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PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO
FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 2 A Experimentação Psicológica
e o Experimental na Tradição da Psicologia Fenomenológica de Brentano Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.
ESCOLA
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL Internet: [email protected] http://www.terravista.pt/fernoronha/1411 2000 “... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te.
Mas não quero voltar a ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a
experiência. Tais são os limites da minha ‘veracidade’” Parece fundamental recorrer
à contribuição de Franz Brentano (1838-1917) para uma compreensão,
explicitação e diferenciação do sentido especificamente fenomenológico
existencial do experimento, da experimentação e do experimental em psicologia e
psicoterapia. São as concepções de Brentano que permitem uma refutação da
concepção do experimental em psicologia derivada das perspectivas
fisiologistas e mecanicistas de W. Wundt, ao mesmo tempo em que fundam uma
concepção alternativa de método psicológico, e de psicologia científica, de
cunho fenomenológico, e lança as bases de uma concepção especificamente
fenomenológica do experimento, do experimental e da experimentação De início, no entanto, é
importante observar que, de fato, a contribuição de Brentano centra-se,
justamente, na contestação e na refutação do experimento e do experimental
em psicologia, e na contestação e refutação da própria psicologia experimental, tal como eles foram
concebidos e praticados na tradição de Wilhelm Wundt. De modo que a proposta
de Brentano não é exatamente a da experimentação em psicologia, mas a de uma
psicologia que, ao invés de experimental,
é especificamente empírica e aporética, na perspectiva da ciência
natural da tradição hipocrático aristotélica. Psicologia esta na qual
desaguava, para Brentano, a própria Filosofia[1].
Ocorre que este empirismo aporético de Brentano parece ser, em si, uma
abordagem fenomenológica experimental. Esta psicologia que Brentano inaugura,
que é um empirismo fenomenológico, um empirismo da consciência, permite com
as suas concepções, assim, a redefinição, a re contextualização da noção de
experimentação, e a fundamentação da experimentação de cunho especificamente
fenomenológico em psicologia. Um aspecto que parece um dos
mais interessante para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial
é que, ao mesmo tempo, o próprio empirismo aporético de Brentano aplicado à
consciência como método fenomenológico existencial especificamente experimental, parece intimamente aparentado ao
método experimental perspectivativo de Nietzsche. De modo que estas duas
vertentes fundamentais da concepção do experimental num sentido
fenomenológico existencial compartilhariam raizes bastante próximas. Por empirismo podemos entender a abordagem da realidade sem
pré-concepções, a partir de sua vivência imediata: Empírico: (...) O que é um resultado imediato da
experiência e não se deduz de nenhuma outra lei ou propriedade conhecida.
Diz-se igualmente das pessoas enquanto os seus conhecimentos e as suas regras
de ação são empíricas. (...) O que exige o concurso atual da
experiência, como a física, em oposição ao que não exige, como as matemáticas (...) Empirismo: Nome genérico de todas as
doutrinas filosóficas que negam a existência de axiomas enquanto princípios
do conhecimento logicamente distintos da experiência. (...) Empirismo representa muito bem o hábito ou a maneira
de proceder de um espírito que se contenta com a experiência.[2] A particularidade da
abordagem de Brentano é que, entendendo a Filosofia e a Psicologia como
ciências naturais, ele resolve abordá-las empiricamente. Como a Psicologia é
para ele o estudo da consciência, ele trata de abordar empiricamente a
consciência, constituindo assim a perspectiva fenomenológica. A respeito do empirismo da
consciência e das articulações entre Filosofia e psicologia, próprios à
perspectiva brentaniana em filosofia e psicologia, Massimo Libardi[3]
observa: A
característica fundamental da nova disciplina que Brentano buscou desenvolver
foi a sua conceptualização empírica.
Ele de fato sustentou que não se poderia dar uma nova fundamentação para a
filosofia a menos que o seu método tenha sido adaptado (na verdade tornado
idêntico) ao método das ciências naturais. Em particular a filosofia deveria
começar com a psicologia , cujo método era aparentado com o das ciências
naturais e cujo conteúdo era co-extensivo com aquele da filosofia. O que Brentano assim
propunha era uma abordagem empírica e
aporética da psicologia, da filosofia, uma abordagem empírica e aporética da
consciência. Ou seja uma abordagem imediata da realidade e da consciência em
seus desdobramentos, a partir de sua própria experiência, sem a mediação da
consciência conceitual, teorizante, ou de pré concepções. Uma abordagem que
valorizava a emergência do vivido da diferenciação e da multiplicidade que se
impõem, como estratégia de conhecimento, evitando que este se cristalizasse
em perspectivas dogmáticas e unilaterais. A aporese caracteriza-se como uma
atitude que busca levar um conhecimento aos seus limites, e abrir-se, então,
ao conhecimento que a ele se contrapõe ou que é a ele alternativo. Assumindo estas perspectivas
epistemológicas e metodológicas, a contribuição de Brentano é fundamental, na
medida, em particular, em que resgata a psicologia, e em específico a
abordagem da consciência, do descaminho fisiologista, mecanicista, wundtiano.
E no sentido de que define os referenciais fenomenológico existenciais empíricos e aporéticos, conceituais e metodológicos, da nova ciência
psicológica, permitindo uma recontextualização e uma redefininção da questão
do experimento e da experimentação em psicologia, e concebendo novas e
alternativas bases para a sua prática. Na verdade, Franz Brentano
definiu e engendrou na filosofia, e na psicologia, uma clivagem e uma
tradição fundamentais, que ganham cada vez mais importância. Esta tradição
deságua na própria constituição específica da Fenomenologia, da Psicologia da
Gestalt, da Psicologia Humanista, e da Filosofia Crítica do Círculo de
Viena... Conhecer a tradição de Brentano, a história de Brentano e suas
concepções, a história de sua tradição, é conhecer aspectos distintivos e
fundamentais, imprescindíveis, da fenomenologia, da psicologia, e, em
particular, da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Parece
ser fundamental, como observamos, para uma elucidação do sentido
definidamente experimental desta.
Em particular na contraposição deste sentido ao sentido do experimento e do experimental vigente na psicologia em geral, em particular na
psicologia experimental e na psicologia comportamental. Tudo isto em função
do fato de que a psicologia fenomenológica de Brentano inaugura dentro da
Psicologia Moderna toda uma perspectiva alternativa de concepção dos
fenômenos psíquicos, de concepção da psicologia e da ciência psicológica, e
de concepção de método em psicologia. Podemos arrolar, na tradição
de Brentano (1838-1917), como contemporâneos e o como descendentes: Hermann
Lotze (1817-1881), Ernest Mach (1839-1916), Von Helmholtz (1821-1894), Christian
Von Ehrenfels (1859-1932), Karl Stumpf (1848-1936), Edmund Husserl , Martin
Heidegger (1889-1969), Max Wertheimer (1880-1943), Kurt Koffka (1886-1941),
Wolfgang Köhler (1887-1949), Kurt Goldstein, M. Merleau Ponty, Ludwig
Binswanger, Medrard Boss, Abraham Maslow (1908-1970), Fritz Perls, Carl
Rogers (1902-1987) e outros. De destacar é a frequente vinculação com a arte,
em particular com a música, dos pioneiros desta tradição, e o uso que fazem
da música em seus estudos e argumentações. Postura igualmente cara à
perspectiva de F. Nietzsche. Wilhelm Wundt (1832-1920) é
considerado normalmente não só o pai da psicologia experimental como o próprio pai da psicologia científica, a
partir dos intensos e dedicados trabalhos que desenvolveu Exatamente no mesmo ano de
1874[5],
Franz Brentano lança o seu livro fundamental, Psychologie von Empirischen Standpunkte (Psicologia do ponto de vista empírico). O livro de Brentano
contém críticas radicais a concepções e perspectivas de Wundt. Em particular
a sua concepção de consciência e dos processos psíquicos, ao seu método, a
sua concepção de Psicologia e de ciência psicológica. De fato, como vimos, o
livro de Brentano contém toda uma concepção de consciência e dos processos
psíquicos, de psicologia e de ciência psicológica, assim como de método
destas, derivados da tradição aristotélica. De modo que Brentano abre uma
alternativa no que se entendia e se entende como a psicologia científica,
profundamente identificada esta, em suas raízes, com a fisiologista e
mecanicista perspectiva wundtiana. Wundt produz intensamente,
acolhe discípulos que participam de seus estudos no Laboratório de Leipzig,
discípulos estes que haverão de disseminar as suas concepções na América, em
particular nos EUA, na Europa e na Ásia. Menos tecnológicas, menos
fisiologistas e organicistas, as premissas e perspectivas de Brentano
permanecem num segundo plano. Ao mesmo tempo em que fomentam,
definitivamente, o desenvolvimento de abordagens alternativas e fundamentais,
tanto na Filosofia quanto na Psicologia. As concepções de Brentano ensejam o
desenvolvimento da Fenomenologia e da Filosofia Crítica, no âmbito da
Filosofia, ao mesmo tempo em que ensejam o desenvolvimento da Psicologia e da
Psicoterapia Fenomenológica, a partir, principalmente, do desenvolvimento da
Psicologia da Gestalt, que redunda no desenvolvimento da Psicologia
Organísmica de Kurt Goldstein, e da Psicologia Humanista, em grande parte
esta a partir das influências exercidas sobre Abraham Maslow pelos psicólogos
da Escola da Gestalt. Assim, como dissemos, entender a clivagem e a
alternativa que Brentano constitui com relação às concepções e à abordagem de
Wundt, configura-se como um momento fundamental da compreensão da
especificidade destas abordagens, em especial do sentido do caráter específica
e decididamente experimental da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial. É necessário mencionar um
pouco mais a Wundt para permitir uma compreensão adequada da diferenciação do
sentido do experimental nas
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Wundt trabalhou
incansávelmente em seu laboratório de psicologia experimental, no sentido do
desenvolvimento de uma Psicologia Científica. Para ele[6],
a consciência era o objeto de
estudo da Psicologia, de modo que dedicou-se ao estudo sistemático da
consciência. Apesar de professor também de Filosofia, Wundt vinha em grande
parte da Fisiologia e da química, suas perspectivas configuravam-se como
expressão do apogeu do modelo fisiologista e mecanicista, e Wundt terminou
por utilizar as perspectivas epistemológicas da Fisologia e da Química no
estudo da consciência[7].
Para ele, a consciência era
basicamente constituida por seus conteúdos
sensoriais elementares. De modo que
o estudo da consciência era para ele o estudo analítico elementar dos conteúdos
sensoriais da consciência e dos modos como eles se associariam. E ele
dedicou-se em suas pesquisas no Laboratório de Psicologia Experimental de
Leipzig a decompor analitica e redutivamente a consciência, no sentido de
chegar aos e estudar os seus conteúdos
sensoriais elementares. Para tal perspectiva de
estudo, adotada por seu laboratório de Psicologia Experimental, Wundt adotou
a introspecção como o seu método
fundamental. Com a utilização de sujeitos treinados, que, seguindo normas
estritas, observavam e analisavam a sua própria consciência relativa a um
dado objeto de pesquisa, um dado conteúdo
de consciência, e relatavam para o pesquisador as suas observações, sempre
numa perspectiva analítica, de busca de apreensão dos elementos últimos de conteúdo. Na concepção de Wundt, os elementos sensoriais associar-se-iam
na composição da consciência. Wundt assumiu assim a perspectiva dos
Associacionistas, ainda que houvesse entendido que a mente, apesar de
associacionista, tinha um papel mais criativo na constituição da consciência
do que teriam admitido os Associacionistas tradicionais[8]. Brentano vinha da Filosofia.
Era um grande especialista em Filosofia, em especial em Filosofia antiga e Pode ser problemático
admitir uma herança empirista aristotélica nas concepções e posturas de
Brentano, em função da filiação platônica de Aristóteles. Para tal, para
entender a influência específica de Aristóteles sobre Brentano, é certamente
interessante entender que Aristóteles era ambíguo[9]
em sua perspectiva filosófica e metodológica. Situava-se na perspectiva
socrático platônica, ao mesmo tempo em que mantinha uma perspectiva
decididamente empirista. Nascido em Estagira, nas
cercanias da Macedônia, e muito antes de entrar para a Academia socrático platônica, em Athenas, Aristóteles aprendeu o
empirismo e o relativismo característicos da tradição médica de Hipócrates:
seu pai era médico, e praticava a medicina dentro dos referenciais da
tradição hipocrática[10],
e Aristóteles convivera e estudara, desde cedo em sua vida, com o círculo
médico de seu pai. Hipócrates[11]
buscava abandonar qualquer explicação abstrata e geral no estudo dos
fenômenos, buscando ater-se ao comportamento observável destes, e às
previsões baseadas neste conhecimento empírico. De modo que Hipócrates
conservava uma perspectiva eminentemente empirista de valorização do
conhecimento provido pela experiência. Neste sentido, é a perspectiva dos
Sofistas que vem a constituir-se na perspectiva de Hipócrates. Associado a esta perspectiva
empirista, também assumindo uma perspectiva própria dos Sofistas[12],
os hipocráticos assumiam uma perspectiva eminentemente relativista para com
os fenômenos, e, em particular, naturalmente, com relação à saúde. Para eles,
nada é absolutamente bom ou absolutamente mau em termos de saúde. O mesmo
relativismo dos Sofistas aplica-se igualmente ao conhecimento, de modo que o
conhecimento e sua aplicação não dependem de normas absolutas, mas de
imperativos situacionais enfrentados tanto pelos indivíduos humanos como
pelos grupos sociais. "Górgias,
o outro principal sofista do quinto século, sustentava que a virtude era uma
questão de fazer a coisa adequada no momento certo; há aqui, também, uma
rejeição de um padrão ético absoluto em favor do tipo de julgamento ético
situacional que varia de acordo com a pessoa e as circunstâncias.[13] Morrall[14]
ainda observa: "O
relativismo do enfoque aristotélico da modificação política tem sido
freqüentemente assinalado. É claro que ele muito deve à influência do ensino
médico contemporâneo, com suas tentativas de diagnosticar as doenças que
afligem as formas políticas e com as receitas fornecidas para a cura. A
conexão de Aristóteles com a tradição hipocrática, que poderia mesmo ter
precedido seu período na Academia, já foi mencionada, mas a escola
hipocrática, por sua vez, tinha forte afinidade com a corrente de ensinamento
sofista que avassalou o mundo grego no quinto século. Ambos os movimentos
tinham em comum o programa de abandonar qualquer pesquisa de explicações
abstratas e gerais dos fenômenos, como faziam os filósofos naturais
pré-socráticos, e, em vez disso, concentrar-se no comportamento observável
dos fenômenos e nas previsões baseadas nesse conhecimento empírico. Essa
opinião é expressa pelo Tratado de Medicina Antiga (um remanescente do corpus
de Hipócrates) que sustenta que em matéria de saúde nada é absolutamente bom
nem absolutamente mau; o valor dos alimentos, remédios e outros meios de
saúde é condicionado pelo estado individual dos respectivos usuários. Uma
refeição de carne pode ser boa para um homem no gozo de perfeita saúde, e
pode ser péssima e inadequada para um doente. O mesmo relativismo aparece nos
fragmentos dos escritos sofistas de expoentes tais como Protágoras e Górgias.
O famoso dito de Protágoras, "o homem é a medida de todas as
coisa", deve ser provavelmente compreendido como querendo dizer que o
conhecimento depende não de normas absolutas, mas de exigências situacionais
com que se defronta o Homem, tanto como indivíduo como quanto espécie. As
relações do homem com os objetos potenciais de seu conhecimento são o fator
decisivo e condicionante para a criação desse conhecimento, e, igualmente
importante, para sua utilização com o objetivo de conseguir maior controle do
ambiente por parte do homem. O "Dissoi Logoi", coleção
de exemplos de argumentos lógicos escrita no final do quinto século,
argumenta que há sempre dois lados em cada questão -- não existe verdade
absolutamente correta. "A doença é má para o doente, e boa para o
médico. A morte é má para o moribundo e boa para os coveiros e construtores
de tumbas. A vitória é boa para os vencedores, e má para os derrotados." De modo que o caráter
socrático-platônico da filosofia de Aristóteles é unilateral. Aristóteles, na
verdade, desenvolveu como enfoque metodológico de sua ciência natural uma
perspectiva especificamente empirista, de valorização da consciência imediata,
da experiência imediata da consciência, no estudo dos fenômenos naturais.
Mais que isto, assumiu uma perspectiva relativista com relação à realidade e
ao conhecimento, relativismo este que vai certamente se refletir na
constituição de sua postura aporética, e no perspectivismo e
perspectatividade de Nietzsche. Mesmo que este a tenha assimilado diretamente
esta perspectiva a partir das concepções dos pré-socráticos, ela tem a mesma
raiz. Estas perspectivas, como
vimos, Aristóteles certamente já assimilara e desenvolvera a partir da
relação com a tradição da medicina hipocrática, muito anteriormente a sua
chegada à Academia de Platão, em Atenas, em 367. Aí ele passa vinte anos. Com a morte de Platão, e
preterido -- certamente por não ser um ateniense -- na sucessão de Platão na
direção da Academia, ele retorna para o Leste da Grécia e para o Noroeste da
Ásia Menor, vivendo igualmente nas ilhas da região, Lesbos Brentano defendeu uma tese
de habilitação sobre a filosofia Aristóteles. Conhecia-a em profundidade, e,
como dissemos, era nela um especialista, tendo ministrado cursos sobre
Aristóteles nas universidades alemãs e austríacas. Acredito ser interessante
observar as similaridades biográficas entre a vida de Aristóteles e a vida de
Brentano, que certamente não passaram despercebidas a este. Aristóteles foi
sempre um estrangeiro Brentano[16],
oriundo de Marienberg am Rhein, Alemanha, foi, por seus méritos, convidado
para lecionar Mas o fato é que, como
dizíamos, os estudos de Aristóteles deixaram em Brentano a marca profunda do
empirismo e do relativismo deste. Bentano passa a entender, e a praticar, a
própria Filosofia eminentemente como uma ciência natural, a ser praticada com
o método empirista e aporético desenvolvido a partir de Aristóteles.
Naturalmente, a psicologia, na qual se diferencia a filosofia de Brentano,
passa ter o mesmo estatuto e método da ciência natural. Fugindo das
perspectivas do idealismo, no seio de um reflorescimento da filosofia de
Aristóteles[17],
com o qual o idealismo era confrontado na segunda metade do século passado,
Brentano passa, desta forma, a entender e praticar a filosofia e a psicologia
a partir da perspectiva das ciências naturais, empíricas e aporéticas. De
modo que Brentano configura assim uma psicologia como estudo especificamente empírico e aporético da consciência,
um empirimo fenomenológico e aporético, em alternativa à perspectiva experimental fisiologista e
mecanicista da psicologia de Wundt. Como Wundt, Brentano elege,
igualmente, a consciência como objeto de estudo da psicologia. Mas diverge e
diferencia-se definitivamente dele na perspectiva de compreensão e de
concepção da consciência, no método de abordá-la, na concepção da ciência da
consciência, a psicologia; assumindo o ponto de vista empirista e aporético no trato com esta, e afastando-se da
possibilidade de uma Psicologia Experimental fisiologista, mecanicista e
psicofísica, tal como a definida e praticada por Wundt . De modo que a perspectiva empírica e aporética de Brentano
leva-o a conceber a psicologia da consciência como uma ciência natural, uma
ciência dos fenômenos[18],
a serem empiricamente abordados enquanto tais, na própria experiênciação
deles. Brentano é, assim, levado a conceber, em particular, e a privilegiar a
consciência em sua imediaticidade e presentidade. Em particular, e este é um
aspecto maecante e definidor de sua abordage, Brentano é levado a conceber
fundamentalmente a consciência como o ato, o ato de consciência, e é
a consciência como ato que lhe
interessa, e que é objeto de seus estudos. Ato de consciência que
invariavelmente se direciona a objetos, a conteúdos, mas que não é em si
objeto. Diferentemente de Wundt, que entendera a consciência como sendo os
seus conteúdos elementares, Brentano constitui assim a Psicologia como o
estudo da consciência, como o estudo dos atos
de consciência, como uma psicologia do
ato de consciência. E não como
uma ciência de estudo reducionista dos conteúdos
elementares da consciência. Para Brentano a consciência
é a cada momento uma totalização em ato
de seus diversos níveis. Mas não como adição associativa de conteúdos
elementares, de elementos, que poderiam ser apreensíveis, em última
instância, através de uma análise reducionista, como na concepção de Wundt. A
totalização dos atos de consciência
configura-se para Brentano como totalização significativa que articula
pontualmente a multiplicidade de dimensões do dado ato de consciência. De
modo que o sentido do ato de consciência advém da configuração da
totalização, como articulação dinâmica e pontual das suas partes
constituintes. Partes estas que adquirem o seu sentido, de partes, já na sua
pertinência ao processo de totalização. De modo que o reducionismo
elementarista não seria hábil para uma apreensão da consciência. Em primeiro
lugar, em função do fato de que, na medida em que se direcionava no sentido
da apreensão de objetos da
consciência, erraria já o alvo, e não daria conta de apreender o sentido
específico da consciência como ato.
E não seria hábil para uma apreensão e estudo da consciência na medida em
que, focado em supostos elementos de consciência, não daria conta de
apreender o sentido próprio da configuração da totalização do ato de
consciência, da própria consciência. O que comprometeria a própria apreensão
do sentido próprio das partes constituintes do ato de consciência, uma vez
que este sentido próprio das partes define-se originalmente na relação com e
pertinência da parte à totalização particular. A partir da concepção de
Brentano, surge, utilizada pela primeira vez por Von Erhenfels[19],
aluno de Brentano, a concepção de Gestalt
para definir a configuração totalizadora do ato de consciência, como uma
totalização na qual os elementos, as partes, não se somam, mas articulam-se
dinamicamente no sentido de uma totalização que é diferente da sua associação
aditiva, da sua soma: o todo que é
diferente da soma de suas partes. As partes se definem como tais na
pertinência à totalização. A consciência é dada pela constituição imediata da
configuração desta totalização significativa, que não é uma síntese, e que
não é dada à análise, mas apenas a uma apreensão empírica, a um empirismo da
consciência, empirismo fenomenológico. Alunos de Brentano, Von
Ehrenfels e Stumpf (este professor de Husserl) serão os professores dos
psicólogos -- Max Wertheimer, Kurt Koffka, Wolfgang Köhler e Kurt Goldstein
--, que, a partir destas concepções constituirão a Psicologia da Gestalt.
Abrahan Masolw será profundamente influenciado pelas idéias da Psicologia da
Gestalt, em particular pelas idéias de Max Wertheimer, emigrado para os
Estados Unidos. Ciência dos fenômenos, como
as demais ciências naturais, cuja fonte é tanto a percepção como a
experiência, a Psicologia tinha que encarar, entretanto, para Brentano, uma
característica peculiar dos fenômenos psíquicos[20]:
o sujeito é incapaz de observar o
fenômeno psíquico. É impossível a observação
interior do fenômeno da consciência. Para Brentano, o fenômeno da
consciência é dado, apenas, a um tipo particular de percepção, a percepção interior. A percepção
interior pressupõe a identidade de percebedor e percebido, e é esta a
justificação para a sua evidência, que Brentano vai buscar na teoria da
evidência de Descartes[21].
Diferentemente da percepção interior, a observação interior não atende a esta premissa, uma vez que pressupõe uma distância
entre observador e observado. Há na observação
interior uma cisão entre percebedor e percebido. Fica assim comprometida a introspecção de Wundt, e toda a sua
Psicologia Experimental, como métodos hábeis para uma apreensão e estudo da
consciência, uma vez que a introspecção
wundtiana e a sua Psicologia Experimental assentavam-se eminentemente na observação interior. A psicologia de Brentano
centrar-se-á na imediata apreensão,
empírica, da consciência, como uma totalização em ato[22],
percepção interior, contraposta à observação interior, característica da
instrospecção wundtiana. Fazendo
esta distinção, Brentano aponta para os limites da introspecção wundtiana, e para os limites da pretensão de
erigi-la como método privilegiado de estudo da consciência. A percepção interior é a apreensão em
ato da consciência em seu processamento imediato, e como totalização
significativa de uma multiplicidade de dimensões de consciência, dimensões
estas que se definem como tais na própria constituição deste processo de
totalização. Como observação interior,
a introspecção wundtiana não dava
conta da apreensão da consciência, uma vez que a introspecção caracteriza-se
como uma re-flexão da consciência sobre a consciência passada, e não como um
processo original de constituição da consciência em sua atividade, passível
este de ser apreendido, em sua originalidade ativa, pela percepção interior. Desta forma, Brentano refuta
a concepção de consciência de Wundt, a sua concepção de método, a própria
Psicologia Experimental e a sua concepção de ciência psicológica. Por quê seria então
importante a contrbuição de Brentano para uma elucidação da concepção de experimentação em psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial? Já que Brentano não preconiza a experimentação
em Psicologia, e que a principal fonte desta concepção seria o método
perspectivativo de Nietzsche? Neste sentido, um grande
mérito da concepção de Brentano, é o de ter refutado assim a concepção de
experimentação da psicologia experimental, e ter lançado as bases para o
desenvolvimento de uma concepção do experimental de cunho especificamente
fenomenológico, fundada na percepção interior. Stumpf e os psicólogos da
Gestalt desenvolveram ampla série de pesquisas fenomenológicas, livres da concepção
de Wundt. Com a constituição e desenvolvimento de seu empirismo aporético da consciência, Brentano abre a possibilidade
do próprio estudo e expressividade fenomenológica da consciência como
experiência imediata. Com estas contribuições, Brentano cria as condições
para o desenvolvimento da fenomenologia, da Psicologia da Gestalt e da
Psicologia Humanista. Entendendo a psicologia e a
filosofia como ciências, e em
específico como ciências da natureza,
a serem praticadas, em suas abordagens da consciência, a partir da
metodologia empírica e aporética das ciências naturais[23],
Brentano aparentemente aproxima-se da perspectiva nietzscheana, a outra
fundamental raiz da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial.
O empirismo fenomenológico aporético de Brentano parece bastante próximo da
perspectiva de F. Nietzsche, quando define a Filosofia como uma ciência
natural[24],
e a assume segundo o seu método perspectivativo? Nietzsche observa a respeito
de sua concepção da filosofia como uma ciência natural: "...
(A filosofia histórica) já não se
pode imaginar de modo nenhum separada das ciências naturais, o mais jovem de
todos os métodos filosóficos"[25] Comentando esta passagem de
Nietzsche, no Humano Demasiado Humano,
Antonio Marques observa: Várias são
as idéias novas e estimulantes deste excerto. De sublinhar o conceito de uma
filosofia histórica aliada ao método das ciências naturais (a hipótese e a
experimentação)...[26] E nunca é muito lembrar o
rompante epistemológico de
Nietzsche em A Gaia Ciência[27]: “... Pois
muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de
nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha
‘veracidade’”. De modo que podemos
certamente compreender a possibilidade de um parentesco profundo entre a
concepção de Brentano e a concepção de Nietzsche, de uma filosofia e de uma
psicologia como ciências naturais, e como ciências animadas por um método empirista e aporético. Numa palavra, um método perspectivativo, experimental,
no sentido da gaya scienza de
Nietzsche. Certamente que a perspectiva
brentaniana não possui a densidade existencial, da perspectatividade de
Nietzsche, organizada a partir da vontade
de potência. Mas não seria muito supor, acredito, quando menos como
analogia, que a perspectivação Nietzscheana configura-se, num certo sentido,
como nada menos que uma certa radicalização existencial do empirismo
aporético de Brentano. Com isto, não quero reduzir uma abordagem à outra, mas
salientar este seu possível parentesco, e o interessante que parece ser a
elucidação dele para os fundamentos da psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial. A concepção do experimento e
do experimental em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial
desfrutariam assim de uma consistência profunda e radical, na medida em que
as suas duas vertentes de constituição, a Filosofia de Brentano e a Filosofia
da Vida de Nietzsche, compartilhariam esta raiz comum. Ainda que não haja,
eventualmente, uma relação histórica direta entre as suas concepções: o que
permanece, a meu ver, como uma interessante questão A concepção da Filosofia e
da Psicologia como ciências naturais, praticadas com o método empirista e aporético
destas aproxima assim o método de Brentano do método perspectivativo,
experimental, de F. Nietzsche. De modo que aparentemente não seria muito
dizer que o próprio método empirista e aporético de Brentano é
em si um método fenomenológico experimental, e a própria base da
experimentação e do experimento fenomenológico. |
PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO
EXISTENCIAL 2
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muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de
nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha
‘veracidade’”
(F.
Nietzsche)
Parece fundamental recorrer à contribuição de Franz
Brentano (1838-1917) para uma compreensão, explicitação e diferenciação do
sentido especificamente fenomenológico existencial do experimento, da experimentação
e do experimental em psicologia e
psicoterapia. São as concepções de Brentano que permitem uma refutação da
concepção do experimental em psicologia derivada das perspectivas fisiologistas
e mecanicistas de W. Wundt, ao mesmo tempo em que fundam uma concepção
alternativa de método psicológico, e de psicologia científica, de cunho
fenomenológico, e lança as bases de uma concepção especificamente
fenomenológica do experimento, do experimental e da experimentação em psicologia.
De especial interesse é o próprio empirismo aporético de Brentano como um
método que pode ser em si entendido como um método experimental, no sentido
fenomenológico existencial.
De início, no entanto, é importante observar que,
de fato, a contribuição de Brentano centra-se, justamente, na contestação e na
refutação do experimento e do experimental em psicologia, e na
contestação e refutação da própria psicologia experimental, tal como eles foram concebidos e praticados na
tradição de Wilhelm Wundt. De modo que a proposta de Brentano não é exatamente
a da experimentação em psicologia, mas a de uma psicologia que, ao invés de experimental, é especificamente empírica e aporética, na perspectiva da ciência natural da tradição
hipocrático aristotélica. Psicologia esta na qual desaguava, para Brentano, a
própria Filosofia[28]. Ocorre
que este empirismo aporético de Brentano parece ser, em si, uma abordagem
fenomenológica experimental. Esta psicologia que Brentano inaugura, que é um
empirismo fenomenológico, um empirismo da consciência, permite com as suas
concepções, assim, a redefinição, a re contextualização da noção de
experimentação, e a fundamentação da experimentação de cunho especificamente
fenomenológico em psicologia.
Um aspecto que parece um dos mais interessante para
a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial é que, ao mesmo tempo, o
próprio empirismo aporético de Brentano aplicado à consciência como método
fenomenológico existencial especificamente
experimental, parece intimamente aparentado ao método experimental
perspectivativo de Nietzsche. De modo que estas duas vertentes fundamentais da
concepção do experimental num sentido fenomenológico existencial
compartilhariam raizes bastante próximas.
Por empirismo
podemos entender a abordagem da realidade sem pré-concepções, a partir de sua
vivência imediata:
Empírico:
(...) O que é um resultado imediato da experiência e não se deduz de nenhuma
outra lei ou propriedade conhecida. Diz-se igualmente das pessoas enquanto os
seus conhecimentos e as suas regras de ação são empíricas.
(...) O que
exige o concurso atual da experiência, como a física, em oposição ao que não
exige, como as matemáticas
(...)
Empirismo: Nome genérico de todas as doutrinas filosóficas que negam a
existência de axiomas enquanto princípios do conhecimento logicamente distintos
da experiência.
(...) Empirismo representa
muito bem o hábito ou a maneira de proceder de um espírito que se contenta com
a experiência.[29]
A particularidade da abordagem de Brentano é que,
entendendo a Filosofia e a
Psicologia como ciências naturais, ele resolve abordá-las empiricamente. Como a
Psicologia é para ele o estudo da consciência, ele trata de abordar empiricamente a consciência,
constituindo assim a perspectiva fenomenológica.
A respeito do empirismo da consciência e das
articulações entre Filosofia e psicologia, próprios à perspectiva brentaniana
em filosofia e
psicologia, Massimo Libardi[30] observa:
A característica fundamental
da nova disciplina que Brentano buscou desenvolver
foi a sua conceptualização empírica. Ele de
fato sustentou que não se poderia dar
uma nova fundamentação para a filosofia a menos que o seu método tenha sido
adaptado (na verdade
tornado idêntico) ao método das ciências naturais. Em particular a filosofia
deveria começar com a psicologia
, cujo método era aparentado com o das ciências naturais e cujo conteúdo era
co-extensivo com
aquele da filosofia.
O que Brentano assim propunha
era uma abordagem empírica e aporética da psicologia, da
filosofia, uma abordagem empírica e aporética da consciência. Ou seja
uma abordagem
imediata da realidade e da consciência em seus desdobramentos, a partir de sua
própria experiência, sem a
mediação da consciência conceitual, teorizante, ou de pré concepções. Uma
abordagem que valorizava a
emergência do
vivido da diferenciação e da multiplicidade que se impõem, como estratégia de conhecimento, evitando que
este se cristalizasse em perspectivas dogmáticas e unilaterais. A aporese caracteriza-se como uma
atitude que busca levar um conhecimento aos seus limites, e abrir-se, então, ao conhecimento que a
ele se contrapõe ou que é a ele alternativo.
Assumindo estas perspectivas epistemológicas e
metodológicas, a contribuição de Brentano é fundamental, na medida, em
particular, em que
resgata a psicologia, e em específico a abordagem
da consciência, do descaminho fisiologista, mecanicista, wundtiano. E
no sentido de que define os referenciais fenomenológico existenciais empíricos e aporéticos, conceituais e metodológicos,
da nova ciência psicológica, permitindo uma recontextualização e uma
redefininção da questão do experimento e da experimentação em psicologia, e concebendo novas e alternativas
bases para a sua prática.
Na verdade, Franz Brentano
definiu e engendrou na
filosofia, e na psicologia, uma clivagem e uma tradição
fundamentais, que ganham cada vez mais importância. Esta tradição
deságua na própria constituição específica da Fenomenologia, da Psicologia da Gestalt, da Psicologia
Humanista, e da Filosofia Crítica do Círculo de Viena... Conhecer a tradição de Brentano, a história
de Brentano e suas concepções, a história de sua tradição, é conhecer aspectos distintivos e
fundamentais, imprescindíveis, da fenomenologia, da psicologia, e, em particular, da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial. Parece ser
fundamental, como observamos, para uma elucidação do
sentido definidamente experimental desta. Em particular na
contraposição deste sentido
ao sentido do experimento e do experimental vigente na psicologia em
geral, em particular na psicologia experimental e na
psicologia comportamental. Tudo isto em função do fato de que a psicologia fenomenológica de
Brentano inaugura dentro da Psicologia Moderna toda uma perspectiva alternativa de concepção dos
fenômenos psíquicos, de concepção da psicologia e da ciência
psicológica, e de
concepção de método em psicologia.
Podemos arrolar, na tradição
de Brentano (1838-1917), como contemporâneos e o como
descendentes: Hermann Lotze (1817-1881), Ernest Mach (1839-1916), Von Helmholtz (1821-1894), Christian Von Ehrenfels (1859-1932),
Karl Stumpf (1848-1936), Edmund Husserl , Martin Heidegger (1889-1969), Max
Wertheimer (1880-1943), Kurt Koffka (1886-1941), Wolfgang Köhler (1887-1949), Kurt Goldstein, M.
Merleau Ponty, Ludwig Binswanger, Medrard Boss, Abraham Maslow (1908-1970), Fritz Perls, Carl Rogers
(1902-1987) e outros. De destacar é a frequente vinculação com a arte, em particular com a música, dos
pioneiros desta tradição, e o uso que fazem da música em seus estudos e argumentações. Postura
igualmente cara à
perspectiva de F. Nietzsche.
Wilhelm Wundt (1832-1920) é considerado normalmente não só
o pai da psicologia experimental como o próprio pai da
psicologia científica, a
partir dos intensos e dedicados trabalhos que desenvolveu em seu Laboratório de Psicologia Experimental em Leipzig, na
Alemanha. Seu livro fundamental e influente, Grundzüge
der phisiologischen
Psychologie (Princípios
de Psicologia Fisiológica*), teve o seu lançamento em
duas partes, nos anos de 1873
e 1874[31].
Exatamente no mesmo ano de 1874[32], Franz Brentano lança o seu
livro fundamental, Psychologie
von Empirischen Standpunkte (Psicologia
do ponto de vista empírico). O livro de Brentano contém críticas radicais a
concepções e perspectivas de Wundt. Em particular a sua concepção de consciência e dos processos
psíquicos, ao seu método, a sua concepção de Psicologia e de ciência psicológica. De fato, como vimos,
o livro de Brentano contém toda uma concepção de consciência e dos processos psíquicos, de
psicologia e de ciência psicológica, assim como de método destas,
derivados da tradição
aristotélica. De modo que Brentano abre uma alternativa no que se entendia e se
entende como a
psicologia científica, profundamente identificada esta, em suas raízes, com a
fisiologista e mecanicista
perspectiva
wundtiana.
Wundt produz intensamente,
acolhe discípulos que participam de seus estudos no Laboratório de
Leipzig, discípulos estes que haverão de disseminar as suas concepções na América, em particular nos
EUA, na Europa e na Ásia.
Menos tecnológicas, menos fisiologistas e organicistas, as premissas e
perspectivas de Brentano permanecem num segundo plano. Ao mesmo tempo em que fomentam, definitivamente,
o desenvolvimento de abordagens alternativas e fundamentais, tanto na Filosofia quanto na Psicologia. As concepções de
Brentano ensejam o desenvolvimento da Fenomenologia e da Filosofia Crítica, no
âmbito da Filosofia, ao mesmo tempo em que ensejam o desenvolvimento da Psicologia e da Psicoterapia
Fenomenológica, a partir, principalmente, do desenvolvimento da Psicologia da Gestalt, que redunda
no desenvolvimento da Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein, e da Psicologia Humanista, em grande
parte esta a partir das influências exercidas sobre Abraham Maslow pelos psicólogos da Escola da
Gestalt. Assim, como
dissemos, entender a clivagem e a alternativa que Brentano constitui com relação
às concepções e à abordagem de Wundt, configura-se como um momento fundamental da compreensão da
especificidade destas abordagens, em especial do sentido do caráter específica e decididamente
experimental da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
É necessário mencionar um pouco mais a
Wundt para permitir uma compreensão adequada da diferenciação do sentido do experimental
nas
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Wundt trabalhou incansávelmente em seu
laboratório de psicologia experimental, no sentido do desenvolvimento de uma
Psicologia
Científica. Para ele[33], a
consciência era o
objeto de estudo da Psicologia, de modo que dedicou-se ao estudo sistemático da
consciência. Apesar de professor também de Filosofia, Wundt vinha em grande parte da Fisiologia e
da química, suas perspectivas configuravam-se como expressão do apogeu do modelo fisiologista e
mecanicista, e Wundt terminou por utilizar as perspectivas
epistemológicas da Fisologia
e da Química no estudo da consciência[34].
Para ele, a consciência era
basicamente constituida por seus conteúdos sensoriais elementares. De modo que o estudo da
consciência era para ele o estudo analítico elementar dos conteúdos sensoriais da consciência e
dos modos como eles se associariam. E ele dedicou-se em suas
pesquisas no Laboratório de Psicologia Experimental de Leipzig a decompor analitica e redutivamente
a consciência, no sentido de chegar aos e estudar os seus conteúdos sensoriais elementares.
Para tal perspectiva de
estudo, adotada por seu laboratório de Psicologia Experimental, Wundt adotou a introspecção
como o seu
método fundamental. Com a utilização de sujeitos treinados, que, seguindo normas estritas, observavam e
analisavam a sua própria consciência relativa a um dado objeto de pesquisa,
um dado conteúdo de consciência, e relatavam
para o pesquisador as suas observações, sempre numa
perspectiva analítica, de busca de apreensão dos elementos últimos de conteúdo.
Na concepção de Wundt, os elementos sensoriais associar-se-iam na
composição da consciência. Wundt assumiu assim a
perspectiva dos Associacionistas, ainda que houvesse entendido que a mente, apesar de associacionista, tinha
um papel mais criativo
na constituição da consciência do que teriam admitido os Associacionistas
tradicionais[35].
Brentano vinha da Filosofia.
Era um grande especialista em Filosofia, em especial em
Filosofia antiga e em Filosofia Medieval. Foi padre mas abandonou o sacerdócio, quando o Concílio
Vaticano de 1870 estabeleceu o dogma da infalibilidade papal. Foi muito para a cabeça filosófica de
Brentano, e ele abandonou a vida religiosa. Havia se dedicado ao estudo e era um grande especialista na
Filosofia de Aristóteles. Herda desta filosofia uma
certa concepção de ciência e
de método empíricos. Entende a Filosofia e a
Psicologia como ciências naturais, e é exatamente o método de Aristóteles
aplicado às ciências naturais que ele assume e aplica à Filosofia, e à psicologia. De modo que busca assim
aplicar à consciência a metodologia empirista das ciências naturais.
Pode ser problemático admitir
uma herança empirista aristotélica nas concepções e posturas de Brentano, em função da
filiação platônica de Aristóteles. Para tal, para entender a influência
específica de
Aristóteles sobre Brentano, é certamente interessante entender que Aristóteles
era ambíguo[36] em sua perspectiva filosófica
e metodológica. Situava-se na perspectiva socrático platônica, ao mesmo tempo em que mantinha uma perspectiva
decididamente empirista.
Nascido em Estagira, nas
cercanias da
Macedônia, e muito antes de entrar para a Academia socrático platônica, em
Athenas, Aristóteles aprendeu o empirismo e o
relativismo característicos da tradição médica de Hipócrates: seu pai era médico, e praticava a
medicina dentro dos referenciais da tradição hipocrática[37], e Aristóteles convivera e estudara, desde cedo
em sua vida, com o círculo médico de seu pai.
Hipócrates[38] buscava abandonar qualquer explicação
abstrata e geral no
estudo dos fenômenos, buscando ater-se ao comportamento observável destes, e às
previsões baseadas neste conhecimento empírico. De modo que Hipócrates conservava uma perspectiva
eminentemente empirista de valorização do conhecimento provido pela experiência. Neste sentido, é a
perspectiva dos Sofistas que vem a constituir-se na perspectiva de Hipócrates.
Associado a esta perspectiva
empirista, também assumindo uma perspectiva própria dos Sofistas[39], os hipocráticos assumiam uma
perspectiva eminentemente
relativista para com os fenômenos, e, em particular, naturalmente, com
relação à saúde. Para eles, nada é absolutamente bom ou absolutamente mau em termos de saúde. O mesmo
relativismo dos Sofistas aplica-se igualmente ao conhecimento, de modo que o conhecimento e sua
aplicação não dependem de normas absolutas, mas de imperativos situacionais enfrentados tanto pelos
indivíduos humanos como pelos grupos sociais.
"Górgias, o outro
principal sofista do
quinto século, sustentava que a virtude era uma questão de
fazer a coisa adequada no momento certo;
há aqui, também, uma rejeição de um padrão ético absoluto em favor do tipo de
julgamento ético
situacional que varia de acordo com a pessoa e as circunstâncias.[40]
Morrall[41] ainda observa:
"O relativismo
do enfoque
aristotélico da modificação política tem sido freqüentemente assinalado. É claro que ele
muito deve à influência do ensino médico contemporâneo, com suas tentativas de
diagnosticar as
doenças que afligem as formas políticas e com as receitas fornecidas para a
cura. A conexão de
Aristóteles com a tradição hipocrática, que poderia mesmo ter precedido seu
período na Academia, já foi mencionada, mas a escola
hipocrática, por sua vez, tinha forte afinidade com a corrente de ensinamento
sofista que avassalou o mundo
grego no quinto século. Ambos os movimentos tinham em comum o programa de
abandonar qualquer pesquisa de explicações abstratas e gerais dos fenômenos,
como faziam os
filósofos naturais pré-socráticos, e, em vez disso, concentrar-se no comportamento
observável dos fenômenos
e nas previsões baseadas nesse conhecimento empírico. Essa opinião é expressa
pelo Tratado de Medicina Antiga (um
remanescente do corpus de
Hipócrates) que sustenta que em matéria de saúde nada é
absolutamente bom nem absolutamente mau;
o valor dos alimentos, remédios e outros meios de saúde é
condicionado pelo estado individual dos respectivos usuários. Uma refeição de
carne pode ser boa para um
homem no gozo de perfeita saúde, e pode ser péssima e inadequada para um
doente. O mesmo
relativismo aparece nos fragmentos dos escritos sofistas de expoentes tais como
Protágoras e Górgias. O famoso dito de
Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisa", deve ser
provavelmente compreendido como querendo dizer
que o conhecimento depende não de normas absolutas,
mas de exigências situacionais com que se
defronta o Homem, tanto como indivíduo como quanto espécie. As relações do homem com os
objetos potenciais de seu conhecimento são o fator decisivo e condicionante
para a criação desse
conhecimento, e, igualmente importante, para sua utilização com o objetivo de
conseguir maior controle
do ambiente por parte do homem. O "Dissoi Logoi", coleção de
exemplos de argumentos lógicos escrita
no final do quinto século, argumenta que há sempre dois lados
em cada questão -- não existe verdade
absolutamente correta. "A doença é má para o doente, e boa para o médico.
A morte é má para o
moribundo e boa para os coveiros e construtores de tumbas. A vitória é boa para
os vencedores, e má para os
derrotados."
De modo que o caráter
socrático-platônico da filosofia de Aristóteles é unilateral. Aristóteles, na
verdade, desenvolveu como enfoque metodológico de sua ciência natural uma perspectiva especificamente
empirista, de valorização da consciência imediata, da experiência imediata da consciência, no estudo
dos fenômenos naturais. Mais que isto, assumiu uma perspectiva relativista com relação à realidade e
ao conhecimento, relativismo este que vai certamente se refletir na constituição de sua postura aporética, e no perspectivismo e
perspectatividade de Nietzsche. Mesmo que este a tenha assimilado
diretamente esta perspectiva a partir das concepções dos pré-socráticos, ela tem a mesma raiz.
Estas perspectivas, como
vimos, Aristóteles certamente já assimilara e desenvolvera a partir da relação com a
tradição da medicina hipocrática, muito anteriormente a sua chegada à Academia de Platão, em Atenas,
em 367. Aí ele passa vinte anos.
Com a morte de Platão, e
preterido --
certamente por não ser um ateniense -- na sucessão de Platão na
direção da Academia, ele retorna para o Leste da Grécia e para
o Noroeste da Ásia Menor, vivendo igualmente nas ilhas da região, Lesbos em particular. Em contato
cotidiano com o mar e com a natureza (e que mar, e que natureza...), mais do que com as idéias, aí
desenvolve os seus estudos de Biologia, podendo reiterar, elaborar e desenvolver o empirismo e o
relativismo de sua metodologia no estudo dos fenômenos naturais. Quando retorna a Atenas, em seguida à
conquista da Macedônia por Alexandre, em 338, para
fundar o seu Liceu, o componente empirista e
relativista de sua perspectiva no estudo dos fenômenos naturais estava consistentemente assentado, no
sentido do desenvolvimento da maturidade de sua filosofia. Pró Macedônia, Aristóteles teve que evadir-se ainda
mais uma vez de Atenas, quando da morte de Alexandre em 323, e no curso da revolta anti
Macedônia que se seguiu. Evadido, Segundo ele[42], para evitar que os atenienses cometessem um segundo crime
contra a Filosofia, sendo o primeiro o da execução de Sócrates.
Brentano defendeu uma tese de
habilitação sobre a filosofia Aristóteles. Conhecia-a em profundidade, e, como dissemos, era nela um
especialista, tendo ministrado cursos sobre Aristóteles nas universidades alemãs e austríacas.
Acredito ser interessante
observar as similaridades biográficas entre a vida de Aristóteles e a vida de
Brentano, que certamente não passaram despercebidas a este. Aristóteles foi sempre um estrangeiro em
Atenas. Oriundo das cercanias da Macedônia e pró Macedônia, para lá voltou magoado depois da morte de
Platão, preterido em sua sucessão na Academia, pelo fato de não ser um ateniense. Depois de seu
segundo período de permanência em Atenas, teve mesmo que fugir para não ser vitimado na revolta anti
Macedônia.
Brentano[43], oriundo de Marienberg am
Rhein, Alemanha, foi, por seus méritos, convidado para
lecionar em Viena. Aí, apesar de sua reputação e da importância de suas idéias, sempre foi tratado
como um estrangeiro, sendo preterido para postos importantes -- inclusive a direção do laboratório de
psicologia que ele mesmo idealizara --, pelo fato de não ser um vienense, tendo sido, pelo mesmo
motivo, quase que impedido de casar com sua primeira mulher, uma vienense. No final de contas,
injuriado, Brentano arrumou as malas, e emigrou para
a Itália, depois do falecimento de sua primeira
mulher, onde estabeleceu-se em Florence, ansiando, quem sabe, pelas ilhas mais ao Sul do Mediterrâneo
Oriental.
Mas o fato é que, como
dizíamos, os estudos de Aristóteles deixaram em Brentano a marca profunda
do empirismo e do relativismo deste. Bentano passa a entender, e a praticar, a própria Filosofia
eminentemente como uma ciência natural, a ser praticada com o método empirista e aporético
desenvolvido a partir de Aristóteles. Naturalmente, a psicologia,
na qual se diferencia a
filosofia de Brentano, passa ter o mesmo estatuto e método da ciência natural.
Fugindo das
perspectivas do idealismo, no seio de um reflorescimento da filosofia de
Aristóteles[44], com o qual o idealismo era confrontado na segunda
metade do século passado, Brentano passa, desta forma, a entender e praticar a filosofia e
a psicologia a partir da perspectiva das ciências naturais, empíricas e aporéticas. De modo que
Brentano configura assim uma psicologia como estudo especificamente empírico e aporético da consciência, um
empirimo fenomenológico e aporético, em alternativa à perspectiva experimental
fisiologista
e mecanicista da psicologia de Wundt.
Como Wundt, Brentano elege,
igualmente, a
consciência como objeto de estudo da psicologia.
Mas diverge e diferencia-se definitivamente dele na perspectiva de
compreensão e de concepção da consciência, no método de abordá-la, na concepção da ciência da consciência,
a psicologia; assumindo o ponto de vista empirista e aporético no trato com esta, e afastando-se da
possibilidade de uma Psicologia Experimental fisiologista, mecanicista e psicofísica, tal como a
definida e praticada por Wundt .
De modo que a perspectiva empírica e aporética de Brentano leva-o a
conceber a psicologia
da consciência como uma ciência natural, uma ciência dos fenômenos[45], a serem empiricamente
abordados enquanto tais, na própria experiênciação deles. Brentano é, assim, levado a
conceber, em particular, e a privilegiar a consciência em sua imediaticidade e presentidade. Em
particular, e este é um aspecto maecante e definidor de sua abordage, Brentano é levado a conceber
fundamentalmente a consciência como o ato, o ato de consciência, e é
a consciência como ato que lhe
interessa, e que é objeto de seus estudos. Ato de
consciência que invariavelmente se direciona a objetos, a
conteúdos, mas que não é em si objeto. Diferentemente de Wundt, que entendera a consciência como
sendo os seus conteúdos elementares, Brentano constitui assim a Psicologia como o estudo da consciência,
como o estudo dos atos de consciência, como uma psicologia
do ato de consciência. E não como uma ciência de
estudo reducionista dos conteúdos elementares da consciência.
Para Brentano a consciência é
a cada momento uma totalização em ato de seus diversos níveis. Mas não como adição associativa
de conteúdos elementares, de elementos, que poderiam ser apreensíveis, em última instância, através
de uma análise reducionista, como na concepção de Wundt. A totalização dos atos de
consciência configura-se para Brentano
como totalização significativa que articula pontualmente a multiplicidade de
dimensões do dado ato de consciência. De modo que o sentido do ato de consciência advém da
configuração da totalização, como articulação dinâmica e pontual das suas partes constituintes. Partes estas
que adquirem o seu sentido, de partes, já na sua pertinência ao processo de totalização. De modo que o
reducionismo elementarista não seria hábil para uma apreensão da consciência. Em primeiro lugar, em função do fato de que, na
medida em que se direcionava no sentido da apreensão de objetos da consciência, erraria já o
alvo, e não daria conta de apreender o sentido específico da consciência como ato. E não seria hábil para uma
apreensão e estudo da consciência na medida em que, focado em supostos
elementos de consciência, não daria conta de apreender o sentido próprio da configuração da
totalização do ato de consciência, da própria consciência. O que comprometeria a própria apreensão do
sentido próprio das partes
constituintes do ato de consciência, uma vez que este sentido próprio das
partes define-se originalmente na relação com e pertinência da parte à totalização particular.
A partir da concepção de
Brentano, surge, utilizada pela primeira vez por Von Erhenfels[46], aluno de Brentano, a
concepção de Gestalt para definir a configuração
totalizadora do ato de consciência, como uma
totalização na qual os elementos, as partes, não se somam, mas articulam-se dinamicamente no sentido de
uma totalização que é diferente da sua associação
aditiva, da sua soma: o todo que é
diferente da soma de suas partes. As partes se definem como tais
na pertinência à totalização. A consciência é dada
pela constituição imediata da configuração desta totalização significativa, que não é uma síntese, e que não
é dada à análise, mas apenas a uma apreensão empírica, a um empirismo da consciência,
empirismo fenomenológico.
Alunos de Brentano, Von
Ehrenfels e Stumpf (este professor de Husserl) serão
os professores dos psicólogos -- Max Wertheimer, Kurt Koffka,
Wolfgang Köhler e
Kurt Goldstein --, que, a partir destas concepções constituirão a Psicologia da
Gestalt. Abrahan Masolw
será profundamente influenciado pelas idéias da Psicologia da Gestalt, em
particular pelas idéias
de Max Wertheimer,
emigrado para os Estados Unidos.
Ciência dos fenômenos, como as
demais ciências
naturais, cuja fonte é tanto a percepção como a experiência, a Psicologia tinha
que encarar,
entretanto, para Brentano, uma característica peculiar dos fenômenos psíquicos[47]: o sujeito é incapaz de observar o fenômeno psíquico. É
impossível a observação
interior do fenômeno
da consciência. Para
Brentano, o fenômeno da consciência é dado, apenas, a um tipo particular de
percepção, a percepção
interior. A percepção
interior pressupõe
a identidade de percebedor e percebido, e é esta a justificação para a sua
evidência, que Brentano vai buscar na teoria da evidência de Descartes[48].
Diferentemente da percepção interior, a observação interior não atende a esta premissa,
uma vez que pressupõe uma distância entre
observador e observado. Há na observação interior uma cisão entre
percebedor e
percebido.
Fica assim comprometida a introspecção
de Wundt, e
toda a sua Psicologia Experimental, como métodos hábeis para
uma apreensão e estudo da consciência, uma vez
que a introspecção
wundtiana e a sua Psicologia
Experimental assentavam-se eminentemente na observação
interior.
A psicologia de Brentano centrar-se-á na imediata apreensão, empírica, da
consciência, como uma totalização em ato[49], percepção
interior,
contraposta à observação
interior,
característica da instrospecção wundtiana. Fazendo esta distinção,
Brentano aponta para os limites da introspecção
wundtiana, e
para os limites da
pretensão de erigi-la como método privilegiado de estudo da consciência. A percepção
interior é a
apreensão em ato da consciência em seu processamento imediato, e como
totalização significativa de uma multiplicidade de
dimensões de consciência, dimensões estas que se definem como tais na própria constituição deste processo de
totalização. Como observação interior, a introspecção
wundtiana não dava conta da apreensão da
consciência, uma vez que a introspecção caracteriza-se como uma re-flexão da consciência sobre a
consciência passada, e não como um processo original de constituição da consciência em sua atividade,
passível este de ser apreendido, em sua originalidade ativa, pela percepção interior.
Desta forma, Brentano refuta a
concepção de consciência de Wundt, a sua concepção de método, a própria Psicologia Experimental e a sua
concepção de ciência psicológica.
Por quê seria então importante a contrbuição
de Brentano para uma elucidação da concepção de experimentação
em psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial? Já que Brentano não preconiza a experimentação em Psicologia, e que a principal
fonte desta concepção seria o método perspectivativo de Nietzsche?
Neste sentido, um grande mérito
da concepção de Brentano, é o de ter refutado assim a concepção de experimentação da psicologia
experimental, e ter
lançado as bases para o desenvolvimento de uma concepção do experimental de cunho
especificamente fenomenológico, fundada na percepção interior. Stumpf e os psicólogos da Gestalt
desenvolveram ampla série de pesquisas fenomenológicas, livres da concepção de Wundt. Com a constituição e
desenvolvimento de seu empirismo
aporético da consciência, Brentano abre a possibilidade do próprio
estudo e expressividade fenomenológica da consciência como experiência imediata. Com estas
contribuições, Brentano cria as condições para o
desenvolvimento da fenomenologia, da Psicologia da Gestalt
e da Psicologia Humanista.
Entendendo a psicologia e a
filosofia como ciências, e em específico como ciências da
natureza, a serem
praticadas, em suas abordagens da consciência, a partir da metodologia
empírica e aporética das ciências naturais[50], Brentano aparentemente aproxima-se da perspectiva
nietzscheana, a outra fundamental raiz da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial. O
empirismo fenomenológico aporético de Brentano parece bastante
próximo da
perspectiva de F. Nietzsche, quando define a Filosofia como uma ciência natural[51], e a assume segundo o seu método
perspectivativo?
Nietzsche observa a respeito
de sua concepção da filosofia como uma ciência natural:
"... (A filosofia
histórica) já não se
pode imaginar de modo nenhum separada das ciências
naturais, o mais jovem de todos os métodos filosóficos"[52]
Comentando esta passagem de
Nietzsche, no Humano Demasiado Humano, Antonio Marques observa:
Várias são as idéias novas
e estimulantes deste
excerto. De sublinhar o conceito de uma filosofia histórica aliada ao método
das ciências naturais (a
hipótese e a experimentação)...[53]
E nunca é muito lembrar o
rompante epistemológico de Nietzsche em A Gaia
Ciência[54]:
“... Pois muito
bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de
nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha
‘veracidade’”.
De modo que podemos certamente
compreender a possibilidade de um parentesco profundo entre a concepção de Brentano e a
concepção de Nietzsche, de uma filosofia e de uma psicologia como ciências naturais, e como ciências
animadas por um método empirista e aporético. Numa palavra, um método perspectivativo, experimental, no sentido da gaya scienza de Nietzsche.
Certamente que a perspectiva
brentaniana não
possui a densidade existencial, da perspectatividade de Nietzsche, organizada a
partir da vontade de
potência. Mas não
seria muito supor, acredito, quando menos como analogia, que a perspectivação Nietzscheana
configura-se, num certo sentido, como nada menos que uma certa radicalização existencial do empirismo
aporético de Brentano. Com isto, não quero reduzir uma abordagem à outra, mas salientar este seu possível
parentesco, e o interessante que parece ser a
elucidação dele para os fundamentos da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial.
A concepção do experimento e do experimental em psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial desfrutariam assim de uma consistência profunda e radical, na medida
em que as suas duas vertentes de constituição, a Filosofia de Brentano e a Filosofia da
Vida de Nietzsche, compartilhariam esta raiz comum. Ainda que não haja, eventualmente, uma relação
histórica direta entre as suas concepções: o que permanece, a meu
ver, como uma
interessante questão em aberto. E, mais que isto, como uma interessante
suspeita... Quanto a uma relação histórica
indireta, talvez Hipócrates e Aristóteles, e em específico a conexão hipocrático aristotélica, tenham algo a dizer... Naturalmente
que, apesar da eventual convergência em raízes, cada uma das abordagens
desenvolve concepções próprias e independentes.
A concepção da Filosofia e da Psicologia como ciências
naturais, praticadas com o método empirista e aporético destas aproxima assim o método de Brentano do
método perspectivativo, experimental, de F. Nietzsche. De modo que aparentemente não seria muito
dizer que o próprio método empirista e aporético de Brentano é em si um método fenomenológico
experimental, e a
própria base da experimentação e do experimento fenomenológico.
[2] LALANDE,
André - VOCABULÁRIO TÉCNICO E CRÍTICO DA
FILOSOFIA, São Paulo, Martins Fontes, 1999. p.300.
[3] LIBARDI,
Massimo - Franz Brentano (1839-1917) in ALBERTAZZI,
Lilian pp.35-6
* O termo
"fisiológico", na época, significava eninentemente experimental. Cf. SCHULTZ, Duane P. e
SCHULTZ, Sydney E. HISTÓRIA DA
PSICOLOGIA MODERNA. São Paulo, Cultrix, 1981.
[4] Schultz
[5] Schultz
[6] .
[11] .
[12]
Morrall,
[13]
Morrall, p.76
[14] ibid
[16]
ALBERTAZZI, Lilian
[18]
ALBERTAZZI, Lilian pp.35-6
[20] ALBERTAZZI, pp.35-6.
[22] ver
[24]
NIETZSCHE, F.
[25]
NIETZSCHE,
[26]
MARQUES,
[27]
NIETZSCHE, F. A GAIA CIENCIA,
Lisboa, Guimarães e C.ª, 1984.
[29] LALANDE, André - VOCABULÁRIO TÉCNICO E CRÍTICO DA FILOSOFIA, São Paulo, Martins Fontes, 1999. p.300.
[30] LIBARDI, Massimo - Franz Brentano (1839-1917) in ALBERTAZZI, Lilian pp.35-6
* O termo "fisiológico", na época, significava eninentemente experimental. Cf. SCHULTZ, Duane P. e SCHULTZ, Sydney E. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA. São Paulo, Cultrix, 1981.
[31] Schultz
[32] Schultz
[33] .
[38] .
[39] Morrall,
[40] Morrall, p.76
[41] ibid
[43] ALBERTAZZI, Lilian
[45] ALBERTAZZI, Lilian pp.35-6
[47] ALBERTAZZI, pp.35-6.
[49] ver
[51] NIETZSCHE, F.
[52] NIETZSCHE,
[53] MARQUES,
[54] NIETZSCHE, F. A GAIA CIENCIA, Lisboa, Guimarães e C.ª, 1984.