Memórias Resgatadas



Capítulos: I, II, III, IV, V, VI, VII VIII IX

 

Capítulo V

........ A 1ª República caminhava sob forte influência da aristocracia do café com leite (São Paulo/Minas).
A Bahia, governada por José Marcelino de Souza (1904/1908), do mesmo modo em mãos do partido Conservador que reunia os setores mais produtivos, principalmente os agricultores de cacau, cana e fumo e a manufatura ainda em formação. Santana do Catu, no mesmo período, tinha como Prefeito, "Intendente", assim era designado por ser indicado, o Monsenhor José Cupertino de Araújo Lima (1858/1930). Padre Cupertino, Senhor, como era respeitosamente tratado pela comunidade, chegara da região de Serrinha, origem de sua família como líder espiritual no entanto, logo se transformou também, em liderança política. Personalidade forte e marcante, conseguiu atrair profissionais capacitados colocando-os a serviço da comunidade, principalmente professor e médico. Pertencia a uma família de pessoas influentes e atuantes, ele mesmo, tendo chegado ao posto de Deputado Estadual representando toda a região. Naquela época a comunidade carecia de quase todos, senão todos os serviços públicos. As aulas eram ministradas nas casas das professoras enquanto que o atendimento médico era residencial. Vale destacar a contribuição determinante, exercida pelas professoras Clotilde Visco, Josefina Araújo, Isabel de Melo Góes, pioneiras na formação daqueles novos catuenses. Profª Clotilde era esposa do italiano José Visco, comerciante, mascate que muito influenciou e desenvolveu o comércio local, alí fixando residência, com sua família e parentes. O intendente seguinte, Manoel Augusto de Araújo (1908/1912), Coronel Didi, assume a administração continuando o poder dos Araújo Góes, que havia sido interrompido pelo Padre Cupertino. Coronel Didi, conservador, representava bem a oligarquia rural, com resquícios do período escravista, administrando com pulso nos moldes tradicionais. São personalidades da época, o Barão de São Miguel, Barão de Camaçari, Dr. Sócrates e sua esposa, a escritora D. Anna A. G. Bittencourt, Capitão Manoel José, todos pertencentes àquela família.
O cotidiano da Cidade só era alterado pela carga descarga dos trens passageiros, as feiras realizadas desde o inicio aos sábados pela manhã e festejos religiosos, cujo mais importante, o da Padroeira(26/07), comemorava-se quando cessava a chuva, ocorrendo algumas vezes a festa em final de agosto. Os pequenos produtores, ora espalhados pela zona rural, são cada vez mais atraídos pela oferta de mais opções e melhores condição de vida para seus familiares encontradas na pequena Santana do Catu. O trem possibilita a exportação de produtos e a recém chagada indústria do fumo, amplia a oferta de trabalho com remuneração regular da mão de obra alocada nos trapiches e comércio, o que contribui para o crescimento da população urbana.
Seguem, assumindo a administração municipal o Cel. Carlos da Costa Pinto (1912/1916), descendente de tradicional família do município vizinho de Santo Amaro, período em que ocorre a emancipação política do 1º distrito, dando origem ao município de Pojuca, através da Lei................. e a chegada da Fazenda Modelo, iniciativa do Estado com fins a aprimoração da pecuária na região. Depois o Dr. Arnaldo Batista dos Santos (1917/1919) e o Ten. Cel. José Alberto da Mata (1920/1921) conhecido Seu Zezé, comerciante, pai de prole ilustre de catuenses. O Cel. Didi retorna a administração em 1921, permanecendo até 1924, num período de conflitos principalmente pela reação aos métodos autoritários que toma conta da classe média local que vinha se formando na Cidade. Ficou conhecido pelas atitudes extremas que adotava como as reveladas através de estórias do povo, quando certa feita, ao assistir da varanda de sua residência, atual supermercado Rio Branco, Comércio, a passagem de um elemento preso, conduzido por policiais que ao vê-lo gritou, "Coronel eu fiz o que o Sr. mandou!" E ele então lhe respondeu: "foi pouco preto safado, pra não fazer tudo que lhe mandam". O serviço encomendado teria sido o espancamento de um desafeto político do Coronel". Outro episódio, contado em detalhes pelo jornalista Pedro Pinto( ), se refere à eleição do prefeito seguinte quando as ameaças do Coronel amedrontavam os eleitores, tendo sido levadas as urnas para o distrito de São Miguel, com autorização do judiciário, a fim de garantir-se a tranqüilidade do pleito. Na oportunidade os eleitores tiveram que se dirigir àquela Vila, escondidos, a cavalo para o pleno exercício do direito de votar. O Coronel sai derrotado tendo vencido a eleição Oscar Pereira de Souza, representando o novo grupo político formado nas camadas urbanas, sustentado pelos produtores rurais de fumo e dos comerciantes. Contava Pedro Pinto que a indicação como candidato do Cel. Oscar foi efetivada na visita realizada pelo grupo ao então Governador da Bahia, Dr. Góes Calmon onde foi manifestado o descontentamento da população. O Governador, homem de forte personalidade ao ouvir os relatos, bateu na mesa dizendo: "não podemos mais segurar este grupo no Catu, temos que encontrar substitutos" e olhando pra todos notou que Oscar encontrava-se meio pálido então lhe disse: "será você Oscar, lhe darei todo apoio necessário, volte aqui prefeito". O que o Governador não sabia era que o grupo estava alí exatamente com aquela função e Oscar, havia empalidecido receoso de não ser aceito, já que o Coronel Didi era aparentado do Governador bem como do Barão de Camaçari. Oscar Pereira de Souza nascido na Fazenda da Riaçhão, outrora Riachão dos Portugueses pela concentração de colonos daquela nacionalidade alí encontrados, era filho de Joaquim Pereira de Souza Armundes, proprietário rural do Engenho Cabeça de Nêgo, descendia de portugueses que ocuparam vasta área da localidade conhecida hoje como Riaçhão do Zezinho. Transferiu-se para Cidade ainda adolescente se transformando num dos mais importantes fornecedores de fumo aos alemães, Cia. Einchenberg, produção que recolhia dos parentes e de centenas de pequenos produtores do região. No comercio local, associou-se ao Cel. Zezé da Mata compondo a mais bem sucedida sociedade comercial da época. Na prefeitura, apesar da total falta de recursos, conseguiu junto ao governo do Estado a construção da 1ª escola pública, a Dr. Inocêncio Marques de Araújo Góes em 1927, melhorias para a estação do trem e abertura de estradas vicinais para a zona rural. Vale salientar que na época o Município não recebia regularmente recursos de qualquer natureza, ficando a administração pública dependente do prestígio político do prefeito e em muitos casos, de recursos dele, familiares e/ou amigos.

Catu 18/07/2005 Arqtº A. Sérgio de Souza .

 

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