PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 6 A
Experimentação Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
(Thomas Merton, Mensagem aos Poetas.) Talvez nada haja de tão próprio e característico em termos do sentido da Gestalterapia quanto o seu caráter especificamente experimental. A prática da Gestalterapia, o sentido de suas raízes mais vigorosas, sua história e cultura, as formulações de Perls, tudo isto aponta para um certo caráter decididamente experimental. O presente texto busca contextualizar e caracterizar o sentido fenomelogico existencial experimental da Gestalt Terapia, a partir das influências históricas que atuavam no momento de seus desenvolvimentos originais. Buscamos assim comentar as implicações da crítica fenomenológica de Franz Brentano à Psicologia Experimental de Wundt, na constituição da Fenomenologia Moderna e do caráter experimental da Gestalt Terapia, e a constituição deste caráter a partir da concepção do sentido profundamente experimental da perspectatividade da filosofia da vida, da gaya ciência nietzscheana. Comentamos, além disso, o modo como as concepções da fenomenologia hermenêutica de Heiddeger podem contribuir para uma elucidação e desdobramento deste sentido experimental da Gestalt Terapia. Queremos destacar como este sentido fenomenológico existencial experimental oferece um consistente fundamento filosófico para a Gestalterapia e o substrato básico para a sua concepção teórica e metodologia. SOBRE AS RAÍZES DO SENTIDO DO EXPERIMENTAL EM GESTALT TERAPIA É interessante observar que Perls e os seus companheiros pioneiros no desenvolvimento da Gestalt Terapia desenvolveram em si próprios um profundo sentido existencialmente experimental. Tanto a partir das influências culturais, intelectuais, científicas e artísticas dos movimentos de que participavam na Berlim das primeiras décadas do Século XX, como a partir de suas próprias experiências de vida, no conturbado ambiente da Alemanha de então. Na medida em que aqueles movimentos intelectuais, científicos e artísticos foram destroçados pelo desenvolvimento do Nazismo, Perls e os pioneiros da Gestalt Terapia emigraram, e foram, no Novo Mundo, como que sobreviventes de um naufrágio, náufragos desses movimentos destroçados. Traziam arraigado em si o sentido de transmiti-lo à nova realidade em que aportavam. De modo que os fundamentos de sua própria postura, profunda e decididamente experimental, num sentido especificamente fenomenológico e existencial, contribuíram vigorosa e decididamente para o desenvolvimento da formulação e da prática da Gestalterapia. Uma das características mais fundamentais desta postura fenomenológico existencial experimental é a de ser ela um empirismo. Um empirismo num sentido particular, é certo, uma vez que não é um empirismo objetivista, mas um empirismo do vivido. A concepção de empirismo diz respeito a uma abordagem da realidade a partir da própria vivência da tal realidade, e não a partir de pressupostos teóricos. Seguindo a Aristóteles, e distinguido-se de outras tendências do Empirismo, em especial empirismos objetivistas, a particularidade das concepções de Brentano é a de que elas constituem um empirismo da consciência. Um empirismo do vivido. Ao lado de mal entendidos particularmente norte americanos acerca de sua natureza própria, este caráter empirista desta perspectiva da experimentação fenomenológico existencial fez com que houvesse uma certa restrição, por parte de seus portadores, à teorização acerca dele. O que facilmente se configura como um equívoco. Que pôde levar a distorções, por exemplo, em certos momentos, de entender a Gestalt Terapia como um comportamentalismo fenomemenológico. A Gestalt Terapia é na verdade um empirismo fenomenológico, e não um suposto comportamentalismo fenomenológico, o que traria outras conotações. Não é de se negligenciar, por outro lado, o fato de que era um médico o seu mais destacado portador, não um filósofo ou psicólogo. E, além do mais, um escritor com dificuldades com o inglês. De modo que, apesar de compreendê-lo e vivenciá-lo profundamente, uma vez que, para ele, era este sentido experimental um imperativo não só intelectual, mas um imperativo profundamente existencial, Perls não poderia tratá-lo em profundidade teórica e filosófica; uma profundidade que era alheia a sua formação profissional. De modo que o sentido especificamente experimental particular da Gestalterapia permaneceu muito mais implícito do que explicitado em suas formulações. Do lugar, histórico, geográfico, cultural, de nossa recepção particular da Gestalterapia, podemos ver em perspectiva a sua genealogia e o seu desenvolvimento, a partir do sentido da perspectiva da experimentação fenomenológico existencial. Mais que isto, acredito, precisamos compreender esta genealogia e este desenvolvimento, para recebermos a herança da Gestalterapia e a ela fazermo jus, em nosso tempo e lugar. Tudo que vimos comentando sobre o sentido do experimental na perspectiva fenomenológico existencial aplica-se, assim, de um modo muito especial e específico à Gestalterapia. Ou seja, é da evolução deste sentido fenomenológico existencial do experimental que se desenvolve o sentido do experimental próprio à Gestalterapia. Buscar entender, assim, o sentido do empirismo e do método aporético, e o relativismo da ciência natural aristotélica, é certamente entender o sentido especificamente experimental da Gestalterapia. Em particular tal como eles são apropriados por Franz Brentano, no desenvolvimento empirista e aporético da abordagem de sua Fenomenologia e de sua Psicologia Fenomenológica. Aristóteles e Brentano, juntamente com Nietzsche, Buber e Kiekegaard são definitivamente os precursores mais remotos e mais proeminentes da Gestalt Terapia. No caso da Psicologia da Gestalt, não podemos deixar de entender ser Brentano o seu fundador, tendo transmitido a sua inspiração inicial a Carl Stumpf, que, por sua vez, transmitiu-a a Max Wertheimer, a Kurt Koffka e a Wolfgang Köhler. Kurt Goldstein uniu-se a Max Wertheimer e aos outros, e certamente através deles Fritz Perls inteirou-se das perspectivas da Psicologia da Gestalt, e do experimentalismo aporético de Brentano. Brentano, como observamos, contestou o sentido do experimental, e o próprio sentido da Psicologia de W. Wundt. Se, por um lado, Brentano não nos legou uma concepção alternativa da Psicologia Experimental em particular porque foi cauteloso com o sentido de uma ciência experimental em psicologia -- a ele devemos um novo sentido, fenomenológico, da psicologia, e do método em psicologia. Mais que isto, Brentano nos legou, e à Filosofia, um método empirista e aporético de abordagem da consciência, aparentemente aparentado da perspectatividade aporética nietzscheana, e que pode, acredito, ser entendido, num sentido fenomenológico e existencial, como um método experimental. Já bem distante, agora, da concepção do experimental de Wundt. A abordagem aporética funda-se no caráter especul ativo, argument ativo do ser, do vivido, do fenômeno, da palavra: na ato alização de uma possibilidade do ser, esta possibilidade em atualização perde cada vez mais em sentido, na medida em que realiza-se: e perde em possibilidade, passando possibilitar e a significar cada vez menos. Porque, a possibilidade em atualização significa cada vez mais, potencializa-se, na medida em que ela constitui o seu sentido, na atualização, ao mesmo tempo em que este sentido, livre de um en si mesmamento, constitui-se na tensão com possibilidades de sentido ainda não explicitadas, potencializando-lhes, desta forma, a explicitação. A disposição do método aporético segue a atualização do sentido da possibilidade de ser, na sua configuração, mas não mergulha no abismo de seu en si mesmamento, no qual ela perde progressiva e inexoravelmente todo o seu sentido. A disposição do método aporético reconhece que o poder do sentido do explícito, do vivido, do dito, do fenômeno, do ente, vincula-se necessariamente ao poder (poietico) do não explicitado, do não vivido, do não dito, possibilidade do ser. De modo que a disposição aporética configura-se no movimento da explicitação, atualização, do sentido da possibilidade do ser; e, igualmente, no movimento da pregnância da possibilidade do vir a ser, que potencializa o sentido da possibilidade atualizada, na configuração de suas possibilidades. Na verdade, trata-se do movimento e percurso no círculo hermenêutico, nos quais a parte esclarece-se, e constitui-se, não apenas na sua partidade e no sentido atualizado de sua partidade, mas, igualmente, na pertinência às possibilidades do todo -- que é diferente da soma das partes. No círculo hermenêutico, o movimento aporético configura a explicitação da parte, mas "retorna" às possibilidades da configuração do todo, que constitui novas partizações, que potencializa e refunde o sentido das partes atualizadas. Pablo Neruda toca primorosamente nesta questão na intensa afirmação, aparentemente ambígua de sua declaração: Posto que de dois modos é a vida. A palavra é uma asa do silêncio, O fogo tem uma metade de frio. Eu te amo para começar a amar-te, Para recomeçar o infinito E para não deixar de amar-te nunca: Por isso não te amo todavia. Te amo e não te amo como se tivesse Em minhas mãos as chaves da fortuna E um incerto destino desditoso. Meu amor tem duas vidas Para amar-te Por isso, te amo quando não te amo E te amo quando te amo. (Pablo Neruda) Assim sendo, em Gestalt Terapia, por exemplo, o cliente "é", intensamente, a montanha de seu sonho, em toda a sua majestade, solidez e altitude, que alcança as nuvens... a enormidade de suas dimensões e quietude... Mas também não é..., e "é", igualmente, com alegria e intensidade, comovido, o pequeno caminho que ele trilha por algum pequeno lugar naquela mesma montanha... E intensamente é, mas igualmente não é... É ele próprio no seu sonho, diferente do que ele "na verdade", na "vida real", é, na sua vida cotidiana, vestido de um modo diferente, em alegres tons de amarelo... Ele "é" o tigre que caminha soberbo e sem pressa pelo bosque acima do caminho, e do qual ele não tem medo... ele "é" um não ter medo, um não ter medo de um animal tão forte e feroz, a m e d r o n t a d o r, ...o tigre, animal que ele igualmente "é" ...e não é só, e não é mais, e é diferente... Ele é bosque, tranquilo e ensombrecido, onde vive o tigre, tapete de folhas caídas, luz cristalina que se filtra intensa pelas brechas no teto de copas... Montanha, caminho, o próprio cliente no sonho, o tigre, o não ter medo, o bosque são qualitativos e irredutíveis. Cada um tem a mportância do seu sentido e lugar próprios. Mas nenhum faz sentido de per si, cada um convoca necssariamente outro, ou outros, na multiplicidade atual de sua configuração; cada um, e a configuração de sua atualização, convocam a dimensão de um não explicitado, de um não atualizado, fonte que não cessa de fluir e explicitar, atualizar, novidades de possibilidades (poiese). De modo que o sentido que engendra-se no aporético, e o próprio sentido da parte, não pode estar no exclusivismo da viagem da parte, mas na aquiescência com os outros sentidos que se configuram e que emanam da configuração do sentido das outras partes, e da configuração do sentido da multiplicidade do todo. A aporese é a afirmação plena do interesse do sentido de uma possibilidade, e a aquiescência com a emergência da força dos sentidos que emanam das totalidades de que ela é partícipe. Esta compreensão deste caráter argument ativo, especul ativo, da consciência, da vivência, do ser, da palavra, e a disposição de configurá-lo em suas dinâmicas e movimento, sem o concurso de pressuposições teóricas, é própria do empirismo aporético de Brentano em filosofia e psicologia. Abordagem que ele preferiu designar de Empírica, ao invés de "experimental". Uma vez que ele não acreditava, que dado a sua natureza própria, a consciência pudesse ser objeto de experimentação, ao modo das ciências físico-químicas e biológicas, como pretendia Wundt. Parece, assim, evidentemente, da maior importância atentar ao empirismo aporético brentaniano da consciência, na compreensão e desdobramento do sentido específico do experimental em Gestalterapia, uma vez que este empirismo está na base do desenvolvimento da Psicologia da Gestalt e da própria Gestalt Terapia. E, em particular, diante do fato de que o empirismo aporético de Brentano em muito se assemelha à experimentação e à perspectatividade nietzscheanas, que tanto influenciam a Gestalt Terapia. De um modo tal, que não parece nada impróprio dizer que a Gestalt Terapia é um empirismo aporético, e experimental, diríamos, da consciência. M. Wertheimer, K. Koffka e W. Köhler, os conhecidos fundadores da Psicologia da Gestalt e K. Goldstein foi certamente influenciado decisivamente --, foram alunos de Karl Stumpf, um dileto discípulo de Brentano. Conhecendo-se o empirismo brentaniano da consciência, facilmente se identifica e entende como o sentido deste empirismo se constitui no estilo da Gestalt Terapia, e da chamada Psicologia Humanista em geral. Muitas, e significativas, contribuições outras de Brentano tais como, a concepção de consciência como totalidade diferente da soma das partes, a concepção do modo de abordar a consciência a partir da percepção interior, e não da introspecção; as concepções relativas às relações entre parte e todo na totalidade da consciência; etc. tudo isto passou para os Perls a partir da contribuição de Brentano, via Stumpf, Wertheimer e Goldstein. Por outro lado, é definitivamente fundamental a presença de Nietzsche na concepção experimental da Gestalterapia. Morto quase que anônimo, em 1900, a sua presença tornou-se rapidamente poderosa no meio intelectual e artístico da Alemanha entre esta data e o início da década de 30 do Século XX. Além de uma influência filosófica direta, e através dos desenvolvimentos do Existencialismo, a influência de Nietzsche alcança os Perls através do Movimento do Expressionismo alemão, que foi profundamente influenciado por Nietzsche. O Expressionismo teve em Nietzsche o seu principal e mais influente filósofo -- e, mais especificamente, neste movimento, o Movimento do Bauhaus, influenciado por Nietzsche, e que teve uma marcante influência sobre os Perls. Por outro lado, Nietzsche passou a frequentar a Psicanálise e as concepções de psicoterapia através da aquiescência de Otto Rank, que passou a orientar-se profundamente a partir da perspectiva nietzscheana, na constituição de suas idéia de uma psicoterapia da vontade. Rank teve uma profunda influência sobre Perls. E, através desta influência, as perspectivas de afirmação irrestrita da vida e do experimentalismo perspectivativo nietzscheano chegaram fortemente, também, à Gestalt Terapia. Otto Rank, como um psicoterapeuta de raiz Nietzscheana "Estou para Freud assim como Nietzsche está para Schopenhauer", costumava dizer --, teve, assim, uma grande influência sobre Perls, e é também um canal através do qual a influência da atitude experimental nietzscheana se constitui na Gestalt Terapia. Assim a Filosofia da Vida de Nietzsche está presente de diversas formas seminais na disposição experimental específica da Gestalt Terapia. Na atitude básica de aceitação e de irrestrita afirmação da vida, em seu caráter experimental próprio -- o estilo experimental de uma vida que experimenta (Fink) --; a compreensão e afirmação da finitude inevitável, e do seu sofrimento, no sentido do trágico, caminho da criação, da potencialização do devir e da promoção de uma super abundância de forças de vida, como potencialização do retorno da vontade de viver; a compreensão da vida como perspectivativa, e a disposição experimental perspectivativa para a sua vivência, como raiz da criação do verdadeiro e da humana avaliação. Certamente que não podemos esquecer a Buber. Buber constitui-se como um nexo fundamental para a compreensão, concepção e prática da Gestalt Terapia, uma vez que foi uma de suas fontes mais básicas. Tanto Fritz quanto Laura, esta em particular, sofreram uma profunda influência de Buber na constituição de suas idéias. Buber sofreu uma marcante influência de Nietzsche, que era uma de suas fontes primordiais, no esforço de revitalização da vida judaica na Alemanha e na Europa, no início do Século XX. A contribuição de Buber para a ontologia dialógica do humano é fundamental para a concepção e método da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Aparentemente ainda longe de revelar os seus melhores frutos neste sentido. Não parece tematizado, todavia, o caráter experimental imanente à atitude dialógica. Este, não obstante, parece irrecusável, e parece ter marcado profundamente a fundamentação, concepção e método da Gestalt Terapia. Na verdade, para Buber, não só o momento ontológico da relação eu-tu, mas toda a vida humana no mundo e a relação com espiritualidade transcendente, ganham um caráter dialógico e experimental "... o simples todo vivido na sua possibilidade do diálogo. A incorporação de uma atitude afirmativa dos momentos dialógicos da vida implica a afirmação de uma abertura para a revolução experimental da cotidianidade do mundo do Isso. A vivência habitual do dialógico, implica uma vulnerabilização da estagnação deste mundo da cotidianidade do Isso à transformação emergente da escolha das possibilidades latentes de sua atualização. Entre decurso das coisas e re-volta, o dialógico configura-se inevitavelmente como transformação experimental a partir de uma afiramação da concretude da existência. A entrega à concretude da existência faz parte fundamental da situação herenêutica da Gestalt Terapia. A Gestalt Terapia configura-se como uma pedagogia do dialógico, que, a partir do privilegiamento de uma entrega à concretude da existência, potencializa a abertura ao dialógico, e á habitualidade da revolução da vida do Isso na nossa vida. A aquiescência dialógica tematizada por Martin Buber parece assim compor, de um modo relevante, também, o sentido do experimental em Gestalt Terapia. A aquiescência afirmativa nos momentos dialógicos permite a auto regeneração e a re gen era ação experimental da vida e do mundo que nos dizem respeito, a partir das possibilidades disponibilizadas, e das possibilidades escolhidas, nas nossas determinações. Assim, é marcadamente através da contribuição de Buber, também, do privilegiamento das condições de uma atitude experimentalmente dialógica, que se constitui o caráter experimental da Gestalterapia, na medida em que os Perls são profundamente influenciados por sua Filosofia do Dialógico. A Fenomenologia Hermenêutica de Heidegger, ainda que possivelmente não tenha influenciado diretamente o desenvolvimento da concepção da Gestalt Terapia, pode, certamente, oferecer muito boas possibilidades para a compreensão e desdobramento da concepção do caráter experimental da Gestalt Terapia. Em particular, porque esta fenomenologia hermenêutica é um desdobramento do mesmo movimento fenomenológico e hermenêutico que dá origem a Psicologia da Gestalt e ao caráter peculiar da Gestalt Terapia, a tradição fenomenológica de Brentano. Mesmo em Ser e Tempo, Heidegger aponta para a possibilidade de uma perspectiva que creio que podemos entender como eminentemente experimental, no sentido em que temos falado, do ser-no-mundo. Diferente das, e anteriormente às, possibilidades de uma analítica da existência -- em particular em Psicologia e Psicoterapia --, é o próprio desdobramento imediato, ontológico pré-ontologização, interpretação, das possibilidades da pré-compreensão ontológica do vivido, que constitui a interpretação fenomenológico existencial, no sentido heideggeriano. Ontológica pré ontologização, esta interpretação do vivido é, em si mesma, eminentemente experimental: "Y el ser ahí es mío en cada caso, a su vez, en uno o otro modo de ser. Se ha decidido ya siempre de alguna manera en qué modo es el ser ahí mio en cada caso. El ente al que en su ser le va este mismo se conduce relativamente a su ser como a su mas peculiar possibilidad. El ser ahí es en cada caso su possibilidad, y no se limita a tenerla como una peculiaridad, a manera de los entes ante los ojos. Y por ser en cada caso el ser ahí essencialmente su possibilidad, puede este ente en su ser elegirse a si mismo, ganarse y también perderse, o no ganarse nunca, o solo parece ser que se gana. Haberse perdido y aún no haberse ganado sólo lo puede en tanto es, por su esencia misma, posible, ser ahí proprio, es decir, apropriado por si mismo y para si mismo. Afirmar esta pré compreensão e interpretar a possibilidade de ser ele mesmo, a ousadia de interpretar-se, "coragem de ser", como concebeu Tillich, podem ser entendidos como a configuração no ser aí da possibilidade de uma hermenêutica experimental, no sentido que temos falado. Ser ontológico aún no quiere aqui decir: desarollar una ontologia. Si reservamos, por ende, el título de ontologia para el perguntar en forma explicitamente teorética por el sentido de los entes, hay que designar este ser ontológico del ser ahí como preontológico. Pero esto no significa tan sólo ser ónticamente sino ser en el modo de un comprender el ser. (...) El ser ahí se comprende sempre a sí mismo partiendo de su existencia, de una possibilidad de ser él mismo o no él mismo. Estas possibilidades, o las ha elegido el ser ahí mismo, o este ha caído en ellas o crecido en cada caso ya en ellas. La existencia se decide exclusivamente por obra del ser ahí mismo del caso en el modo del hacer o el omitir. La questión de la existencia nunca puede liquidarse sino por medio del existir mismo. La compreensión de si mismo que lleva la dirección en esto la llamamos existencial. La questión de la existencia es una incumbencia óntica del ser ahí. Para liquidarla no se ha menester de ver a través teoreticamente de la estructura ontológica de la existencia." De modo que parece claro que Heidegger aponta especificamente as possibilidades existencialmente experimentais, no sentido que estamos falando, de uma hermenêutica fenomenológico existencial: La existencia se decide exclusivamente por obra del ser ahí mismo del caso en el modo del hacer o el omitir. La questión de la existencia nunca puede liquidarse sino por medio del existir mismo. Propiciando, assim, interessantes possibilidades para uma contextualização, compreensão, esclarecimento e desdobramento do sentido especificamente fenomenológico existencial experimental da Gestalt Terapia. El ser ahí es su pasado en el modo de su ser que, dicho toscamente, se gesta en todo caso de su advenir. El ser ahí, en su modo de ser en todo caso, y segun esto también con la comprensión del ser que lhe es inerente, está envuelto en una interpretación tradicional de él y se desenvuelve dentro de ella. Partiendo de ella se comprende imediatamente y dentro de cierto círculo constantemente. Esta comprensión abre las posibilidades de su ser y las regula. (...) Esta elemental historicidad del ser ahí, puede permanercele oculta a este mismo. Pero también puede descubrirse de cierto modo y experimentar un peculiar cultivo." Não sabemos se Perls teria tido alguma influência direta da Filosofia de Heidegger, é possível que não. Mas as concepções heideggerianas são inerentes às posturas da Gestalterapia. E certamente oferecem importantes subsídios para o seu esclarecimento e desdobramentos. Desta forma, a Gestalterapia, tal como formulada por seus pioneiros, é uma tributária emérita de uma certa reconfiguração e recontextualização específicas da concepção do experimental, que se constitui a partir das obras de Brentano e de Nietzsche, tendo a Buber e a Heidegger como significativas vertentes. Reconfiguração e recontextualização estas que remontam a Aristóteles, na medida em que Brentano e Nietzsche participam de um movimento de retomada dos Gregos, e em específico de Aristóteles, na busca de uma superação da Escolástica, do hegelianismo e do Idealismo Alemão, que foi própria do ambiente intelectual da Alemanha e da Europa Continental do Século XIX. O SENTIDO EXPERIMENTAL DA GESTALTERAPIA EM PERLS É de raiz bastante profunda e consistente, portanto, o sentido do sentido experimental na fundamentação filosófica, na concepção teórica e método da Gestalterapia. E justamente assim, em termos de fundamentação filosófica, de concepção, e de, digamos, método. A Gestalt Terapia fundamenta-se e enraiza-se, desta forma, no leito consistente da fenomenologia existencial e de uma filosofia da vida e da existência, eminentemente afirmativa experimental, perspectivativa. A filosofia da vida de Nietzsche e o existencialismo. Nesta concepção, como vimos, a vida, a própria vida, é compreendida como eminentemente experimental. Cumpre-nos aprender, afirmar, e viver este sentido experimental inerente à vida, como forma de afirmação, e de desdobramento, de potencialização, da super abundância de forças do modo de existência artístico de uma vida afirmativa criativa. Para a teoria da Gestalt Terapia, neste sentido, a própria vivência, o vivido, em seu caráter afirmativo experimental, e na sua efetiva afirmação experimental, em suas forças e dinâmicas, constitui-se e afirma-se como dominância organísmica. Dominância esta que, bem nietzscheanamente, configura-se -- não só como a intrínseca motivação para a ação, no processo do contato/auto regulação/ajustamento criativo, mas, igual e simultaneamente -- como fundamento do verdadeiro, e como fundamento ético do que fazer. A vivência, o vivido, eminentemente experimentais, e suscetíveis à afirmação experimentativa, perspectivativa, na ação, no campo organismo-meio, configuram-se no processo do contato, da auto regulação organísmica e do ajustamento criativo, no sentido da mobilização da consciência e da ação do organismo no meio, para a efetivação do contato, da auto regulação e do ajustamento criativo; ao mesmo tempo em que são reconhecidos como critério ético, como critério do verdadeiro e do real: "Qualquer conjunto ordenado de tais dominâncias em situações atuais é capital para a ética e para a política. (...) a teoria da natureza humana é a ordem da auto-regulação "saudável". A postura de afirmação auto-reguladora do vivido na ação contactante, própria da postura da Gestalt Terapia, funda-se, assim, numa compreensão das dominâncias deste vivido como éticas, como critério do verdadeiro, como guias efetivas na efetivação do contato. Desta forma, a postura metodológica da Gestalt Terapia orienta-se no sentido simplesmente da potencialização da afirmação experimental, na atualização, das dominâncias do vivido, enquanto tais, no âmbito de uma perspectiva de concepção experimental da própria vida, e da psicoterapia: Perls, Hefferline e Goodmann definem a Gestalt Terapia desta forma: E, a seguir, observarão: (...) propomos como estrutura da entrevista: excitar uma emergência segura pela concentração na situação atual (...). Considere uma situação algo como se segue: (...) O paciente, como um parceiro ativo no experimento* concentra-se sobre o que ele está presentemente sentindo, pensando, fazendo, dizendo (...) Perls Hefferline e Goodmann comentam a seguir a insegurança implicada no processo do ajustamento criativo e da auto regulação experimentais, próprios da vida, e o próprio caráter experimental da resolução da insegurança que dele pode decorrer: EXPERIMENTAÇÃO, CONTATO, AUTO REGULAÇÃO, AJUSTAMENTO CRIATIVO A Gestalt Terapia é, assim, congênitamente experimental, no sentido do viés da tradição da experimentação fenomenológico existencial. Este sentido de seu caráter experimental é perfeitamente coerente com a sua concepção da natureza humana, e com as posturas e objetivos de sua metodologia. Mais do que isto, acredito, a Gestalt Terapia, enquanto tal, parece ser neste sentido uma proeminente vertente da fenomenologia existencial hermenêutica, na medida em que tem buscado uma prática efetiva desta, nas situações não raro existencialmente densas da psicoterapia. Neste sentido, acredito que a Gestalt Terapia pode escrever já um capítulo especial. Evidentemente que se há que considerar a constituição múltipla da Gestalt Terapia, a partir de diferentes fontes. O que, em certos momentos, pode, circunstancialmente, distanciá-la deste seu caráter de hermenêutica fenomenológico existencial experimental. Mas não compromete a adesão de sua fundamentação, de sua concepção e metodologia básicas, a esta perspectiva. Mais que isto, isto aponta para uma necessidade de esclarecimento, de depuração e decantação dos fundamentos da Gestalt Terapia, e mesmo de novos desenvolvimentos, filosóficos, conceituais e metodológicos. De qualquer forma, na formulação de Perls, é nítido o caráter fenomenológico existencial experimental da Gestalt Terapia. Na medida em que, como observa Heidegger, a existência só se resolve existen(sz)cialmente, o contato, e, vale dizer, a auto regulação organísmica e o ajustamento criativo, só se resolvem experimentalmente. Em particular porque é na efetivação do contato, efetivamente cultivado, que se resolvem a auto regulação organísmica e o ajustamento criativo. Isto implica entender que o ser-no-mundo só se resolve experimentalmente. Contato efetivo é o ser-no-mundo, é o cultivo consequente do cuidado do ser-no-mundo (Quattrini). A ato alização do ser-no-mundo. E cuidar é experimentar. O cuidar é experimental. Que descuido que é o medo, a covardia e a acomodação! É da condição humana que só existe cuidado com a ousadia da ato alização -- que é experimental, na medida em que é ousadia de atualização de possibilidades, que só podem vir a ser por força desta ousadia -- do ser-no-mundo. Sem uma disposição e uma ato aliz/ação experimental não existe o cuidado do ser-no-mundo. E a ato aliz/ação experimental do ser-no-mundo é a coragem de ser (Tillich) aquelas possibilidades de que Heidegger diz O contato cuidadoso, diverso do descuidado, do descuido, implica a interpretação, a hermenêutica, a ato aliz/ação, do ser-no-mundo, a partir da prepotência e inquietação de suas prementes possibilidades de ser. De modo que a Gestalt Terapia é a instigação, o cultivo, da experimentação no contato, a potencialização do contato cuidadoso, ativamente hermenêutico. A efetivação do contato, da consciência e da ação criativas, efetivamente poiéticas, permite numa linguagem da Psicologia Organísmica a auto regulação organísmica nas situações experimentais da terapia, e a potencialização do ajustamento criativo nas relações organismo-meio. O contato cuidadoso, efetivamente experimental, que atualiza as possibilidades prementes do ser-no-mundo, é passagem criativa pela linha de menor resistência, diga-se --, é criatividade, criação, ato aliz/ação do ser-no-mundo. O EXPERIMENTO GESTÁLTICO Desta forma é que a Gestalt Terapia caracteriza-se como uma abordagem eminentemente experimental. O espaço de sua prática e o seu método são eminentemente experimentais, num sentido fenomenológico existencial. Isto constitui a tradição do experimento em Gestalt Terapia. Em primeiro lugar, é necessário entender, a partir do que temos exposto, que não existem técnicas gestálticas. Que em Gestalt Terapia não se aplica técnicas. Como hermenêutica existencial, a Gestalt Terapia não aplica técnicas, mas busca centrar-se na potencialização da própria eventualidade do vivido, no processo do seu acontecer. A questão da existência só se resolve existencialmente (Heidegger), de modo que não são os recursos da técnica, alienígenos à natureza própria do vivido, que podem dar resolução à existência. Apenas a própria afirmação experimental da existência pode dar-lhe resolução. O caráter experimental da vivência da Gestalt Terapia, do experimento em Gestalt Terapia, constiui-se intrinsecamente no próprio caráter experimental da afirmação da existência e desdobramento do vivido, em si mesmo, e não a partir da aplicação de técnicas. O experimento nasce necessariamente do próprio vivido. Enquanto que as técnicas lhe são alheias. É necessário entender, assim, que a concepção de experimento em Gestalterapia tem uma ampla e consistente contextualização e fundamentação fenomenológico existencial. Que assenta-se numa compreensão experimental da vida, como vida afirmativa, animada por um espírito experimental, que anima uma atitude e um estilo afirmativos experimentais. O estilo experimental é, antes de mais nada, em Gestalt Terapia, uma filosofia da vida, uma atitude afirmativa, decididamente hermenêutica, diante da premência existencial, da potência e inquietação das possibilidades do ser-no-mundo. É com esta postura que o Gestalt terapeuta recebe e acolhe o cliente. É esta atitude que ele oferece ao cliente. O GRANDE EXPERIMENTO EM GESTALTERAPIA De modo que o encontro terapêutico é todo ele experimento e experimentação -- no sentido fenomenológico existencial -- no que este encontro depender da disposição do terapeuta, e do que ele puder, neste sentido, mobilizar o cliente. Com maiores ou menores gradações de concentração. Assim, são experimentais o todo e as partes do encontro terapêutico. Podemos chamar de Grande Experimento, assim, a esta totalidade do encontro terapêutico em Gestalt Terapia, na medida em que ele é um contexto e substrato experimental para o desdobramento experimental da vivência do cliente, a partir das premências de sua atualidade existencial. Em sendo assim, busca-se uma centração experimental nas questões da atualidade existencial do cliente, eventualmente críticas, não a partir da reflexão, da teorização, da conceituação, ou da aplicação de técnicas, mas, nos melhores momentos, como desdobramento das possibilidades da vivência delas por parte do cliente, como desdobramento interpretação das possibilidades de ser do seu vivido imediato pré reflexivo, pré conceitual. Nessas condições, fica delicado mesmo falar em método, na medida em que o método é o investimento da sensibilidade, do poder, da habilidade do terapeuta, no sentido de criar com o cliente uma situação fenomenológico existencial hermenêutica experimental, baseada na dialogicidade experimental centrada na afirmação do vivido pessoal e inter-humano entre ele e o cliente. O que demanda o desdobramento do vivido do cliente, na relação com o terapeuta, no âmbito da instituição psicoterapia. Este processo se dá naturalmente, sem a necessidade de que se recorra a recursos outros que não sejam os recursos humanos expressivos básicos do cliente e do terapeuta. Naturalmente aí entendidos os recursos atitudinais do terapeuta para privilegiar a dialogicidade experimental na relação inter humana com o cliente. O PEQUENO EXPERIMENTO EM GESTALTERAPIA Por outro lado, a vivência experimental do cliente, no tempo e no espaço da terapia, pode ensejar a possibilidade de que certos recursos, materiais ou não, possam ser usados no sentido de potencializar a expressividade, a interpretação, e a atualização de possibilidades vivenciais na vivência intrínseca e hermenêutica do cliente. O terapeuta pode, assim, lançar mão do trabalho com sonhos, da dramatização de situações existenciais carregadas de um sentido crítico para o cliente, de jogos de diálogo, de meios e recursos expressivos, etc., que possam potencializar a vivência, a expressividade e a atualização de possibilidades na vivência do cliente. O uso desses recursos caracteriza o que se pode chamar em Gestalt Terapia de Pequeno Experimento. É importante que fique claro o caráter fenomenológico existencialmente experimental do pequeno experimento. Ele jamais é uma técnica, uma vez que ele brota necessariamente da vivência imediata do cliente, configurando-se no seu mais puro sentido como experimentação fenomenológico existencial. A técnica tem uma definição a priori, pressupôe um aplicante definido como tal, e procedimentos padronizados, bem dentro da referência sujeito-objeto, alheia dialogicidade fenomenológica. O pequeno experimento nasce fundamental e necessariamente do grande experimento, que é a vivência do cliente, a partir da premência das questões de sua atualidade existencial, no espaço fenomenológico existencial experimental contextual da sessão e da relação com o terapeuta. Na verdade, o pequeno experimento configura-se como uma diferenciação e intensificação de aspectos prementes da vivência do cliente. De modo que diferencia-se afirmativamente, necessariamente, a partir da sua vivência, e não se afasta da afirmação do caráter experimental desta vivência. CONCLUSÃO O caráter experimental da Gestalt Terapia é, certamente, o seu caráter mais característico e definidor. Não obstante ter sido, e ser, não raro, mal entendido -- a partir de perspectivas de compreensão oriundas dos referenciais da Psicologia Experimental, ou do Comportamentalismo -- o caráter experimental da Gestalt Terapia tem uma definição e uma filiação muito claras e específicas, no seio da perspectiva existencialista de raiz nietzscheana, e no seio da Psicologia Fenomenológica e da Fenomenologia da Tradição de Brentano. Parece interessante observar, igualmente, o caráter existencialmente experimental da concepção e da natureza da dialogicidade, na perspectiva de M. Buber, que teve uma importante influência sobre a concepção, desenvolvimento e prática da Gestalt Terapia. Dentro desta Tradição de Brentano, e no sentido de um esclarecimento e desdobramento da concepção do experimental em Gestalt Terapia, é igualmente interessante atentar para os desdobramentos da Ontologia Hermenêutica Fenomenológico Existencial de M. Heidegger, na medida em que esta oferece importantes subsídios neste sentido. A especificidade da contribuição de Franz Brentano constituiu uma concepção da consciência, uma concepção de filosofia e de psicologia fenomenológica, e uma metodologia, da qual é tributária distinta a Psicologia da Gestalt, a concepção do experimental em Gestalt Terapia, e a própria Gestalt Terapia em sua especificidade. Mais que isto, a contribuição de Brentano livrou a Psicologia dos equívocos teóricos e metodológicos da Psicologia Wundtiana, abrindo o caminho para os desdobramentos da filosofia e da psicologia fenomenológica, e fenomenologicamente experimental. Cremos que a Gestalt Terapia não existiria -- e não existiria, em particular, em seu caráter específica e própriamente experimental -- sem a contribuição da Filosofia da Vida de Fredrich Nietzsche. A concepção de uma vida afirmativa, desta filosofia "...e eis o que segredou-me a vida, eu sou aquilo que se auto supera indefinidamente --, a sua atitude de irrestrita afirmação da vida, o seu amor fati e o sentido experimental de seu sentido do trágico, o sentido experimental de sua gaya scienza, a sua perspectatividade e o perspectivismo de seu caráter experimental, tudo isto faz parte de um modo muito íntimo, específico e intrínseco da fundamentação filosófica, da concepção teórica e da metodologia da Gestalt Terapia. De modo que o manancial nietzscheano tem na Gestalt Terapia um tributário muito próprio específico. |