Gestalt Terapia
O núcleo do real é a ação. ... Um problema humano F. Perls. A Gestalt Terapia é, em específico, uma dimensão particular do(s)
movimento(s) da Fenomenologia, e do Existencialismo. Surge da percepção de que podem se constituir como uma rica
possibilidade de psicoterapia, e de condições para o crescimento e
potencialização humanos, as perspectivas e concepções da fenomenologia da tradição de
Franz Brentano – fundadoras da Fenomenologia,
e da Fenomenologia e Hermenêutica Existenciais --; as concepções da Psicologia Organísmica, de Kurt
Goldstein; as concepções da Filosofia de
Vida de Nietzsche – concepções estas de privilégio do homem artístico, e do modo artístico da existência, com relação ao homem científico e ao
modo científico da existência; as posturas e concepções do Expressionismo; as concepções e posturas da Filosofia do Diálogo, de Martin
Buber, e do zen; e a influência de alguns teóricos dissidentes do movimento
psicanalítico, como Otto Rank, C.G. Jung e W. Reich. Foi, assim, a compreensão de que estas perspectivas poderiam
constituir os fundamentos da concepção e metodologia de uma abordagem de
psicoterapia que levou à síntese da Gestalt Terapia por parte de Fritz e
Laura Perls, e companheiros. No rico ambiente intelectual, cultural e artístico, da Alemanha, em
especial de Berlim, do início do Século XX, essas linhas de influência
pululavam. E confluíram na formação de Fritz e de Laura Perls,
constituindo-se numa potente linha alternativa à formação médica e
psicanalítica de Fritz Perls. Fritz Perls, junto com Laura, investiu sua vida na constituição, a
partir dessas influências, de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia. O mundo intelectual e artístico de Berlim, no qual eles viviam e
cresciam, foi devastado pelo nazismo. Os Perls, ela psicóloga, ele ainda
psicanalista, emigraram para a África do Sul. Perls afastou-se da
Psicanálise, e começou a desenvolver a sua abordagem. Mais uma vez emigardos,
agora para os Estados Unidos, é aí que vão se desenvolver as suas concepções,
e as suas vivências, relativas a Gestalt Terapia; concepções e vivências
herdadas daquelas potentes e criativas influências do mundo intelectual e
artístico da Alemanha, e em particular de Berlim, anteriormente a primeira e
segunda guerra mundiais. Os Perls, As correntes que confluem na constituição da Gestalt Terapia
caracterizam-se por uma confiança afirmativa, e ousada, na potência
humanamente ontológica, e criativa, da vivência fenomenal, do devir do possível e da possibilitação;
e na superação, que eles propiciam,
como características definidoras do ser/devir da condição humana, individual e coletiva. Entendem que é no âmbito da vivência de um particular modo humano de
ser – o vivido fenomenal, a vivência, o pré-reflexivo ser-no-mundo
-- que o possível, a
possibilidade, se dão. É ao nível do vivido
fenomenal, contato, que o possível é possível, e se desdobra; como ação, interpretação*, humanas. Mais especificamente,
como criação, e arte humana da existenciação.
Ou seja, não é exatamente no, igualmente humano, modo de ser da reflexão, da teorização, da abstração
(abstração do corpo, do vivido e dos sentidos) que o possível, a possibilidade, se ato-alizam. Não é, também, no modo de ser do comportamento
(a humana dimensão da atividade padronizada, repetitiva, condicionada,
previsível...) ... A humana dimensão de ser/devir, na qual o possível é possível como vivência, e se desdobra; na qual se dá
a superação, e os seus
desdobramentos, na condição humana, é, propriamente, assim, o humano modo de
ser do vivido, a vivência
afirmativa do vivido (contato). Vivido, vivência, como designou
Dilthey. E que Brentano entendeu como consciência
empírica. Que Buber chamou de dialógico, ou relação eu-tu. Que Heidegger chamou de
ser-no-mundo, eksistencia. Que Goldstein, e Rogers chamaram de experiência
organísmica. Que no âmbito da Gestalt Terapia norte americana chegou-se a
designar como awareness. A disposição audaciosa para a afirmação do vivido, para a afirmação de possíveis, em que este vivido
necessariamente se implica, e de seus desdobramentos, disposição que permite
as efetivações do contato, é o que
se entende em fenomenologia existencial como experimentação. De Nietzsche, e de suas outras raízes fenomenológico existenciais, a Gestalt
Terapia herdou esta disposição audaciosa e ousadia fenomenológico existencial
experimental para atualização do
possível (Contato), como forma saudável de vivência humana, e de potencialização do
desdobramento e atualização, ação, do
ser humano, que desta forma se supera e se cria a si mesmo. É esta ousadia
fenomenológico existencial experimental que caracteriza a concepção e método
da Gestalt Terapia. Na otimização, no resgate, e desenvolvimento, da habitualidade
experimental do contato, Perls entendeu não só o modo
como existimos como humanos, mas, igualmente, o modo estratégico natural para
a resolução de questões e crises existenciais, para a superação e crescimento
humanos. De modo que é assim, nesse sentido fenomenológico existencial, que
podemos dizer que a Gestalt Terapia é uma abordagem fenomenológico existencial experimental
de psicoterapia e de psicologia. Aí reside a sua atualidade e o seu potencial produtivo no âmbito das
práticas e dos desenvolvimentos da psicoterapia e da psicologia no Brasil.
Sabemos dos intensos processos de redefinição e de re contextualização da
psicoterapia e da psicologia no Brasil. As novas demandas e novos ambientes
em que somos, enquanto psicólogos, solicitados a intervir e atuar; tais como
os desenvolvimentos alternativos da clínica, o hospital geral, o
desenvolvimento comunitário, a terapia familiar, a pedagogia, a escola, a
empresa, a educação para a saúde, a prevenção em saúde... Em todos esses contextos, as características experimentais fenomenológico existenciais da Gestalt Terapia permitem a concepção
e o desenvolvimento de vivências produtivas, que respondam às demandas dos
clientes, e das populações com as quais trabalhamos, por auto-regulação,
ajustamento criativo, auto-superação, criação, atualização de possibilidades.
Permitindo-nos, inclusive, a participação na potencialização da criatividade
nos processos de produção cultural, de que historicamente tanto carecemos. |