A fé de um cético

A crítica do filósofo Nietzsche à religião cristã


 

4 - A IGREJA

“Criaram a Igreja com a negação dos Evangelhos”

O Anticristo

Para Nietzsche, houve uma falsificação dos ensinamentos evangélicos de Cristo. O único cristão, segundo ele, havia sido o próprio Jesus.  Seus discípulos, após sua morte, especialmente os apóstolos Pedro e Paulo, falsificaram a mensagem evangélica, e a Igreja foi fundada sobre eles e sua “falsificação” e não sobre Cristo. Essa é a sua tese.

Para Nietzsche, seguindo esse raciocínio: “ é indecente ser cristão atualmente (...) um teólogo, um padre(...) de hoje, não somente erra quando fala, mas na realidade mente. (Nietzsche, 1985, 73).

Parafraseando, poder-se-ia dizer que para Nietzsche o “pecado original”chama-se Igreja, local onde a falsidade (não cristã) forjada pelos apóstolos e bispos construiu uma instituição que até hoje ensina o erro.

Embora não concordando com muitas das pregações do nazareno, Nietzsche o respeita enquanto filósofo, e admira principalmente o fato de que ele foi o único que de fato cumpriu os ensinamentos evangélicos.

Quem não é poupado das críticas nietzschianas são os seguidores de Jesus ( apóstolos e bispos i.e. o clero). A começar dos apóstolos, chamados por Ele de falsificadores da prima ( e verídica) mensagem do Mestre. Essa crítica se estenderá à toda a Igreja, que segundo ele foi fundada não encima do Mestre e seus ensinamentos, mas dos apóstolos e suas falsificações. Nesse aspecto ele também afirma que os clérigos “ criaram a Igreja com a negação dos Evangelhos”.

Na ‘Genealogia da Moral’ Nietzsche havia criticado os valores de bom e mal, certo e errado, com base no estudo antroplógico e histórico feito por ele. Agora, nO Anticristo, ele vai questionar a estrutura e os dogmas da igreja cristã (católica e luterana), também firmado em sua convicção de degeneração dos princípios evangélicos dentro dessa instituição.

Cabe lembrar aqui qual é o conceito de Igreja e a função dos apóstolos em sua fundação e construção, de acordo com a religião cristã: no Concílio Vaticano II, há uma declaração sobre só sobre isso. É a constituição dogmática LUMEN GENTIUM, “ De Ecclésia”.

É dito nessa constituição: “A Igreja, enriquecida pelos dons do seu fundador e observando fielmente os seus preceitos de caridade, de humanidade e de abnegação, recebe a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na Terra o germe e o início desse reino”. ( 1999, 8-9).Ora, a Igreja é vista como aquela que estabelece o Reino de Deus, e ela já é o início desse reino.

Mas, acerca do que Nietzsche havia polemizado, a constituição definirá sobre a Igreja: “ Esta é a única Igreja de Cristo, que no símbolo professamos una, santa, católica e apostólica, e que Nosso Salvador, depois de sua ressurreição, confiou a Pedro para que ele a apascentasse (João 21:17), encarregando-o, assim como aos demais apóstolos, de a difundirem e de a governarem ( Mateus 28: 18 ss), levantando-a para sempre como “coluna e esteio de verdade” (1 Timóteo 3:15). Esta igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele”. (Lumen Gentium, 1999, 14).

Ora, aqui é definido que a Igreja foi confiada ao Colégio Apostólico encabeçado por Pedro, por Cristo, para que eles difundissem-na e a governassem. Também é dito que a Igreja é uma sociedade constituída e governada neste mundo.

Interpretando o pensamento nietzschiano, levando em conta essa definição dogmática, pode-se dizer que, para Nietzsche, os os apóstolos teriam não só falhado na missão de difundir o Evangelho, mas o teriam falsificado, e com isso deturpado a Igreja. Para o filósofo a falsificação apostólica foi de tal envergadura que tirou totalmente a credibilidade da Igreja, e também dos ramos que acabaram saindo dela, como o luteranismo, o qual é também severamente criticado.

Frederick Copleston, a partir da leitura da ‘Vontade de Potência’ de Nietzsche, diz que esse achava que a Igreja fora fundada por Paulo de Tarso (e não por Jesus) e esse apóstolo teria transformado o cristianismo em um completo estado organizado, que faz a guerra, condena, tortura, esconjura e odeia. ( Copleston, op.cit, 189).

O próprio Copleston refuta Nietzsche e defende Paulo dizendo: “ em primeiro lugar, São Paulo não inventou o conceito de sofrimento redentor (Mt 20:28), nem a doutrina do Juízo Final( Mt 25), nem a Igreja ( Mateus 16:17), nem a doutrina do culto com sacrifícios (Lucas 22:19; I Coríntios 11: 25). Em segundo lugar, ele estava possuído de um sincero amor a Cristo, a quem não tinha visto antes da Ascensão, mas que viu pela primeira vez – tanto quanto nos é dado saber- na sua viagem para Damasco. A caridade de Cristo estimulava-o ( II Coríntios5:14) suspirava por estar com Cristo ( Filipenses 1:23) e queria morres por Ele (Filipenses 3:10) Ardia em amor por todos os homens ( Romanos 1:14 e I Coríntios 9:22). O seu Senhor era o amado Salvador e Redentor e ele próprio era o Apóstolo do amor. Os outros apóstolos nunca o acusaram de falsear os ensinamentos de Cristo, e ele mesmo insistia em que o seu evangelho não era uma mensagem pessoal (Gálatas 1:11-12). Em terceiro lugar, Paulo estava tão longe de ser dominado por uma ambição desmedida, que se prontificava a ser anatematizado pelos seus irmãos (Romanos 9:3) e declarou que não era digno de ser chamado Apóstolo, por que havia perseguido a Igreja de Cristo. Em quarto lugar, São Paulo não pregou a aniquilação da Lei, mas sim o cumprimento da Lei. Em quinto lugar Nietzsche não tem justificação a não ser na sua (própria) imaginação – quando atribui todas as espécies de pecado a SãoPaulo, antes da sua conversão. Não, se o cristianismo tem que ser condenado, então Cristo tem que ser condenado também, porque não é São Paulo, mas Cristo o responsável pelo cristianismo (...) não foi ele (Paulo) o fundador do cristianismo, pois pregou o que recebeu e não o que inventou” ( Copleston, op.cit, 190-191).

Essa é a resposta que toda a teologia eclesiástica (católica e protestante) dá às afirmações e acusações de Nietzsche sobre o caráter do Apóstolo e a fundação da Igreja. Copleston soube sintetizar magistralmente toda a concepção oficial das igrejas cristãs, que é uma refutação aos ataques nietzschianos. Quando se diz que a Igreja é apostólica, é que historicamente, o que se prega hoje é o mesmo que se pregava naquela época: a salvação para todos os que crerem no Messias ressurreto e seu sacrifício vicário.

Mas Nietzsche pode estar se referindo à questão do Poder eclesiástico e nesse aspecto ele encontra apoio de várias pessoas e grupos importantes da sociedade, inclusive de setores dentro da própria Igreja. Não é preciso ir muito longe para comprovar tudo isso: o Frei Leonardo Boff, seguidas vezes perseguido pela cúpula da Igreja de Roma por pregar a teologia da libertação (espiritual e material não se separam), confessou recentemente, numa entrevista, que não acreditava mais na conversão da instituição Igreja, coisa que ele havia crido durante muito tempo.

A verdade é que erros e acertos, as mais terríveis barbaridades e os mais altos exemplos de santidade, os maiores testemunhos e as maiores profanações fizeram parte da história bi-milenar da Igreja, desde Cristo até os dias atuais. Mesmo entre grendes personagens da Igreja, como santo Agostinho, encontram-se exageros que a própria Igreja hoje não mais retifica, como o de dizer que Deus havia criado algumas pessoas predestinadas a ir para o inferno.

A Igreja Católica de Roma é o maior exemplo do paradoxo entre proclamar o Evangelho de Cristo nos púlpitos, mas na prática atentar contra toda aquela filosofia. Na Era medieval, quando a Igreja controlou o mundo político, econômico e filosófico de todo o Ocidente, é conhecida como Era das Trevas, tal foram as barbaridades cometidas “em nome de Deus”, por ordem dos bispos. A Inquisição é o auge da negação prática da máxima de “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. A instituição que afirma que apartir de sua fundação unifica-se o reino de Deus, quando teve sua chance de edificá-lo, cometeu um terrorismo religioso e político contra todos aqueles que não proclamassem a mesma fé dela, e também expurgou todos aqueles do seu rebanho que não se curvassem ante às decisões dos cardeais. Nesse sentido, a crítica de Nietzsche deve ser ouvida por todos aqueles que se dizem cristãos.

Devemos nos lembrar porém, que houveram oposições dentro da Igreja a toda essa barbárie. A mais vigorosa oposição foi a do doutor martinho Lutero, que provocou um cisma na Igreja, por não concordar com vários abusos por elas cometidos.

O filósofo na sua crítica segue o estilo germânico de demolição brutal e total, e aí talvez resida a causa de seus equívocos e exageros. Mesmo assim, sua crítica merce ser levada em conta, no sentido de uma auto- crítica que o clero deve fazer em relação à tudo o que já ocorreu.

Apesar de todos esses fatos, o Reverendo Copleston ainda defende a fé e a Instituição, fazendo a seguinte análise: “ para aquele que estuda Nietzsche, tais opiniões  (as dele) são naturalmente de interesse , embora em si mesmas desprovidas de valor. Igreja, sacrifício, sacramentos, Juízo e sanções são tudo coisas que tem o seu lugar nos Evangelhos, juntamente com o amor universal, o perdão até ao extremo limite, etc, e não há justificação alguma para o fato de querermos separar o elemento que chamaremos de “institucional” de todo o resto, em virtude de uma conjectura A PRIORI, quanto à natureza do cristianismo essencial. Além disso, não há para afirmar uma oposição radical entre a Igreja Cristã, a crença (fé) e os sacramentos por um lado, e a Vida Cristã, pelo outro. A doutrina cristã fornece a estrutura e a justificação para esta vida, a Igreja é a união visível de tantos quantos vivem tal vida, e os sacramentos são os meios divinamente indicados para iniciar, alimentar e aumentar essa mesma vida. Tem, sem dúvida, havido abusos – e, assim, motivos políticos, egoístas e mundanos tem , por vezes predominado nos espíritos dos mais elevados eclesiásticos- mas são abusos que não vem à propósito, quando se trata de características essenciais, oposições, etc. E tanto a história como a experiência mostram que uma religião de simples comportamento não produz os frutos que se pretendem. Nietzsche dá-nos um tácito testemunho deste fato, quando diz que o cristianismo é um simples processo de comportamento, mas que houve apenas um cristão – o próprio Cristo. A isto responderíamos que Cristo é, sem dúvida, o único exemplo absolutamente perfeito da vida cristã, mas a vida cristã tem sido vivida por homens e mulheres que a história nos aponta, e essa vida não tem sido sem uma relação essencial com a crença e a instituição”. (Copleston, op.cit., 191-192). Dessa forma, o reverendo anglicano, em nome da instituição e da crença, mostra o valor que essas duas tem, ao contrário do que Nietzsche afirmava.

Apresentação O Super-Homem A Fé Jesus de Nazaré

A Igreja

Conclusão
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