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PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO
EXISTENCIAL 3 PERSPECTIVAÇÃO EM NIETZSCHE A Experimentação no Estilo
Afirmativo Experimental de uma Vida Que Experimenta. Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo. ESCOLA EXPERIMENTAL
DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL Rua Conde de Irajá,
60/105. Pajuçara. Maceió AL. Fone 82 93061050 http://www.
Geocities.com/eksistencia 2000 Direi ao mesmo tempo
uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma
tensão interna de pathos por meio de signos, incluído o tempo desses signos
-- eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de
estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades
de estilo -- a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom
é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca
nos signos, no tempo dos signos, nos gestos -- todas as leis do período são
artes dos gestos. O homem
aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como
experiência. Eugen Fink Devolver à
existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o
seu caráter de empreendimento audacioso. “... Pois
muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de
nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha
‘veracidade’” (Nietzsche)
se impõe a tarefa de libertar a vida dos valores da decadência de modo a
poder criar novas formas de agir, novas possibilidades de vida, e,
fundamentalmente, uma nova concepção do que seja pensar. O perspectivismo, a perspectatividade
de F. Nietzsche, o seu método perspectivativo, a perspectivação,
característicos de sua obra, a gaya
experimentação, de sua gaya
scienza, parecem ser fontes seminais da concepção e na postura de experimentação fenomenológico* existencial que terminam por se
constituir como uma das características mais marcantes, ricas, fundamentais e
originais, da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Neste
sentido, a influência da experimentação nietzscheana tem,
também, uma história anterior, uma vez que ela já aparece como tal na
decisiva influência que Nietzsche exerce sobre a constituição da
experimentação e do caráter
experimental do movimento artístico do Expressionismo[1],
que, por sua vez, é uma das mais marcantes influências no processo de
constituição da originalidade e força da Psicologia da Gestalt, da
Gestalterapia e da Psicologia Humanista. Acredito assim ser do mais
alto interesse elucidar o sentido do método
experimental perspectivativo de Nietzsche, de sua perspectivação, para
uma elucidação fundamental, compreensão e desdobramento do sentido específica
e propriamente experimental da Gestalterapia e da Abordagem Centrada na
Pessoa, e das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. A concepção do método
perspectivativo de Nietzsche está bem constituída ao longo de sua obra, mas
dispersa em vários momentos desta[2].
Em função disto, e em função de sua natureza particular, é delicada a sua
tematização, ainda que o tema seja forte. Buscamos a seguir desenvolver
certas ópticas do mesmo, partindo de uma consideração acerca do lugar e
sentido da consciência na concepção nietzscheana; comentamos, a seguir, o
sentido da perspectivação e do perspectivismo como faculdade do juízo e da
capacidade de avaliar alternativa à consciência; alternativa a suas,
limitações, impropriedades, erros e doentia exacerbação; até chegarmos a uma
exposição da evolução da cientificidade
nietzscheana como evolução do seu conceito de experimentação, entendida esta eminentemente como perspectivação. Uma contribuição marcante
da obra de Nietzsche é a sua crítica da consciência como o modo superior do pensar
humano[3].
Que nada! O homem pensa em
múltiplos e intensos modos não conscientes. Na verdade, a consciência
expressa apenas aquilo que é gregário, deixando de fora todo o resto do
vivido. E a eleição e supervalorização da consciência nada mais é do que uma
alienação e um sintoma doentio. A perspectivação, sub e
trans consciente, permitem a expressividade da originalidade, a relativização
perpectivativa da consciência, a afirmação da vida. A perspectivação, o
método perspectivativo de Nietzsche, é a sua experimentação[4]
e a base da sua cientificidade[5].
De um modo tal que não erraríamos, creio se disséssemos que Nietzsche
preconiza uma existência científica.
Científica porque experimental, perspectivativa. Poieticamente*
experimental e perspectivativa. De modo que o experimental perspectivativo em
Nietzsche fundamenta toda uma conversão da existência, que pode ousar dar-se
a si própria como referência, e afirmar-se. O homem aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível
como experiência. Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e,
por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso. [6] É este sentido que
acredito que esteja no cerne das psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais. DISTORÇÕES, IMPROPRIEDADES E LIMITES DA CONSCIÊNCIA. Uma das contribuições
marcantes de Nietzsche, como dissemos, é a de deixar muito claros os limites
da consciência reflexiva, e do intento da civilização ocidental em erigi-la em
apanágio superior do humano e da humanidade, fundamento de um certo sujeito.
Na verdade, Nietzsche aponta para os erros, distorções e, evidentemente,
perigos deste intento. "... se não fosse o laço dos instintos...", diria ele. Na sua crítica ao privilégio
da consciência e do conhecimento, em detrimento das experiências vivenciais,
Nietzsche[7]
observa: "Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos
somos desconhecidos – e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia
acontecer que um dia nos encontrássemos? Com razão alguém disse: “onde
estiver teu tesouro, estará também o teu coração” *. Nosso tesouro está onde
estão as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre a caminho delas,
sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no
coração apenas um propósito – levar algo “para casa”. Quanto ao mais da vida,
as chamadas “vivências”, qual de nós pode levá-las a sério? Ou ter tempo para
elas? Nas experiências presentes, receio estarmos sempre “ausentes”: nelas
não temos o nosso coração – para elas não temos ouvidos. Antes, como alguém
divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no
ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta “o que foi
que soou”?”, também nós por vezes abrimos depois os ouvidos e perguntamos,
surpresos e perplexos inteiramente, “o que foi que vivemos?”, e também “quem
somos realmente?”, e em seguida contamos, depois, como disse, as dozes
vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser – ah! E
contamos errado... Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos,
não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará sempre a
frase: “Cada qual é o mais distante de si mesmo” – para nós mesmos somos
“homens do desconhecimento”... Não que Nietzsche despreze
a consciência, ele apenas aponta para o fato de que é na vida não exatamente
reflexiva que se desenvolvem as transformações de que a vida consciente é
mera dependência. Dependência esta modelada pela vida social. A consciência é
dependência do social, nossos atos, entretanto, são pessoais e singulares, e
não há como fazer coincidir consciência e ação. Penso, como se vê, que a consciência não pertence essencialmente à
existência individual do homem, mas, pelo contrário, à parte de sua natureza
que é comum à totalidade do rebanho; que não foi, por conseqüência,
subtilmente desenvolvida senão na medida de sua utilidade para a comunidade,
o rebanho; e que a despeito da melhor vontade que podemos pôr em 'nos
conhecermos', em perceber o que há de mais individual, nenhum de nós jamais
poderá tomar consciência senão do seu lado individual e 'médio'; que o nosso próprio pensamento se
encontra sem cessar de algum modo 'melhorado' pelo caráter da consciência --
pelo 'gênio da espécie' que comanda no seu seio -- e retraduzida na língua
imposta pela perspectiva do rebanho. Todos os nossos actos são, bem no fundo, supremamente pessoais, únicos,
individuais, incomparáveis, certamente; mas desde que a consciência os traduz
na sua língua deixam de parecer assim... [8] O sentido mais forte e
vital da consciência encontra-se, exatamente, nas formas, intensidades e
fluxos, vontades, forças, de sua desmesura, transconsciência. Tal o tamanho
do erro da civilização ocidental, socrática. A supervalorização da
consciência é para Nietzsche um perigo,
e mesmo uma doença. Pelo
simples fato de que a consciência reflexiva é afastamento da vida e do mundo,
da vontade afirmativa, desvitaliza, e não é hábil para lidar com a
multiplicidade do vivido, com os fluxos de suas intensidades, nexos
necessários e transmutações. São, não obstante, os
processos mais elaborados e refinados da própria consciência reflexiva que
são, na cultura da civilização ocidental, tomados como definidores do humano,
e exercitados a níveis preocupantemente tóxicos. Nietzsche observava o erro do juízo e da capacidade de avaliar,
que se configura como a constituição, tomada e super valorização do
conceitual em sua pureza abstrata, a perda de seu movimento, de sua história,
de seus nexos, paradoxos e transmutações, vividos. A tomada e a constituição
de antípodas metafísicos, que só são possíveis enquanto tais na medida em que
a consciência conceitual é desta forma despossuída, reificada e adotada. Comentando alegoricamente
as características de seu personagem, (...) Tudo o que há de feroz dentro de si ele atribui ao lobo e o tem por
mau, perigoso e terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, se acredita um
artista e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás
do lobo, vivem no seu interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde
é lobo; que dentro de si habitam também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco
e a ave-do-paraíso, e que todo este mundo é um éden cheio de milhares de
seres, formosos e terríveis, grandes e pequenos, fortes e delicados, mundo
asfixiado e cercado pelo mito do lobo -- tanto como o verdadeiro homem que
nele há é asfixiado e preso apenas pela sua aparência de homem, pelo burguês. Imagine-se um jardim de cem espécies de árvores, com mil variedades
de flores, com cem espécies de frutas e outros tantos gêneros de ervas. Pois
bem: se o jardineiro que cuida deste jardim não conhece outra diferenciação
botânica além do 'joio' e do 'trigo', então não saberá que fazer com nove
décimas partes do seu jardim, arrancará as flores mais encantadoras, cortará
as árvores mais nobres, ou pelo menos ter-lhes-á ódio e as olhará com maus
olhos. Assim faz o Lobo da Estepe com as mil flores de sua alma. O que não
está compreendido na designação pura e simples de "lobo" ou de
"homem" nem sequer merece a sua atenção. E quantas qualidades ele
empresta ao homem! “Tudo o que é covarde, símio, estúpido, mesquinho, desde
que não seja muito, diretamente lupino, ele o atribui ao “homem”, assim como
atribui ao “lobo” tudo o que é forte e nobre, só porque não conseguiu ainda
dominá-lo.”. A alegoria de Hesse parece
bem traduzir a crítica e o lamento de Nietzsche com relação às lamentáveis
conseqüências da indevida sobrevalorização da consciência do homem da
modernidade. De modo que a filosofia de
Nietzsche constata, assim, a pobreza e a limitação da consciência. E, em
particular, da contraposição metafísica de antípodas não misturáveis, na
interpretação da realidade, no conhecimento e nos valores. Na verdade, ele
entende especificamente esta contraposição metafísica como um erro da razão e da faculdade de ajuizar[10].
A perfeição do conceitual,
e a nossa adicção a esta perfeição, faz com que percamos a história da
constituição do conceito, e que o queiramos, e a ele queiramos ingerir, de um
modo viciosamente puro e perfeito, asséptico de uma história vivida, de seus
nexos e dos processos de suas possibilidades e transmutações. Pessoa[11],
na linha de Hesse, ressoa Nietzsche, na sua perspectatividade alternativa à
"pureza" do conhecimento conceitual e ao reducionismo dos antípodas
não misturáveis, que não dão conta das multiplicidades do efetivamente vivido
e de seus enraizamentos, Multipliquei-me, para me sentir Na verdade, o conceito e o
conceitual têm a sua história vivida aquém da consciência conceitual, na
fenomenação da multiplicidade de possibilidades de ser. Perder esta história
configura-se como o limite próprio da consciência, e o erro de sua
sobrevalorização. Nietzsche[12] observa com relação à
perfeição do conceito e do conceitual: "Estamos habituados, perante tudo que é perfeito, a omitir a
questão de seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presença,
como se ele tivesse saído do chão por artes mágicas. Provavelmente, estamos
ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiqüíssimo sentimento." O isolamento e a abstração
do conceitual não levam em conta o fato de que o conceito é momento de um
processo de transformações, não levam em conta o seu caráter eminentemente
perspectivo e ilusório. Como tudo, o conceitual deriva e tem a sua história,
e os seus múltiplos e cambiantes nexos na vida irreflexiva. No prefácio da edição
portuguesa de Humano Demasiado Humano[13],
Antonio Marques comenta: O problema não está no próprio acto de incluir este acto ou
comportamento na esfera de um conceito (subsunção do juízo) mas sim no
próprio conceito que se apresenta, como se fosse um domínio perfeitamente
delimitado, sem uma história própria. Pelo contrário, os conceitos, a partir
dos quais ajuizamos, necessitam eles próprios de ser avaliados e, se o
fizéssemos, haveríamos de perceber que eles têm a sua história, a qual é uma
história de transmutação e alteração de funções. No Gaya Ciência, Nietzsche[14] explicita a sua
apreciação da consciência, e observa: A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por
conseqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste
sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que
um animal, um homem, pereçam mais cedo do que seria necessário, “a despeito
do destino”, como dizia Homero. Se o
laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não
desempenhasse, no conjunto, um papel
de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso de seus
juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade,
numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de
existir sem ele! (...) Considera-se que o
consciente é uma constante! nega-se o seu crescimento, as suas
intermitências! É considerado como “a unidade do organismo”! Sobrestima-se,
desconhece-se ridiculamente, aquilo que teve a conseqüência eminentemente
útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada
rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a
adquirir; e hoje ainda estão nisto! “Trata-se ainda de uma tarefa
eminentemente actual, que o olho humano apenas começa a entrever, a de se
incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem”. Como observamos, assim,
Nietzsche entendeu que a consciência não é a fonte da força, e que a
consciência não é pessoal. A consciência, tal como elaborada pela humanidade
constitui-se a serviço do gregário, e é na verdade, dimensão do consenso do
social, da vida social, e não do singular. Ao mesmo tempo que as ações são
singulares e pessoais, a consciência está a serviço do coletivo[15]. O problema da consciência (ou mais exactamente da consciência em si)
só se nos apresenta no momento em que começamos a compreender por onde é que
poderemos lhe escapar (...). Podemos,
com efeito, pensar, sentir, querer, lembrarmo-nos; poderemos igualmente
'agir' em todas as acepções do termo, sem ter consciência de tudo isso. A vida inteira poderá passar sem se olhar
neste espelho da consciência (...), na maior parte da sua actividade, mesmo a
mais alta, pensamento, sentimento, vontade, (...) decorre sem reflexo, sem reflexão. Para que serve a consciência se é supérflua para o essencial da
existência? (...)
a força e a acuidade da consciência me
parecem estar sempre em razão directa com a capacidade do homem (ou animal)
em se exprimir, e esta mesma capacidade em proporção da necessidade de se
comunicar. (...) E continua: (...) A consciência é apenas uma rede de comunicação entre homens; foi
nesta única qualidade que se viu forçada a desenvolver-se (...). Porque como toda criatura viva, o homem,
repito, pensa constantemente, mas ignora-o; o pensamento que se torna consciente
representa apenas a parte mais ínfima, digamos a mais superficial, a pior, de
tudo aquilo que pensa: porque só existe o pensamento que se exprime em
palavras, quer dizer, em sinais de trocas, o que revela a própria origem da
consciência. Em resumo, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da
consciência (não da razão, mas
somente da razão que se torna consciente de si própria), estes dois
desenvolvimentos caminham a par. Acrescentemos que a língua não é a única a
servir de ponte de homem para homem, que existem também o olhar, a pressão, o gesto (...). Penso, como se vê, que a consciência não pertence essencialmente à
existência individual do homem, mas, pelo contrário, à parte de sua natureza
que é comum à totalidade do rebanho; que não foi, por conseqüência,
subtilmente desenvolvida senão na medida de sua utilidade para a comunidade,
o rebanho; e que a despeito da melhor vontade que podemos pôr em 'nos
conhecermos', em perceber o que há de mais individual, nenhum de nós jamais
poderá tomar consciência senão do seu lado individual e 'médio'; que o nosso próprio pensamento se
encontra sem cessar de algum modo 'melhorado' pelo carácter da consciência --
pelo 'gênio da espécie' que comanda no seu seio -- e retraduzida na língua
imposta pela perspectiva do rebanho. Todos os nossos actos são, bem no fundo, supremamente pessoais, únicos,
individuais, incomparáveis, certamente; mas desde que a consciência os traduz
na sua língua deixam de parecer assim[16]... Crítico da
sobrevalorização indevida da consciência, Nietzsche elabora o seu
perspectivismo: Eis o verdadeiro fenomenalismo,
eis o verdadeiro perspectivismo,
ei-lo tal como eu o compreendo: a natureza da consciência animal faz com que
o mundo de que nos podemos tornar conscientes não passe de um mundo de
superfícies e de signos, um mundo generalizado, vulgarizado; e que, por
conseqüência, tudo o que se torna consciente se torna por isso mesmo
superficial, reduzido, relativamente estúpido, torna-se uma coisa geral, um
signo, um número do rebanho, e que qualquer tomada de consciência provoca uma
decisiva corrupção de seu objecto, uma grande falsificação, uma
'superficialização', uma generalização.[17]
E Nietzsche, no final do
século XIX, dá o alerta: o excesso de consciência é um perigo. Pois aí onde
ela se hipertrofia, a vida está sendo mitigada, e distorce-se. No fim de contas, o aumento de consciência é um perigo, e quem vive
no meio de europeus conscientes sabe mesmo que se trata de uma doença[18]. Nietzsche observa, pois,
que o homem ainda está a aprender a integrar e a desenvolver a sua
consciência de um modo que ela não seja perigosa e destrutiva, algoz da vida.
Por mais de dois mil anos, não obstante, temos praticado uma postura inepta
com relação à consciência, uma vez que, equivocadamente, temos sobreestimado
a consciência, e desvalorizado, e mesmo difamado, os modos da vida não
consciente, e os modos da expressão desta. A questão da expressividade
singular, original, é a questão não da expressividade da vida reflexiva, da
consciência, mas a questão da interpret/ação fenomenal das orquestr/ações do
vivido, que se manifestam especificamente não na consciência, mas na
desmesura dionisíaca da consciência: perspectivação, transconsciência. A VIDA É UMA EXPERIÊNCIA. ... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a
ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os
limites da minha ‘veracidade’. F. Nietzsche tratou de
relativizar a ciência como modo de produção da verdade. Entendeu-a como
derivada, de fato, da moral. Para ele, ambas, tanto a ciência como a moral,
subordinam-se à arte, como um critério superior de constituição da verdade[19]. No que pese esta
subordinação da ciência à arte, Nietzsche experimentou-se como científico, perspectivou-se como científico, em particular quando
cuidava de superar as suas vinculações com Schopenhauer e com Wagner, e,
quando cuidava de uma refutação vigorosa do Idealismo em geral[20],
na consolidação do seu empirismo fenomenal perspectivativo. Nietzsche
interessava-se então por uma perspectiva rigorosa para a superação do
idealismo, e para tal pareceu-lhe adequada a perspectiva da ciência. Dedica-se
ele aí a ser científico, a
experimentar-se na perspectiva da ciência. Este intento caracteriza a Segunda
fase da sua obra, que começa com Humano
Demasiado Humano·. Pode parecer incoerente
com o Nietzsche de que falamos inicialmente, que faz uma apologia da arte
como modo superior de produção da verdade. Mas de fato não é. Nietzsche vai
paulatinamente compondo a sua própria concepção particular de ciência, a sua
concepção de experimentação como perspectivação[21].
E, em específico, esta concepção não se distingue do sentido do artístico, da
perspectiva da poiesis. A concepção da ciência em Nietzsche está intimamente
ligada à sua concepção de experimentação.
E, por seu turno, esta concepção de
experimentação deriva da concepção do real, do conhecimento e da ética como perspectivativos. Para Nietzsche[22],
tanto o conhecimento como os valores são eminentemente perspectivos. Somos
cada um de nós uma perspectiva, cada conhecimento e cada valor são, na
verdade, perspectivas. De modo que conhecê-los exige o desdobramento
afirmativo deles enquanto tais, e a relativização deles, diante das
possibilidades das outras perspectivas a eles relativas e com eles
conflitivas. De modo que a ciência
Nietzscheana tem como método o seu método perspectivativo, que permite a
expressividade, para além da consciência, da originalidade do vivido, na
multiplicidade de suas intensidades, nexos, fluxos e pulsos. Fink[23]
destaca a característica experimental que adquire a filosofia da vida de
Nietzsche, a partir do momento em que ele desaponta-se, e passa a
contrapor-se, à filosofia de Schopenhauer, e à perspectiva de Wagner. Neste
momento, segundo Fink[24],
Nietzsche passa a reivindicar uma perspectiva "científica" e
"experimental", para afastar-se em definitivo da perspectiva do
Idealismo. Uma perspectiva "científica" e "experimental",
por ser rigorosa, radicalizaria uma contraposição à perspectiva idealista. Aos poucos, entretanto,
observa Fink[25],
observa-se a particularidade da concepção nietzscheana do
"científico" e do "experimental". Na verdade, o científico e o experimental são efetivamente entendidos na Filosofia da Vida de
Nietzsche na perspectiva da vida,
do corpo, dos sentidos, de sua afirmação. A vida entendida como afirmação, e
a perspectiva da afirmação da (de uma
vida que é) afirmação (Machado...),
a experimentação no estilo de uma vida
que experimenta (Fink): este o sentido do experimental na filosofia da vida de Nietzsche; e de sua ciência,
gaya scienza. Fink[26]
acompanha a evolução da perspectiva nietzscheana do experimental desde a concepção
do espírito livre, até a sua
formulação nas transmutações do Zaratustra. Na concepção do 'espírito livre', que começa a despontar no Humano..., o "deslumbramento ilusório" e a segurança
crônica e fossilizada começam a ser agredidos e revolvidos, à medida em que
se admite e integra efetivamente a concretude da existência, com os seus
fluxos e intensidades, com as suas transmutações, com as suas forças e
alegrias, e com a inevitável dureza do sofrimento e da finidade próprios do
perecível: “O saber crítico torna-se uma força que ataca à própria vida, que
destrói a sua segurança, o seu deslumbramento ilusório”. Nietzsche sabe que
um conflito separa a vida da ciência e toma agora partido por esta última. E
esta preferência encarna-a ele agora como que na figura, no papel que ele
assume na personagem do ‘espírito livre’. Nietzsche confere-lhe traços
maravilhosos. Ele está muito longe da liberdade proba e pesadonha da época
iluminista, de uma fé seguríssima na razão. O espírito livre de Nietzsche
mantém-se à distância de si próprio, faz prova sobretudo de uma temeridade
que não recua perante nada, é já um precursor do príncipe Vogelfrei, do
dançarino de pés ligeiros, do pacífico e sereno Zaratustra de espírito
ligeiro. Possui a sedução, a audácia temerária como elemento seu; faz experiências consigo próprio, com o
mundo e com Deus*;
coloca em tudo seus pontos de interrogação, sem fugir ao encontro das coisas
mais venerandas; ele desconfia, como nunca se desconfiou; pratica uma
psicologia de duplo fundo e atrai para a luz mais do que um pensamento
reservado; não mostra timidez nem respeito, sobretudo por aquilo que todo
mundo considera importante; dotado de um sexto sentido para os ocultos e
tortuosos caminhos do ‘ideal’, ele segue muitas pistas ao mesmo tempo. Ele
possui a férrea frieza do pensamento inexorável que ‘dilacera a carne da
vida’, que busca a verdade sem ilusões, mesmo que ela se revele mortal.[27]
E a seguir: “(o ‘Espírito Livre’ de Nietzsche) escolhe a ‘óptica da ciência’,
porque ela corresponde ao espírito fundamental que domina toda a segunda fase
de Nietzsche: a vida é uma experiência*. Incessantemente e em variações múltiplas aponta para o caráter experimental da vida, os
seus riscos e projetos, para o facto de o homem colocar objectivos a si próprio;
o espírito livre não é livre por viver
segundo o conhecimento científico, é livre na medida em que utiliza a ciência
como meio para se libertar da grande servidão da existência humana em relação
aos ‘ideais’, para se escapar da tutela da religião, da metafísica e da
moral. (...) o homem perdeu-se, sujeitou a vida a pesos enormes,
submeteu-se ao sobre-humano, e a religião, a metafísica e a moral são formas
dessa servidão; o homem venera o sobre-humano, organiza toda a sua vida em
função daquele e já não sabe que foi ele próprio quem pôs no seu firmamento
tais estrelas orientadoras; venera aquilo que ele próprio criou; o
sobre-humano é apenas uma aparência do humano, uma fata morgana em que a
essência humana criadora se exterioriza. A aclaração desilusionadora dos
fundamentos demasiado humanos de todos os ‘ideais’ leva, por conseguinte, não
apenas ao desmoronamento da abóbada celeste religiosa, metafísica e moral que
o homem ergueu sobre a sua existência, como ainda, e mais decisivamente, a uma reviravolta do homem, uma conversão
de sua posição fundamental, uma metamorfose da existência humana; o homem já
não procura no exterior os seus objectivos, mas no interior de si próprio, a
vida já não tem significado antecipadamente dado, já não está presa, já não é
conduzida pela vontade de Deus, já não é conduzida em andadeiras pelas
prescrições da moral, já não está condicionada por um ultra-mundo metafísico
que fica para além do mundo dos fenômenos, já não é entravada por nenhuma
força sobre-humana – tornou-se livre. O homem
aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como experiência.
*
Só agora é possível viver um sentimento da existência totalmente novo: a
grande temeridade do espírito que não se reclama de nada, que é aberto a tudo
e a todos, que a si próprio tem que fixar objetivo e rota. Nietzsche evoca em
todos os tons esta atmosfera da partida, da ousadia suprema, compara-se mais
de uma vez ao genovês Colombo[28].* "A vida é uma experiência". Na ousadia da aceitação
e afirmação deste caráter experimental da vida é que se funda a gaya ciência nietzscheana, a sua
ciência alegre. Na temeridade da eleição como guia da própria vida em suas
perspectivações experimentais. Na interpretação e interpretação e
experimentação destas perspectivações. “A figura do espírito livre distancia-se cada vez mais da imagem do
desmascarador gélido e crítico e surgem mais fortes os traços do tipo humano ousado e experimentador que faz experiências
com a vida[29].
“Na Aurora e na Gaia Ciência cumpre-se inconfundivelmente a
desmontagem da imagem do homem nascida da psicologia do desmascaramento; a grandeza da existência é agora vista
na temeridade do pro-jeto, na experimentação* que põe à prova a liberdade para com Deus, a Moral a Metafísica[30]. A experimentação passa assim a definir o cerne da perspectiva
nietzscheana, à medida em que esta se liberta dos Idealismos, constituindo-se
em específico como uma conversão da existência, que passa dar-se a si própria
como referência, na ousadia do estilo experimental de uma vida que
experimenta, liberta do idealismo, e fundada em seus pulsos
experimentais. Fink[31]
observa o caráter antropológico da conversão nietzscheana no sentido da
assunção da vida como experimento e como experimentação. Trata-se, na
verdade, da desalienação do homem, e da assunção nele próprio, e não em
figuras idealmente alienadas, de tudo que ele tem efetivamente de santo, de
artista, de sábio. Trata-se, na verdade, da metamorfose do santo, do artista
e do sábio, em espírito livre: “O espírito livre é antes a
metamorfose do santo, do artista e do sábio, (...) eles são apenas possíveis na medida em que o homem se esqueceu de si
como autor destes projectos, na medida em que não conhece a sua secreta
qualidade criadora, na medida em que supõe Deus no exterior, encara a moral
como uma lei de costumes estranha e que o amarra, considera o Aquém apenas
como aparição de um além mais real. O Espírito Livre é a ‘consciência de si’
do santo, do artista, do filósofo metafísico, a chamada a si dessas figuras
de alienação, a sua conversão. Só isto representa o sentido filosoficamente
central do Espírito Livre: ele é a verdade da vida alienada e esquecida de si
própria. Fink[32]
prossegue, comentando a implicação do sentido mais profundo da conversão
existencial que se constitui na concepção do espírito livre, na concepção nietzscheana da vida como
experimento. Mas isto significa também que o
Espírito Livre não é nenhuma atitude que se poderia tomar e conservar,
ele não é nenhuma ‘atitude’ que se afecta, mas uma conversão da existência,
o acontecimento do retorno a si de todo aquele que se ultrapassou na
transcendência, isto é, o espírito livre é a libertação do homem que se torna
senhor de si, que adquire a soberania sobre si próprio. (...) A
libertação do homem dá-se portanto através da consciência de que o ser em si,
a transcendência do bem, do belo e do sagrado é apenas uma transcendência
aparente, uma transcendência projectada pelo homem mas esquecida como tal. Esta tomada de consciência não é uma
simples reflexão, significa antes a vitória sobre um esquecimento de longa
data, a recuperação no campo da própria vida de todas as tendências vitais
para a transcendência. Esta ‘óptica da vida’ permanece o tema fundamental de
Nietzsche, que o desenvolve em diversos graus de intransigência.”. Liberta a vida do peso dos
Idealismos, a criatividade é a grande descoberta para o espírito livre, na assunção de uma atitude experimental da existência, e na constituição de sua gaya ciência experimental: “O Espírito Livre descobre-se a si próprio como criador de valores e
adquire com esta descoberta a possibilidade de criar novos valores, de
revolucionar todos os valores. O ponto de partida da filosofia dos valores
encontra-se essencialmente na metamorfose do santo, do artista e do sábio em
‘Espírito Livre’, reforça-se até, quanto mais Nietzsche se passa da simples
vivissecação crítica e desconfiada, fria, gélida até, dos sentimentos morais
para uma atitude experimental da
existência, para a leveza de
dançarino do príncipe Vogelfrei, para a Gaia Ciência. A partir deste
aspecto ele compreende no seu conceito de ‘idealismo’ as três maneiras de
existir da grandeza humana, aprisionadas na servidão de uma transcendência
aparente[33].”
“... o homem é concebido como
o ser que se supera a si próprio, o idealismo é invertido: todas as
transcendências são expressamente buscadas dentro do homem, pelo que lhe é
conferida assim a máxima liberdade de criação audaciosa. O sentimento de que
só com o fim do idealismo aparecerão as grandes possibilidades do homem domina
Nietzsche, é a sua gaya scienza[34].” “No Zaratustra brota, à
semelhança de uma força da natureza o
espírito do empreendimento mais audacioso, o espírito da vida que experimenta*, esse espírito que atravessou como uma corrente subterrânea A Aurora
e A Gaia Ciência, que, adulterando e dissociando toda a
atitude científica, se propagou como um frémito na personagem do
‘Espírito Livre’ e que tornou tão ambíguo o seu perfil. Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e,
por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso; rejeitar os pesos
opressivos que são Deus, a moral, e o Além, que do exterior determinam o
homem, o limitam e o conduzem em andadeiras; obter para a liberdade humana um
novo espaço onde ela se possa instalar num quadro totalmente novo e
empenhar-se em novas tentativas vitais – é nisto que consiste a tendência
subterrânea da ‘filosofia da manhã’ de Nietzsche[35].” ““... a máxima liberdade de criação audaciosa... o espírito do
empreendimento mais audacioso, o espírito da vida que experimenta... Devolver
à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o
seu caráter de empreendimento audacioso. Tal é o sentido da perspectiva
experimental da existência, da experimentação perspectivativa, Comentando uma ousada
frase, no Zaratustra, Fink[36]
observa: “A frase que acabamos de citar contém este passo memorável de que o verdadeiro poeta é
aquele que cria a verdade.” E acrescenta: “Para Nietzsche, o poeta é aquele cuja POIESIS visa à verdade
original, ao nascer de uma nova concepção do mundo”. (Fink, E., 1983, p.67). Este o sentido mais geral
da experimentação e do experimental em Nietzsche: o da existência
experimental, do estilo experimental, de uma vida que experimenta (-se) e cria
(-se). Se falamos de poiesis
no sentido especificamente poético, que engendra e gera o poético e o poema,
não podemos esquecer de que a própria vida, e nosso ser-no-mundo engendram-se como
poieis. Poiesis da qual se destaca como um farol, como dimensão própria e
característica, o poético e o poema. A poiesis como geração e engendramento
da própria vida, da própria existência, no sentido de sua afirmação, sempre
experimental, o caminho através do qual se pode tornar-se o que se é..., a
experimentação. Como afirmação perspectivativa, a afirmação poiética é sempre
experimental. Trata-se, para Nietzsche, e, creio, para a psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial, de assumir e afirmar, o caráter
desta afirmação poiética experimental. Poiético somos todos nós,
experimentemo-nos na poisesis do nosso devir-no-mundo.
Libertar-nos para esta ousadia, para esta modesta audácia de toda hora e de
toda a vida, é o sentido de uma existência experimental, da experimentação e
do perspectivismo. PERSPECTIVAÇÃO, PERSPECTIVA, PERSPECTIVISMO. Drible de Corpo na
Consciência. 'Drible de corpo' é quando o corpo tem presença de espírito. (Chico Buarque de Holanda) Onde queres revólver sou coqueiro,
onde queres dinheiro sou paixão Onde queres descanso sou desejo, e onde
sou só desejo queres não E onde não queres nada, nada falta, e
onde voas bem alta eu sou o chão E onde pisas no chão minha alma
salta, e ganha liberdade na amplidão Onde queres família sou maluco, e
onde queres romântico, burguês Onde queres Leblon sou Pernambuco, e
onde queres eunuco, garanhão E onde queres o sim e o não, talvez,
onde vês eu não vislumbro razão Onde queres o lobo eu sou o irmão, e
onde queres cowboy eu sou chinês Ah, bruta flor do querer, ah, bruta
flor, bruta flor Onde queres o ato eu sou o espírito,
e onde queres ternura eu sou tesão Onde queres o livre decassílabo, e
onde buscas o anjo eu sou mulher Onde queres prazer sou o que dói, e
onde queres tortura, mansidão Onde queres o lar, revolução, e onde
queres bandido eu sou o herói Eu queria querer-te e amar o amor,
construírmos dulcíssima prisão E encontrar a mais justa adequação,
tudo métrica e rima e nunca dor Mas a vida é real e de viés, e vê só
que cilada o amor me armou E te quero e não queres como sou, não
te quero e não queres como és Onde queres comício, flipper vídeo, e
onde queres romance, rock'n roll Onde queres a lua eu sou o sol, onde
a pura natura, o inceticídeo E onde queres mistério eu sou a luz,
onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro, e
onde queres coqueiro eu sou obus O quereres e o estares sempre a fim
do que em mim é de mim tão desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal,
bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente pessoal, e eu
querendo querer-te sem ter fim E querendo te aprender o total do
querer que há e do que não há em mim (O
Quereres. Caetano Veloso) O que se experimenta na
afirmação é a intensificação do momentum da perspectivação. De modo que a
perspectivação é o sentido próprio da experimentação. Experimentação é perspectivação. Diante das peculiaridades
e dos imperativos da consciência, como dimensão da vida humana, da vida
coletiva; diante das distorções e supervalorização da consciência. A
perspectivação experimental é o modo como a vida singular e vivida se manifesta
na afirmação de suas forças, que atravessam a consciência, mas que vigem, e
constituem-se e enraízam-se na vida instintual, não e trans consciente. A
perspectiva é a nossa condição mais básica, de ser, de conhecer, de avaliar.
Trata-se, pois, da conseqüência para com esta condição. O perspectivismo, com
o reconhecimento do caráter ilusório e relativo da perspectiva, e, mesmo
assim, assumindo a sua integral afirmação, é conseqüente para com esta
condição da vida original. De modo que o
perspectivismo, a perspectivação, constitui-se como um drible de corpo na consciência, na medida em que inicia por uma
específica perspectivação e relativização do próprio império da consciência,
valorizando os pulsos e fluxos da vida instintual, valorizando a cada
instante, especificamente, a desmesura da consciência, na afirmação do
momentum de intensificação da perspectiva vivida. O perspectivismo, aqui
considerado ao nível da existência, tem, na verdade, raízes mais abrangentes
Nietzsche, como esclarece Scarlett Marton[37],
entende-o já de uma perspectiva cosmológica. É preciso levar em conta, adverte (Nietzsche), 'o perspectivismo necessário mediante o qual cada centro de força
-- e não unicamente o homem -- constrói a partir de si mesmo todo o resto do mundo, isto é, mede segundo
sua força, tateia, dá forma...' (14 (186) da Primavera de 1888). Uma
configuração de forças tem em relação a tudo mais sua meneara de apreciar, de
agir e reagir. Da sua perspectiva, ela organiza o mundo. É impossível impedir
que procure impor sua interpretação ao que a cerca; no fim de contas, a
vontade de potência é impulso de apropriar e dominar. É igualmente impossível
evitar que se defronte com as demais interpretações; afinal, a luta não
admite trégua, nem prevê termo. Ao conceber o mundo como campos de forças
instáveis em permanente tensão, o filósofo acaba por ressaltar o seu traço
perspectivaste. Viver, tornar-se o que se
é, é assumir-se e afirmar-se como perspectiva. Comentando, no Prólogo do Humano Demasiado Humano, as
dificuldades de constituir-se ele próprio como uma perspectiva, a sua própria perspectiva, dono de sua própria
veracidade, Nietzsche[38] fala dos espíritos livres, para cuja vinda ("disso sou eu quem menos gostaria de
duvidar") ele espera
contribuir. Fala da solidão e do
isolamento do processo próprio da constituição do espírito livre, da sua
perplexidade diante da solidão e do isolamento, da sua libertação, e
especificamente do sentido destes, Por essa altura, pode acontecer finalmente, entre súbitos clarões de
saúde ainda tempestuosa, ainda instável, que para o espírito livre, cada vez
mais livre, comece a revelar-se o enigma dessa grande separação, que, até
então esperara, obscuro, suspeito, quase intocável na sua memória. Se,
durante muito tempo, mal ousava perguntar 'porquê tão de parte? Tão só?
Rejeitando tudo que eu venerava? Rejeitando a própria veneração? porquê esta
dureza, esta desconfiança, este ódio contra minhas próprias virtudes?' --
agora ele ousa e pergunta-o em voz alta e até já ouve qualquer coisa, a modo
de resposta à pergunta. 'Tu devias
tornar-te senhor de ti próprio, senhor também de tuas próprias virtudes.
Dantes, eram elas senhoras de ti, mas elas apenas podem ser teus
instrumentos, a par de outros instrumentos. Devias adquirir domínio sobre o
teu pró e contra e aprender a desengatá-los e engatá-los de novo, conforme o
teu superior desígnio. Devias aprender
o elemento perspectivo que há em toda apreciação
-- a deslocação, a deformação e a aparente teleologia dos
horizontes e tudo o mais que pertence ao domínio da perspectiva;
também a grande tolice com respeito aos valores opostos e todo o pre juízo
intelectual, com o qual cada pró e cada contra se faz pagar. Devias entender a
injustiça necessária em cada pró e contra, a injustiça como
inseparável da vida, a própria vida como condicionada pela
perspectiva e sua injustiça. Devias, sobretudo, ver com os próprios olhos
onde a injustiça é sempre maior: a saber, onde a vida tem um desenvolvimento
mais pequeno, mais restrito, mais escasso, mais inicial, e, apesar disso, não
pode deixar de se tomar por finalidade e medida das coisas e, por amor a sua
subsistência, esmigalhar secreta, mesquinha e incessantemente o que é
superior, maior e mais abundante, pondo-o em causa -- devias ver com os teus
olhos o problema da hierarquia e como poder, direito e amplitude da
perspectiva crescem uns com os outros A aprendizagem do espírito livre: a própria vida como
condicionada pela perspectiva e sua injustiça. Na medida em que a
devida afirmação da perspectiva conflitará sempre com outras perspectivas, e
a outras vencerá, em seu próprio espaço, ainda que inevitavelmente revele
sempre o caráter ilusório e meramente aparencial de toda perspectiva e da
própria vida. O que a filosofia de
Nietzsche nos oferece é a constatação de que não nos resta muito além da
afirmação perspectiva de nossas forças vitais, e que isto não é pouco, em
termos do cultivo de uma abundância de forças de vida, e da criatividade de
nosso devir-no-mundo. A compreensão deste
caráter perspectivo da vida, do conhecimento e dos valores é assim um sentido
profundo da filosofia de Nietzsche. Perspectivo tem no caso o sentido próprio do termo Para Nietzsche, é
precisamente esta a natureza do real, do conhecimento, do vivido, da
avaliação, perspectiva, perspectivação. Nietzsche aponta como a realidade, o
conhecimento e os valores são eminentemente perspectivos, como cada ato de
conhecer e de avaliar configura-se como uma perspectiva carente de devida afirmação,
e é em si mesmo, ao mesmo tempo, relativo e conflitivo com relação
inevitavelmente a uma multiplicidade de possibilidades. A consciência conceitual,
não é hábil para o trânsito pela variedade e pela variedade de intensidades
das perspectivas que são inerentes a qualquer conhecimento e a qualquer
avaliação, não é hábil para o perspectivismo do conhecimento e dos valores,
para a perspectatividade, ou seja, para a afirmação profunda e
necessariamente ilusória das perspectivas, e para o trânsito instintual de
sua alternância. É a perspectivação que
permite a libertação dos limites e impropriedades da consciência, e a
expressividade, interpretação (no sentido existencial), da originalidade do
ser, fundada no corpo, nos sentidos e no vivido. O jogo da perspectivação, a
experimentação nietzscheana, constitui-se como um drible de corpo na consciência (“O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito”. Chico
Buarque), que permite a expressividade de um ser, ativo e potente e atual,
sob o risco sempre de atrofiar-se, toldado pelas determinações dos limites
gregários da consciência. No capítulo, Por que escrevo livros tão bons, de
sua autobiografia, o Ecce Homo, Nietzsche[40] expressa o sentido de seu
método, o sentido da perspectivação, o sentido de seu estilo. Nesta obra,
Nietzsche perspectivou-se de um modo livre e intenso, a ponto de ser
freqüentemente entendido como louco... Loucura esta que um especialista como
Freud negou-se a reconhecer. Dizia Nietzsche, Direi ao mesmo tempo uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma tensão interna de pathos por meio de signos, incluído o tempo desses signos -- eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades de estilo -- a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca nos signos, no tempo dos signos, nos gestos -- todas as leis do período são artes dos gestos. Ainda que afirmativas e
afirmadas, as perspectivas são sempre deformantes, e subsistem
conflitivamente na convivência com outras perspectivas que se lhes
contrapõem, ou lhe são alternativas. A avaliação é perspectivativa. A avaliação é pois sempre deformante, por outras palavras,
perspectivaste, e, o que é talvez mais relevante, envolve sempre uma
qualidade conflitual em relação a outras que se encontram no mesmo espaço e
susceptíveis de contradição mútua[41]. O erro está no isolamento e na abstração[42] No entanto é deste erro fundamental que nasce toda espécie de
'verdades'. A suposição de uma correspondência entre as nossas afirmações e
as coisas do mundo apoia-se certamente na crença de entidades
incondicionadas, desconexas, esquecendo o elemento perspectivaste, subjacente
a todas essas afirmações[43]. O perspectivismo
nietzcheano insurge-se assim como crítica da sobrevalorização da consciência,
das verdades metafísicas e das contraposições de antípodas que esta
sobrevalização induz e possibilita. As verdades metafísicas e as
contraposições configuram-se como isolamento e abstração do inter-jogo das
perspectivações, e é isto que se caracteriza para Nietzsche como erro do
juízo e da faculdade de avaliar. Perspectivações, em suas
intensidades e transmutações, são as possibilidades e possibilitações de
nosso ser-no-mundo. De caráter intrínseca e inevitávelmente ilusório e
injusto, face a sua intrínseca relatividade, são o que somos. São a vida em
sua afirmação, uma possibilidade sempre aberta a nossa afirmação. De um modo
tal que o sentido do trágico nietzscheano realiza-se exatamente na afirmação
da ilusão que a (relativa) perspectiva configura. A implicação da crítica
nietzscheana à sobrevalorização da consciência, e a definição do caráter
perspectivo de todo conhecimento e de todo valor, aliada à distinção de uma
postura e de um método, o método perspectivativo, são expostos por Marques[44]: No Humano*...
começa a tomar forma um método de
avaliação, começa por isso a exercitar-se um tipo de faculdade do juízo
que há de consolidar-se em obras futuras. Este transforma o conceito
envolvido no juízo em conceito problemático. Por exemplo, conceitos como os
de altruísmo ou de liberdade incondicionada, tão usados na avaliação moral. A
suspeita de que eles não sejam tão unos e delimitados e que funcionem como
antípodas perfeitos tem o seu fundamento, como já vimos, na observação de
qualidades contrárias que neles podem surgir. A partir daí a investigação
histórica comprova o sem fundamento de sua pureza e perfeição. Nietzsche
pensa nos erros da razão como uma crença nestas características dos conceitos
e o método vai consistir numa espécie
de observação em movimento, em que o observador compara, diferencia,
persegue vestígios, continuidades e interrupções. É a tradução daquilo que se vem a chamar 'perspectivismo' e que Nietzsche no novo Prólogo da edição de
1886 já claramente define: 'Deverias
aprender aquilo que em cada apreciação depende do elemento perspectivaste --
a deslocação, a deformação e a aparente teleologia dos horizontes e tudo o
mais que pertence ao campo das perspectivas; também a grande tolice com
respeito aos valores opostos e todo o prejuízo (preconceito*)
intelectual, com o qual cada pró e
cada contra se faz pagar' (Prólogo
6). O espírito livre (...) é,
pois aquele que ajuíza perspectivisticamente, isto é, que não esquece que a sua avaliação contém sempre o
elemento da deslocação, da deformação, a finalidade aparente, enfim
características perspectivistas inevitáveis. Tornando ainda mais clara a
situação: não existem juízo e objecto avaliados puros fora de um sistema em
que as próprias avaliações interagem e conflituam. O comportamento a é bom: Se eu não contar com o elemento
perspectivaste, posso no limite significar que a é bom de uma forma absoluta e sem relação com mais nada. Mas bom
apenas é significante como bom enquanto: bom enquanto justo, enquanto
altruísta, enquanto corajoso, etc. Do mesmo modo, justo enquanto..., corajoso enquanto... etc. A
avaliação é pois sempre deformante, por outras palavras, perspectivaste, e, o
que é talvez ainda mais relevante, envolve sempre uma qualidade conflitual em
relação a outras que se encontram no mesmo espaço e susceptíveis de
contradição mútua. O juízo moral assente em conceitos separados e sem conexão
recíproca, desconhecendo a sua íntima relação com os seus contrários num
espaço interperspectivista, eis o erro que assolou todo o pensamento moral
segundo o Humano*... (...) O erro na avaliação está
no isolamento, na abstracção: 'ainda actualmente nós achamos, no fundo, que todas as emoções e
acções são actos de livre vontade; quando o indivíduo que sente se observa a
si próprio, pois toma cada sensação, cada alteração, por algo isolado, isto
é, incondicionado, desconexo: surge de nós próprios, sem ligação com o
anterior ou o ulterior (§18). No
entanto é deste erro fundamental que nasce toda a espécie de 'verdades'. “A suposição de uma correspondência entre
as nossas afirmações e as coisas do mundo apoia-se certamente na crença de
entidades incondicionadas, desconexas, esquecendo o elemento perspectivaste,
subjacente a todas essas afirmações.” Desta forma a
perspectivação, o perspectivismo, a perspectatividade é o que Nietzsche
propõe, diante da sobrevalorização da consciência, e como modo hábil no
sentido de permitir a expressividade do vivido instintualmente. O
perspectivismo, a perspectativação, a perspectatividade, em seu exercício
ativo, configuram o sentido da concepção do experimental para Nietzsche. Experimentar
para Nietzsche é perspectivar, experimentação é perspectivação. Scarlett Marton[45]
observa, Mais do que problema psicológico ou questão existencial, em
Nietzsche, o experimentalismo é opção filosófica. Ao colocar um problema em
seus múltiplos aspectos, abordar uma questão a partir de vários ângulos,
tratar de um tema adotando diversos pontos de vista, o filósofo está a fazer
experimentos com o pensar. Não é por acaso, aliás, que privilegia o estilo
aforismático; se perseguir uma idéia é abandonar várias outras pelo caminho,
o que é o aforismo se não a possibilidade de perseguir uma idéia partindo de
diferentes perspectivas? Adequado ao perspectivismo, o estilo que ele adota
põe-se assim a serviço do experimentalismo. E a seguir[46],
citando Nietzsche: É levar em conta, adverte, 'o perspectivismo necessário mediante o
qual cada centro de forças -- e não unicamente o homem -- constrói a partir de si mesmo todo o resto do mundo, isto é, mede
segundo sua força, tateia, dá forma...' Filosofia, ciência,
existência, psicologia e psicoterapia, experimentais, perspectivativas. PERSPECTIVAÇÃO EXPERIMENTAL E SENTIDO HISTÓRICO. Todo
agir requer esquecimento. Um
aspecto importante a considerar com relação à possibilitação da
perspectivação, é a relação desta para com a memória e para com a história, e
o caráter de seu desdobramento, exatamente no lugar onde se enfraquece e
subordina-se o sentido histórico, o lugar de um esquecimento. A
perspectivação, pulsos e fluxos transconscientes, ainda quando não objetivada,
é eminentemente ativa, é eminentemente ação. Isto a implica de modo
específico nas considerações que Nietzsche elabora a respeito das relações
entre ação, memória e esquecimento[47].
Todo
agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo que é orgânico requer não
somente luz, mas também escuro. Um homem que quisesse sempre sentir apenas
historicamente seria semelhante àquele que se forçasse a abster-se de dormir,
ou ao animal que tivesse de sobreviver apenas da ruminação e ruminação sempre
repetida. [48] A própria felicidade e a possibilidade da ação estão para Nietzsche condicionadas por este enfraquecimento e subordinação do sentido histórico, e por sua vigência no meio de um esquecimento.... nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente. Quem não se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vitória, sem vertigem e medo, nunca saberá o que é felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que torne os outros felizes. Pensem o exemplo extremo, um homem que não possuísse a força de esquecer, que estivesse a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem não acredita mais em seu próprio ser, não acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em pontos móveis e se perde nesse rio do vir-a-ser: finalmente, como bom discípulo de Heráclito, mal ousará levantar um dedo[49]. Para
Nietzsche[50],
o excesso de memória é sintoma de um certo tipo de adoecimento. Naturalmente
a memória é sujeita a um certo tipo de "digestão", que permite o
bem estar da ação perspectivativa. De modo que o excesso de memória é vivido
tal como um distúrbio dispéptico, um "distúrbio do estômago", da
digestão. O excesso de consciência, e, deste resultante, a memória excessiva,
e uma exorbitância do sentido histórico, indica a impossibilidade da
afirmação perspectivativa do ser ativo de um devir transconsciente. A ação
não guarda relação para com a consciência, da mesma forma que a ação,
efetivamente perspectivação, dá-se necessariamente no âmbito de um
esquecimento, de um enfraquecimento da memória, de um hiato do sentido
histórico, tal é a sua predominância ativa. E possa ser assim entendida e poderada a minha proposição: a história só pode ser suportada por personalidades fortes, as fracas ela extingue totalmente. (...) Quem não ousa mais confiar em si, mas involuntariamente, para sentir, pede conselho junto à história: “Como devo sentir aqui”? este se torna pouco a pouco, por pusilanimidade, espectador, e desempenha um papel, no mais das vezes até muitos papéis, e justamente por isso desempenha cada um deles tão mal e superficialmente. O sentido histórico, quando reina irrefreado e traz todas as suas conseqüências, erradica o futuro, porque destrói as ilusões e retira às coisas a sua atmosfera, somente na qual elas podem viver. (...) Quando por trás do impulso histórico não atua nenhum impulso construtivo, quando não se está destruindo e limpando o terreno para que um futuro já vivo na esperança construa sua casa sobre o chão desimpedido, quando a justiça reina sozinha, então o instinto criador é despojado de sua força e de seu ânimo. (...) O fundamento disso está em que, no cômputo histórico, sempre vem à luz tanto de falso, grosseiro, desumano, absurdo, violento, que a piedosa disposição à ilusão, somente na qual pode viver tudo que quer viver, é necessariamente desbaratada: somente no amor, porém, somente envolto em sombras pela ilusão do amor, o homem cria, ou seja, somente na crença incondicional na perfeição e na justiça. A todo aquele que obrigaram a não mais amar incondicionalmente, cortaram as raízes de sua força: ele tem de se tornar árido, ou seja, desonesto. Nestes efeitos, a história é o oposto da arte: e somente quando a história suporta ser transformada em obra de arte e, portanto, tornar-se pura forma artística, ela pode, talvez, conservar instintos, ou mesmo despertá-los[51]. Não se
trata de simplesmente desqualificar, ou negligenciar a história, mas do
entendimento de que, não a recordação ociosa, mas criá-la é a sua melhor
celebração. É na
ênfase nesta perspectiva da historicização, como afirmação, que subordina a
história ao vivido, que se constitui a possibilidade e a possibilitação da
perspectivação. Desproporcionalmente relativa com relação à memória, fundada
no esquecimento, na subordinação do sentido histórico, criativa. Apanágio da
grande saúde nietzscheana. De modo
que podemos entender, creio, que, enquanto vivência transconsciente: vivência
da consciência em sua desmesura, vivência transsubjetivante, na verdade
dessubjetivante, a perspectivação caracteriza-se como predomínio de forças
ativas e incertas, ainda que instintualmente seguríssimas, decididas e decisivas,
no ser de seus devires. E que, na sua ativa originalidade, não são uma
memoriação, não comportam a memória, e na verdade configuram-se em seus
domínios como desmemoriação, ou transmemoriação, como esquecimento, porque de
fato há a presentificação de intensidades mais importantes, na verdade mais
interessantes, mais fortes e saudáveis, do que o lembramento, do que a
memória e a memorização. A perspectivação, no deleite, na fruição de sua
intensificação, é, assim, o aquieagorificação, a conquista do presente*,
a presentificação, a realiz/ação. Seu sentido histórico é este, o sentido da
criação. E não esqueçamos a Perls[52],
e a sua pérola genuína, o núcleo do real é a ação. Ação, tão ativa, e de si
imbuída, que esquecida: perspectivação, experimentação. Em sendo assim, a
filosofia da vida de Nietzsche define uma noção existencial do experimental e
da experimentação que se configura como a assunção do perspectivismo e do
método perspectivativo. A perspectivação é, assim, neste sentido, o sentido
do experimental e da experimentação. Através dos quais o homem atualiza o seu
devir-no-mundo, cria-se e cria o mundo que lhe diz respeito, assumindo
tornar-se e afirmar experimental e perspectativamente a vida que se afirma em
si, a poiesis de ser-no-mundo. É neste sentido que Perls[53]
dirá que as questões existenciais só se podem resolver experimentalmente. É
neste sentido que Rogers deriva a idéia de um modo de vida existencial
(melhor diríamos, experimental),
como um dos componentes de sua concepção do "funcionamento ótimo da
personalidade". A revitalização das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais depende, a meu ver, de um resgate e elucidação da originalidade desta noção existencial de experimentação, perspectivação, entendidas estas como a ousadia da interpretação que afirma o vivido. |
* É interessante observar que a perspectatividade é o "fenomenalismo" de Nietzsche. cf. NIETZSCHE, F. §354 in A GAIA CIÊNCIA, Lisboa, Guimarães & Cª, 1984 pp. 249-52.
[2] in PARA
ALÉM DO BEM E DO MAL
[3] GIGLIO
[4] MARTON, Scarlet -
[5] FINK, Eugen (pp. de todo o capítulo)
* Relativo à poietico, poder criativo do Ser.
[6] FINK, Eugen -
[7] NIETZSCHE, F., GENEALOGIA DA MORAL, São Paulo, Brasiliense, 1988. p.
[8] NIETZSCHE, F. §354 in A GAIA CIÊNCIA, Lisboa, Guimarães & Cª, 1984 p. 251.
[9] HESSE, Hermann in O Lobo da Estepe, pp. 70-71
[10] MARQUES,
[11] PESSOA, Fernando in Poesias de Álvaro de Campos – A Passagem das Horas. p.242.
[12] NIETZSCHE, F.
[13] MARQUES, Antonio
[14] NIETZSCHE, F. A GAIA CIÊNCIA, Lisboa, Guimarães & Cª, 1984 pp 48-9.
[15] NIETZSCHE, F. §354 in A GAIA CIÊNCIA, Lisboa, Guimarães & Cª, 1984 pp. 249-52
[16] Grifos nossos.
[17] ibid.
[18] ibid.
[19] MACHADO,
Roberto -
[20]
Fink, Eugen
[22] NIETZSCHE, F.
[23] FINK, Eugen -
[24] FINK, Eugen -
[25] FINK, Eugen -
[26] FINK, Eugen -
* Grifos nossos. N.A.
[27] FINK, Eugen - op. cit., pp.53-4
* Grifo nosso. N:A:
* Grifo
nosso. N.A.
[28] FINK, Eugen - op.cit. pp. 55-56
* Grifos nossos. N.A.
[29] FINK, Eugen - op. cit., p.57
* Grifo nosso. N.A.
[30] FINK, Eugen - op. cit. p.59
[31] FINK, Eugen - op. cit., pp.61.
[32] op. cit., pp.62.
[33] op.cit., p.62
[34] op.cit, p.63
* Grifo
nosso. N.A.
[35] op. cit., pp. 65-6
[36] op. cit., p.67
[37] MARTON, Scarlett - O Eterno Retorno do Mesmo. Tese cosmológica ou imperativo ético. in NOVAES, Adauto - ÉTICA. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Companhia das Letras, 1992. p.213.
[38] NIETZSCHE, F. - Prólogo in HUMANO DEMASIADO HUMANO. Um Livro para Espíritos Livres. Lisboa, Relógio D'Água Editores, 1997 pp.16-8
[39] grifos nossos.
[40] NIETZSCHE, Fredrich - ECCE HOMO, São
Paulo, Companhia das Letras, 1995. p. 57.
[41] MARQUES, Antonio prefácio p. VIII
[42] MARQUES, Antonio prefácio p.IX
[43] ibid.
[44] MARQUES, Antonio, Prefácio in HUMANO DEMASIADO HUMANO. Um Livro para Espíritos Livres. Lisboa, Relógio D'Água Editores, 1997 pp. IV-IX.
* Preconceito. N.A.
[45] MARTON, Scarlett - O Eterno Retorno do Mesmo. Tese Cosmológica ou Imperativo Ético. in NOVAES, Adauto (org.) ÉTICA. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Companhia das Letras, 1992. p.207.
[46] op cit. p.213.
[47] Giglio Barbosa,
[48] NIETZSCHE, F. Considerações Extemporâneas. II. Da Utilidade e desvantagem da História para a Vida in NIETZSCHE. Os Pensadores., São Paulo, Editora Abril, 1983. p.58.
[49] NIETZSCHE, F. ibid.
[50] NIETZSCHE, F.
[51] op. cit. 64-5.
* MAFFESOLI, Michel -- A CONQUISTA DO
PRESENTE.
[52] PERLS, Fritz - GESTALTHERAPY.
[53] PERLS, FRITZ