior à nave, revivendo sua região de Minas à tradição litorânea das galilés.
Nas obras públicas não houve a mesma intenção plástica porque os projetos emanavam do governo ultramarino, alheio às especulações artísticas dos criativos colonos.Até a monumental Casa da Camâra e a Cadeia de Ouro Preto já têm compostura neoclássica do final do século.
No que se refere às residências, dado o forte gregarismo dos arraiais e as ondulações dos terrenos, as escolhas arquitetônicas acomodaram-se aos nescessários desníveis entre os vários pisos. Assim, as casas eram de muitos "sobrados, umas espremidas às outras, como se estivessem amparando mutuamente ao longo das ladeiras.
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