A fé de um cético

A crítica do filósofo Nietzsche à religião cristã


2 - A FÉ

“ É necessário dizer exatamente quem consideramos como os nossos antagonistas: os teólogos e todo aquele que tem sangue teológico em suas veias- essa é toda a nossa filosofia”.

O Anticristo

 Como disse Urbano Zilles “ Nietzsche defende o ateísmo como sendo a posição própria da nova cultura: nega a Deus, por que é inimigo da vida”.  (Zilles, 1991,163). Se por um lado, Nietzsche defende a vida e o direito à liberdade do prazer, ele o faz lutando contra toda a filosofia judaico-cristã, que para ele, vai de encontro à vitalidade humana. O mesmo autor afirma que de acordo com o raciocínio do filósofo alemão “O homem deve emancipar-se através do ato de recusa a Deus”.(idem)

Caba a nós que estamos a estudar e mostrar o pensamento de Nietzsche acerca da religião, saber quais são os conceitos básicos do cristianismo, os quais Nietzsche irá tentar refutar e combater em suas obras. Muito se diz que Nietzsche era ateu. Urbano Zilles afirma: “ Nietzsche proclamou o niilismo e o ateísmo. (ibidem). O autor chega a começar o capítulo sobre Nirtzsche em seu livro com o título O DESAFIO DO ATEÍSMO NIILISTA.

No NOVO DICIONÁRIO BÁSICO DA LÍNGUA PORTUGUESA Folha/Aurélio, define-se por ateu “aquele que não crê em Deus ou nos deuses...”. (Novo Dicionário,1995,70).

Já o Catecismo da Igreja Católica define fé como “ a resposta do homem ao Deus que se revela e a ele se doa, trazendo ao mesmo tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido último de sua vida”. (Catecismo da Igreja Católica, 1993,22). Como se vê, a Igreja de Roma atrela à fé o alcançar o sentido último da vida humana. Mas a fé que os cristãos tem não é em qualquer coisa, mas “em Cristo, o Filho de Deus feito homem (...) Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. NEle o Pai disse tudo, e não haverá outra Palavra senão esta”. (idem,31).

Os luteranos também se pronunciam quanto à fé. No comentário do 1º mandamento, Martinho Lutero explica: “ devemos temer e amar a Deus e confiar nEle acima de todas as coisas”. (Lutero, 1983, 367). Quanto ao conceito de Cristo para a fé, luteranos e católicos concordam com o dito acima, extraído do Catecismo.

Mas Nietzsche critica asperamente o fideísmo cristão, ao afirmar , na crítica aos teólogos e à teologia que, “a coisa mais patética que surge dessa condição chama-se fé, em outras palavras FECHAR OS OLHOS PARA SI MESMO DE UMA VEZ POR TODAS, EVITAR COMPREENDER...”. (Nietzsche, 1985,26). Essa, pode-se dizer, é a definição do próprio filósofo alemão para a fé, que já é uma crítica vigorosa.

Mais adiante, Fritz faz uma crítica ao protestantismo alemão, que segundo ele  é, através da figura do pastor luterano, que é “o avô da filosofia alemã”. Ele define então o protestantismo como “um PECCATUM ORIGINALE. Definição de protestantismo: paralisia hemiplégica do cristianismo e da razão”. (idem, 27). Mas ofundamental a ser acentuado nisso tudo, é que a crítica de Nietzsche à religião vai até o eixo central do cristianismo: a fé.

No capítulo II do Catecismo, lê-se: “Cremos e confessamos que Jesus de Nazaré, nascido judeu de uma filha de Israel, em Belém, no tempo do Rei Herodes Magno e do Imperador César  Augusto, carpinteiro de profissão, morto e crucificado em Jerusalém sob Pôncio Pilatos, durante o reinado do imperador Tibério, é o Filho Eterno de Deus feito homem”( Catecismo da Igreja, 1993, 119). Posteriormente afirma-se que “a fé cristã é primeiramente o anúncio de Jesus Cristo para levar à fé nEle”. (idem, 120). Objetivamente o Catecismo de Roma define a fé como “uma adesão pessoal do homem à Deus (...) a fé cristã é diferente da fé em uma pessoa humana. É justo e bom crer totalmente a Deus e crer absolutamente ao que Ele diz”. (ibidem, 49).

Quando a fé é analisada em relação à inteligência ( e isso poderia ser uma resposta à crítica nietzschiana), o Catecismo explica que “o motivo de crer não é o fato de as verdades reveladas aparecerem como verdadeiras e inteligíveis à luz da nosa razão natural”, mas sim que “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos, motivos de credibilidade que mostram que O ASSENTIMENTO DA FÉ NÃO É, como afirmou o Concílio Vaticano I, DE MODO ALGUM UM MOVIMENTO CEGO DO ESPÍRITO”. ( idem, 51). O cerne da questão é colocado aqui nos seguintes termos: ter ou não ter fé. Nietzsche não só é descrente como despreza e caçoa desse sentimento.

Com relação ao protestantismo, o antagonismo é ainda maior, pois todo o movimento da Reforma do século XVI começou quando Lutero leu os versículos 16 e 17 da Carta de Paulo aos Romanos: “Não me envergonho do Evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito O JUSTO VIVERÁ POR FÉ”. (Bíblia Thompson).

O ataque de Nietzsche à fé cristã não deixava nenhuma margem para o diálogo com o cristianismo, já que o ateísmo de Nietzsche é agressivo. O paradoxo é que, embora fosse um implacável inimigo do socialismo, ele vai ter uma postura anti-fideísta que lembra muito a dos comunistas, que consideravam a fé como algo reacionário, e portanto a ser combatido.

Um resumo sintético do que foi falado nesse capítulo é a afirmação de Duquoc:  “todo questionamento é um risco para a fé”. (Duquoc, 1992,60). Como a fé não se baseia em dados materiais e racionais, ela não pode ser julgada pela história crítica ou pela filosofia racionalista, pois, como algo a ser crido, e não a ser aceito depois de comprovação, a fé está em outra dimensão, e portanto em ambito diferente do da filosofia humanística secular. Como disse Rudolf Bultmann “o Cristo é o Senhor unicamente para quem crê.

Ora, para aqueles que crêem, Jesus é o Senhor, e ponto final. A fé, na sua divindade é algo apreendido pela comunidade religiosa daqueles que aceitam-na, a saber: as religiões cristãs (católica e luterana).

Apresentação O Super-Homem A Fé Jesus de Nazaré

A Igreja

Conclusão
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