Os cães ladram e a caravana passa Revista Destaque da AFPB
Ano V - Número 19 - Janeiro/Fevereiro - Ano 2007 - Revista Bimestral
 
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TOMAR CONTA E DAR CONTA

         Escrever sobre a minha cidade  é  prazer, alegria, quase êxtase. Por isso, nem ouso discutir comigo. Resistir ao doce deleite que é zanzar por aí feito cachorro viralata é impossível. O aspirar  profundo é compromisso com o saber sentir por dentro dos  cheiros que perfumam, ardem ou azedam os cinco sentidos bastando nem dobrar a esquina, em linha quase reta, feito os trilhos da Central a Santa Cruz. Minha preciosa Guanabara, quanto de você há semeado aqui, ali e acolá, quanto  florescer e explodir exuberância por todo canto!

          Minha cidade é meu quintal, não canso de afirmar. Montanhas, rios, florestas, praias, descampados, tudo, no excesso de “belezura” e “gostosidade” que o Criador, em dia de excelente humor, foi, a sorrir de cara cheia, plantando para a gente tomar conta e dar conta.

          Existe alguma explicação para o sol que acorda o Grumari? Aquele cheirinho de mar novinho que  invade igual posseiro e esparrama a gente na areia, rendição incondicional.

           A lua prenha, de olhar cor de prata deitada no sofá de  veludo azul, que incendeia as ruas banguelas de Sepetiba, estética surrealista  oscilando do trágico ao absurdamente genial. No mesmo plano, a parabólica da tevê por assinatura faz parelha com cabras, cavalos e bois pastando na pista solenes e majestosos, disputando espaço com  esporádicos bólidos importados, carroças e veículos sem definição sobrevivente de ano ou marca, todos no mesmo caldeirão.

          E a madrugada desliza cúmplice dos subúrbios em roda-de-samba de Ramos a Oswaldo Cruz. Lá onde batuque é de quem conhece os secretos e caprichosos caminhos da harmonia elegante, da melodia requintada que sobreviveu aos grilhões escravocratas, à polícia, à ditadura, à modernosidade e esbalda-se  recriando a si mesma, redescobrindo-se, recolorindo-se e segue, impávido colosso, que rejeita o berço esplêndido porque tatuado na alma brilha o ancestral  brado retumbante determinando o reinventar cotidiano capaz de espantar  mau-olhado e qualquer assombração.

          E as assombrações estão soltas por aí. Em Vigário Geral, no Complexo do Alemão, Maré,  Rocinha, Chapéu Mangueira, Vidigal, Metral, Caroba, Carobinha e por aí afora. Assombrados pela fome, pelo desemprego, pelo desassossego que as traçantes anunciam e o rastro de dor e luto que espalham. Temos que tomar conta e dar conta, é urgente a   reintegração de posse, tudo está ao alcance das nossas mãos, precisamos libertar os jardins, as praças, as flores, as borboletas, pardais, beija-flores, todos aguardam ansiosos a hora de voltarem a cantar em todas as janelas, e  assim, a criança que acabou de chegar poderá temer, no máximo,  o Bicho Papão, não mais a escopeta do BOPE, o AK47 do Rei da Boca, o Caveirão ou o Bonde do Mal.

 

NAS GRAÇAS DO DIVINO

Quem nasceu no subúrbio e passou boa parte da vida por lá-  nas graças do Divino -  não perde aquele jeito meio “Avon-Cristhian Gray” de ser. A criatura pode ser estudada, viajada, leitora compulsiva; enfim, intelectual de mão cheia, do tipo clássico - óculos de aro redondo, sempre “in” com os modismos lingüísticos responsáveis por uma forma pasteurizada de ser, viver e aparecer muito por sinal; sem falar que a figuraça apresenta um verdadeiro espetáculo pirotécnico expressando-se em três ou quatro idiomas diferentes, citando os maiores dentre os maiores e que ninguém por aqui na Pindorama Desvairada jamais ouviu ou ouvirá falar.

Não adianta nada, camarada! Os trilhos da Rede Ferroviária estão assentados definitivamente em sua alma, os vasos comprados na feira do bairro estão repletos de tinhorões vermelhos, comigo-ninguém-pode, espada de Ogum; esculturas feitas em gesso nas fábricas de fundo de quintal representando Jorge, Sebastião, Aparecida, Penha, Anastácia...estão lá vivinhas, lindas e cheias de graça. E muitas vezes, a figura ainda carrega no sobrenome um  da Silva, dos Santos, de Souza e por aí vai...é coisa muito séria, meus amigos!

E quanto mais tempo a gente passa deste lado da medalha, maior é a nudez exposta na tela em 360 graus de visão. As ruas banguelas, os vizinhos sorridentes, barulhentos, intrometidos, prestativos, brigões. A molecadinha esvoaçando rua abaixo e acima, saltitando que nem sagüis de galho em galho, traquinagem ingênua e boa. No entanto, se alguém precisasse de uma capina no quintal bastava convocar a cambadinha e lá vinham eles feito alegres andorinhas no cais.

Acabada a obrigação, a devoção era pegar manga ainda verde no terreno baldio e depois agüentar a onda da dor-de-barriga, sempre curada por um chá de mil ervas que a avó, tia ou mãe de alguém distribuía em doses generosas, acompanhada duma bronca de fazer gosto, que deixava a curriola lavada, escovada, enxaguada e passada. Pelo menos, até o piriri passar.

É claro que nesse intervalo, cada um em sua casa, já arquitetava a próxima aventura - que tal uma pelada no campinho ao lado da casa do “seu” Juca?! – Um chute forte e certeiro... gol de placa! E lá se foi a vidraça da casa de Dona Maria Romana, que a bem da verdade era madrinha de mais da metade dos peraltas, os restantes eram divididos entre a parentada e os outros vizinhos.

Um susto e a carreira com o viralata Bodega nos calcanhares ameaçando estraçalhar canelas, incentivado pelo esbravejar ameaçador da Dinda. E estava feita a festa naquelas ruas peladas recheadas de meninos e meninas de todas as cores e idades, cheios de esperanças no por vir.

Dona Maria Romana dava a bronca para não perder a moral, nem ela mesma acreditava na braveza que lhe escorria boca afora, e não demorava um instantinho já chamava todo mundo para comer doce de jaca mole fresquinho que ela acabara de fazer e sabia que todos nós éramos loucos de pedra pelas iguarias que somente ela sabia magicar com mais competência que o Grande Odiniz, que de tempos em tempos chegava com o Gran Circo Universal e armava a lona colorida, amplamente bordada de remendos flácidos, em nosso Estádio Poliesportivo – sim, porque servia para todas as modalidades: bocha, truco, sueca, pipa, dominó, Festa Junina, Ensaio do Bloco, Presépio, Folia de Reis... tudo acontecia naquele espaço.

A gente nem ligava e sempre dava um jeitinho de atravessar por um buraco esquecido na lona. E embaixo da arquibancada ripada íamos ao delírio com os artistas. Os mais atrevidos escalavam os bancos toscos e na maior cara-de-pau assistiam a tudo e gozavam da nossa cara, os calça-frouxa que não se garantiram na subida.

Vida de subúrbio era assim, talento e arte do Divino Salvador. Pode cheirar, como alguns hão de dizer, a saudosismo, anacronismo; beirar todos os “ismos”, mas deixar soterrado sob os escombros reluzentes de neon e alumínio que a modernidade produz é, no mínimo, não admitir nossa própria história, a identidade de muita gente; até mesmo impedir que as novas gerações reconheçam-se produtivas, altivas e serenas. “Ninguém é universal longe de seu quintal”, por isso, a preservação de nossas lembranças, nossa memória é o fundamento de tudo que está sempre por vir.

 

Suburbanadas

Pode até parecer saudade. E é saudade mesmo, porque quando a gente "vira" adulto assume uma espécie de vergonha das peripécias da infância, principalmente aqueles que fazem todo o esforço possível no mundo para esquecer aquela vidinha besta suburbana. Entre pés de mangueira, goiabeira, carambola...aquela coisa de morar em casa com varanda larga, azulejada até a metade, quintal de terra batida e jardim cheio de pés de "comigo-ninguém-pode", "tinhorão vermelho", "manacá", "brinco-de-princesa" e o perfume luxuriante que a "dama da noite" doa à madrugada para incendiar o amor clandestino dos últimos boêmios e seresteiros.
Lá no fundo do quintal, num "puxadinho", convivem harmonicamente: galinhas, patos, marrecos, gansos. E aquele cachorro vira-lata – o Major - focinho molhado, pêlo malhado - esperto mais que da conta! Mas que dá conta do recado melhor que qualquer outro cheio de pedigree. Correria pra lá e pra cá atrás das crianças. A avó, mineira da zona da mata, levando "as minina pra benzê" – que é preciso espantar quebranto, costa larga, todo mau olhado...êh! êh! O avô contando histórias dos tempos que assentava os trilhos da rede ferroviária país afora.
Quando caia a tardinha, a Comadre Lina aparecia para dois dedos de prosa antes do Seu Chico chegar pilotando uma motocicleta enorme, roncadora e reluzente. Lá pelas dez da noite o avô chegava da Repartição Pública, onde era o todo poderoso Chefe de Portaria – a avó dizia com a boca cheia de orgulho. Ele chegava sobraçando um embrulho enorme feito de papel pardo, depositava sobre a mesa da sala de móveis estilo "chipandelle" e as maiores delícias do universo – conforme minha avó dizia – surgiam uma a uma: queijo de cuia, carne seca, café, açúcar...hummmm! Nossos olhinhos corriam...corriam e ele se divertia com nossa ansiedade. De repente, quando já murchávamos em total decepção, ele pegava no nariz de uma, balançava a orelha da outra, fazia um cafuné na cabeça da menor e emergiam de seus dedos longos e ásperos testemunhas silenciosas de anos de trabalho pesado; brotavam num passe de mágica: balas, bombons, pirulitos uma infinidade de cores e sabores que nunca mais a gente esquece, mesmo hoje, adulta, cheia "das responsabilidades", porém farta da sisudez circundante que não quer permitir outro tom que não seja o chumbo que permeia as relações sociais. Ainda hoje, reside confortavelmente, lá no porão da minha memória afetiva aquele gostinho de groselha e morango que não me deixa esquecer do fundo do meu quintal suburbano.
O poeta me ensinou que "ninguém é universal longe do seu quintal", por isso acredito que é necessário regar a criança que nós fomos, pois só assim conseguiremos continuar a ser. Com certeza, algum chato de galocha de plantão – eles têm lá sua importância não se pode negar.
Certamente, eles clamarão e reclamarão os direitos daqueles que não tiveram uma infância boa de lembrar. Que os tempos são outros, avós que ficam contando historinhas de antanho são peças de museu, que ninguém tem mais tempo para essas "gracinhas", que isso é um verdadeiro desperdício...Que pena!
Por isso mesmo, com esses irmãos carentes, divido meu bônus, desejando que o ônus a eles imposto seja um pouco menos cruel. Que todos possam sentir um pouco o sabor da Praça Saicã, da Vila da Penha de tempos atrás, com vocês desejo repartir meu sonho sonhado e vivido. Minha suburbanada.

 

Coisas que incomodam

Tenho ouvido todo tipo de reflexão sobre a Lei do Desarmamento Civil. Há uma boa parcela da sociedade que posiciona-se radicalmente contra o desarmamento, afirmando que está sendo feito pela ponta social errada. Deixando a população totalmente refém da marginalidade, que por sinal está armada até os dentes, e nem cogita em entregar um mero estilingue, quanto mais o arsenal de última geração que têm em seu poder.
Por outro lado, há os que entregam até mesmo a pistola de jato d’água que deu de presente aos filhos no Carnaval passado, acreditando sinceramente que estão contribuindo para o avanço e restabelecimento da paz. Também não se pode esquecer que há um valor pecuniário pela entrega do arsenal doméstico além de entrevista em rede nacional de jornal, rádio, televisão, todos os tambores eletrônicos, exibindo ao mundo inteiro enorme conscientização e cidadania. E todos relatam uma boa história trágica ou quase, para valorizar o momento histórico. A sinceridade é comovente e as histórias plausíveis.
Não estamos aqui para defender e garantir a existência de um arsenal doméstico, muito menos incitar comportamentos belicosos, assim como ferir a Lei longe está. No entanto, é necessário que a forte emoção que os acidentes domésticos imprime em todos nós, seja observada com maior rigor, no que diz respeito à responsabilidade que cada um de nós que possui, em casa, qualquer tipo de arma – e não estou somente referindo-me a revólveres, pistolas ou espingardas de chumbinho – qualquer foice, machadinha, enxada, facão de poda, até mesmo a inocente faca do churrasco de final de semana; pode causar um grande e algumas vezes, infelizmente, irreversível estrago. Também deverão ser recolhidos em nome da Lei? Quanto será a indenização pela entrega de uma foice, duas machadinhas , três facões de churrasco e espetos de picanha, chuleta e alcatra?
Não pensem que debocho ou desacredito do legítimo propósito do desarmamento em massa, somente penso que os verdadeiros detentores de um arsenal que reprime e entoca os cidadãos de bem em suas casas vigiadas, cercadas e gradeadas, estão por aí fagueiros e faceiros, impondo "leis" e tornando-se heróis para jovens e crianças das comunidades carentes e até mesmo dos filhos da classe abastada ou semi-abastada, cansados de suas vidinhas insossas regadas a shopping-center, boates da moda, bailes do tipo liberadíssimo, cerveja na onda do 0800, onde a garotada se acaba em todos os sentidos e aspectos. Enquanto isso, os mais velhos, em vez de se (re)educarem em função do que é ter uma proteção em casa, chamando a si a responsabilidade sobre o que possuem, preferem uma indenização a assumirem a orientação de seus familiares e a legalização de seus bens.
Certamente, não é qualquer pessoa que pode ou deve possuir uma arma, assim como não é qualquer pessoa que deve conduzir um veículo auto-motor, por isso, periodicamente, os condutores são reavaliadas, a fim de estejam aptos a darem continuidade ao que pretendem, mantendo sua habilitação, sendo rigorosamente punidas quando infringissem a Lei. Assim penso que deveria ocorrer com o porte de arma, reavaliação periódica dos portadores da habilitação e este ser suspenso e a arma recolhida, quando houvesse qualquer delito no qual estivesse envolvida. Em tempos tão modernos, poder-se-ia, até pensar em algum tipo de chip que monitorasse essas armas constantemente... Então, você que está aí lendo deve estar pensando na corrupção que caminha sem o menor constrangimento em todos os setores, deve estar refletindo que tudo o que estou escrevendo é puro delírio literário, que o Brasil é vasto e perigosos os poderosos donos do Poder nas áreas mais distantes e inóspitas. Se ainda existe voto de cabresto – velado, mas real – armas com chip de monitoramento eletrônico é bestagem!. Parece um beco escuro e sem saída. Porque sem um compromisso real e estreito das pessoas com a dignidade, não haverá lei que possa resguardar a paz e a harmonia. Sempre haverá um "jeitinho", para burlar a Lei. Desta, daquela ou daquela outra maneira as pessoas vão continuar e distribuir generosamente sua carga de violência e negligência, até mesmo porque é muito mais fácil resolver as coisas a bala que no argumento. Por outro lado continuaremos a sentir medo de sair de casa, pois corremos o risco de ter um encontro inesperado com uma bala perdida que pode vir da facção A que luta contra a B ou da C que deseja ardentemente retomar suas posições estratégicas perdidas para uma tal de facção D. Ou seja, desfiaremos todo o alfabeto e no resumo da ópera podemos virar peneira somente porque ousamos sair de nossa casa-bunker, para o trabalho, estudos ou lazer; às vezes, nem precisamos colocar os pés do portão para fora, o terraço de casa, pode ser o cenário.

 

Minha cidade, meu quintal

Vez por outra ouvimos estarrecidos, um desses "graúdos", entendidos dos dentes para fora e do bolso para dentro, em esportes. Seres que nem vale a pena nomear, para não dar maior importância à figura, visto que os absurdos e insanidades disparados de boca cheia, a plenos pulmões, via Embratel, são, no mínimo, heresias passíveis de excomunhão.
Abomináveis ditos humanos, que propõem a implosão do Estádio Mário Filho, nosso tão caro Maracanã, a fim de que seja construído um estádio mais moderno visando a possibilidade de nossa cidade sediar os próximos Jogos Olímpicos. Alegam "os especialistas" que o "elefante caquético", conforme lê-se subliminarmente, não detém as condições mínimas para um evento de tamanha importância.
Em nossa modestíssima opinião e ignorância esportiva, creio até que possam estar, as "otoridades" com razão, quanto às acomodações e modernidade do "Velho Maraca"; no entanto, isso não respalda, em hipótese alguma a implosão solicitada aos brados e na maior cara-de-pau.
Nós, cariocas de mais de 400 anos, temos que protestar, defender nosso patrimônio, porque não demora, algum outro modernoso de plantão, certamente, concluirá sábia e convenientemente que a Estátua do Cristo Redentor é uma escultura decadente, de gosto duvidoso e deve ser implodida cedendo espaço a algum hotel de cinco estrelas de uma dessas redes multinacionais com sede no Oriente Médio, Próximo ou Longínquo. Quem sabe cercar as praias do Leme ao Pontal com muros altos e cercas de arame farpado, recobertos com flores artificiais – que são duráveis, laváveis e não soltam as pétalas – e, principalmente, cobrar ingresso a preços proibitivos aos nativos, visto que estes não sabem valorizar e desconhecem o valor cultural da estética contemporânea - a modernidade - coisa assim de fazer Carioca com C maiúsculo, espumar feito o cão chupando manga verde. Seja lá qual for o deletério discurso em nome do progresso.
Com certeza, os Jogos Olímpicos aqui em nossa cidade trarão uma quantidade de benefícios imensa. Serão empregos diretos e indiretos que surgirão, minorando em muito a situação financeira e qualidade de vida da população. Mas vamos com calma, minha gente, porque não se constrói o futuro destruindo e esquecendo a relevância do passado e do que já está, e deve continuar sendo. Imaginem esse povo na Grécia , em Roma ou no Egito... como diz aquela "socialite" – ai, que loucura!!!!!
Se o Rio de Janeiro, algum dia for tomado pelo oceano em devastadora fúria – preocupação de todos nós – seja lá a hora que chegar, porque sabemos que a natureza sempre vem buscar seus espaços emprestados aos seres humanos e por estes maltratado em sua frenética busca de modernidade desrespeitosa. Sim, se algum dia formos uma cidade submersa feito a Nova Iorque do filme "Inteligência Artificial", não podemos deixar que o seja sem os protestos veementes dessa "gente bronzeada que sabe mostrar seu valor" e está em estado de severa vigilância.
Nós gostamos de festa, e sabemos comemorar, bebemorar, namorar e cantar para acordar o sol atrás da Serra do Mar. Adoramos dobrar de rir na esquina comendo churrasquinho e bebendo cerveja, misturando caipirinha com uísque doze anos ou aquele que o experto esperto barman d’areia criou especialmente para o final de semana ensolarado de samba batucado na palma da mão.
Já assistimos, com dor na alma, durante a era cor de chumbo-oliva, a detonação do Palácio Monroe. Sobrevivemos, os boêmios de plantão, a desativação do Bar Jangadeiros, a mudança de nome da Rua Montenegro – ainda bem que para Vinícius de Morais –. A mudança de nome da velha avenida Suburbana – mesmo que homenageando um dos padres mais admirados do Brasil, até mesmo por ateus convictos, Dom Hélder Câmara -. Parafraseando Euclides da Cunha – se erro corrijam-me: O carioca é antes de tudo um forte.
Aos que lembrarem Pereira Passos com o seu "Ponha-se abaixo", alargando avenidas dando uma feição européia a nossa cidade e aproveitando o ensejo para enxotar a plebe rude para os cafundós do Judas, ou que subissem os morros com suas tralhas, cacarecos e fogões jacaré – este quem tem mais de 50 se lembra. Pois é isso, companheiros, aos que usarem Pereira Passos como ícone da devastação, pensem mais a fundo antes de colocarem o defira-se ou cumpra-se.
Não estamos falando em saudosismos, entraves ao progresso ou quaisquer outros ingredientes que os "mudernos" utilizam como recurso de defesa em seus discursos recheados de: "a nível de...", "parceria com...", "vamos estar fazendo..." e tantas outras expressões da moda. Estamos falando de nossa identidade cultural, da nossa alma que espelha Chorinho no Suvaco de Cobra, na Penha Circular; Pagode da Tia Surica, em Madureira; Ensaio do Cacique, em Ramos, embaixo da Tamarineira; da Festa da Penha,; do Jongo da Serrinha; do Agbara Dudu, na Estrada da Portela, na sede velha da azul e branco de Madureira; da Roda de Samba do Bip-Bip, em Copacabana...
Senhoras e senhores do poder e de poder, não permitam que males irreversíveis sejam causados à alma carioca que é universal. Lutem conosco não contra nós.

 

Da gema, urbana ou caipira

Carioca da gema é bairrista, suburbano de norte a sul e de leste a oeste. Adora quintal com tinhorões verde e vermelho, roseira na calçada – Bom dia, vizinha! - Faz feijoada, principalmente no mês de maio para louvar a ancestralidade, reúne os "camaradas-gente-fina" no churrasco de final de semana com muita cerveja e samba batucado na palma da mão. Tem horta no fundo do quintal, "comigo-ninguém-pode" para afastar os "olhos-maus", imagem de "Jorge e Sebastião" na parede da sala e quando chega setembro dá doce pra Cosme e Damião, porque agradar "erê" é coisa pra lá de boa. Carioca da gema quando a coisa aperta e o bicho pega, despacha e-mail na encruzilhada e bate-papo na maior sem-cerimônia com os "Compadres e Comadres", gente estradeira que se encarrega das causas complicadas e difíceis de serem solucionadas sem uma "mãozinha". E o carioca da gema ainda reforça o pedido na reza forte a Santo Expedito, Santa Edwiges e São Judas Tadeu – afinal de contas é sempre bom cercar pelos sete lados.
Carioca da gema tem a mesma desenvoltura na roda-de-samba da Tia Surica, em Madureira, quanto na Ópera ou Ballet do Teatro Municipal. Carioca da gema mistura a Sinfônica Brasileira com a Bateria da Mangueira, ousa feito Silas de Oliveira que no Samba-Enredo traz pitada de música clássica, aquela que os narizes torcidos de outrora queriam fazê-la somente sua. Carioca da gema tem nomes líricos como Neguinho da Beija-Flor, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Nélson Sargento, Cartola, Dona Zica, Dona Neuma, Dona Elane, Dicró... Carioca da gema tem como Rainha da Bateria tanto a bonitona da televisão, quanto a menina da comunidade e principalmente a Pastora de quase 80 anos – a bela Dona Dodô, isso aí, aquela que não faz academia, mas mantém a forma apurada nas escadarias do Morro da Providência.
Carioca da gema reza um "Chorinho" para "São Pixinguinha de Ramos", desfila no Cacique, no Cordão da Bola Preta, Boêmios de Irajá, esbalda-se na Banda de Ipanema, conhece do Cabaré Casanova à Turma OK, porque o carioca da gema é livre de medos e preconceitos, traz o mundo inteiro contido em sua absoluta carioquice.
Há os que em suas idiossincrasias podem até acreditar que o carioca da gema, seja do ovo urbano ou caipira, não tem o menor compromisso com a seriedade, que tudo se resume a festas e balacobacos, certamente que sim, mas não tão somente, porque quem tem memória de lembrar não esquece a Passeata dos Cem Mil, dos Rebeldes do Forte de Copacabana, do Comício das Diretas Já, da Passeata dos Cara-Pintadas e tantas outras vezes que o carioca da gema pôs-se à rua a marchar pelas liberdades democráticas. Com certeza, o carioca jamais será sisudo, mas seriedade, quando necessária, sabe assumir, sem consumir-se em cara feia de tempo integral, mau-humor total, não somos assim; se quiserem desculpem-nos, também, caso contrário, consumam-se em barris de fel.
No entanto, é triste, muito triste mesmo, constatar e viver a Cidade Partida. Estraçalhada sua viçosa pele pelas traçantes e minas terrestres que se encravam no tecido fino, penetram fundo e explodem o coração das Terras Sebastianas. Glória do Outeiro, em sua eterna vigilância, vê no meio do seio das águas as naus das hordas bárbaras emergirem belicosas, Tal qual o comandante do Zepelin que exigia os favores de Geni para aplacar sua lascívia e esta qual "agnus dei" submete-se heróica, para na manhã seguinte ver-se escorraçada pelos supostos guardiães da moral e dos bons costumes resgatados dos porões dos anos de chumbo travestidos em arautos da nova vida.
Se tudo tem que terminar assim, não pode ser sem que protestemos, não podemos continuar a subir muros, blindar automóveis, criar dobermans e pit-bulls, colocar alarme de alta potência e sensibilidade em todos os nossos poros, porque os Bárbaros, Visigodos, Ostrogodos decidiram tomar todos os espaços para si sem a menor cerimônia. Não podemos deitar no berço esplêndido e nos deixar incendiar.

 

Que a brisa beija e balança

Há um Brasil bonito, cheiroso, bem alimentado e instruído. Um Brasil de avanços tecnológicos que navega os sete mares, a bordo de equipamentos de última geração – de um solitário quartinho ali e acolá, o lá é sempre aqui em alta definição e velocidade de brigadeiro. Cabral, Colombo, da Gama, ó navegadores, quanto trabalho e quantas vidas poderiam ter sido poupadas?! Quantos não mais sucumbiriam à gula imensa de Adamastor?!
Um Brasil que clona, cria alimento transgênico, constrói edifícios inteligentes – totalmente informatizados, condomínios multifuncionais onde ninguém precisa dar mais que poucos passos para usufruir das delícias que a modernidade oferece à vista e a prazo, no carnê, boleto bancário, pré-datado ou até em três vezes sem juros no cartão.
Ah, Pindorama de TV a cabo, com alto padrão de qualidade primeiro-mundista – pelo menos está na propaganda - que fala o que não sente e nem sente o que fala. País de palavras que tornaram-se ocas, mas da moda, por isso dá moda, à moda lá de quem determina o jeito e gesto da hora. Palavras que pasteurizam afetos, cristalizam relações no sorriso nota 10, glória dos "odontólogos-garotos-propaganda" que recomendam o dentifrício A, B ou C que prometem uma vida "al mare", 32 horas por dia, cercado de beldades e orgasmos cósmicos.
"Que país é esse?"
Lamento muito, mas, sem querer ser estraga prazeres e já o sendo, o que se constata do lado de cá do muro é outra história, e não é estória. É a explosão prestes do paiol. A implosão avassaladora, que o privilegiado urbano e "country" assiste "protegido" pela segurança armada, murada e vigiada eletronicamente, mesmo assim basta uma leitura mesmo que superficial do noticiário diário, para que percebamos o medo onipresente, onisciente e onipotente instalado, apesar de todo o aparato bélico. Na verdade todo mundo está sendo obrigado a sambar, um samba quadrado e desbundado.
"O Brazil não conhece o Brasil" a grande Belíndia onde sobrevivemos, esta que vibra, chora e canta com Daiane dos Santos. Terra Santa que ora vê Silas e Elaine de Oliveira, o Poeta e sua Musa gente fina que fez a Cidade Maravilhosa sonhar e conhecer o País, através dos enredos do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano. Lá estão eles, à mesa com Vinícius, Tom Jobim, Pixinguinha, Nazaré, Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Cazuza, Renato Russo, Cartola, Dona Zica, Dona Neuma...Que mesa boa, meu Bom Senhor!
Brasil do Peri de Alencar, do Macunaíma de Oswald de Andrade; de Rondom e Darci Ribeiro, aos quais restrições várias pode haver, faz parte da liberdade de expressão a duras penas conquistada; porém é inegável que a partir deles pudemos tomar conhecimento da existência e dizimação dos reais donos da terra: Pataxós, Carijós, Caiapós, Tupiniquins, Aimorés, Timbiras, Guanás, ... Brasil de Chico Mendes, líder seringueiro, ambientalista internacionalmente conhecido e reconhecido e que só soubemos de sua existência e importância, após ter sido noticiado pela grande mídia seu cruel assassinato. Quando os organismos internacionais cobraram esclarecimento e posicio-namento da Autoridade Brasileira. Porém quantos Chicos Mendes ainda há por aí, anônimos, estraçalhados pelas forças nada ocultas que representam a parcela poderosa e inescrupulosa? De quando em quando um ou outro é preso com grande estardalhaço, isto até que um "Reality Show" ganhe espaço, corações e mentes.
De repente, você que está nos honrando com sua leitura a nossa Revista DESTAQUE, deve estar pensando "Esta colunista pirou de vez! Está fazendo o maior sarapatel." Ora, não se assuste: "Isso é Brasil! Isso é Brasil! Isso é Brasil! Ó Pátria, ó Pátria querida, de natureza tão gentil, tens belezas mil, isso é Brasil, isso é Brasil, isso é Brasil..." Aprendi com o compositor popular, pena não ter conseguido reter na memória seu nome – quem souber, ligue para a redação, a informação será bem-vinda, posto que em boa hora.
Pois bem, o caldeirão de culturas que nos retro-alimenta, permite e abençoa, é preciso e necessário botar fogo na mistura, lenha na fogueira, muita fé porque é na mistura que desabrocha o talento e certamente não mais percamos para o exterior nossos cientistas, pesquisadores, artistas, atletas, talvez não percamos as grandes levas de irmãos e irmãs que vão tentar fazer o mundo, buscando a alto preço, condições de trabalho e vida, porque aqui não dá, porque aqui continuam a dar tudo, principalmente nosso sangue, suor e lágrimas.
Mais que festejar o Descobrimento ou Achamento, precisamos resgatar o Brasil, resgatar Pindorama, pois se o "berço é esplêndido", mais do que nunca "o sol da liberdade" deve brilhar em todas as possibilidades da rosa-dos-ventos, a fim de que a profecia que afirma que "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão" não se cumpra totalmente. Vamos agarrar com unhas e dentes nossa vontade de transformar e combatamos o "Dragão da Maldade", pois cada um de nós é o "Santo Guerreiro".

 

Pelo carnaval

Todos nós sabemos que carnaval é coisa séria, não resta a menor dúvida, apesar de vez por outra, aparecer alguém querendo organizar o que não precisa de qualquer tipo de organização. O carnaval é tudo de bom, conforme a juventude sabiamente diz. Pois é capaz de reunir nas mil quadras, esquinas, botequins, botecos e biroscas; rodas de executivos, intelectuais, operários, domésticos, marginais, prostitutas, estudantes; todos e todas batucando em perfeita harmonia e extasiados. É a maior viagem que qualquer pessoa pode fazer, independente de idade, raça, preferência sexual, condição financeira, escolaridade.
Antes, quem era "bem", não podia misturar-se à plebe ignara e rude, não era correto uma moça de família ficar volteando os quadris em lascívia, em plena rua, muito menos sendo abanada pelo maior "negão da estiva", estes sequer ousavam levantar os olhos para ver "sinhazinha"; veja lá se poderiam se dar ao desfrute de tentar conquistá-la, mas "senhorita acabou indo morar lá na colina com o neguinho que é compositor". No entanto, apesar de toda a festa da raça, apesar da integração ampla, geral e irrestrita, da liberdade plena. Não é possível entender o porquê do declínio, parece que alguma coisa foi instalando-se devagar, mas constante, buscando uma assepsia , um padrão de qualidade onde a criatividade pura, cede lugar a grandiosas instalações, barracões futuristas. Com certeza, não se pode remar na contramão da modernidade, não cabe ficar chorando sobre o leite derramado, querer um evento idêntico há dois séculos. Não é assim, porém resgatar valores tradicionais que pouco a pouco vão se perdendo é fundamental, é de nossa identidade cultural que estamos tratando.
Neste ano topamos com uma avenida Rio Branco de chocha decoração, se aquilo é moderno e de bom gosto...valha-me Deus e Nossa Senhora! Os bailes populares, resgatando belíssimos sambas e marchinhas, empolgaram o povo, porém houve bairros, como em Santa Cruz, onde se ouvia e dançava funk o tempo todo. É preciso que eu diga que sou a favor do funk e de seus pacíficos ativistas, é uma manifestação importante, porém durante o decorrer do ano tem seu espaço garantido. Carnaval é para João Roberto Kelly, Braguinha, Noel Carlos e tantos outros compositores e cantores gloriosos.
Certa vez, um amigo disse que eu sou muito saudosista. Sou sim, mas radical, não, acredito na evolução, na necessária modernidade, mas também desejo que o que é também tão bom quanto não seja relegado ao ostracismo. Quando foi proposta a releitura de antigos enredos às Escolas de Samba e algumas investiram – Portela, Império Serrano, Tradição e Viradouro – acreditei ser uma interessante proposta e o povo que assistiu ao desfile no Sambódromo aplaudiu de pé, porque inegavelmente foi muito bonito e emocionante. Muitos jovens deliraram com a beleza e qualidade dos Sambas Enredo, comprovando que o investimento valeu.
A Banda Crítica da Lapa que saiu este ano pela primeira vez conseguiu arrastar um quantidade expressiva de pessoas cantando as marchinhas de João Roberto Kelly. E na Cinelândia teve sua apoteose. O Desfile de Fantasias do Hotel Glória, também empolgou cerca de 1200 pessoas que lotavam o Salão de Convenções, isso no Sábado de Carnaval. Eis a prova de que existe espaço para todos, que há público. Então, por que não investir? Por que temos que ser obrigados à " programação normal e o melhor do Carnaval?"
Tudo bem, choveu muito, é verdade. A cidade está violenta, também é verdade, as pessoas estão com medo, certamente. Mas mesmo sob a chuva intensa Helena de Lima esquentou o povo na Cinelândia e outros artistas pela cidade fizeram o mesmo, porém a manifestação espontânea deixou muito a desejar.
Senhores do Poder, senhores de poder liguem-se mais nas ruas do Rio, liguem-se mais nas expectativas do carioca, observem melhor tudo aquilo que temos e sabemos fazer. Esperamos que o Carnaval 2005 retome seu lugar. As ruas do Rio.

 

Novo Horizonte

Dois mil e três já está iniciando sua caminhada em direção ao horizonte. De tudo um pouco aconteceu: propinoduto, o "exterminador do futuro" eleito governador de estado norte-americano, novela das oito discutindo assuntos polêmicos e tabus, Presidente da República torneiro mecânico... na verdade, 2003, foi o ano das grandes surpresas e surpreendentes viradas de mesa. Talvez o primeiro ano do "basta de hipocrisia!". Começou o desnudamento do "rei" e ninguém, ou quase ninguém, teve medo de afirmar que ele estava nu com a mão no bolso, que foi pego com a boca na botija.
Mais uma vez estamos aqui para refletir sobre o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra – certamente, muitas manifestações públicas organizadas pelas lideranças afro-brasileiras abrirão espaços de discussão e reivindicação do direito à cidadania dos afro-descendentes. Espera-se que o busto de Zumbi dos Palmares, que fica ali na Praça XI, não seja pichado mais uma vez, pelos inconseqüentes de plantão, nunca é demais lembrar.
Já se pode notar, na mídia a presença de afro-brasileiros, desempenhado papéis de alguma relevância nas produções artísticas. Filmes de grande repercussão como Cidade de Deus, Uma Onda no Ar, Madame Satã, oportunizando o aparecimento de atrizes e atores de grande talento. Um espetáculo teatral no Teatro Glória com elenco de maioria negra.
No entanto, a luta continua e em nome dela voltamos a falar das cotas. Um mal necessário, porque a bem da verdade, uma real revisão na base de ensino das escolas da rede pública, que na verdade é para onde vai o grande contingente da população em busca de escolaridade que lhes dê oportunidade de concorrer em pé de igualdade com aqueles que puderam estudar em escolas da rede privada que os instrumentaliza de tal maneira que as vagas nas universidades públicas são por estes jovens "bem-nascidos", "bem nutridos", "bem informados" e "bem formados", acabam sendo preenchidas. Com as cotas, aqueles estudantes que não tiveram a mesma oportunidade, conseguem chegar ao nível superior, mas não podemos deixar de observar que muitos param antes da metade do meio do caminho, sempre há uma pedra. Pedra que tem nome e sobrenome: fome, desemprego, desqualificação profissional, debilidades físicas de todos os matizes que impedem o sucesso dessas pessoas e a exclusão tanto falada, somente é adiada, emergindo as frustrações e a violência direcionada indiscriminadamente a todos.
Mas existem projetos como o Afro-reagge, o Grupo de Dança da Maré, a Cooperativa de Costureiras da Rocinha e de Santa Cruz, o Agbara Dudu, o Centro Cultural José Bonifácio, o novo projeto da Cidade do Samba que proporcionará a formação de profissionais especializados para a confecção de carros alegóricos e demais apetrechos das Escolas de Samba do grupo especial. Todos preocupados com a inclusão, com a cidadania.
Muito nos preocupa a violência que toma conta de todas as esquinas, deixando o carioca cada vez menos alegre, apesar da natureza exuberante que nos cerca. Não estamos passivos, trancados em nossas casas, cercados por altos muros; ainda estamos mantendo a capacidade de nos indignarmos ante a arma apontada disposta a nos tirar o sossego. Sentimos medo sim, mas não o que paralisa, sim o que instiga, o que leva na pior das hipóteses a falar, a ter pequenas, mas conscientes atitudes em nome do resgate e restauração da dignidade, em nome da solidariedade e fraternidade que não podem sucumbir aos delírios delituosos e megalômanos dos que a todos custo e a qualquer preço querem dominar, querem o poder. Um poder que não constrói que não gera VIDA.

 

A luta continua

Com perplexidade observamos a falência, a decadência da instituição que, por princípio, tem o compromisso de ser o farol da sociedade. Os profissionais da Educação estão cada vez mais acuados, impotentes e sobrecarregados. O tempo todo sobressaltados ante a possibilidade concreta de seu local de trabalho – a Escola – ser invadido e o material de trabalho que proporcionará uma educação de qualidade à população de baixa renda, ser subtraído por aqueles que têm o interesse de mantê-la como mão-de-obra barata e facilmente manipulável, paralisada pelo medo.
No entanto, sempre dispostos a dialogar – é o calo profissional – crêem, ainda, no conhecimento, no saber ocupando todos os espaços, todas as possibilidades da rosa-dos-ventos; o saber como agente transformador da sociedade. Por isso investem contra a ignorância que dia a dia faz dupla imbatível com a arrogância.
Aviltados pelo salário, submetem-se a jornadas de trabalho extenuantes e sucumbem ao estresse. Sufocados, exigidos como tábuas de salvação de todo um esquema sócio-econômico cruel, que assume a máxima do mais Ter em detrimento do mais ser.
Se há meninos e meninas nas ruas esmolando, delinqüindo "mande-os para a escola, alimente-os lá que os professores sabem o que fazer" ou "os professores não estão capacitados para ensinar a mais ninguém, não atendem às exigências do mundo moderno" ou "esses professores faltam muito às aulas e só pensam em fazer greve, reclamam de barriga cheia"...e mais um leque infinito de falas sobre o mesmo tema.
Certamente, a Educação, a escolaridade plena possibilita a reconstrução da sociedade que atravessa um momento caótico a teoria do "tô nem aí!" caminha livre, por isso mesmo que delírios pirotécnicos pedagógicas não podem continuar a ocupar espaço, pois o resultado já percebe-se desastroso é "cobrir o sol com peneira". Necessita-se de apoio que coadune com o instante-já a fim de que o resultado desejado não seja esse paliativo que constatamos com imenso pesar.
O professores têm a obrigação de salvar o mundo. Salvar um mundo do "salve-se quem puder". Enfrentar o Gigante Adamastor a bordo de um barquinho de papel. Dom Quixote enlouqueceu, Joana D’Arc foi incinerada, Palmares foi invadido e destroçado, Tiradentes esquartejado. Quantos mártires serão mais necessários na busca pela liberdade? Quando os profissionais da Educação vão às ruas a reivindicar: passeatam, gritam palavras de ordem, paralisam, incomodam o mais que podem, trazem a sala de aula à avenidas e praças dando aulas de cidadania, através do exemplo vivo apresentam a seus alunos que somente a partir da constante luta as transformações podem ocorrer, que a passividade serve unicamente para respaldar arbitrariedades tão a gosto das elites dominantes, estas vêm a público apresentando projetos mirabolantes e números mais mirabolantes ainda, com o objetivo de esvaziar a manifestação legítima de cidadania que ali acontece. O "poder", então, ante a possibilidade de ver seu prestígio maculado, libera um "faz-me rir" qualquer para que os insatisfeitos se acalmem e paguem suas contas atrasadas.
Duas matrículas, hora extra, dupla regência, escola particular...e o tempo para a necessária atualização – sobrando tempo entre uma mar e outro de avaliações, provas e trabalhos para corrigir... com certeza no Sábado ou Domingo... Lazer, família, amigos...quando der...se der. Quando a aposentadoria chegar – duas mariolas e um cigarro Iolanda, conforma se falava antigamente.
É conveniente que exista uma grande massa deformada intelectualmente, convém à elite, convém aos senhores da guerra. Há um grande videogame operado pelos meninos maus que cresceram acostumados ao luxo, ao neon, ao puro poder ilimitado, que na generosidade de que são dotados, permitem um sub-poder enjaulado nos guetos asfaltados, com projetos sociais de nomes simpáticos e de grande impacto e curta dimensão. Muitos acreditam na sedução fácil, no canto compassado da sereia, no tilintar das máquinas, nas roupas de marca. E os que ousam discutir essa tendência, são simplesmente defenestrados. Os professores. Estes que buscam a parceria, a cumplicidade da família e da sociedade.
Durante o mês de outubro, em especial, reflita com maior carinho sobre a Educação em geral e a Pública em particular. Conversem, não com as "Tias" e "Tios", porque são profissionais, estudaram e estudam sempre e cada vez mais, pesquisam muito para que um trabalho de qualidade aconteça. Converse com os Profissionais de Educação para que juntos possam ajudar na construção do saber crítico de crianças, adolescentes, adultos e idosos.
O poeta português Fernando Pessoa é nosso parceiro:
"Sou pelo combate Sempre e em toda parte Dos três assassinos: A ignorância O fanatismo E a tirania.

 

Tela em branco

O desafio da tela em branco é a maior angústia para quem tem a ousadia de escrever. Os mais chegados, na ânsia que a fraternidade traz, dizem: "calma que na hora pinta!" Mas a hora não chega, o tempo, senhor de tudo o que existe contempla com sua impassível inexorabilidade. Temas vão e vêm como crianças nas pracinhas em suas atividades matinais. Tudo parece não Ter mais fim, um vazio compatível com a escuridão do universo.
Quando há tempos li este mesmo tipo de confissão de autores consagrados, fiquei meio que descrente, até pensei que usavam tal expediente como desculpa tola para uma falta de tempo ou quem sabe até falta de vontade de escrever para aquele veículo, sabe-se lá por qual ou tal motivação. Quanta bobagem, meu Deus a gente pensa! Quanta arrogância há no interior de cada um de nós!
Assim as coisas vão acontecendo em vários momentos de nossa vida. Sempre cremos que o que fazemos é o melhor, não damos muito espaço aos sentimentos e ações alheias e como donos pressurosos da verdade vamos julgando e condenando sem o menor pejo, até o momento em que nos encontramos na situação-impasse. O famoso "dá ou desce". Agora, eis-me aqui. Aprendi? Espero que sim. Antes tarde do que nunca, conforme o dito popular.
Em momentos assim é importante não buscar desculpas, bálsamos a nossa momentânea, espero, incompetência; fazer a "mea culpa", pedir "maleime" – corrijam-me os entendidos iorubanos -. E tentar, de alguma forma, contar uma história, que se não maravilhosa, ao menos indicadora de ressurreição, por mais pálida que seja.
Pois bem.
Como todos vocês sabem, sou do subúrbio do Rio e lá está minha raiz, minha fé minha alma. Onde aprendi e vivi a seresta, o samba, a esquina, a feira...principalmente a amizade. Antigamente era coisa séria. Tipo amizade de muitos anos Ter o cunho de parentesco, assentado no comadrio. São primos, primas, tios e tias. As avós eram entidades comunitárias. A mãe de um era a mãe de todos. Sou do subúrbio quilombola; e destas lembranças que me vêm Darci do Jongo e a Serrinha, Oberdã Magalhães e a Banda Black Rio, Silas de Oliveira e Dona Elaine. Dona Zezé Godoy e sua escolinha que alfabetizou muita gente boa em Vaz Lôbo, ela mesma que, sempre preocupada com o bem-estar do bairro fundou uma Associação de Moradores. Todo subúrbio era assim.
Muitos amigos dizem que sou saudosista, alguns de vocês até hão de pensar que não aceito a evolução do tempo. Não, meu amigos, não é tão por aí, ou somente por aí. Há muito a se resgatar se desejamos uma sociedade mais solidária e pacífica. Há que se resgatar o real significado das palavras, as quais, atualmente, só estão saindo dos dentes para fora. Sinal dos tempos? Não creio que tão somente seja. Penso que mais um sinal do egoísmo reinante que esteja aprofundando sua garras cruéis, dilacerando impiedosamente nossas almas e anestesiados pela sede do mais Ter nem estejamos dando conta de sentir a dor que nos devasta.
Sim, há amargura no que lhes digo, mas "o momento é este e o instante é já" , e também refletir sobre o acre é importante para que qual Fênix ressurjamos das cinzas para o alvorecer. Sei que nós, os cariocas, fomos considerados o povo mais simpático do mundo. Quero crer na pesquisa. No entanto, cada um de nós, carece rever conceitos, respeitar diferenças e diferentes, a fim de que sejamos realmente o povo mais simpático do mundo.
Conforme se diz em Teatro: "se você gostou, nos mande os amigos, caso contrário recomende aos inimigos".
Um forte abraço a todos.

 

Abolição ou libertação?

Segundo o Dicionário Aurélio, abolir, significa acabar, revogar, extinguir, fazer desaparecer, eliminar, suprimir, banir, pôr fora de uso. E libertar significa tornar livre, livrar, descarregar, desobstruir, liberar, emancipar.
Então, o que realmente aconteceu no Brasil? Libertação ou Abolição?

Império X República
A Guerra do Paraguai acabou fortalecendo os setores que lutavam pela República e pela Abolição da Escravatura no Brasil. Pois sabemos que no Reinado Pedro II, a base de sustentação estava nos latifúndios nordestinos, que utilizavam mão-de-obra escrava nos canaviais. A proibição inglesa ao tráfico negreiro pelo Atlântico, gerou um transtorno enorme para os escravocratas brasileiros e acelerou a decadência da monarquia.
O governo imperial viu-se pressionado, porque o movimento abolicionista crescia a passos largos, a luta pelo trabalho livre tornava-se fundamental à virada econômica. Tamanha pressão determinou as seguintes leis:
- Ventre Livre(1871) que libertava tidas as crianças nascidas a partir daquela data, porém continuariam escravas até os 2 anos de idade.
-Sexagenário (1885) libertava os escravos com mais de 65 anos, no entanto, sabe-se que por força da crueldade dos trabalhos que desenvolviam, a vida de um escravo não ultrapassava os 40 anos de idade.
-Áurea (13/05/1888) a Princesa Isabel assina a lei, instigada por José do Patrocínio e pressionada pelos ingleses, libertando todos os escravos pelo período de 100 anos...

A segunda metade do século XIX foi determinante para a decadência e fim da monarquia e estabelecimento de um novo modelo político e econômico. Ocorrendo a abertura de fronteiras à imigração espanhola, alemã, japonesa e principalmente italianos: trabalhadores que detinham mão-de-obra especializada àquele momento, o que os diferenciavam e valorizavam em relação ao negro, apesar de os imigrantes submeterem-se a baixos salários, e o ex- escravo, sem qualquer qualificação que o enquadrasse no mercado de trabalho ficava à margem, na informalidade ou marginalidade.
Desqualificado, desempregado e sem-teto: o negro foi solto, sem direito a qualquer tipo de indenização que lhe garantisse dignidade e cidadania mínima que fosse.

Portanto, a 13 de maio comemora-se o quê? A abolição? A libertação? Ou os interesses econômicos das elites emergentes? À época os "barões do café" que tendo seu poderio econômico em franca expansão e apoiando a República nascente, porque esta representava seus interesses, principalmente porque a Revolução Industrial era fato consumado e irreversível.
Com o passar dos anos não houve qualquer tipo de mudança substancial, visto o grande número de indivíduos vivendo em precárias condições, sem-teto, sem saúde, sem emprego, sem escolaridade, sem trabalho. Atualmente, são pessoas negras, brancas, mulatas que engrossam a fila da informalidade e da marginalidade premidas pela necessidade, desesperança e até mesmo acomodação, pois as benesses distribuídas a rodo pelo poder público, com o discurso piedoso da integração e direito à cidadania que todos devem usufruir, não atende a maior necessidade que cidadãos e cidadãs têm direito - o trabalho -.

Continuamos a questionar - abolição, libertação ou atenção aos interesses das elites dominantes?
Não se pretende um discurso rancoroso, estes já provou ineficiência; sim propor uma reflexão ante os tempos modernos, sem "apartheid", sem delírios de "negro é lindo", mas uma constante e palmarina presença, reivindicando e assumindo posições na sociedade capitalista republicana, resgatando a dignidade e cidadania através da informação e diálogo vivo e acessível a todos, em busca de uma sociedade livre e democrática, ciente de seus direitos e deveres, cumprindo-os integralmente. Então, a partir disso encontraremos a liberdade real.

 

Fantasia, magia e sedução

Com o auxílio luxuoso do farol imperiano, Mestre Silas de Oliveira, torna-se possível abrir as cortinas do passado e trazer à ribalta personagens carnavalescas tão vivas na memória de cada um que teve o prazer de brincar no bonde de São Januário, no de Bonsucesso a Madureira, no da Penha a Irajá - "Seu condutor dim...dim...".
Era o Carnaval das marchinhas, da grande crítica social e política, nada escapava aos atentos Mário Lago, Ary Barrosos, Lamartine Babo dentre outros mestres que abriram espaço a João Roberto Kelly; rapaz bonito, classe média, bem nascido - seu pai, o professor Celso Kelly, empresta seu nome e prestígio à Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro, que fica ali na avenida Presidente Vargas, onde antigamente encerrava-se o Desfile das Escolas de Samba, Blocos de Embalo - Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Boêmios de Irajá, Diamante de Rocha Miranda, Flor da Mina do Andaraí. A Biblioteca fica nos fundos da Igreja de São Jorge, na minha opinião o Padrinho da Cidade do Rio de Janeiro, porque São Sebastião é o Padroeiro - povo mais batalhador não pode haver. Uma cidade abençoada por Jorge e Sebastião! ?
Mas voltando à vaca fria, conforme minha avó Rita costumava dizer para recosturar uma conversa interrompida para algum esclarecimento necessário. João Roberto Kelly deve ser muito reverenciado, não tão somente pelos seus carnavais, mas também como compositor de meio de ano, como se dizia antigamente. Sensível, excelente músico, pianista de estilo suave, mas vigoroso; a timidez do sorriso é o maior contraste com os olhos espertos de menino traquina - talvez aí sua maior arma de sedução - Kelly encarna ao mesmo tempo Pierrot e Arlequim na disputa pelo amor de Colombina e nas canções de ano inteiro é o "Pombo Enigmático", displicente amoroso, o que tarda, mas arde. Tal qual Lamartine, Noel Rosa, Zé Ketty, Cartola; assim os sinto, assim os descrevo. A mim, pouco importa a opinião dos puristas tecnocratas da Cultura Popular. Se a sobrevivência da emoção é maior, deixa rolar até o último copo da abençoada noite, que amanhã há de ser outro dia.
Por isso, "saudade das batalhas de confete dos blocos de sujos...".Havia grupos de "Clovis", "Capetas", "Tiroleses", tantos e muitos mascarados, pintados; figuras que faziam a festa de foliões de todas as idades que subiam a avenida Rio Branco, em um bloco, até a Praça Mauá e de lá desciam com outro para desaguar na Cinelândia e espraiarem-se Tabuleiro da Baiana afora.
À noite o Concurso de Fantasias de luxo do Teatro Municipal, Hotel Glória e Copacabana Palace faziam a glória do esplendor: Zacarias do Rego Monteiro, Evandro de Castro Lima, Jésus Henrique, Marlene Paiva, Wilza Carla, Vera Rodrigues, Vera Benévolo, Clóvis Bornay, Silvinho Fernandes, Júlio Machado; e tantos outros artistas das passarelas, que contam, atualmente com o Le Méridien e o Hotel Glória. Concursos organizados por Belino Mello e Arnaldo Montel, que ainda hoje têm espaço no exterior e interior do Brasil, porque a beleza das fantasias e o talento todo especial dos desfilantes são inegáveis.
Lembro-me, em especial, dos anos sessenta, governo Carlos Lacerda, Estado da Guanabara. A Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro trouxe o enredo CHICA DA SILVA e Isabel Valença com uma riquíssima fantasia representando a personagem principal; o impacto foi tão grande que a sambista foi convidada a desfilar no Concurso do Municipal. Claro que houve muita polêmica, mas Carnaval é assim mesmo, se não houver um pingo de ranger de dentes, penas de pavão e esplendores voando não aconteceu a festa, tudo normal. Portanto a "invasão" do templo sagrado da elite foi consumado e até hoje ratificado, ocorrendo a inversão, porque talento, beleza e charme não podem ficar restritos a uns poucos, e, agora, lá estão todos no Sambódromo, trocando talento, ensinando e aprendendo Carnaval.
As famílias do subúrbio costumavam descer durante o dia para conferir a decoração da avenida Rio Branco e Presidente Vargas, comparar com os anos anteriores e exigir mais empenho dos artistas plásticos, que por seu lado choravam lágrimas de esguicho por causa da parca subvenção. Nós, as crianças, vivíamos da luz e das cores, delirávamos quando a noite descia inundando a cidade em todos os sonhos que se podia sonhar com os olhos bem arregalados para guardar na memória os mínimos detalhes.
Se era dia de Desfile de Ranchos ou das Grandes Sociedades Carnavalescas, ainda esticávamos um pouco, ver Fenianos e Tenentes do Diabo passarem era a alegria de seu José, meu avô, porém,minha avó, Maria Alice, não ficava nada satisfeita e resmungava agarrada ao braço de meu avô: "Mulheres sem vergonha, em trajes menores em cima desses carros virando a cabeça dos chefes de família. Vamos embora, Nunes, que as meninas estão cansadas". Nós não entendíamos muito bem, nem víamos as tais mulheres em trajes menores, somente as alegorias: dragões, diabões, cavalões, guerreirões, sereiões; todos sobre uma cangalha de madeira, ferro, pano e papelão.
Quando voltávamos, o Carnaval era no coreto de Vaz Lobo, Madureira, Irajá ou Penha onde sempre havia uma banda tocando as tais marchinhas - "Jardineira", Cabeleira do Zezé", "Saudades da Amélia", "Touradas em Madri", Ala lá ô, "Máscara Negra", "Bandeira Branca". Nada ou quase nada de samba enredo, estes ficavam para as Escolas de Samba e eram belíssimos em melodia, harmonia e poesia. O bambolear sapateante dos passistas era delirante, sambava-se de corpo e alma inteiros, a sensualidade era conseqüência natural, não ponto de partida cuidadosamente estudado e ensaiado em academias. Puro culto à ancestralidade, meus irmãos.
Mas como "o tempo não pára", a evolução se faz presente, constante e fundamental. Porém não se pode esquecer o fundamento. o assentamento que os mais velhos legaram, somos os herdeiros das três raças e se não soubermos cultuar e preservar, corremos o risco de perder nossa identidade.
Agora, século XXI, ano 2003, governo novo, Presidente da República operário, como todos nós, podemos crer, sem medo, que voltaremos a ser uma nação e nunca mais ninguém ousará dizer ou pensar que não sabemos o que precisamos e queremos, esta lição aprendemos com ele. "Raiou, resplandeceu, iluminou". Desconstruiremos o mal, baniremos os maus, sambaremos nos coretos e nas quadras, porque "na barra do dia o canto do galo ecoou".

 

Fomes

A Campanha "Natal Sem Fome" toma corpo e voz. Corpos e vozes famosos e bem nutridos que mobilizam a população em direção à solidariedade, à reflexão sobre a situação deprimente que uma boa parte das pessoas, que estão abaixo da linha da pobreza, atravessa.
Com certeza, deveríamos estar atentos ao fato durante todo o ano.
Atuar, efetivamente, junto aos sem comida, sem emprego, sem moradia, sem saúde, sem educação, sem família...
Sim, a família. Não aquele modelo tradicional, bem nutrido e agasalhado. Falo daquelas que estão sob as marquises; das espalhadas nos albergues públicos, das formadas pelos meninos e meninas que perambulam pelas ruas da cidade e que se protegem como podem. Os seres humanos descritos por Manuel Bandeira no poema O Bicho. "Tudo está fora de ordem, na nova ordem universal" - obrigada ao poeta que escreveu esses versos, reconheço-lhe o mérito.
O sentimento que a presença do Presépio imprime está maculado; porém, da mesma maneira que nada é estático e a dinâmica do existir se faz presente, o tempo permite o resgate da dignidade Esqueçamos, pois, os "pré-conceitos" e voltemo-nos ao puro, velho e bom amor; não aquele veiculado pelas campanhas publicitárias em função da aquisição de bens de consumo, mas aquele que perdoa, ajuda, compreende... o que luta junto pelo crescimento e bem-estar de todos. Aquele que possibilitou ao menino Chicão ser feliz e seguir na vida como pessoa inteira e digna.
Se queremos paz, temos que ser paz; se queremos amor, temos que ser amor. Não podemos exigir harmonia condicionando -a a sentimentos de egoísmo, desrespeito e incompreensão. Calçar as sandálias da humildade é fundamental, ser irmão é questão urgente, porque uma calamidade pública, a cada dia se instala confortavelmente na sala de estar.
A mensagem do Presépio instiga à reflexão sobre as fomes que corroem o corpo e a alma de todos. Todas as fomes têm pressa, todas precisam ser aplacadas, por isso a todos cabe a responsabilidade da ação, principalmente em relação aos que pouca ou nenhuma chance têm.

 

NAS GRAÇAS DO DIVINO

Quem nasceu no subúrbio e passou boa parte da vida por lá-  nas graças do Divino -  não perde aquele jeito meio “Avon-Cristhian Gray” de ser. A criatura pode ser estudada, viajada, leitora compulsiva; enfim, intelectual de mão cheia, do tipo clássico - óculos de aro redondo, sempre “in” com os modismos lingüísticos responsáveis por uma forma pasteurizada de ser, viver e aparecer muito por sinal; sem falar que a figuraça apresenta um verdadeiro espetáculo pirotécnico expressando-se em três ou quatro idiomas diferentes, citando os maiores dentre os maiores e que ninguém por aqui na Pindorama Desvairada jamais ouviu ou ouvirá falar.

Não adianta nada, camarada! Os trilhos da Rede Ferroviária estão assentados definitivamente em sua alma, os vasos comprados na feira do bairro estão repletos de tinhorões vermelhos, comigo-ninguém-pode, espada de Ogum; esculturas feitas em gesso nas fábricas de fundo de quintal representando Jorge, Sebastião, Aparecida, Penha, Anastácia...estão lá vivinhas, lindas e cheias de graça. E muitas vezes, a figura ainda carrega no sobrenome um  da Silva, dos Santos, de Souza e por aí vai...é coisa muito séria, meus amigos!

E quanto mais tempo a gente passa deste lado da medalha, maior é a nudez exposta na tela em 360 graus de visão. As ruas banguelas, os vizinhos sorridentes, barulhentos, intrometidos, prestativos, brigões. A molecadinha esvoaçando rua abaixo e acima, saltitando que nem sagüis de galho em galho, traquinagem ingênua e boa. No entanto, se alguém precisasse de uma capina no quintal bastava convocar a cambadinha e lá vinham eles feito alegres andorinhas no cais.

Acabada a obrigação, a devoção era pegar manga ainda verde no terreno baldio e depois agüentar a onda da dor-de-barriga, sempre curada por um chá de mil ervas que a avó, tia ou mãe de alguém distribuía em doses generosas, acompanhada duma bronca de fazer gosto, que deixava a curriola lavada, escovada, enxaguada e passada. Pelo menos, até o piriri passar.

É claro que nesse intervalo, cada um em sua casa, já arquitetava a próxima aventura - que tal uma pelada no campinho ao lado da casa do “seu” Juca?! – Um chute forte e certeiro... gol de placa! E lá se foi a vidraça da casa de Dona Maria Romana, que a bem da verdade era madrinha de mais da metade dos peraltas, os restantes eram divididos entre a parentada e os outros vizinhos.

Um susto e a carreira com o viralata Bodega nos calcanhares ameaçando estraçalhar canelas, incentivado pelo esbravejar ameaçador da Dinda. E estava feita a festa naquelas ruas peladas recheadas de meninos e meninas de todas as cores e idades, cheios de esperanças no por vir.

Dona Maria Romana dava a bronca para não perder a moral, nem ela mesma acreditava na braveza que lhe escorria boca afora, e não demorava um instantinho já chamava todo mundo para comer doce de jaca mole fresquinho que ela acabara de fazer e sabia que todos nós éramos loucos de pedra pelas iguarias que somente ela sabia magicar com mais competência que o Grande Odiniz, que de tempos em tempos chegava com o Gran Circo Universal e armava a lona colorida, amplamente bordada de remendos flácidos, em nosso Estádio Poliesportivo – sim, porque servia para todas as modalidades: bocha, truco, sueca, pipa, dominó, Festa Junina, Ensaio do Bloco, Presépio, Folia de Reis... tudo acontecia naquele espaço.

A gente nem ligava e sempre dava um jeitinho de atravessar por um buraco esquecido na lona. E embaixo da arquibancada ripada íamos ao delírio com os artistas. Os mais atrevidos escalavam os bancos toscos e na maior cara-de-pau assistiam a tudo e gozavam da nossa cara, os calça-frouxa que não se garantiram na subida.

Vida de subúrbio era assim, talento e arte do Divino Salvador. Pode cheirar, como alguns hão de dizer, a saudosismo, anacronismo; beirar todos os “ismos”, mas deixar soterrado sob os escombros reluzentes de neon e alumínio que a modernidade produz é, no mínimo, não admitir nossa própria história, a identidade de muita gente; até mesmo impedir que as novas gerações reconheçam-se produtivas, altivas e serenas. “Ninguém é universal longe de seu quintal”, por isso, a preservação de nossas lembranças, nossa memória é o fundamento de tudo que está sempre por vir.

 

Ainda há tempo

Sempre ou quase sempre utilizei este espaço para cantar descaradamente as virtudes e felicidades de minha cidade-estado – Guanabara – sempre senti e sinto saudades da Guanabara. Mas agora está difícil, o carioca que conheço se perdeu, esqueceu o espírito bonachão e manso capaz de transformar e reconduzir em segundos as piores situações aos solares dias que banham nossa cidade sem medo de ser feliz.

Tenho mais e muita saudade dos jovens e suas revolucionárias e construtivas posições. Daquela vontade imensa e intensa de buscar o novo e não ratificar o estabelecido. Observo jovens repetindo os erros do passado e afirmando virilmente que são novidades – falta de informação ou deformação da informação?

A cada dia mais meninas tornam-se mães, ainda na idade em que deveriam estar "curtindo a vida". Não faço coro com os moralistas que acreditam de pés juntos que a sexualidade somente deva ser exercida após a sineta religiosa e civil bradar. Sabemos que os tempos são outros, que a evolução da sociedade grita, mas o berro orgástico está no ponto do desespero gerador do desenredo que estamos mergulhados até a alma.

A cada dia mais meninos, em nome de uma suposta e imposta afirmação da masculinidade, envolvem-se em tenebrosas transações e não conseguem safar-se, por mais vontade que tenham, e esta sabemos cada vez mais faz-se tênue visto os apelos mirabolantes, pirotécnicos e esfusiantes apresentados que determinam ser impossível continuar a viver sem o que se lhes é apresentado.

Relembro "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e reflito que a temática é nada mais, nada menos que água de flor de laranjeira para esquizofrênico em último grau, nunca as piores previsões de Nostradamus estiveram mais reais, concretas e palatáveis, hoje em dia.

Precisamos, urgentemente, rever nossos conceitos. A preocupação com a criança e o adolescente precisa ser real, pois está invadindo, ardendo e queimando todos os sonhos; ferindo outonos, invernos, primaveras e verões. Falta coragem para (re)acender a chama que reencontrará o melhor caminho. Não queremos um caminho, sim caminhos plausíveis, aqueles que permitirão que todos falem, digam, ouçam, escutem e transformem para o melhor, buscar o melhor. Agora, somente, existe o nada e o tudo embolado sem a menor perspectiva.

No entanto, quando não há mais para onde cair, a tendência, creio que fisicamente comprovada, o jeito é bater no fundo, tomar impulso e fôlego e nadar até a superfície. Mas devemos cuidar que a demora não se alongue para que não nos afoguemos e inexista salvação. Eis a imensa questão que preocupa, inquieta.

Pode parecer que sou pessimista, ledo engano, estou pessimista e não consigo vislumbrar uma saída que não seja a revisão e reversão das atitudes. Quando nós nos preocuparmos bem mais com os mais próximos e estendermos nossos tentáculos aos adjacentes com sinceridade e compromisso o sol interno brilhará e iluminará o mundo.

Não sou contra as publicações de auto-ajuda, mas acredito que em lugar de decorar as frases de efeito esvaziadas de conteúdo, somente estaremos reforçando as intenções malévolas e altamente pecuniariamente envolvidas. Certamente, separar o joio do trigo é tarefa hercúlea, não impossível, carece de vontade e disposição constante, apoio dos muitos que acreditam que este nosso lar é passageiro e temos a obrigação, devemos preservá-lo para os que virão e não temos o direito de usar e abusar sem responsabilidade, apesar de que jamais tenha sido cobrado de nós qualquer sisudez.

Precisamos "curtir a vida", deitar e rolar no chão, no céu, no mar; mas não precisamos vender o diamante por trinta dinheiros, os sinais estão aí, esfusiantes, efervescentes e cristalinos para quem quiser lê-los, senti-los. A gente precisa (re)arrumar a casa, ainda há tempo de fazer ao jeito de toda gente gostar. Basta ter e ser real vontade de amar, porque a gente sabe que o amor é via de mão dupla, não carece de ultrapassagens perigosas, é somente velocidade de cruzeiro em céu de brigadeiro.

 

A arrogância venceu?

Com perplexidade observamos a falência, a decadência da instituição que, por princípio, tem o compromisso de ser farol da sociedade. Os profissionais da educação estão cada vez mais acuados, impotentes e sobrecarregados, mas sempre abertos ao diálogo - é o calo profissional - crêem, ainda no conhecimento, no saber ocupando todos os espaços, todas as possibilidades da rosa-dos-ventos, o saber como agente transformador da sociedade, investem contra a ignorância que dia-a-dia faz dupla imbatível com a arrogância.

Acuados salarialmente, submetem-se a jornadas de trabalho extenuantes e sucumbem ao “stress”. Sufocados, exigidos como tábuas de salvação de todo um esquema  sócio - econômico cruel, que assume a máxima do mais ter em detrimento do mais ser.

Se há meninos e meninas nas ruas esmolando, delinqüindo “mande-os para a escola, alimente-os lá, os professores sabem o que fazer” - “os professores não estão capacitados para ensinar a mais ninguém, não atendem às exigências do mundo moderno”. E mais, há um leque de falas sobre o mesmo tema, só não existe a estrutura, os apoios reais, efetivos, sem delírios, para que tudo funcione qual relógio suíço legítimo, não a cópia paraguaia que aí está.

Os professores têm a obrigação de salvar o mundo. Salvar um mundo do” salve-se  quem puder”. Enfrentar o gigante Adamastor a bordo de um barquinho de papel. Dom Quixote enlouqueceu, Joana D’Arc foi incinerada, Palmares foi invadido e destroçado, Tiradentes esquartejado. Quantos mártires serão mais necessários?

Quando saem à rua a reinvindicar: passeatam, gritam palavras de ordem, paralisam, incomodam o mais que podem. Recebem um “faz-me rir” qualquer, aquietam-se resmungantes, pagas suas contas atrasadas e retornam humilhados - Duas matrículas, Dupla regência, duas escolas particulares - E o tempo para a atualização, lazer, família, amigos ? ... Ah, quando a aposentadoria chegar - duas mariolas e um cigarro Iolanda.

É conveniente que exista uma grande massa deformada intelectualmente, convém ao poder, convém aos senhores da guerra. Há um grande vídeo game operado pelos meninos maus que cresceram acostumados ao luxo, ao neon, ao puro poder ilimitado, que na grande generosidade de que são dotados, permitem um sub-poder enjaulado nos guetos asfaltados, com projetos sociais de nomes simpáticos e de grande impacto. Muitos acreditam na sedução fácil, no canto compassado da sereia, no tilintar das máquinas, nas roupas de marca. E os que ousam discutir essa tendência, são simplesmente abolidos. Os professores. Estes que buscam sempre a parceria, a cumplicidade da família, da sociedade.

Durante o Mês de outubro, pense mais, muito mais nos professores. Conversem, não com as “Tias” e “Tios”, porque são profissionais, estudaram para tal. Conversem com os profissionais da educação para que juntos, possam fazer um pouco melhor a vida para as crianças, adolescentes, adultos, idosos. Vida de qualidade para todos.

 

Carioca da gema do ovo           

Reza a lenda que agosto é mês de “cachorro louco”, “mês do desgosto” dentre outras crenças do imaginário popular, mas parece que o fantasioso a cada instante transforma-se em realidade; a angústia que atravessamos ofusca o brilho carioca. Temos medo de tudo e todos, qualquer “ bombinha de dez centavos” nos assusta e num gesto reflexo apalpamos nosso corpo em busca de uma bala perdida nele encravada. Qualquer pessoa que chega solicitando uma informação detona o mecanismo de auto defesa, a desconfiança é nossa companheira de viagem.

Nas escolas, os professores debatem em suas aulas sobre a violência instalada. Crianças, jovens e adultos buscando soluções respondem aos questionamentos com uma grande carga de violência além da indignação, pois não vêem a famosa luz no final do túnel. Muito preocupa a retomada da cruel “Lei de Talião” – “olho por olho, dente por dente” .

No entanto, como a esperança é a última que morre, a primavera começa a dar seus sinais de renovação da vida, as amendoeiras cobrem a cidade com suas folhas, florescem a nos incentivar a seguir, informando que o ontem nebuloso e trágico explodirá brevemente em cores benfazejas, perfumes e amores precursores de um porvir ímpar e que precisamos crer e trabalhar; aprender e apreender que reconstruir o descontruído é possível.

O grito de independência, que por vezes ainda nos parece inacessível, ou somente a visão da tela de Pedro Américo exposta na parede do museu, esse grito deve ser real em cada um de nós. Nos meninos que jogam bola na ladeira que é a  rua Manoel Machado, em Vaz Lôbo, na garotada que empina suas pipas no Aterro do Flamengo, nas pessoas que batalham a sobrevivência, nos quiosques da orla do Leme a Sepetiba , nos camelódromos. Eis aí o carioca e sua garra.

O lado perseverante da cidade, aquele que se reúne também nas casas de música popular brasileira para ouvir “chorinho”, “forró”, “samba”, aquele que dança “funk”, “rock”, “reggae”; núcleos de resistência ao perverso cotidiano. Do pessoal que desenvolve projetos artísticos nas praças. Os artistas de rua que amenizam a dureza do corre-corre em nome da “suada grana” do aluguel, da alimentação, da cervejinha com o churrasco do final de semana - afinal de contas ninguém é de ferro!

Com a possibilidade dos jogos olímpicos aqui na cidade do Rio de Janeiro, as chances de emprego, desenvolvimento do turismo, o resgate da dignidade, do sagrado direito à cidadania plena estarão garantidos, caberá então a nós a manutenção no futuro, assim como agora nos cabe cobrar, exigir mesmo que segurança, saúde, educação, saneamento sejam metas prioritárias, que as idéias saltem do papel, que saiam das salas de extensas e exaustivas reuniões e concretizem-se, porque nós, os cariocas da gema e os adotados, queremos nossa maravilhosa cidade, cheia de encantos mil, de volta. Nós merecemos.

 

Todo cuidado ainda é pouco

 

Em tempos de Dengue todo cuidado ainda é pouco. Além de cada um de nós fazermos a parte que nos cabe, é de suma importância o engajamento na luta contra o Aedes Aegyptis. Todo instante conscientizar parentes, amigos e vizinhos. Não há espaço para descuido, esquecimento ou preguiça. O simplista – Ah, eu não sabia! – pode determinar a vida ou a morte. Não é alarmismo, é realidade, cruel, mas realidade e amplamente divulgada pelos meios de comunicação.

Cidade do Rio de Janeiro, alto verão, gente entrando e saindo, indo e vindo; a economia aquecida, o fundamental intercâmbio cultural absoluto gerador do progresso de um dos mais importantes centros turísticos do Brasil, porta para o famoso primeiro mundo, logo carece ser bem tratada, acarinhada – nem só de piscinão podemos viver – não tão somente a orla, onde uma boa parcela dos “bem nascidos” vivem, porque o Rio de Janeiro é uma cidade democrática e aqueles que não carregam sobrenomes ilustres ou têm conta bancária estelar, dividem o mesmo bairro, a mesma praça, o mesmo jardim. Todos compartilham a carioquice irrestrita, brejeira e escancaradamente feliz, apesar dos pesares a pesar.

E a Sra. Aegyptis, assim falo visto o respeito com que é tratada pelas autoridades, pois é, a Sra. Aeder Aegyptis está fazendo com o cientista Oswaldo Cruz aquele mesmo que conseguiu acabar com a Febre Amarela no século passado, epidemia provocada pelo mesmo mosquito que agora espalha a Dengue. Pois é, o nosso Cientista maior deve estar dando cambalhotas raivosas na nuvenzinha onde desfruta dos prazeres divinais.

Esse mosquito não faz a menor cerimônia, é deselegante, inconveniente, adora águas limpas, esbalda-se nas bromélias, espicha-se nas piscinas e sai voejando por aí beijando, indiscriminadamente, uns e outros. Beijo de mafioso, beijo de Judas.

É urgente cuidar de nossa Casa Maior – A Cidade – com a mesma atenção que dispensamos à nossa casa. É imprescindível a preocupação com o turista, a mesma que devemos aos nossos filhos, pais ou àquela pessoa especial à nossa vida.

Ter  em  mente que nossa Cidade inteira – Norte, Sul, Leste e Oeste – tem potencial turístico, gera todo tipo de emprego – rural e urbano – pode e deve ser visitado por pessoas de outros países, estados, cidades e nativos que precisam e gostam de bater perninhas “pra lá e pra cá”, porque sempre, em todos os cantso, há o que ver, ouvir aprender e curtir. Toda atenção é pouca.

O compositor André Filho quando escreveu “Cidade Maravilhosa Cheia de Encantos Mil, Cidade Maravilhosa Coração do Meu Brasil”, não delimitou áreas. E em chegando 1º de março, data da fundação desta que é abençoada por São Sebastião e defendida por São Jorge, não podemos deixá-la perder o charme e o encanto. Conhecemos o agressor, já aprendemos a combatê-lo. Então, vamos à luta.

 

Afro-Turismo

 O Rio de Janeiro desconhece a existência de um roteiro turístico negro que vá além das Roças de Santo e das Quadras de Escola de Samba, nada contra,mas há muito mais a conhecer. Existe pouca ou quase nenhuma divulgação, a invisibilidade negra é escandalosa, mas buscando aqui e acolá, pode-se observar que há o que ver e saber da história que a escola ainda não conta.

Podemos começar pela Igreja de Santa Efigênia e Santo Elesbão, que foi erguida pelos escravos em 1754 era um importante centro de eventos da comunidade negra. E em estando na esquina da Avenida Passos siga em frente até a Praça Tiradentes do mesmo lado direito você encontra a Igreja da Lampadosa, erguida em 1742, foi lá que Tiradentes rezou antes de ser enforcado e esquartejado, essa Igreja pertencia a uma irmandade de mulatos e padres negros oficiavam, também lá os escravos coroavam seus reis e rainhas e festejavam no entorno. Da Avenida Passos, desça pela Sete de Setembro e encontre a rua Uruguaiana, logo,logo você encontrará a majestosa Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, onde funciona o Museu dos Escravos, com todos os instrumentos utilizados para supliciá-los.

Certamente sua emoção estará à flor da pele, beba uma água de coco, refresque-se, acalme-se, pois ainda há muito a conhecer. Porque já você está no bairro Saúde e a Pedra do Sal vai contar para você que era o núcleo baiano no Rio, a partir de 1870, e lá surgiram os ranchos carnavalescos, precursores das escolas de samba. Voltando pela Sacadura Cabral, rua do Camerino você está no Valongo onde a atividade de comercialização de escravos era feita antes de ser transferida no fim do século XVIII para  a rua Direita, atual Primeiro de Março.

Não esqueça de ir ao Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, na rua Joaquim Murtinho, lá estão expostas obras de Debret, aquele pintor francês que entre 1816 e 1831 retratou o cotidiano dos escravos.

Quando seus olhos se deliciarem com a exuberância da Floresta da Tijuca, a maior floresta tropical urbana, não esqueça que ela foi plantada por quatro escravos.

Há muito a saber, há muito a conhecer sobre a história que a história não conta, e quando você passar ali pela Pequena África, a Praça Onze; não esqueça de reverenciar e dizer solenemente - Valeu, Zumbi !!!

 

A Ilha dos Amores

Não é tão longe assim, não há mares bravios a atravessar, muito menos correr o risco de topar com o gigante Adamastor, porque não há nenhum Cabo das Tormentas a enfrentar. Basta chegar à Pça. XV; manhã bem cedinho e lançar-se ao doce, apesar de poluído, mar da Baía da Guanabara. Pouco mais de uma hora depois, tempo depura paz e deleite, avista-se Paquetá, a Ilha dos Amores.

Charretes, Pedalinhos, Bicicletas, Flamboyants. Ah, Paquetá! Parece que o mundo pára e não se cansa de apreciar sua formosura. A vida pára, o tempo passa. Quem tem olhos de ver, consegue vislumbrar Carolina no alto da pedra esperando o batelão que trará Fabrício. Quem tem ouvidos de ouvir, percebe o cochicho das sereias ao entardecer, que sempre impecável cavalheiro cede seus rubros à Lua de São Jorge que abençoa em prata pura o mar que beija docemente as praias. Mansidão dos amantes.

Resgatar o prazer de conversa fiada, de serenata na janela, o prazer de andar descalço, trocar um doce de carambola por uma compota de jaca fresquinha que a vizinha preparou em quantidade suficiente para um batalhão. Ir até a estação das barcas, juntar-se aos ilhéus e apreciar o desembarque dos novos companheiros de sonhos e lazer.

Paquetá... tão perto, logo ali. Tão fácil, tão aqui ... Paquetá para quem deseja estar mais em si, mais em paz.

 

Cidadão militar 

Houve um tempo no Brasil que as Forças Armadas representavam a face dura da intransigência, um momento histórico que marcou profundamente àqueles que acreditavam em uma qualidade de vida pautada pela liberdade total de expressão. Mas tudo isso já faz parte do passado, não que devamos esquecer, fingir que não aconteceu ou generalizar negativamente.

A propósito do sete de setembro, que muita gente fica feliz da vida por ser feriado – este ano cai num Domingo o que impossibilita esticar o final de semana -, simboliza a nossa soberania, nossa referência mundial como nação independente. Lá estavam as “Forças Armadas” em defesa da Pátria.

O valor e bravura dos soldados brasileiros foram inegáveis durante a 2ª Guerra, onde homens e mulheres lutaram em nome da liberdade de todo o mundo – Exército, Marinha e Aeronáutica .

Houve uma época glamurosa em que os jovens meninos do Colégio Militar, da Academia de Agulhas Negras, da Escola Naval, da Academia de Força Aérea; convidavam as mocinhas professorandas do Instituto de Educação do Rio de Janeiro para seus bailes de formatura. Em muitos casos era ponto de honra das famílias de classe média ter um filho militar e uma filha professora, o que representava o máximo da estabilidade econômica, respeitabilidade social e cultura. Para o pobre o serviço militar representava a possibilidade de uma carreira que proveria o bem-estar familiar; e aqueles que “sobravam”, de certa forma eram até mal vistos e muitos que alegavam ser arrimos de família para não cumprirem o serviço militar o faziam com certo constrangimento, por não poderem ter a oportunidade de aprender e cumprir seu dever de cidadão.

Há alguns anos, as mulheres conseguiram o direito de incorporarem-se às fileiras militares como soldados e oficiais, um grande avanço, pois, observando-se então a maior humanização no rigor militar, principalmente na conscientização de que a mulher é tão capacidade quanto o homem, conforme já haviam provado durante a guerra quando serviram como enfermeiras, médicas; bravas voluntárias que em muito colaboraram.

As forças auxiliares – Polícia Militar e Corpo de Bombeiros – também abriram seus quartéis às mulheres valorando-as como seres humanos capazes.

Hoje, observamos que os militares brasileiros de todas as forças, apesar de ainda haver uma grande procura da juventude pelo ingresso nas Escolas e Academias Militares, já não o fazem por vocação, esta está até mesmo em segundo plano; e tal fator explica-se pela instabilidade de empregos que o país há tempos atravessa. Crêem os jovens e seus familiares que no militarismo está o melhor ensino, aquele que abrirá portas na iniciativa privada. E estes que lá estão somente em busca de segurança financeira decepcionam-se e decepcionam a todos nós.

Assistir à parada militar de sete de setembro na avenida Presidente Vargas renova nosso espírito cívico e a crença de que somos um povo e uma nação.

Há quartéis que desenvolvem trabalhos sociais com crianças de áreas carentes objetivando afastá-las da marginalidade, apresentando uma opção de vida produtiva. Reconstruir-se e banir a imagem repressora e truculenta plasmada nos anos de chumbo é fundamental, a valoração do cidadão e cidadã militar é fundamental para a cultura da paz.

 

Replugar

Estamos vivendo uma era de alta tecnologia, não há mais espaço para a frouxa especialização ou pouca informação.  Devemos estar plugados em tempo integral sob pena de por não estarmos sintonizados com os acontecimentos que rolam via Internet, perdermos oportunidades vitais para o nosso bem-estar.

Alguns ainda pensam ser um exagero, para outros a informática é um mistério nunca indecifrável tanto quanto o desaparecimento dos dinossauros ou a política econômica brasileira. Tudo tem seu preço, quanto maior o conforto mais cara é a compra e é o que estamos vivendo – o estresse nosso de cada dia – crianças, jovens, adultos, idosos, ninguém escapa da maldição da máquina. O que não significa que devemos excomungá-lo, reeditando a Idade Média e queimar Bill Gates em praça pública, qual Joana D’Arc, Giordano Bruno, Copérnico, Newton ... Calma, minha gente! Calma que não é por aí.

Por incrível que possa parecer é na crise que as melhores soluções se apresentam – relembrem o humorismo dos anos 60 e 70 aqui no Brasil, era extremamente instigante com a capacidade de nos fazer respirar no meio da fumaceira de óleo diesel – Exorciza!  Exorciza!  Exorciza!

Por isso que nesse caos do estresse, na era da altíssima tecnologia resgatam-se terapias milenares, busca-se a simplicidade máxima para encontrar o equilíbrio necessário e levar o século XXI adiante. Cada vez mais está evidente Dan – a serpente da eternidade, aquela que engole a própria cauda. E é por aí, de volta ao começo.

São vários os caminhos da serenidade – de orações a cristais, de anjos da guarda a búzios, astrologia, quiromancia, feng – shui, e... Há empresas que usam o Tai-Chi-Chuan e vêm obtendo resultados muito bons no desempenho de seus funcionários, mais equilibrados rendem melhor. A Musicoterapia e a Arteterapia não estão mais restritos às clinicas para distúrbios psicológicos ou psiquiátricos, já está entrando aos poucos no mundo dos “normais”.

Atualmente a todo instante ouvimos e lemos muitas pessoas, importantes formadores de opinião pública, dizendo maravilhas das terapias alternativas e como estas vêm modificando suas vidas.

Portanto venha à tribo dos bichos-grilos, que o bicho-papão vai passar, busque sua identidade em alguma alternativa de vida melhor, qualidade de vida.

 

O paraíso é aqui?

Que os Cariocas adoram praia não é novidade nenhuma, é o espaço mais democrático do mundo, sem dúvida alguma. No entanto, nem só de mar o Rio vive. De carro ou de ônibus, pela Linha Amarela e Avenida das Américas encontramos o paraíso. Nem tão longe assim, principalmente nos tempos bicudos que atravessamos, com o estresse comendo solto, um pouco de mato não faz mal a ninguém.

Na Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes, está o Parque Ecológico Chico Mendes, um verdadeiro Jardim do Éden, viveiros com jacarés e cágados, área para piquenique e acesso gratuito, fazem a alegria de todos, aproximando pessoas, fazendo novas amizades.

Subindo a Serra da Grota Funda os pulmões agradecem e o cérebro destrava abrindo-se um leque imenso de opções. À direita a ilha de Guaratiba e pela estrada vá entrando nos hortos, passeie pelas aléias e deslumbre-se com a beleza rústica das Bromélias. E para quem só conhece vaca fatiada em churrascaria ou no Globo Rural, vai adorar encontrar com elas pastando solenes e dignas ou simplesmente fiscalizando a natureza com sua bovina paciência.

Descendo à esquerda, siga pela Estrada da Barra de Guaratiba, o panorama é mais exuberante ainda, procure o Nardelli e faça um passeio de caiaque ou canoa pelos manguezais. Se bater aquela fome, basta escolher o restaurante de frutos-do-mar ou comida mineira que mais for do seu agrado, conforme o tamanho de sua carteira, mas todos são simpáticos e bons, com aquele jeitinho manso e meigo de interior tão apreciado por nós.

Se o espírito aventureiro e desbravador for incontrolável, procure um nativo e combine uma caminhada pelas trilhas da Barra de Guaratiba, mas  não se aventure sem um guia local, pois eles sabem dos caminhos e o prazer será total. Mesmo os que não vivem sem o mar tem seu lugar ao sol preservado com muito carinho. Suba pela Serra de Grumari,mas vá com cuidado porque ela é íngreme apesar de linda, vá devagar, curtindo, que de repente a praia surge generosa, limpa e  bela.Na volta, conheça o sítio de Burle Marx, é o maior colírio.

Na Pedra de Guaratiba, conheça a capelinha centenária do final da Barros de Alarcão e assista ao pôr-do-sol mais romântico que o Poeta é capaz de produzir especialmente para você. Tudo bem simples, assim como respirar, muito natural.    

Depois de um dia assim, estaremos prontos e mais felizes para tocar a vida em frente com a mente alerta e aberta.

Sepetiba tem duas ilhotas muito interessantes, uma próxima ao Salvamar e outra na Praia da Brisa e com uma conversa com os pescadores, você pode passar um dia inesquecível em qualquer uma delas. Se você preferir a cavalgada, vá até um dos haras locais e realize seu sonho. A todo instante nossa alma e corpo agradecerão o presente e reenergizados voltamos ao dia-a-dia mais ricos.

 

Presépio

Caminhando pela cidade, em todas as vitrines lá estão expostos os enfeites natalinos. São sinos, bolas, papais noéis, neve. Neve?! Árvores de Natal eletro-orgânicos gigantescas plantadas no Aterro do Flamengo ou boiando no espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, as caixas de som espalhando no ar Jingle Bells, White Christmas. Nos shoppings, em lugar privilegiado, lá está o Bom Velhinho, suando em bicas, ouvindo com estudada atenção todos os pedidos dos pequeninos – até curso de Papai Noel existe.

Mas... e o Presépio? Este não tem o mesmo destaque como símbolo natalino.

Minha mãe, todo ano, montava um presépio, claro que a dita árvore cheia de bolinhas e luzes também estava lá no jardim da casa suburbana dos melhores dias, conforme João Nogueira cantou. Era um trabalho modesto, artesanal, amoroso que ano a ano crescia. Lembro da casa onde morávamos entre Vaz Lobo e Madureira, o terreno em três planos, ficava ao pé de um morro. No fundo do quintal ela montou o presépio. Pintou as figuras, de trinta centímetros em média, que havia comprado em gesso cru e nos envolveu no trabalho. Era uma brincadeira e ela ia contando, cantando e víamos surgir os animais, os pastores, os Reis Magos, a Sagrada Família; todos saindo de nossas mãos. Avó, tias, tios, primos, primas, agregados, todos criando juntos. Havia córrego, estábulo, montanhas... o que a imaginação mandasse, concretizávamos.

Terminado o trabalho, minha mãe abria o portão e convidava os vizinhos a visitar o presépio do jeito que a tradição ensina. Nós ficávamos por ali feito cães de guarda resmungando ciúmes quando a conversa entre ela e as visitas espichava além dos nossos limites.

-Mãe, por que o Menino não está no berço?

-Ora, meninas, ele ainda não nasceu, só no dia 24. E não é berço, é manjedoura.

Ela era assim, meio Manuel Bandeira, beijava pouco, mas inventava as coisas mais lindas.

Minha avó Rita sorria daquele jeito manso de quem sabe que fez um bom trabalho com seus filhos, tão bom que estava indo adiante.

Ali na Cinelândia costuma ter um lindo presépio com figuras em tamanho natural, em Madureira no calçadão da Edgard Romero, no calçadão de Campo Grande e nas igrejas católicas também.

Visite-os, adore-os, junte a família e os amigos e monte um presépio, pois aí está a maior expressão do Natal.

Paz no Mundo.

Repensando o Brasil

 

Mais um ano vai passando e novamente nos deparamos com as comemorações que exaltam a pátria: Dia da Independência, Proclamação da República... mas além do feriado, que significa um dia sem trabalho, o que realmente temos para comemorar?

A História do Brasil já começa a ser mal contada desde que começamos a ter acesso às primeiras aulas da escolinha. Pra começar, aprendemos que a nossa querida pátria foi “descoberta” por Pedro Álvares Cabral. Descoberta? Na própria carta que Pero Vaz de Caminha envia à Portugal ele usa o termo “achamento” ao invés de “descobrimento”. Isso nos leva a crer que os portugueses apenas chegaram primeiro ao local das novas terras... Outro ponto ignorado é o fato de o Brasil ( pelo menos as terras que equivalem hoje ao nosso território), já existia antes da chegada dos portugueses. Toda rica história indígena do Brasil “pré-achamento”, foi simplesmente deixada de lado. A triste realidade é que nossa História não começa, e sim faz parte da História dos outros. Todo nosso passado foi simplesmente jogado ao vento e até hoje nem existe sinal de tentativas de recuperação...

Depois de nos conformarmos que somos uma mera parte de um todo, nos orgulhamos do fato de sermos um país independente. Independente? Nosso lindo território sendo explorado por outros. Nossas florestas destruídas, nossas águas poluídas por empresas internacionais ou até mesmo por pesquisadores que se instalam aqui e tiram proveito de nossa riquezas naturais. Até nosso vocabulário, nossa língua emprestada portuguesa, tem sido invadida por palavras estrangeiras. E a República? Sempre marcada pela corrupção e eternos jogos de poder.

Não pensem que a situação é irreversível. Ser totalmente independente em um mundo globalizado é utopia. Mas é possível e preciso que o Brasil seja valorizado e respeitado. Nossa vasta cultura, a inteligência e a criatividade do brasileiro é fenomenal. Temos muito o que ensinar.

A mudança tem que vir de cada um de nós. Pequenas coisas, idéias e atitudes podem parecer pouco, mas em um país grandioso como este, havendo uma união entre as pessoas, podemos vencer qualquer obstáculo. Não vamos desistir de nossos ideais. Valorizando sempre o Brasil.

“Para o bem de todos e felicidade geral da nação”.

 

SALVE(M), SÓCRATES!

“Só sei que nada sei” a máxima Socrática jaz espalhada pela cidade em “outdoors”, vendendo as excelências que a juventude, em primeiro plano, e o povo em geral, melhor não desprezar, encontrarão em determinada rede privada de ensino. Com todo respeito, parece campanha de supermercado anunciando de maneira pretensiosa  as maravilhas gastronômicas natalinas totalmente incompatíveis com nosso clima e cultura, mas isso é assunto para outro momento convenhamos.

Há alguns anos o engajado e sorridente compositor Martinho da Vila lançou um samba que se não me falha a memória tem por título “Pequeno Burguês”; isso lá para os idos anos 70, “Felicidade, passei no vestibular, mas a faculdade é particular...” e lá vai seguindo o samba adiante, falando sobre o preço da mensalidade, a dificuldade para adquirir os livros, lá para as tantas depois de muita batalha o indivíduo consegue formar-se, integra-se ao mercado de trabalho, marca território. A tão sonhada igualdade a duras penas é finalmente conquistada.

Agora, acompanhamos as discussões sobre a reserva de cotas nas universidade públicas para os afro-descendentes – coisa difícil de se determinar em se tratando de Brasil, melhor conferir a cor da pele. Há uma corrente que opõem-se alegando ser paternalismo e principalmente ratificadora de posturas elitistas empenhadas na manutenção da mão-de-obra barata, desqualificada, de escolaridade deficitária e sobretudo desinformada, portanto absolutamente manipulável ao bel-prazer dos poderosos. Espera aí, esses estudantes, em sua grande maioria, são egressos da escolas  da rede pública. Será que não está mais que na hora de rever a forma de transmitir o conhecimento adequado ao ingresso no ensino superior. Não estamos falando em diminuir a exigência, sim intrumentalizar os alunos de  famílias despossuídas  para ingressarem nas universidades públicas sem as tais cotas?

Observamos que tais medidas não são levadas efetivamente a sério, não por falta de iniciativa ou competência dos profissionais de educação, a situação é muito mais grave; é falta de vontade política real e a necessidade da manutenção do voto de cabresto, porque quando as pessoas começam a fazer reais reflexões , questionam e abalam o “status quo” daqueles que não têm o menor interesse no crescimento, cujas convicções ainda são coloniais e predatórias, mascaradas no discurso tolerante e gestos largos, democráticos, mas de pés de barro são tais ídolos e poderão ruir, à proporção que brasileiros de todos os matizes econômicos e culturais assumam sua cidadania plena.

Por outro lado, há aqueles tantos que defendem com unhas e dentes a manutenção das cotas em todos os segmentos educacionais e profissionais, acreditando que somente assim, os afro-descendentes poderão fazer parte do processo social, contribuindo de maneira efetiva e transformadora concretamente, pois quanto maior a diversidade cultural, mais rica será a integração e modificação de uma estrutura social há muito decadente por não ter-se permitido respirar e vivenciar novos e instigantes caminhos.

A propósito do mês de outubro, quando os professores são “homenageados” no dia 15, mais uma vez ponho-me a refletir qual, a bem da verdade, deve ser seu papel – babá, tia, psicóloga, médica, carregadora, saco de pancada,... – ano após ano as universidades despejam no mercado licenciados – alguns ávidos – aptos a repassar conhecimentos, resgatar cidadãos, transformar o caos social a partir do processo pedagógico, integrado, transversal, internético, intranético, mas acima de tudo intra-uterino.

Eis aí a pessoa capaz de largar sua família para cuidar e aliviar a dor que invade a alma de 30, 40 até 60 pessoas por turma; de manhã à noite.

Eis aí a pessoa que deve sempre estar pronta a sorrir, mesmo que seu calo esteja em franca atividade, sua conta bancária no vermelho e o cartão de crédito estourado.

Eis aí a pessoa que sempre deve pensar primeiro em conciliação mesmo quando um aluno em acesso de fúria atira em sua direção uma cadeira, porque ficou insatisfeito com a proposta feita para o desenvolvimento de um trabalho.

Eis aí a pessoa que, apesar de saber que há uma Lei que garante seus direitos e pune o infrator, ainda pensa em reconciliar.

Eis aí a pessoa que ainda precisa ensinar à autoridade competente o número do artigo que deve ser feito o registro policial e ainda encarar o descaso e extrema ironia da autoridade.

Fala-se muito nos excluídos, protege-se muito àquele que não teve oportunidades, abrem-se caminhos e possibilidades àqueles que, aparentemente, nada têm, a fim de que possam, através do conhecimento cientifico, este oportunizado pela Escola possam finalmente, resgatando o tempo perdido, atender às necessidades do mercado de trabalho, engajando-se digna e competentemente. Afinal passa por aí o desenvolvimento de uma nação.

De que adianta bradar aos quatro ventos contra a falta de emprego, salário justo, saúde para todos e educação adequada, ampla e irrestrita, discurso na ponta da língua dos estudantes de todas as idades. Se há  pessoas que acreditam piamente que o melhor caminho é o mais rápido e aquele que for absolutamente esperto, ladino, sortudo; conquistará o prêmio máximo das loterias e o beijo da Rainha do Baile. Se  porventura não conseguirem seu intento, resolvem a questão “na marra”.

A questão da violência passa principalmente pelo resgate da vergonha na cara, pela valorização do ser humano que se propõe a trabalhar e constata que valeu todo esforço consciente pelo bem e engrandecimento do próximo. Não adianta, portanto, somente desarmar a população, é mais que necessário desarmar o marginal e este não é tão somente o traficante, o ladrão ou o homicida. Também é preciso desarmar aqueles que travestidos de cidadãos honesto utilizam-se de recursos nada ortodoxos – como tráfico de influências por exemplo - para atenderem suas vaidades e veleidades.

 

Se a Ordem do Rei é  Sambar ...

Carnaval, doce  ilusão” sua bênção, mestre Silas de Oliveira. Empreste seus versos que estão chegado os bumbos e tamborins. As imperianas frigideiras tilintam em Suassuna homenagem. Com todo respeito às co- irmãs. Mas... como não se pode fazer Momo esperar, aliás a ordem do Rei é sambar, então muita harmonia, paz e alegria. Que as máscaras que vestimos no dia-a-dia, tentando sobreviver, sejam substituídas e tenhamos força e coragem de ser nós mesmos, que  aprendamos ou resgatemos cada um de nós do fundo do poço que nos atiramos em busca do progresso, do ser feliz.

Dê-me um pouco de magia, de perfume e fantasia e também de sedução” não deixemos passar ao largo as devidas precauções, os tão divulgados cuidados com a saúde. Cuidado com a garotada; fantasias leves e fresquinhas, porque criança é igual flor, precisa ser bem regada e adubada pra crescer forte, viçosa e retribua em sorrisos, odores e cores deslumbrantes. Cuidado com você que acredita que o raio cai sempre na casa do vizinho e mergulha naquele olhar sedutor e delirante sucumbe aos prazeres saturnais. Mais que justo, cada um sabe de si. Mas não esqueça as cinzas. Proteja-se, precavenha-se “pro dia nascer feliz.”

Quero sentir nas asas do infinito minha imaginação” há os que preferem descansar, pegar a estrada, rodar por aqui e acolá, fazer caminhadas e descobrir novas trilhas na Floresta da Tijuca, no Maciço da Pedra Branca, na Barra de Guaratiba. Quem sabe lagartear no Parque Ary Barroso da Penha, na Quinta da Boa Vista, no Parque da Cidade ali na Gávea ou no Parque Laje e depois esticar-se nas aléias do Jardim Botânico ou do Bosque da Barra da Tijuca. O samba não impede, o samba é democrático e respeitoso.

Mas se o “Bum-bum-praticumbum-prucurundum” for irresistível e a grana curta para uma fantasia em qualquer Escola de Samba, de qualquer grupo; mesmo sendo aquela que faz seu coração chacoalhar feito as platinelas do pandeiro. Não precisa emburrar, desfaça a tromba porque os blocos estão aí, resistindo bravamente para salvar o Carnaval. Existem aqueles “Blocos de sujos que não têm fantasia, mas que trazem alegria para o povo sambar”. E os heróis da resistência – Cacique de Ramos que arrasta índios de todas as tribos para uma pagelança irrestrita. Não podemos esquecer que foi lá na Quadra de Ramos, embaixo da Tamarineira que nomes como: Jorge Aragão, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Arlindinho Cruz, dentre outros bambas, alçaram vôo soberano.

Conforme Nelson Sargento profetizou “Samba, agoniza, mas não morre”. Temos aí o Bloco do Clube do Samba, Barbas, Banda da Piaí. Uma infinidade, perto de casa ou nem tão longe assim, sempre a preço super camarada, a gente veste aquela camiseta, encara uma bermuda, reúne a família e os amigos e vamos lá render homenagens a Momo, vamos lá render homenagens aos Orixás com toda a reverência que eles merecem.

Vamos lá, meu povo! Olha o Carnaval aí, gente! Vamos botar o bloco na rua “Oh abre alas que eu quero passar, eu sou da lira não posso negar, rosa de ouro é que vai ganhar”-Viva Chiquinha Gonzaga!.

Quarta- feira de cinzas “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções...”. Ledo engano o sábado chegou, desfile de campeãs no Sambódromo “É hoje só amanhã não tem mais”. O ano começa com seu ramerrão e temos que ser fortes, devemos estar fortes para levá-lo a contento. E para não perdermos o pique Paulinho da Viola nos aconselha e incentiva – “Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar"

Longe vá temor servil

Há tempos, certamente sob a forte emoção da vitória da pessoa que representava, na minha opinião e na de grande parte dos brasileiros, a tocha que iluminaria caminhos e juntos conseguiríamos transformar, revolucionar, reconstruir um país caindo aos pedaços, dei minha cara a tapas. O bando disperso resgatava-se Povo e aquela devastada imensidão geográfica ressurgia Nação.

Fomos daqui e dali nos banhando em esperança e luta, porém cada dia uma e outra notícia pouco alvissareira, nublava nossa confiança, mas ainda assim, apesar de ofuscada nossa esperança teimava continuar, afinal havíamos investido muito, tudo ou quase tudo contra as forças do mal.

Mas a decepção insistiu em espraiar-se até conseguir instalar-se e de garfo e faca fez seu banquete, saciou sua fome de náufrago e ainda faminta vai consumindo tudo sem dó nem piedade. Qual ferimento que ainda está em fase de recuperação a chaga abriu-se e dolorosamente consome a carne do Povo, que sucumbe sem forças. A esperança está sendo vencida. Somos boiada que estoura e arrebenta portas, portões e porteiras e os mais fracos vão ficando pelo caminho destroçados por lobos, coiotes, cascavéis e pintadas.

E ele? Onde ele está? O que tem a nos dizer? Seu silêncio nos machuca. Sua fala, nada nos diz. Aquele Ele onde está?

Estamos choramingando feito criança que perdeu o doce. Claro que sim. Afinal, nós nos entregamos feito crianças em loja de doce. Entramos na loja, percorremos as prateleiras, escolhemos o que gostaríamos de saborear, fizemos planos e dividimos a esperança com Todos, mesmo com aqueles que não queriam entrar na loja e ficavam da calçada dizendo "cuidado que tem barata e rato aí dentro!", nem ligamos e rimos muito do pessimismo dos que ficaram na calçada.

Tudo bem, as baratas e ratos, agora robustos nos apavoram e ameaçam, vão roendo e devorando satisfeitos o petisco delicioso que representamos.

Será que teremos forças para recomeçar?

Precisamos acreditar que sim, que estamos em pausa; mas pausa também é música. Quem sabe não consigamos recomeçar a canção em quialtera, igual no Hino Nacional? Quem sabe incorporemos o espírito da brava gente brasileira e que longe vá o temor servil, pois ou ficar a Pátria livre ou...morrer não, meu amigos, sim reconstruir o Brasil. Então, vamos à luta mais uma vez, vamos bater pé e gritar até acordar a moralidade submersa nos escombros de nossa esperança.

 

 

Este site foi atualizado em 12/02/07

 

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