Os cães ladram e a caravana passa Revista Destaque da AFPB
Ano V - Número 19 - Janeiro/Fevereiro - Ano 2007 - Revista Bimestral
 
Home
Capa
Colunistas
Comportamento
Culinária
Especial
Esotéricos
Expediente
Opinião
Personalidades
Saúde

Crônica do Rio

"MENINA NO PONTO DE ÔNIBUS"

Lygia Godoy – setembro de 2006.

Toda história, antigamente, começava pelo era uma vez...E era um escorrer de peripécias e desgraças que não sei como a gente conseguia agüentar o Bicho Papão, a Bruxa Má que oferecia maçã envenenada à Princesinha, o Lobo Mau danadão que comia a vovozinha com casca e tudo e tantas outras histórias de terror que a gente acabava dormindo mais por medo que pela viagem mágica que o texto pudesse proporcionar.

Hoje, na segurança e conforto que a distância permite, observo que as crianças têm outro tipo de medo, um medo real de bala perdida, seqüestro, atropelamento, divórcio de seus pais, estupro, desemprego na família, falta de afeto, falta de saúde, falta de comida, falta de moradia...medos que os tempos modernos trouxeram e que se instalam qual membro da família. Sabe aquele parente chato, abelhudo, pivô de toda e qualquer discussão e que sem a menor cerimônia, aboleta-se e ocupa todos os espaços, todos os cômodos da casa, respira todo o ar disponível e ainda reclama a falta de conforto que a parentela lhe impõe.

Era manhãzinha, nem frio, nem quente, ainda uma aragem inconveniente e teimosa desafiava a vontade da gente sair para trabalhar, melhor seria ficar embaixo das cobertas e deixar a vida ralar lá fora sem a premência da minha apreciação. Mas saí, alguma coisa me cutucava e empurrava para fora da cama, do quarto, da minha casa confortável, do carinho lambido, miado e bicado de meus quatro cachorros, duas gatas e dois periquitos. Tinha que largar minhas árvores queridas no seu "que fazer" cotidiano; era fundamental, imperioso, não sei para quem, ir. Arrastei-me com total despudor até a esquina, escorei-me qual escombro no mesmo poste de todos os dias à espera da condução que sempre demora horas indeterminadas e intermináveis até chegar, com a pressa dos que não estão nem aí para a dos outros.

O dito popular ensina que quem está na luta tem que ter comportamento e atitude de combate. Por isso, era melhor tomar posse do entorno. Passeando o olhar pela manhã que acordava e começava a dar vez à lida dos que podiam e àqueles que têm a árdua missão de fiscalizar a natureza, dar voz à passarada que voa em direção à praia, barulhentos feito crianças na hora do recreio. Então, dei conta daquela menina alvorecendo a poucos metros de mim. Parada à beira da estrada esperando o transporte que a levaria à escola, tudo levava a crer. A roupa escolar, apesar da sandália de borracha cor-de-rosa, apesar da bermuda surrada e muitíssimo menor que constrangia seu corpinho infante, mas que iniciava arredondar-se, prendedores coloridos nos cabelos assentados a poder de água, sabão grosso e creme, desses vendidos em potes grandes nas lojas populares da periferia; mochila com chaveirinhos de bichinhos de pelúcia que formavam um cacho e chacoalhavam a cada movimento que a menina fazia. E ela ria feliz, arteira movimentava-se o quanto mais para os bichinhos dançarem.

Criei histórias e estórias fantásticas sobre seu futuro e fui de régua e compasso desenhando a jovem bem sucedida, satisfeita profissionalmente, fazendo a necessária diferença, conforme se costuma dizer hoje em dia, buscando espaços, crescendo ao infinito da imaginação. Apaixonando-se, vivendo, sendo amada. E fui viajando perdida e feliz caminhando no arco-íris que nem Alice, o jardim das delícias em plano total e aberto, delírio pouco é bobagem. De repente, sou arrancada a fórceps do jardim das maravilhas, daquela mesa de fartas e fortes iguarias e atirada à crueza da sarjeta que emana o odor acre dos rejeitos humanos e animais. Realidade materializada num automóvel reluzente e estalando de novo que freia ruidoso e um homem acometido de grave devastação capilar, trajado com esmero digno de alto executivo ou político bem votado e adotado por aquela comunidade há mais de cinco mandatos. O sotaque indefinido lhe conferia charme especial aos olhos e ouvidos nativos, que pouquíssimas vezes iam além dos limites das fraldas da serra e toda informação se concentra nos programas que distribuem prêmio em dinheiro, trocados pela exposição vexatória de suas carências.

O cavalheiro troca meia dúzia, se tanto, de palavras com a menina, ela sorri satisfeita olhando para o maço de dinheiro que aquele senhor lhe mostra sorridente, escondido entre as pernas, sob sua indecorosa pança. Dengosa, a menina negaceia, alega o horário escolar, mas lá por dentro pensa na barriga que ronca e na fome que ronda e adentra goela abaixo toda sua família. Ergue a cabeça, sorri mais largo e salta para o banco do carona do carrão importado. E eu ali, pura e absoluta impotência, sentindo a alma arder, sangrar e rasgar-se de norte a sul. Ainda esbocei intenção de impedir o delito, mas o olhar de reprovação furiosa de ambos impedia, era uma ameaça decisiva.

Pensei nas crianças de muito perto de mim, nas crianças do meu sangue, nas crianças do meu coração, nas crianças que me guardam em si generosamente. Pensei e pedi a Deus que as protegesse dos males do mundo, que lhes amenize as dores e quando estas forem impossíveis de ser impedidas, que Ele me permita sempre estar por perto para abraçar minhas crianças quando de mim carecerem. Pedi a Ele que a mim permita ser capaz de lhes dar, ao menos, o colo e possa cantar belas e antigas canções de ninar para afagar e aquietar o coração machucado, e no remanso que se estabelecerá, possam reencontrar a poderosa rota por onde irão continuar a navegar.

 
bulletSe você gostou do texto de Lygia, leia mais.

 

Este site foi atualizado em 12/02/07

 

Hosted by www.Geocities.ws

1