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O Super-Homem

 

 

“ O que é bom? Tudo aquilo que aumenta a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.

   O que é mau? Tudo que brota da fraqueza.”(NIETZSCHE,1985,18)

 

 

 

 

Nesta expressão há um resumo sintético do pensamento do filósofo alemão, e também , é apartir desses conceitos que Nietzsche começará a bombardear o edifício onde está erigida a civilização ocidental: a tradição e as igrejas cristãs ( católica e luteranas, especialmente).

O Super-Homem nietzschiano, de acordo com Paul Strathern, “ não tinha afinidade com assuntos constrangedores como a moral. Sua única ‘moral’ era a Vontade de Potência”(STRATHERN,1996,51). Sobre a relação do filósofo com a religião, ele afirma ainda “ Nietzsche prega nada menos que a destruição dos valores cristãos: cada indivíduo deve assumir total responsabilidade por suas ações num mundo sem deus. Deve forjar seus próprios valores em plena liberdade. Não existe sanção divina ou de outra natureza, para seus atos”.

Apartir dessa análise, o autor da série EM 90 MINUTOS conclui que: “Os que seguissem suas receitas (as de Nietzsche) tornar-se-iam super-homens”. (id,1996,52).

Nietzsche condiciona a superação do homem à superação dos valores religiosos cristãos básicos, daí que na sua luta PARA SUPERAR O HOMEM, ELE PENSA SER FUNDAMENTAL DEMOLIR A INSTITUIÇÃO E A FILOSOFIA QUE CRIARAM ESSE TIPO DE HOMEM: O CRISTIANISMO!

Na crítica feita à decadente cultura ocidental, o que Nietzsche busca é não permitir que os grandes homens e gênios fossem sufocados pela massa rancorosa (de homens), que incapaz de grandeza própria, era, de acordo com ele, manobradas pelos cristãos e socialistas, a acabar com qualquer genialidade individual, em nome da maioria. Ele chamava essa massa decadente (sic) de “rebanho”.

Mas a interpretação do que seria o Super-Homem preconizado por Nietzsche , geraria uma série de releituras dessa figura, e uma delas em especial causaria dano à sua filosofia, vinculando-o ao totalitarismo do século XX.

O nacional-socialismo alemão, conhecido popularmente como nazismo, pregava o Imperialismo alemão, baseando-se nas teses eugênicas (racistas) de Adolf Hitler, de que os germânicos descendiam de uma antiga e nobre raça, a ariana, que por sua vez era superior e portanto deveria dominar de forma totalitária todos os povos “inferiores”. Como exemplo, os hitlerianos pegaram trechos nietzschianos , para embasar suas teses, e colocar Nietzsche no rol dos precursores da ideologia suástica. Por exemplo, citavam textos como esse: “ Aconselho-vos não a trabalhar, mas a lutar(...) não à paz, mas à vitória”, e ainda mais “A guerra e a coragem tem realizado mais do que a caridade”(Keegan, 1973,14). Só nesses trechos, citados sem nenhuma explicação ou contexto pelos Nazis, liga-se Nietzsche não só ao aristocratismo (“não trabalhem”) como ao ideal belicista a anti-cristão dos hitlerianos.

Sabe-se historicamente, que a irmã do filósofo era casada com um dos maiores anti-semitas alemães do fim do século XIX, e através dela (que compartilhava os ideais do marido) que ficou com o acervo dos escritos do filósofo, foramdeturpadas uma série de ideias nietzschianas, permitindo assim que a cúpula do Terceiro Reich fizesse o uso que fez da filosofia nietzschiana. ( é sabido que quando Hitler tornou-se chanceler da Alemanha, em 1933, uma de suas primeiras visitas oficiais foi à já idosa irmã de Nietzsche, Elizabeth, uma notória simpatizante do fünher.

Obviamente, o nacional-socialismo aproveitou o máximo possível da obra de Nietzsche para fins ideológicos, deturpação essa feita a comando do chefe da propaganda nazista, Josef Goebels. Dessa forma Nietzsche foi utilizado como um dos suportes filosóficos (junto com Treitschke) da ideologia nazista.

Keegan lembra que a tropa de elite nazista, os SS, tinham o seguinte lema (credo): “a atitude básica de um SS deve ser a de um lutador que se bate por amor à luta; deve ser obediente acima de tudo, e emocionalmente insensível; deve desprezar todos os ‘inferiores raciais’ e, em menor grau, os que não pertencem à Ordem SS; manter para com seus colegas de SS, fortes laços de camaradagem, sobretudo os seus companheiros de armas, e crer que nada lhes é impossível. Em suma, o pensamento de superioridade estava profundamente enraizado no pensamento alemão” (ibid, 13). A questão é que no embasamento desse sentimento de superioridade racial, incutido pelos nazistas na juventude, Nietzsche era amplamente citado.

Talvez por essa causa, os socialistas e principalmente, os comunistas, atribuíam à filosofia nietzschiana um papel reacionário (conservador e elitista) importante dentro da filosofia totalitária de direita alemã. O PEQUENO DICIONÁRIO FILOSÓFICO SOVIÉTICO (edição de 1959), assim define Nietzsche: “ filósofo idealista alemão ultra-reacionário, apologista declarado da exploração burguesa diante do agravamento das condições de classe, a atividade política crescente da classe operária e a difusão das idéias socialistas. Toda ideologia de Nietzsche está impregnada de ódio para com o ‘espírito da revolução’, para as massas populares. Segundo ele, o trabalho é uma vergonha (...) a escravidão seria a ‘essência da cultura’ e a exploração estaria ligada à ‘essência de tudo o que vive’. (...) Nietzsche empreende a tarefa da ‘revisão de todos os valores’, das normas da ideologia liberal, da filosofia racionalista, da ética tradicional, dos dogmas da religião cristã. Nietzsche estima que estas normas debilitam a vontade de luta(...) Opõe à hipocrisia tradicional da ideologia burguesa, uma ideologia aparentemente bárbara: anti-humanismo, anti-democratismo, imoralismo cínico. (...) Declarava que ‘ a vontade de poder’ é o motor de todos os processos da natureza e da sociedade. (...) proclamava o culto da força e da ‘besta vermelha’, e corresponde, como nenhuma outra, à ideologia dos fascistas. Sua filosofia foi amplamente aproveitada pelos hitleristas e está sempre ao serviço dos ideólogos protofascistas do imperialismo ( ROSENTAL E IUDIN,1959,425).

Como é visto acima, os soviéticos (e consequentemente todos os comunistas ligados à República dos Sovietes e seus ideais em todo o mundo) também viam Nietzsche como um precursor e ideólogo do fascismo alemão, isto é, aquele que tinha elaborado uma filosofia de embasamento à ideologia escravista moderna, e gerador e impulsionador do fenômeno do 3º Reich alemão, e em menor escala, do mussolinismo italiano.

O fato é que de algumas décadas pra cá, especialmente após a Segunda Guerra, muitos estudiosos tem chegado à conclusão de que o SUPER-HOMEM defendido por Nietzsche nada tinha a ver com a ideologia pregada por um austríaco que usava uma suástica no braço e queria escravizar todos os povos não-arianos à Alemanha.

Para Oswaldo Giacoia Júnior, o Super-Homem é o além-do-homem, isto é, a superação do atual ser humano. “ Ele constitui um contra-ideal da tendência ao nivelamento e à uniformização que, para Nietzsche, caracteriza a moderna sociedade de massa. Para ele, o homem pode ser visto não como um fim(...) mas como um meio para conquistar possibilidade mais sublimes de existência”. Ele ainda afirma que: “Nietzsche se opõe à supressão das diferenças, à padronização de valores que, sob o pretexto de universalidade encobre, de fato, a imposição totalitária de interesses particulares; por isso ele é tembém um opositor da igualdade entendida como uniformidade”. ( Giacoia,2000,11).

Para Giacoia, o Super-Homem é uma antítese da padronização uniformizada das massas, característica dos regimes totalitários (tanto de direita, quanto de esquerda).

Na mesma linha, está a interpretação  de Frederick Copleston, que diz: “ Ao condenar a forma de cultura que havia de Ter como resultado a estoliação de grandes personalidades, em que a multidão, cheia de inveja e rancorosa, incapaz de grandeza em si própria e odiando a grandeza dos outros, havia de impedir o desenvolvimento do gênio ou persegui-lo, bani-lo ou vexá-lo, Nietzsche expressa a maneira de pensar de todos aqueles que tem um verdadeiro respeito pela natureza humana”. Na sequência, porém, Copleston fará ressalvas ao pensamento do filósofo: “Os grandes homens e as grandes mulheres são, sem dúvida, a mais bela flor da cultura  e a negação de tal fato seria uma má compreensão da cultura; mas os homens e as mulheres vulgares tem também os seus direitos, e nenhum homem pode ser um simples meio para outro homem, por muito grande e muito excepcional que este seja”. ( Copleston, 1979,117).

Copleston vai começar a colocar a questão no meio que interessa a essa questão: até onde o super-homem de Nietzsche fere a moral cristã. Ninguém melhor para fazer isso do que Copleston, um reverendo anglicano que estudou Nietzsche. Ele irá divergir do radicalismo aristocrático cultural do filósofo, pos discordava que o objetivo da cultura era a produção de gênios.

O problema que o reverendo anglicano vê na definição de cultura de Nietzsche é o exclusivismo de ser ela, de acordo com o alemão, apenas para aprodução de gênios. Talvez, até baseado no Evangelho, Copleston faz a defesa dos homens e mulheres que Nietzsche chamava de vulgares.

Aqui se aproxima a tensão central da filosofia nietzschiana, que é o combate à filosofia cristã. Jesus Cristo no Sermão da Montanha sintetizou todo o Evangelho, ao afirmar: “Felizes os pobres de coração: deles é o Reino dos Céus. Felizes os mansos: seu quinhão será a Terra. Felizes os que choram: eles serão consolados. Felizes os que tem fome e sede da justiça: eles serão saciados. Felizes os misericordiosos: eles alcançarão misericórdia. Felizes os corações puros: eles verão a Deus. Felizes os que agem em prol da paz: eles serão chamados Filhos de Deus” ( Bíblia, Tradução Ecumênica (TEB), Paulinas, 1995).

Na realidade Nietzsche criticará essa busca da paz e justiça, junto com a resignação ao sofrimento como decadentes. A síntese de toda a crítica nietzschiana à filosofia cristã está em O Anticristo.

Em relação ao Super-Homem, pode-se dizer que em síntese, a sua característica principal era a Vontade de Potência ( ou Domínio). Copleston explica: “ A vida é a Vontade de Domínio, e aqueles que são mais vivos, aqueles que são os melhores espécimes da raça humana são aqueles em quem é mais forte essa vontade de domínio. Os homens excepcionais da história – Napoleão Bonaparte, por exemplo- são as mais belas encarnações da Vontade de Domínio que tem aparecido até agora, mas serão ultrapassados pelo Super- Homem, em quem a Vontade de Domínio atingirá o seu ponto mais elevado. ‘Apenas onde há vida’, já dizia Nietzsche, ‘há vontade; não a vontade de viver, mas a vontade de domínio’. Nisso, havia um nítido choque com a filosofia cristã”. ( Copleston, 1979, 122).

 

Apresentação O Super-Homem A Fé Jesus de Nazaré

A Igreja

Conclusão
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