DE COMO
PSICÓLOGOS E PSICOTERAPEUTAS DESCOBREM A
FENOMENOLOGIA E O EXISTENCIALISMO
E sobre a
importância de um início de si mesmo para a
compreensão e prática da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial
Afonso
H Lisboa da Fonseca, psicólogo
LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO
EXISTENCIAL
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Maceió AL. Brasil
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Maceió 2000
Indice Textos
"Quanto mais
fundamente penso,
Mais profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar.
Do fundo da
inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência,
E não pouca
Maravilha do inconsciente!
Em sonho, sonhos criei,
E o mundo atônito sente
Como é belo o que lhe dei."
(in "O Horror
de Conhecer", F.Pessoa).
"O
conceito é a casca vazia de uma
metáfora que outrora inervava a
intuição. Nietzsche contrapôe
ao homem científico, que já
não detecta a mentira dos
conceitos, o homem intuitivo,
artístico; um refugiou-se na
cápsula, considera os conceitos
como a própria essência das
coisas, ao passo que o outro
conhece o engano de todas as
determinações, incluindo o das
metáforas, embora se mova
livremente perante a realidade,
criativamente forjando imagens.
Para Nietzsche, o homem
intuitivo, o artista é o tipo
superior em comparação com o
lógico e o cientista. Nietzsche
vê-o também em luta permanente
com as convençõesconceptuais;
ele já não é mais guiado
por convenções conceptuais, mas
por intuições.
Destas intuições não
parte qualquer caminho regular
para o território dos esquemas
fantásticos, das abstrações: a
palavra não foi feita para a
intuição, o homem emudece
quando a vê, ou fala em
metáforas proibidas, em
construções conceptuais
inéditas para, pelo menos
através da destruição e do
escárnio dos velhos limites dos
conceitos, corresponder de um
modo criador à impressão que
lhe produz a poderosa intuição
do presente.
(Eugen
Fink/F. Nietzsche).
"...se você
tem uma idéia incrível, é melhor fazer uma
canção,
está provado que só é possível filosofar em
alemão."
(Caetano Veloso)
As
reflexões aqui apresentadas surgem no âmbito de
uma saudável discussão iniciada no Programa de
Pós-Graduação em Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial da Universidade
Católica de Pernambuco.
Segundo
a minha leitura e perspectiva, no âmbito daquela
discussão, tratava-se de ressaltar a
característica pré-conceitual, pré-reflexiva
da fenomenologia, e a característica de
afirmação do vivido e de eleição dele como
critério de criação do verdadeiro e dos
valores da filosofia da vida de F. Nietzsche, em
contraposição com a característica
valorização do conceitual, do universal e do
racional da filosofia hegeliana, assim como a sua
valorização de uma perspectiva da negação e
do trabalho do negativo.
Tudo
isto em relação aos fundamentos da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial
DE COMO PSICÓLOGOS E PSICOTERAPEUTAS DESCOBRIRAM
E DESCOBREM A FENOMENOLOGIA E O EXISTENCIALISMO.
Acredito
que a fenomenologia e o existencialismo chegam à
psicologia e à psicoterapia através de tendências
culturais que são anteriores à específica
constituição moderna deles como correntes
filosóficas formais.
O dionisíaco,
de que fala Nietzsche, o sentido do trágico --
a priorização da afirmação de uma vida
espontânea, contigente, factual, Dasein,
que se entende inocente, mesmo contra os
sofrimentos de seus limites, e de seu caráter
irrecorrivelmente perecível --, permeia de modo
mais ou menos subterrâneo e intenso as várias
tradições da Cultura Ocidental. De gregas,
dentre outras, origens. Como uma alternativa, ou
como descontrolada e eruptiva afirmação face, a
tradições culturais predominantes, que
caracterizaram-se pelo privilégio de um
apolinismo intensivo e excludente, e que
frequentemente dirige-se para o paroxístico.
O
sentido do trágico era, antes de se constituir
ao nível da filosofia, na Grécia
Pré-Socrática, uma tradição cultural. E, como
tal disseminou-se, "de contrabando",
com a influência cultural dos gregos na
Civilização Ocidental, de matiz
predominantemente socrático.
De
modo que permaneceu como uma raiz e corrente
subterrânea e eventualmente emergente no âmbito
desta Cultura.
O que
chamamos de sentido do trágico permeia
certamente, também, e em gradações diversas,
outras culturas de raízes diferentes da Cultura
da Civilização Ocidental. Como por exemplo, a
Cultra Negra e certas tradições das Culturas do
Médio e Extremo Oriente.
O
dionisíaco, o sentido do trágico, portanto,
disseminou-se pela Cultura da Civilização
Ocidental como formas de atitudes mais ou menos
difusas e alternativas ao apolinismo da
tradição religiosa, da moral e da ciência,
para não falar do estado e da política.
De
modo que o sentido do trágico, que fundamenta
perspectivas existencialistas de viés
nietzscheano, foi, e é, antes de filosofia
formal, uma perspectiva e tradição cultural,
que adquire talvez a sua forma mais explícita na
Cultura Grega Pré-Socrática. Mas que está
presente como tal em todas as culturas, em
particular no âmbito da Cultura da Civilização
Ocidental, e de seus epígonos.
Por
outro lado, a mística, em especial a mística
judaica, e mais particularmente a mística
Hassídica na Alemanha e na Polônia, herdou e
desenvolveu perspectivas, atitudes e práticas,
de cunho eminentemente popular, fenomenológico e
existencial, e não filosófico formal ou
erudito.
Desde
os seus primórdios, a mística judaica afasta-se
do estudo teórico e do eruditismo, dedicando-se
às intensidades da vivência da experiência
religiosa imediata. A concentração da e
na experiência religiosa ganha uma importância
particular*. Curiosamente, os
místicos Hassídicos são eventualmente
cognominados de "dionisíacos
judaicos". O que interessantemente
sugere (para nós, psicólogos e psicoterapeutas)
que, dentro da tradição do Judaismo, em sua
interação com as Culturas Gregas, estes
místicos herdaram, diferentemente de outras
correntes, não a perspectiva socrática, mas,
mais especificamente, a perspectiva trágica da
cultura grega pré-socrática.
Isto
parece muito interessante, na medida em que a
valorização do ideal ascético, de um
apocalipsismo, recebe um outro tratamento dentro
do Judaísmo, que abre possibilidades
especificamente existencialistas.
A
consigna do Hassidismo na Alemanha e na Polônia
é a de uma vida judaica fora de toda teoria e de
toda a tradição, resolutamente ligada ao
presente. Buber, o hassídico, herdeiro dileto do
Hassidismo polonês e alemão, afirma que não
conhece nenhum caminho para Deus que não passe
pelo homem e pelo mundo.
Por
outro lado, não podemos deixar de destacar a
presença e o desenvolvimento, na Cultura da
Civilização Ocidental, de elementos da
filosofia e da mística da cultura do Extremo
Oriente, de cunho fenomenológico e existencial,
ou bastante próximos, tais como o zen e o
taoísmo.
Acreditamos
que todas estas influências culturais, que não
têm como tais uma organização especificamente
filosófica, nos moldes da filosofia ocidental --
ou seja, que existem anteriormente e independente
da filosofia ocidental formal --, haverão de
convergir fortemente na inspiração dos
primeiros médicos, psicólogos e psicoterapeutas
que começam a desenvolver a abordagem de uma
psicologia e de uma psicoterapia fenomenológico
existencial.
Da
mesma forma que começam a convergir na
constituição da fenomenologia e dos
existencialismos modernos enquanto filosofias
formais. Que passsam a ser elas próprias
enquanto tais-- mas só a partir de então --
infuências mais organizadas e sistemáticas na
constituição das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais
De
modo que, paralelas às influências culturais de
cunho fenomenológico e existencial, não
formalmente filosóficas, temos o papel de
influências que derivam especificamente do que
podemos entender como filosofia ocidental. Isto
na medida em que possamos assim entender as
idéias de F. Nietzsche, reconhecendo igualmente
o caráter eminentemente artístico de sua obra.
A
fenomenologia, ela também certamente originada a
partir da influência de tradições culturais
não formalmente filosóficas, tem uma clara
linha de influência no desenvolvimento das
psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais. Os psicólogos que desenvolveram a teoria
da gestalt, na Alemanha, que estudou os
processos de constituição da percepção e da
consciência, buscavam desenvolver um psicologia
de cunho especificamente fenomenológico,
inspirados pelas idéias de Husserl.
A
Psicologia da Gestalt foi uma matriz para o
desenvolvimento das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais, em especial a
Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein,
mediação fundamental e fundadora do
desenvolvimento de todas as outras: da Psicologia
Humanista, da Abordagem Centrada na Pessoa e da
Gestalterapia.
A
influência de Heidegger, e certamente de
Nietzsche, tiveram um papel central no
desenvolvimento das psicoterapias fenomenológico
existenciais européias desenvolvidas por
psicoterapeutas como L. Binswanger e M. Boss.
Psicoterapeutas de origem psicanalítica, que ao
romperem com a psicanálise e desenvolverem
abordagens especificamente fenomenológico
existenciais de psicoterapia, tiveram uma
importante influência sobre o desenvolvimento da
Psicologia Humanista, da Abordagem Centrada na
Pessoa, da Gestalterapia e da Dasein Análise.
Por
misteriosos que sejam os seus vínculos com
Husserl, não se pode deixar de perceber, seja
por sua influência sobre a fenomenologia
(Heidegger, pelo menos), seja de modo imediato, a
poderosa influência das idéias e perspectivas
de F. Nietzsche no desenvolvimento, concepções
e práticas das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais.
Junto
com uma perspectiva fenomenológica, é
especificamente Nietzsche quem está por trás do
arcabouço conceitual e dos fundamentos da
Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein.
Psicologia Organísmica esta que vai servir como
uma matriz para o desenvolvimento da psicologia
humanista, da Gestalterapia e da Abordagem
Centrada na Pessoa.
Mesmo
quando as idéias de Goldstein vão ser refinadas
e desenvolvidas, por Maslow, May, Rogers, Perls,
as idéias de Nietzsche continuam a ser, de um
modo importante e inegável, o martelo e o
cinzelo que lhes dão sentido e forma.
São
ineludíveis as origens e as raízes nas idéias
de Nietzsche de concepções e de perspectivas de
valor relativas à natureza humana, relativas à
espontaneidade, a crescimento, experiência
organísmica, liberdade experiencial, awareness, óbvio,
tendência atualizante, afirmação da vida,
afirmação da experiência, e outras.
A
linha destas influências é mais ou menos óbvia
quando atentamos para a poderosa influência já
das idéias de F. Nietzsche na intelectualidade
alemã e européia do início do século. Em
particular em um certo grupo de psicólogos e
psicoterapeutas, ou no meio artístico e
intelectual que vem a influenciar estes
psicólogos, como no caso de F. Perls.
É
ainda óbvia esta linha de influência quando
atentamos para o fato de que significativa
parcela desta intelectualidade alemã migrou para
os EUA, antes durante e depois da segunda guerra,
trazendo consigo, dentre outras, as idéias de
Nietzsche como um dos fundamentos importantes das
produções que passaram a desenvolver no Novo
Mundo. Produções estas que tiveram um papel
muito importante e fundador no desenvolvimento
das psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais, tal como elas se desenvolveram nos
EUA.
As
idéias e trabalhos de Otto Rank foram sem
dúvida um outro canal fundamental através dos
quais as idéias de Nietzsche influenciaram
marcadamente a psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial. Em particular a
chamada Psicologia Humanista e a Abordagem
Centrada na Pessoa. Otto Rank desviou-se das
idéias de Freud e foi buscar em Nietzsche o
fundamento para o desenvolvimento de suas idéias
originais em psicologia e psicoterapia. Emigrou
para os EUA e teve aí uma importante influência
na constituição da psicologia e psicoterapia
Norte Americanas, em particular da ACP e da
Psicologia Humanista. Deleuze, comentando a
relação de Nietzsche com Freud diz o seguinte:
"Do
que precede, deve-se
concluir que Nietzsche
exerceu influência sobre
Freud? Segundo Jones,
Freud negava-o
formalmente. A
coincidência da
hipótese tópica de
Freud com o esquema
Nietzscheano explica-se
suficientemente pelas
preocupações
energéticas
comuns aos dois autores.
Seremos ainda mais
sensíveis às
diferenças fundamentais
que separam suas obras.
Pode-se imaginar o que
Nietzsche teria pensado
de Freud: aí ainda ele
teria denunciado uma
concepção muito
reativa da
vida psíquica, uma
ignorância da verdadeira
atividade,
uma impotência em
conceber e em procurar a
verdadeira
transmutação.
Isto pode ser imaginado
com mais verossimilhança
visto que Freud teve
entre seus discípulos um
nietzscheano autêntico.
Otto Rank devia ter
criticado em Freud
a idéia insípida
e terna de
sublimação. Ele
reprovava Freud por não
ter sabido liberar a
vontade da má
consciência ou da
culpabilidade. Queria
apoiar-se nas forças
ativas do inconsciente,
desconhecidas para o
freudismo e substituir a
sublimação por uma
vontade criadora e
artista. Isto o levava a
dizer: sou para Freud o
que Nietzsche era para
Schopenhauer. Cf. RANK, A
Vontade de
Felicidade."
É
uma outra questão a de compreender como as
reações religiosas e moralistas às idéias de
Nietzsche produziram variações,
confrontações, negações e distorções
(frequentemente não assumidas) destas idéias,
no âmbito das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais, em especial na
decorrência de perspectivas existencialistas de
cunho religioso cristão, mediadas pelos
trabalhos, por exemplo, de Paul Tillich.
Uma
outra fonte de distorção não só das idéias
de Nietzsche como da própria fenomenologia vem
de toda uma exacerbação reativa de uma
característica pragmático empirista da Cultura
Norte Americana e Anglo-Saxã, conectada sempre
com a presença de fatores de ordem religiosa.
Fatores
culturais outros não podem ser negligenciados
nestas reações às idéias de Nietzsche e da
fenomenologia, na medida em que são filosofias e
pespectivas culturais de origens fortemente
alemães, naquele momento, que chegam aos EUA.
Naquele
momento, os EUA estavam em guerra com a Alemanha
e, evidentemente, naquele momento e a seguir,
não era tranquila a integração de pontos de
vista alemães, ou reconhecidos como tais, no
seio da Cultura Norte Americana.
De
qualquer forma, estas idéias migraram e
disseminaram-se pelos EUA, de modo frequentemente
dissociado de suas origens, camuflado, negado, ou
simplesmente desconhecido.
Houve
uma rica conjugação de perspectivas da
fenomenologia e da filosofia da vida com uma
atitude pragmática na origem e no
desenvolvimento da psicologia e da psicoterapia
fenomenológico existencial, em particular da GT
e da ACP, nos EUA.
Havia
uma aplicação e uma avaliação pragmáticas
dos resultados de um método fenomenológico
existencial de psicologia e psicoterapia. A
aplicação e avaliação desta aplicação do
método eram pragmáticas, mas,
característicamente, o método em si era, e
devia sua riqueza ao fato de ser, um método, ou
uma abordagem, fenomenológico existencial.
O que
ocorreu em termos de distorção foi que foi-se
progressiva e frequentemente esquecendo-se ou
negando-se esta característica fenomenológico
existencial do método, e tratando-se de
constituí-lo como um método cada vez mais
pragmático, e empirista. Processo reponsável
por uma perda da originalidade e empobrecimento
da abordagem, que tem sido criticado nos últimos
anos.
Não
obstante, é ineludível que a inspiração
fundamental e a originalidade e efetividade
destas abordagens de psicologia e de psicoterapia
residem na fenomenologia não só como
epistemologia, mas como atitude existencial. E na
perspectiva da crítica nietzscheana dos valores
e da Cultura da Civilização Ocidental, aí
compreendida a crítica à perspectiva religiosa,
à moral, à ciência e à filosofia
racionalista.
O VALOR DO FENOMENOLÓGICO E DO EXISTENCIAL EM
PSICOTERAPIA.
Não
foi por acaso que a fenomenologia e o
existencialismo fácil e rapidamente
constituíram-se em fundamentos de uma abordagem
de psicologia e de psicoterapia. Muitos e
interessantes motivos podem ser apontados para
esta constituição. Quero apontar apenas um, que
é o critério de sua avaliação pragmática*
por parte de psicólogos e psicoterapeutas.
Porque este foi um fator primordial.
À
medida em que passaram a entender a fenomenologia
e o existencialismo, e a aplicar os seus valores,
atitudes e concepções do homem e da realidade
em seu trabalho, psicólogos e psicoterapeutas
(estes médicos, inicialmente, em sua maior
parte) sentiram imediatamente que estavam diante
de um poderoso filão. Na América do Norte, na
América do Sul, no Japão e em certos lugares da
Europa, a abordagem disseminou-se como fogo em
mato seco. Oferecia uma alternativa para a
exclusividade das abordagens psicanalíticas ou
comportamentais, e revelava-se como uma rica e
produtiva abordagem da situação do cliente.
O que
especificamente descobriram e valorizaram
especificamente estes psicólogos e
psicoterapeutas?
Descobriram
fundamentalmente o que certas tradições dentro
das culturas humanas sempre souberam. E trouxeram
isto para o mundo de sua cultura e prática
profissionais. Ou seja, descobriram que as
atitudes que derivam da fenomenologia e do
existencialismo, longamente praticadas por certas
tradições dentro das culturas humanas, quando
aplicadas pelo profissional de saúde mental
(digamos), no âmbito de sua relação com
pessoas em dificuldades, em crise,
desorganizadas, em sofrimento agudo ou crônico,
carentes de crescimento, estes valores e estas
atitudes, quando aplicadas no contexto da
relação com estas pessoas, os clientes,
facilitam e potencializam a mobilização de seus
próprios recursos, no sentido da elaboração e
superação das dificuldades de sua atualidade
existencial, e propiciam a potencialização dos
processos de crescimento e de desenvolvimento,
como recursos de sua realização humana, e de
enfrentamento, superação e resolução de suas
dificuldades.
Numa
linguagem codificada por Nietzsche, podemos dizer
que estes valores e atitudes, derivados da
fenomenologia e do existencialismo, quando
aplicados ao âmbito da psicologia e da
psicoterapia, ao âmbito da relação
psicoterapeuta-cliente(s), propiciam a
afirmação, expressividade e desdobramento do vivido
do cliente, e, desta forma, a
potencialização das forças ativas
e de sua criatividade em sua existência.
Propiciam,
assim, a superação do niilismo e
de uma atitude niilista, do
predomínio de forças reativas em
sua vida, a superação do ressentimento e
da culpa, de um atitude de
negação do vivido e da vida, movida pelo ideal
ascético, atitude de negação do corpo,
de negação dos sentidos de negação de sua
experiência organísmica.
De
modo que a prática desta experiência pode
potencializar nele o resgate e a afirmação da
potência de sua criatividade, no enfrentamento
de suas dificuldades e no enfrentamento de suas
questões existenciais. De tal forma que ele
possa constituir-se como artista, artífice de
sua vida. E não simplesmente como vítima da
inércia das condições dadas nela.
Tudo
isto ganhou no âmbito das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais
codificações teóricas particulares.
O que
os psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico
existenciais aprenderam pode ser resumido na teoria
paradoxal da mudança: mudamos terapêuticamente,
e existencialmente, na medida em que
assumimos e afirmamos o nosso estado efetivamente
vivido organismicamente. É a afirmação do
vivido que propicia a mudança e o crescimento, a
potencialização de um devir criativo, ciente da
finitude e do sofrimento, mas exercício da
alegria de uma potência criativa.
Para
os psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico
existenciais, tratava-se então de criar as
condições para que, na sua relação com o
cliente, o cliente pudesse, e possa, assumir e
afirmar o seu próprio vivido, na pontualidade da
sessão terapêutica, como momentum das
forças de sua atualidade existencial.
Para
desenvolver este modelo de psicologia e
psicoterapia, os psicólogos e psicoterapeutas
careceram intensamente da influência das
tradições culturais particulares que vieram a
constituir-se num dado momento como a
fenomenologia e o existencialismo modernos, e
inclusive da própria influência específica
destes.
De
modo que são fundamentais na concepção e na
prática de seu modelo as perspectivas e as
características particulares e próprias da
fenomenologia e do existencialismo.
O que
aprenderam os psicoterapeutas fenomenológico
existenciais é que a simples reflexão do
cliente sobre a sua experiência, sobre o seu
mundo, relações etc., não produziam a
desejável mudança terapêutica. Da mesma forma,
a simples aprendizagem e elaboração de
conhecimento teórico e conceitual, não
revelavam valor terapêutico.
Em
contrapartida, a entrega, e a facilitação e
potencialização da entrega do cliente às
dinâmicas de seu mundo pré-reflexivo,
pré-conceitual, fenomenal, a
entrega dele a sua experiência, ao seu vivido,
aos sentidos e vivências imediatas de seu corpo,
possibilitava um enorme potencial de
auto-regulação, de auto-equilibração e de
mudança terapêutica e existencial.
Este
sempre foi e é o segredo das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais.
De
modo que é fundamental para elas a perspectiva
particular da fenomenologia. O retorno às
coisas mesmas. O retorno às coisas,
aos objetos e situações do mundo, ao mundo e a
si próprio, enquanto vividos ,
pré-reflexivamente, pré-conceitualmente,
fenomenalmente, na intuição
originária da vivência de consciência.
Retornar,
de onde?
Retornar
especificamente de um mundo teórico de conceitos
e de privilégio do teórico e do conceitual e
moral. Retornar ao mundo e ao si mesmo
enquanto efetivamente vividos pré-reflexivamente
na intuição originária da vivência de
consciência.
Esta
consigna da fenomenologia é um dos pilares
fundamentais das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais.
Por
isto que nós assumimos a perspectiva particular
e específica da fenomenologia, a sua
epistemologia e a sua proposta. Acredito mesmo
que as psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais têm uma
contribuição importante para o próprio
desenvolvimento da fenomenologia e do
existencialismo e de sua perspectiva particular.
Por
isto que, não obstante reconhecermos o mérito
de, por exemplo, tentar compreender a
fenomenologia a partir da filosofia de Hegel, ou
a partir de qualquer outro referencial, não
podemos deixar de afirmar enfaticamente a
necessidade de uma compreensão da fenomenologia
a partir de sua própria proposta e perspectiva
epistemológica, de seu fundamento. Diferente das
propostas hegelianas.
Certamente
que não se pode negar a importância fundamental
da filosofia hegeliana para a filosofia
ocidental, e mesmo para o desenvolvimento da
perspectiva da fenomenologia -- não seria um
psicólogo que tentaria fazê-lo... Mas parece
forçoso reconhecer o que separa e distingue a
fenomenologia da perspectiva hegeliana. Visto em
particular que esta perspectiva hegeliana escolhe
privilegiar o ideal, o universal, o conceitual.
Elementos de que a fenomenologia busca afastar-se
para eleger o próprio vivido pré-reflexivo como
seu fundamento e como critério epistemológico.
Dizer
que Hegel já reduz o mundo a fenômeno é
apenas uma parte muito parcial da questão, uma
vez que o termo fenômeno têm sentidos
diferentes em Hegel e em Husserl.
Deixemos
falar um filósofo:
"O
próprio conceito de
fenômeno,
que na linguagem
clássica significa o que
surge na experiência
objetiva, presta-se a
confusões, determinando
as diversas acepções de
uma
fenomenologia.
Não
se trata, como a primeira
vista pode parecer, do
estudo de um conjunto de
fenômenos ou
aparências, como se
manifestam no tempo e no
espaço; como por
exemplo, no sentido
kantiano, significando a
parte da metafísica da
natureza que trata do que
pode ser objeto da
consciência. Kant usava
o termo
fenomenologia
para explicar o que há
de intuição sensível
na objetividade e ao que
não aparece, mas que é
puramente pensado: o
em si. Ou mesmo no
sentido hegeliano,
como parte em que o
espírito, partindo das
experiências sensíveis,
alcança a plena
consciência de si mesmo.
Hegel adotou o título
fenomenologia
para explicar, num
sentido amplo, a
experiência completa da
consciência (o fenômeno
do espírito). Sendo
que o fenômeno, para ele
é sempre compreendido
como limitação relativa
a uma realidade
extra-fenomenal (o
Absoluto).
Mas
o que é fenômeno?
É
necessário, em primeiro
lugar, verificar o que é
objeto. Objeto
não é sinônimo de
coisa. O objeto é
a coisa enquanto está
presente à consciência.
Objeto é tudo o
que constitui término de
um ato de consciência,
enquanto término do dito
ato. Os objetos podem ser
reais, como esta mesa que
tenho a minha frente;
fantásticos como o
centauro; ou ideais como
uma expressão
matemática, a idéia de
verdade, de desejo, de
justiça, etc.
Fenômeno
é, pois, o aspecto do
objeto patente
imediatamente na
consciência (...). O
fenômeno é o aparente,
é a aparência. Mas,
note bem! A aparência
não no sentido de
ilusão, como oposta à
realidade, senão no
sentido do dado à
mera presença na mente,
ao que Husserl chama de consciência
pura de algo.
(...)
"As vivências são
imanentes à
consciência, fundando-se
na visão intelectual,
mediante as quais o
sujeito contempla o
objeto de forma
originária.
(...)
em torno da palavra-chave
retorno-às-coisas-mesmas,
isto é, volta à
intuição originária.
Observar e descrever
cuidadosamente os
fenômenos (sejam eles
reais ou imaginários)
com o objetivo de
apreender a essência de
determinada classe de
eventos. A preocupação
não é com a análise
dos termos, mas com uma descrição,
a mais completa e fiel
possível, dos
fenômenos. (A
descrição
fenomenológica
distingue-se radicalmente
da descrição própria
das ciências naturais,
que é uma descrição de
fatos naturais, de
realidades objetivas.)
Esse retorno ao
originário supôe
necessariamente a
rejeição radical de
toda e qualquer idéia
pré-concebida sobre o
que seja o ser, o objeto,
o conhecimento, assim
como das teorias aceitas
a-criticamente e
pré-conceitos sobre a
realidade.
A
filósofa Salma T. Muchail comentando textos de
Heidegger obserrva:
(...)
"a possibilidade
mesma da metafísica
nasce de um pensamento
que não se esgota na
metafísica, do qual ela
como que
deriva como
de seu fundamento
escondido,
fundamento que ela
abandonou ou
esqueceu(...)"É
esta pergunta, aquela que
interroga pelo que funda
a metafísica e as
ciências no sentido de
torná-las possíveis mas
de não reduzir-se a
elas, que caracteriza a
primeira
tarefa do pensamento:
primeira porque anterior
enquanto fundamento, e
primeira ainda, porque
historicamente precedeu o
nascimento da própria
filosofia. Esta questão
assim primordial do
pensamento é aquela que
pergunta por este
solo, pelo
espaço aberto, ou
melhor, pela
abertura ou
clareira que possibilita
o surgimento dos entes
particulares,
possibilitando portanto,
e também, o nascimento
da metafísica e das
ciências enquanto
conhecimento dos
entes."
Ora,
a clareira,
espaço de luz e de
sombra, precisamente
constitui o tema e tarefa
do pensamento dos
chamados pré-socráticos
que a nomearam
alétheia
(traduzível por
desvelamento).
Retornar à pergunta pelo
desvelamento,
nisto talvez se
constitua, pois, aquela
primeira
tarefa do pensamento. Mas
isto também quer dizer: de
Platão aos
Pré-Socráticos".*
"(...)
ao confundir o ser com a
idéia e, através da
idéia, o ser com os
entes, Platão instaura o
começo decisivo da
filosofia que, trazendo
em sua própria
constituição as
possibilidades mesmas de
seu desdobramento nas
ciências, é
simultaneamente o começo
de seu acabamento.
Platão marca o começo
de nossa história
ocidental européia.
"Antes
da metafísica, porém,
como condição mesma de
sua possibilidade de
instauração e de sua
história,
aquém da
metafísica, como seu
fundamento esquecido,
teve início o pensamento
que não persegue a
verdade como
omoiosis
(adequação) mas a
questiona como
alethéia."
Estas
citações ilustram, creio o fundamento da
fenomenologia. O seu fundamento na experiência
pré-reflexiva, pré-conceitual, e a sua
contraposição a uma perspectiva teorizante,
conceitual, reflexiva. Ilustram, em particular, a
proposta epistemológica da fenomenologia como
fundada no fenomenal. Mas o fenomenal como
fundamento imediato da realidade, e não o
fenômeno, tal como concebido por Hegel, como
parcialidade de um absoluto pressuposto.
Pois
bem. É esta perspectiva da afirmação do
fundamento da fenomenologia que tem se mostrado
profícua e rica na prática dos psicólogos e
psicoterapeutas fenomenológico-existenciais, e
que nos é muito cara.
Através
da temática da Dialogicidade, ela
nos adverte da singularidade, da diferença e
autonomia, da outridade, do outro,
e nos mostra que, fundamentalmente, para a
atitude fenomenológica, está colocada esta
questão da descoberta do outro em sua
particularidade e diferença próprias, E a
irrecusável questão do respeito, valor do e
interêsse, pelo outro no devir de sua outridade,
de sua diferença. A questão do outro, como, como
um foco autônomo de produção de sentido.
Questão
que abre a possibilidade da afirmação da relação
dialógica interhumana, da compreensão,
que se chamou de empática, e da
transformação no fluxo da relação. Que,
valorizadas e afirmadas na relação com o(s)
cliente(s), respondem pelos potenciais de
efetividade das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais
A
temática e questão do outro, da
diferença, já desenvolvidas por
Nietzsche, pela fenomenologia e por filósofos
fenomenológico-existenciais, como M. Buber, são
fundamentais para a teoria e prática das
psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais.
Talvez
seja este o maior mérito da fenomenologia, e que
fundamenta as psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais: a descoberta e
afirmação do valor do outro, em devir na sua
particularidade e diferença próprias, a
afirmação do valor e da importância da
dialogicidade como a possibilidade humana
propriamente ontológica.
Buber
coloca a questão:
"Este
ser humano é outro,
essencialmente outro do
que eu, e é esta sua
alteridade que eu tenho
em mente, eu a confirmo,
eu quero que ele seja
outro do que eu, porque
eu quero o seu modo
específico de ser."
Lyotard
também coloca a questão de um modo que
sumamente importante para a psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial:
"A
alteridade do outro
distingue-se da
transcendência simples
da coisa pelo facto de o
outro ser para si
próprio um Eu e de a sua
unidade não estar na
minha percepção, mas
nele próprio; por outras
palavras, o outro é um
Eu puro que de nada
carece para existir, é
uma existência absoluta
e um ponto de partida
radical para si mesmo,
como eu o sou para mim. A
questão transforma-se
então em: como é
possível um sujeito
constituinte (o outro)
para um
sujeito constituinte
(eu)?".
De
modo que talvez possamos dizer que o que confere
sentido e possibilidade à constituição da
fenomenologia e do existencialismo como abordagem
de psicologia e de psicoterapia é precisamente
esta possibilidade de uma epistemologia e de uma
ética fenomenológico existencial.
Nunca
será muito reconhecer a importância das idéias
de F. Nietzsche para o desenvolvimento das
psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais. Por mais que muitos queiram
renegá-las, depois de terem nelas se lambuzado,
inscientes, talvez de suas origens.
Um
mérito fundamental de Nietzsche é o de ter
recuperado uma ética que compreende a vida como
afirmação, já, em sua facticidade e
afetividade existencial, em sua espontaneidade e
contingência de emergência do ser-no-mundo, em
seu devir. Vida que, como tal, é o que há a ser
afirmado. Vida inocente e potente, cuja
afirmação, no que pesem a sua perecibilidade e
possibilidade de sofrimento, é a raiz do vigor
de nossa criatividade no enfrentamento das
questões de nossa atualidade existencial. Vida,
vívido vivido, que é critério potente e
original do verdadeiro e dos valores, de uma
ética das forças ativas de viver e de sua
afirmação.
HEGEL E A PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA
FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL.
Sem
entrar no mérito do seu fundamental valor para a
filosofia ocidental -- que é certamente
inegável -- , a filosofia de Hegel tem uma
situação peculiar com relação à
fenomenologia, (tal como desenvolvida pelos
fenomenólogos modernos), e com relação à
filosofia da vida de F. Nietzsche. É da ênfase
da dialética e da ênfase da metafísica
tradicional no conceitual, no universal, no
absoluto, no racional que a fenomenologia, a
filosofia da vida de Nietzsche e o
existencialismo buscam apartar-se.
Paulo
E. Arantes observa com relação a estes
últimos:
"(...)
a diversificação da
escola hegeliana e o
progressivo ceticismo com
relação às pretensões
absolutistas dos sistemas
idealistas alemães
provocaram forte reação
anti-hegeliana. Alguns
como Kierkegaard
(1813-1855) e Nietzsche
(1844-1900), salientaram
o caráter existencial do
homem frente à
unilateralidade da razão
e da abstração
hegelianas(...)"
Sobre
o idealismo de Hegel, e sobre o seu teologismo,
Gerd Bornheim observa, citando e comentando
Hegel:
"A
filosofia,
escreve Hegel, tem
a ver tão somente com o
esplendor da idéia, que
se espelha na história
universal. (...)
A história
universal é, em si
mesma, a explicação do
espírito no tempo.
Evidentemente, o
fundamento é entendido
aqui à maneira da
metafísica, porquanto
o que está em jogo
é a verdadeira teodicéia
, a
justificação de Deus na
história.
Assim a história, o
tempo e o próprio Deus
passam a constituir um
processo homogêneo.
Contra tais inícios
delirantes, a crise da
metafísica logo deixaria
perceber que o teologismo
hegeliano termina
desfigurando o processo
histórico. E é então
que o tempo histórico
passa a conquistar seu
espaço próprio.
Na
verdade, parece, pelo menos na perspectiva de um
filósofo como Gerd Bornheim, que o teologismo
de Hegel é algo mais do que uma simples
característica inicial de sua filosofia, cedo
abandonada.
É
claro, igualmente, nesta citação de Bornheim
que o idealismo característico da
filosofia hegeliana, que não parece ser
entendido como uma interpretação equivocada ou
impertinente desta filosofia, é, antes, uma
importante referência da mesma. Mais adiante,
neste mesmo texto Bornheim, referindo-se a Hegel,
chama-o de "o mestre do idealismo
alemão."
Acerca
da relação de Nietzsche com o idealismo, Fink
comenta:
"Nietzsche
concebe a inversão do
idealismo como uma tarefa
que lhe cabe (...). O
aniquilamento da
concepção idealista do
mundo, isto é, a
destruição da
religião, da moral e do
ultramundo metafísico é
tentada por Nietzsche,
mais superficialmente,
através da sua
destruição
psicológica, e mais
profundamente e num
sentido filosoficamente
significativo, através
da abolição da
alienação humana. No
primeiro caso, o
idealismo não é
verdadeiramente
convertido, mas apenas
negado; em contrapartida,
no segundo caso a
existência humana
conserva a sua
grandeza, o
homem é concebido como o
ser que se supera a si
próprio, o idealismo é
invertido: todas as
transcendências são
expressamente buscadas
dentro do homem, pelo que
lhe é conferida assim a
máxima liberdade da
criação audaciosa. O
sentimento de que só com
o fim do idealismo
aparecerão as grandes
possibilidades do homem
domina Nietzsche, é a
sua gaya
scienza."
Deleuze,
comentando a relação da filosofia trágica
de Nietzsce com relação à dialética
hegeliana, observa:
"A
dialética, em geral,
não é uma visão
trágica do mundo, mas,
ao contrário, a morte da
tragédia, a
substituição da visão
trágica por uma
concepção teórica (com
Sócrates), ou melhor
ainda, por uma
concepção cristã (com
Hegel). O que se
descobriu nos escritos de
juventude de Hegel é
também a verdade final
da dialética: a
dialética moderna é a
ideologia propriamente
cristã. Ela quer
justificar a vida e a
submete ao trabalho do
negativo."
Com
relação ao valor do trabalho do negativo,
a filosofia da vida de F. Nietzsche funda-se numa
posição diametralmente oposta à da dialética
hegeliana. Contrapondo a perspectiva de uma afirmação
da afirmação -- ou seja, afirmação
da afirmação já que é o vivido -- à
concepção e perspectiva de uma negação
da negação, cara e fundamental
na filosofia hegeliana.
Como
observamos acima, apesar de Hegel ter chamado de fenomenologia
a uma de suas principais obras, o sentido do
termo fenomeno em sua filosofia é
inteiramente diverso do sentido utilizado pelos
fenomenólogos modernos.
Vale
repetir a citação de Ribeiro Junior ao tentar
definir o sentido do termo fenomenologia:
Não
se trata como à primeira
vista pode parecer, do
estudo de um conjunto de
fenômenos ou
aparências, como se
manifestam no tempo e no
espaço; como por exemplo
no sentido kantiano,
significando a parte
metafísica da natureza
que trata do que pode ser
objeto da experiência.
Kant usava o termo
fenomenologia
para explicar o que há
de intuição sensível
na objetividade e ao que
não aparece, mas que é
puramente pensado: o
em si. Ou mesmo no
sentido hegeliano, como
parte em que o espírito,
partindo das
experiências sensíveis,
alcança a plena
consciência de si mesmo.
Hegel adotou o título
fenomenologia
para explicar, num
sentido amplo, a
experiência completa da
consciência (o fenômeno
do espírito). Sendo que
o fenômeno,
para ele é sempre
compreendido como
limitação relativa a
uma realidade
extra-fenomenal (o
Absoluto)
*.Mas
o que é fenômeno?
É
necessário, em primeiro
lugar, verificar o que é
objeto. Objeto
não é sinônimo de
coisa. O objeto é
a coisa enquanto está
presente à consciência.
Objeto é tudo o
que constitui término de
um ato de consciência,
enquanto término do dito
ato. Os objetos podem ser
reais, como esta mesa que
tenho a minha frente;
fantásticos como o
centauro; ou ideais como
uma expressão
matemática, a idéia de
verdade, de desejo, de
justiça, etc.
Fenômeno
é, pois, o aspecto do
objeto patente
imediatamente na
consciência (...). O
fenômeno é o aparente,
é a aparência.
Mas, note bem! A
aparência não no
sentido de ilusão, como
oposta à realidade,
senão no sentido do dado
à mera presença na
mente, ao que
Husserl chama de consciência
pura de algo.
A
crítica nietzscheana à dialética Hegeliana é
certamente ainda mais radical do que esta
distinção. Talvez niguém a comente com tanta
clareza como Deleuze. Ele é taxativo -- peço
licença para citá-lo um pouco extensamente:
"Não
há compromisso possível
entre Hegel e Nietzsche.
A filosofia de Nietzsche
tem um grande alcance
polêmico; forma uma
anti-dialética absoluta,
propôe-se a denunciar as
mistificações que
encontram na dialética
um último
refúgio".*
O que Schopenhauer tinha
sonhado, mas não
realizado, preso como
estava nas malhas do
kantismo e do pessimismo,
Nietzsche torna seu, ao
preço de sua rutura com
Schopenhauer. Erguer uma
nova imagem do
pensamento, liberar o
pensamento dos fardos que
o esmagam. Três
idéias definem a
dialética: a idéia de
um poder do negativo como
princípio teórico que
se manifesta na
oposição e na
contradição; a idéia
do valor do sofrimento e
da tristeza, a
valorização das
paixões
tristes, como
princípio prático que
se manifesta na cisão,
no dilaceramento; a
idéia da positividade
como produto teórico e
prático da própria
negação. Não é
exagerado dizer que toda
a filosofia de Nietzsche,
em seu sentido polêmico,
é a denúncia das três
idéias.Se
a dialética encontra seu
elemento especulativo na
oposição e na
contradição, é
inicialmente porque
reflete uma falsa imagem
da diferença. Como o
olho de boi ela reflete
uma imagem invertida da
diferença. A dialética
hegeliana é reflexão
sobre a diferença, mas
inverte a sua imagem. Substitui
a afirmação da
diferença enquanto tal
pela negação do que
difere; a afirmação de
si pela negação do
outro; a afirmação da
afirmação pela famosa
negação da negação.
-- Mas essa inversão
não teria sentido se
não fosse praticamente
animada por forças que
têm interêsse em
fazê-la. A
dialética exprime todas
as combinações das
forças reativas e do
niilismo, a história ou
a evolução de suas
relações. A oposição
colocada no lugar da
diferença é também o
triunfo das forças
reativas que encontram na
vontade de nada o
princípio que lhes
corresponde. O
ressentimento precisa de
premissas negativas, de
duas negações, para
produzir um fantasma de
afirmação; o ideal
ascético precisa do
próprio ressentimento e
da má consciência como
prestidigitador com suas
cartas marcadas. Em
toda parte as paixões
tristes; a consciência
infeliz é o sujeito de
toda a dialética. A
dialética é
primeiramente o
pensamento do homem
teórico
em reação contra a
vida, que pretende julgar
a vida, limitá-la,
medí-la. Em segundo
lugar é o pensamento do
sacerdote que submete a
vida ao trabalho do
negativo: precisa da
negação para assentar
seu poder, representa a
estranha vontade que
conduz as forças
reativas ao triunfo.
A dialética é, nesse
sentido, a ideologia
propriamente cristã.
Finalmente ela é o
pensamento do escravo,
que exprime a própria
vida reativa e o
devir-reativo do
universo. Até o ateísmo
que ela nos propôe é um
ateísmo clerical, até a
imagem do senhor é uma
figura de escravo. --
Não nos espantaremos de
que a dialética produz
apenas um fantasma de
afirmação. Oposição
superada ou contradição
resolvida, a imagem da
positividade encontra-se
radicalmente falseada.
A
positividade na
dialética, o real na
dialética é o sim do
asno. O asno acredita
afirmar porque assume,
mas assume apenas os
produtos do negativo. Ao
demônio, macaco de
Zaratustra, bastava
saltar sobre nossos
ombros; aqueles que
carregam sempre são
tentados a acreditar que
afirmam quando carregam e
que o positivo é
avaliado pelo peso. O
asno sob a pele do leão
é o que Nietzsche chama
o homem de nosso
tempo.
A
grandeza de Nietzsche é
a de ter sabido isolar
estas duas plantas:
ressentimento e má
consciência."
Num
outro momento, Deleuze afirma:
"São
as forças reativas que
se exprimem na
oposição, é
a vontade de nada que se
exprime no trabalho do
negativo. A
dialética é a ideologia
natural do ressentimento
e da má consciência. É
o pensamento na
perspectiva do niilismo e
do ponto de vista das
forças reativas. De um
lado ao outro, ela é o
pensamento
fundamentalmente
cristão: impotente para
criar novas maneiras de
pensar, novas maneiras de
sentir. A morte de Deus,
grande acontecimento
dialético ruidoso; mas
acontecimento que se
passa no fragor das
forças reativas, na
fumaça do
niilismo."
E a
seguir:
"Compreende-se
mal o conjunto da obra de
Nietzsche se não se vê
contra quem
são dirigidos os
principais conceitos. Os
temas hegelianos estão
presentes nessa obra como
o inimigo que ela
combate. Nietzsche não
para de denunciar: o
caráter teológico e
cristão da filosofia
alemã (o
seminário de
Tumbinguen); a
impotência dessa
filosofia a sair da
perspectiva niilista
(niilismo negativo de
Hegel, niilismo reativo
de Feurbach, niilismo
extremo de Stirner); a
incapacidade dessa
filosofia para atingir
outra coisa que não seja
o eu, o homem ou as
ilusões do homem (o
super-homem nietzscheano
contra a dialética); o
caráter mistificador das
pretensas
transformações
dialéticas (a
transvaloração contra a
reapropriação, contra
as permutações
abstratas).""Em
Nietzsche, a relação
essencial de uma força
com a outra nunca é
concebida como um
elemento negativo na
essência. Em sua
relação com uma outra,
a força que se faz
obedecer não nega a
outra ou aquilo que ela
não é, ela afirma sua
própria diferença e se
regozija com esta
diferença. O
negativo não está
presente na essência
como aquilo de que a
força tira a sua
atividade, pelo
contrário, ele resulta
desta atividade, da
existência de uma força
ativa e da afirmação de
sua diferença. O
negativo é um produto da
própria existência: A
agressividade
necessariamente ligada a
uma existência ativa, a
agressividade de uma
afirmação. (...)
Nietzsche substitui o
elemento especulativo da
negação, da oposição
ou da contradição, pelo
elemento prático da
diferença: objeto de
afirmação e de gozo. É
nesse sentido que existe
um empirismo nietzscheano.*
A pergunta tão frequente
em Nietzsche: o que uma
vontade quer? o que quer
este? aquele? não dever
ser compreendida como a
procura de um objetivo,
de um motivo nem de um
objeto para esta vontade.
O que uma
vontade quer é afirmar
sua diferença.
Em sua relação
essencial com a outra,
uma vontade faz de sua
diferença um objeto de
afirmação. "O
prazer de se saber
diferente" o
gozo da diferença:
eis o elemento conceitual
novo, agressivo e aéreo
pelo qual o empirismo
substitui as pesadas
noções da dialética e,
sobretudo, como diz o
dialético, o trabalho do
negativo. Dizer que a
dialética é um trabalho
e o empirismo um gozo
basta para
caracterizá-los. E quem
nos diz que há mais
pensamento num trabalho
do que num gozo? A
diferença é o objeto de
uma afirmação prática
inseparável da essência
e constitutiva da
existência. O
sim de
Nietzsche se opôe ao
não
dialético; a leveza, a
dança, ao peso
dialético; a bela
irresponsabilidade, às
responsabilidades
dialéticas. O
sentimento
empírico da diferença,
em suma, a hierarquia é
o motor essencial do
conceito, mais eficaz e
mais profundo do que todo
pensamento da
contradição."
"Além
disso devemos perguntar o
que quer o próprio
dialético? o que quer
esta vontade que quer a
dialética? Uma força
esgotada que não tem
força para afirmar a sua
diferença, uma força
que não age mais, e sim
reage às forças que a
dominam; só uma força
assim faz passar o
elemento negativo para o
primeiro plano em sua
relação com o outro,
ela nega tudo que ela
não é e faz, desta
negação, sua própria
essência e o princípio
de sua existência.
Enquanto a moral
aristocrática nasce de
uma triunfal afirmação
de si mesma, a moral dos
escravos é, desde o
início, um não ao que
não faz parte dela, ao
que é diferente dela, ao
que é seu não eu; e o
não é seu ato
criador. Por isso
Nietzsche apresenta a
dialética como a
especulação da plebe,
como a maneira de pensar
do escravo: o
pensamento abstrato da
contradição prevalece
sobre o sentimento
concreto da diferença
positiva, a reação
sobre a ação, a
vingança e o
ressentimento tomam o
lugar da agressividade.
E, inversamente,
Nietzsche mostra que o
negativo no senhor é
sempre um produto
secundário e derivado de
sua existência. Do mesmo
modo, a relação do
senhor e do escravo não
é dialética em si
mesma. Quem é
dialético? quem
dialetiza a relação? É
o escravo, o ponto de
vista do escravo, o
pensamento do ponto de
vista do escravo. Na
verdade o célebre
aspecto dialético da
relação senhor-escravo
depende de que o poder é
aí concebido não como
uma vontade de poder, mas
como representação do
poder, como
representação da
superioridade, como
reconhecimento por
um da
superioridade do
outro. O que
as vontades querem, em
Hegel, é fazer
reconhecer o seu poder,
representar seu poder.
Ora, segundo Nietzsche,
aí reside uma
concepção totalmente
errônea da vontade de
poder e de sua natureza.
Tal concepção é a do
escravo, ele é a imagem
que o homem do
ressentimento faz do
poder. É o escravo que
só concebe o poder como
objeto de uma
recognição, matéria de
uma representação, o
que está em causa numa
competição e, portanto,
o faz depender no fim do
combate, de uma simples atribuição
de valores estabelecidos.
Se a relação do senhor
e do escravo assume
facilmente a forma
dialética, a ponto de se
ter tornado um arquétipo
ou uma figura de escola
para todo jovem
hegeliano, é porque o
retrato que Hegel nos
pôe do senhor é, desde
o início, um retrato
feito pelo escravo, um
retrato que representa o
escravo, pelo menos tal
como ele se imagina, no
máximo um escravo
realizado. Sob a imagem
hegeliana do senhor é
sempre o escravo que
desponta."
Em
termos da perspectiva nietzscheana com relação
à valorização do conceitual e do pensamento da
contradição, proposta pela dialética
hegeliana, é interessante repetir a colocação
de Eugen Fink :
"O
conceito é a casca vazia
de uma metáfora que
outrora inervava a
intuição. Nietzsche
contrapôe ao homem
científico, que já não
detecta a mentira dos
conceitos, o homem
intuitivo, artístico;
um refugiou-se na
cápsula, considera os
conceitos como a própria
essência das coisas, ao
passo que o outro conhece
o engano de todas as
determinações,
incluindo o das
metáforas, embora se
mova livremente perante a
realidade, criativamente
forjando imagens. Para
Nietzsche, o homem
intuitivo, o artista é o
tipo superior em
comparação com o
lógico e o cientista.
Nietzsche
vê-o também em luta
permanente com as
convenções conceptuais;
ele já não é
mais guiado por
convenções conceptuais,
mas por
intuições. Destas
intuições não parte
qualquer caminho regular
para o território dos
esquemas fantásticos,
das abstrações: a
palavra não foi feita
para a intuição, o
homem emudece quando a
vê, ou fala em
metáforas proibidas, em
construções conceptuais
inéditas para, pelo
menos através da
destruição e do
escárnio dos velhos
limites dos conceitos,
corresponder de um modo
criador à impressão que
lhe produz a poderosa
intuição do
presente.
Fink,
ainda, observa, comentando Nietzsche em Da
Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral:
"Verdade
e mentira não
representam aqui qualquer
comportamento humano
consciente e voluntário,
pois não se trata de um
comportamento moral.
Trata-se do papel do
intelecto na totalidade
do mundo. A verdade ou a
não verdade moral que o
intelecto humano
desenvolve. Mas
até que ponto o
intelecto é verdadeiro,
em que medida ele
apreende a realidade
verdadeira, é
uma outra questão. Talvez
seja, num prisma mais
radical, uma mentira
juntamente com todas as
suas verdades."
Comentando
o processo de Nietzsche na composição do Zaratustra,
Fink cita Nietzsche no Ecce Homo:
"Alguém
faz uma idéia clara, nos
finais do século XIX,
daquilo a que os
escritores das épocas
vigorosas chamavam de inspiração?
Se não eu vou
explicá-lo. Por muito
pouco supersticiosos que
tenham permanecido, não
saberíamos
defendermo-nos da
impressão de que somos
apenas a encarnação,
apenas porta-voz, apenas
médium de forças
superiores. O conceito de
revelação, no sentido
de que algo se torna
repentinamente visível e
audível com precisão e
nitidez inexprimíveis,
de que algo abala um
homem, o transtorna até
às profundezas,
corresponde a um facto
exato. Ouve-se, não se
procura; aceita-se, não
se pergunta quem dá; o
pensamento fulgura como
um relâmpago, impôe-se
necessariamente, sob sua
forma definitiva; eu
nunca fiz uma escolha
(...) tudo acontece
involuntariamente, como
numa tempestade de
liberdade, de absoluto,
de força, de divindade.
É no caso da imagem, da
metáfora, que este
caráter involuntário da
inspiração é mais
curioso; já não se sabe
o que é símbolo,
comparação, tudo se
apresenta como a
expressão mais justa,
mais simples, mais
directa. Parece
verdadeiramente, para
recordar uma palavra de
Zaratustra, que as
próprias coisas vêem
oferecer-se como termos
de comparação. Esta é
a minha experiência
da inspiração; eu não
duvido de que tenhamos de
recuar milénios para
encontrar alguém que me
possa dizer: a
minha também é
essa.
Fink
comenta a seguir de um modo profundamente
esclarecedor:
"O
que Nietzsche formula no
que poderia ser
considerado como a sua
autobiografia é a
essência pura da
experiência ontológica;
a passagem
de Nietzsche tem o seu
oposto na Introdução
à Fenomenologia do
Espírito, de
Hegel."**
Ainda
Fink:
"No
Zaratustra brota,
à semelhança de uma
força da natureza, o
espírito de
empreendimento mais
audacioso, o
espírito da vida que
experimenta
(...). Devolver
à existência a sua
independência, a sua
indeterminação e, por
conseguinte, o seu
caráter de
empreendimento audacioso;
(...) obter para a
liberdade humana um novo
espaço onde ela se possa
instalar num quadro
totalmente novo e
empenhar-se em novas
tentativas vitais -- é
nisto que consiste a
tendência subterrânea
da filosofia da
manhã de
Nietzsche."
Deleuze
comenta ainda, com relação ao trabalho do
negativo e com relação às transformações
dialéticas; entre nós denominadas de suprassunção
(termo que nos sucita reflexões, quando
pensamos na sina e no papel do camelo de Zaratustra):
"Contradição
desenvolvida, resolução
da contradição,
reconciliação dos
contraditórios. É
Zaratustra que grita:
Alguma coisa mais
elevada do que toda
reconciliação --
a afirmação. Alguma
coisa mais elevada do que
toda contradição
desenvolvida, resolvida,
suprimida -- a
transvaloração. Este é
o ponto comum de
Zaratustra e Dionísio.
Psicólogos
e psicoterapeutas aprenderam e aprendem, de um
modo especial, o valor da fenomenologia e do
existencialismo, da filosofia da vida de
Nietzsche, em psicologia e psicoterapia, ao serem
tocados pela originalidade dos pontos de vista,
das concepções e perspectivas de valor deles.
Em particular das poderosas intuições e
poderosa crítica cultural da filosofia da vida
de F. Nietzsche. Ao afirmarem-nos em sua
prática.
Cumpre
compreender a crítica fundamental ao idealismo,
como pressuposto do privilégio da afirmação da
vida, em sua espontaneidade original. Privilégio
de sua vívida e intensa vivência, e de sua
potência criativa. Da potência criativa do espírito
de uma vida que experimenta, que tenta o
inédito, e cria. Da potência do homem no
sentido da auto-superação, e de criação do
mundo e de si próprio. De sua capacidade de
transformação, com galhardia, da fatalidade de
uma simples condição de vítima do dado, e do
pressuposto, à revelia do poder cri/ativo de seu
ser-no-mundo.
Pensar
a relação de Hegel com a fenomenologia e com o
existencialismo, e em particular com a psicologia
e psicoterapia fenomenológico existencial, exige
não só que busquemos as relações de
similaridade mas, em especial, as diferenças. E
as particularidades, segundo as quais a
fenomenologia, a filosofia da vida de Nietzsche,
e os existencialismo, se distiguem agudamente das
perspectivas hegelianas. Em particular porque
são especificamente estas distinções que
conferem a originalidade e a efetividade à
fenomenologia e ao existencialismo, e às
psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais.
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