A fé de um cético
A crítica do filósofo Nietzsche à religião cristã
“Aquele
anarquista santificado, que incitou o povo do abismo, a ralé e os pecadores, os
parias do judaísmo, à revolta contra a ordem de coisas estabelecidas – e em
um linguagem que, se os Evangelhos merecem crédito, hoje o teria mandado para a
Sibéria – aquele homem era, sem dúvida, um criminoso político, pelo menos
tanto quanto podia ser em uma comunidade tão absurdamente apolítica. Foi isso
que o levou à cruz: a prova disso pode ser encontrada na inscrição colocada
sobre a cruz. Ele morreu por seus próprios pecados- não há a menor base para
se acreditar que tenha morrido pelos pecados dos outros”.
Nesse momento, Nietzsche não só define quem era Jesus para Ele, mas de certa forma explica o título de seu mais polêmico livro. Fica bastante claro que o que ele rejeita no dogma é o título de Cristo, isto é, Messias e ser divino. Para ele, Jesus de Nazaré foi um homem revolucionário e “anarquista santificado”, que foi condenado à cruz única e exclusivamente por sua atividade política. Essa atividade foi , segundo o filósofo “ uma revolta contra a igreja judaica – sendo a palavra igreja usada aqui na exata significação que tem hoje. Foi uma insurreição contra os bons e os justos, contra os ‘profetas de Israel’, contra toda a hierarquia da sociedade – não contra a corrupção, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, o formalismo. Era a descrença nos ‘homens superiores’, um não lançado contra tudo que os sacerdotes e teólogos sustentavam”. (Nietzsche, 1985, 56).
Segundo o raciocínio dele, Jesus combatia os ‘porta-vozes de Deus’
existentes na sociedade judaica daquela época, a casta religiosa, formada pelos
sacerdotes (rabinos) e os teólogos.
Sente-se nesse ponto que Nietzsche faz uma distinção entre Jesus e os
apóstolos, no sentido que, ao contrário desses, a quem ele despreza, em relação
ao nazareno ele demonstra certa admiração, no sentido político e o da luta
empreendida contra a classe sacerdotal. Pode-se deduzir mesmo uma certa semelhança
aqui entre a luta dos dois homens. De fato, Nietzsche dedicou-se a combater a
classe sacerdotal de seu tempo (século XIX), composta então por padres e
pastores, que para ele não passavam de falsificadores.
Nietzsche critica historiadores como Renan e o clero que veio logo após
a morte de Jesus pelo mesmo motivo: divinizaram e falsificaram a mensagem do
mestre. Quando critica Renan por Ter atribuído a Jesus a noção do Gênio e a
do Herói, refuta-lhe dizendo: “se existe algo essencialmente anti-evangélico
é, sem sombra de dúvida o conceito do herói”. (idem, 59).
Nietzsche também explica por que se opõe a essa forma de se ver o
nazareno: “há uma contradição entre o pacífico pregador da montanha, da
praia e dos campos, que aparece como um novo Buda em um solo muito diferente do
da Índia, e o fanático agressivo, o inimigo mortal dos teólogos e
sacerdotes”. (idem, pág.63).
Algumas linhas abaixo, o filósofo explica como se deu a falsificação ,
em sua ótica: “quando os cristãos primitivos precisavam de um teólogo
direto, litigioso, combativo e maliciosamente sutil para enfrentar outros teólogos
, criavam um ‘deus’ satisfazendo tais necessidades, do mesmo modo que punham
em sua boca, sem hesitação, certas idéias que lhes eram necessárias mas que
estavam em franco desacordo com os Evangelhos: o segundo advento, o Juízo Final
e toda sorte de expectativas e promessas correntes no tempo”. ( idem, 63).
Na realidade, para Nietzsche, o que ocorreu foi oseginte, como descreve
Urbano Zilles: “o que, historicamente se estabeleceu como cristianismo é o
resultado da obra de Paulo de Tarso que com ‘civismo lógico’ de rabino,
falsificou a felicidade proclamada por Jesus, reduzindo todo o simbolismo de
Jesus a um sistema de barbáries. O cristianismo ensina que o reino de Deus está
nos corações dos homens, mas traiu essa instituição fundamental quando
transformou o reino em outro mundo, um mundo do além. Tal deslocação do
centro de gravidade da vida para o além é o nada, pois tira o centro de
gravidade para a própria vida. Sócrates foi o primeiro filósofo da vida
porque pôs o pensamento a serviço da vida e não a vida a serviço do
pensamento. Mas tanto o socratismo como o cristianismo são decadentes porque
lutam contra os instintos . Para Nietzsche, a razão e toda vida psíquica tem a
finalidade de estar a serviço da vida biológica. A partir dessa visão só
pode sustentar o ateísmo. Ou melhor, sua visão de mundo e homem é conseqüência
de seu ateísmo” (Zilles, 1991, 163).
“Surpreende que até certo ponto, Nietzsche exclua Jesus de sua crítica”,
no entanto Zilles complementa que para Nietzsche, Jesus “é pouco mais que um
‘decadente interessante’ do qual irradia o ‘encanto comovedor’ da
mistura do sublime , o enfermiço e o infantil (...) o cristianismo está
condenado a sucumbir com todas as demais coisas. Crê ‘assistir’ ao fato da
agonia do cristianismo, testemunhar o grande espetáculo em cem atos que reserva
aos próximos dois séculos na Europa, por que “Deus morreu”, e o
crucificado é para ele é o símbolo de uma moral hostil à vida , o
ultramundano ilusório da religião e da metafísica”. ( Zilles, 1991,166).
Nessa magistral síntese de todo o pensamento de Nietzsche acerca do
nazareno e de todo o cristianismo, Zilles expõe em que se baseava o ateísmo de
Nietzsche ( avida em consonância com a vida biológica e suas satisfações), e
a separação entre Jesus e o clero (acusando) este último de ter falsificado a
mensagem evangélica) e por fim, a expectativa da Queda do cristianismo, como
iminente.
Quando Nietzsche acusa os apóstolos, especialmente Paulo de Tarso, de
terem alterado a prima mensagem do Mestre, gera polêmica. Frederick Copleston
se opõe se propõe a defender o rabino de Tarso: “Ele (Paulo) estava possuído
dum sincero amor a Cristo(...) os outros apóstolos nunca o acusaram de falsear
os ensinamentos de Cristo. ( Copleston, 1979, 190).
O fato é
que Nietzsche vai atacar a Igreja apartir de Pedro e Paulo. Mas, Copleston ainda
cita passagens ambíguas de Nietzsche acerca de Jesus, que ora o elogia e ora o
critica: “Nietzsche admite que Jesus (...) tinha o mais generoso coração
(...) admita ainda que Jesus é o raro, súbito fulgor de um simples raio do sol
na sombria paisagem judaica, que Ele estava possuído de ‘uma maravilhosa,
fantástica piedade’ (o que pra Nietzsche representava um erro), que Ele
introduziu ‘o mais alto e significativo valor’ na vida do povo vulgar da
Palestina, que sofreu o martírio do mais inocente e mais ardente coração, que
nunca teve bastante de qualquer amor humano’, que foi ‘o evangelho encarnado
do amor’, que morreu como viveu e como ensinou’, como disse nO
ANTICRISTO”, a seguir, Copleston ainda cita mais opiniões de Nietzsche
acerca do Nazareno: “ Nunca houve mais do que um cristão, e esse
morreu na cruz”, mas Nietzsche não gosta do ensino de Jesus “ após isso,
afirma que Nietzsche blasfemou por Ter dito que se o galileu tivesse vivido mais
tempo, se retrataria de sua doutrina, por ser bastante nobre para se
retratar”. ( Copleston, op.cit, 188).
O reverendo anglicano sintetiza o pensamento nietzschiano acerca de
Jesus, lembrando que ao mesmo tempo que o filósofo admirava a nobreza de caráter
e a fidelidade do nazareno às suas doutrinas, chegando a afirmar que Ele fora o
único cristão existente na humanidade, também critica os ensinamentos de
Cristo, que para Ele são anti-naturais, e portanto impossíveis de serem
cumpridos pelos homens. Acha que a pregação evangélica , por ter sido
influenciada pelos ensinos judaicos vetero-testamentários, incorporava a
filosofia judaica, que era para ele a encarnação da decadência que retardava
o início do Super-Homem (Übermensch).
Mas mesmo ponderando acerca dos elogios que Nietzsche faz ao nazareno, é
óbvio que suas idéias, mesmo quando são elogiosas, não estão de acordo com
a fé cristã ortodoxa defendidas pelas comunidades eclesiásticas instituídas
(igrejas).Vale citar aqui o artigo 3 da Confissão de Augsburgo acerca de Jesus,
cujo título é DO FILHO DE DEUS: “Ensina-se, além disso, que Deus Filho se
fez homem, nascido da pura Virgem Maria, e que as duas naturezas, a divina e a
humana, inseparavelmente unidas com uma única pessoa, são um só Cristo, que
é Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, e que verdadeiramente nasceu, padeceu,
foi crucificado, morreu e foi sepultado, a fim da oblação não só pelos
pecado hereditário, mas ainda por todos os outros pecados, e para aplacar a ira
de Deus. Ensina-se, outrossim, que o mesmo Cristo desceu ao inferno, no terceiro
dia ressurgiu verdadeiramente dos mortos, subiu ao céu e está sentado à
destra de Deus, para dominar eternamente sobre todas as criaturas e governá-las,
a fim de santificar, purificar, fortalecer e consolar, pelo Espírito Santo, a
quantos nEle crêem, dar-lhes também vida e toda sorte de dons e bens, e
proteger e defendê-los contra o DIABO e o PECADO. Também se ensina que o mesmo
Cristo Senhor, conforme o Symbolum Apostolorum, no fim virá visivelmente, para
julgar os vivos e os mortos. ( Confissão da Esperança, 1980,31).
É bom lembrar que Nietzsche havia afirmado que Jesus havia morrido
somente por seus pecados i.e. crimes (revoltas) políticos. Mas o catecismo
luterano, em concordância com toda a cristandade, afirma que Cristo foi
crucificado para justificar todos aqueles que tiverem fé nEle, conforme a Bíblia.
Mas, Nietzsche a critica e rejeita.
Quanto à questão de que Cristo foi o único cristão e de que não
houve outro que conseguisse seguir seu exemplo, Copleston refuta que: “ Cristo
é, sem dúvida, o único exemplo absolutamente perfeito da vida cristã, mas a
vida cristã tem sido vivida por homens e mulheres que a história nos
aponta”, dentre esses o autor aponta São francisco de Assis, e Santa Teresa
D’Ávila. (Copleston, op.cit., 192-195).
Segundo Ezio Gazzotti
existem três níveis diferentes para responder à pergunta: QUEM É JESUS? A 1º
é a da comunidade cristã, que assim como Pedro confessa: “ Tu és o Messias,
o Filho do Deus Vivo”. (Mateus 16:16, Bíblia Linguagem de Hoje, 1996). Ora, só
pode confessar isso quem, de acordo com a Bíblia, for tocado pelo Espírito
(Atos 2:37; 1 Cor 12:3).
Outra resposta é a de Maomé ( e de todos os islamitas) junto com os
grandes rabinos da atualidade como M. Buber, Klausner e Shalom Ben Corin, para
quem Jesus é um profeta, enviado por Deus, mas que é apenas um homem.
A terceira resposta é a de que Jesus é um grande homem que ensinou a
Justiça e o Amor, defendeu a causa dos fracos e foi ao encontro da morte por
eles. Essa é a opinião de eminentes marxistas, tais como Bloch, Machovec,
Garaudy, entre outros. “Esse nível pode ser alcançado por todos os homens
que se colocam com seriedade diante dos dados indiscutíveis da história”. (
Gazzotti, 1999, 14-15).
Mas Nietzsche não está em nenhuma dessas três categorias, embora
analisando algumas de suas ponderações, poder-se-ia classificá-lo entre esses
últimos. Mas muitos estudiosos de Friedrich discordam que ele esteja nessa
categoria, entre eles os já citados: Frederick
Copleston, Urbano Zilles, Pierre Heber- Suffrin, Paul Strathern, entre
outros.
Resta então uma pergunta, parafraseando Gazzotti: Nietzsche então não
se colocou com seriedade diante dos fatos históricos? E se ele fez isso, qual
sua credibilidade para falar no assunto?