Texto: Lygia Godoy
Foto de Eliege Florêncio
A Barra da Tijuca, tem o privilégio de acolher uma das figuras mais festejadas do Carnaval e da cultura carioca, o Professor Júlio Machado que há décadas milita com alunos de todas as idades, do fundamental ao ensino superior, sempre reverenciado e respeitado por colegas e principalmente por seus muitos alunos e ex- alunos. Sua competência e compromisso com a educação de qualidade não o transforma em uma pessoa sisuda, apesar da seriedade com que encara seu trabalho, desenvolvendo-o
sempre de maneira suave, porque é consciente de que aprender não deve implicar em sacrifício ou auto-flagelação.
O início
Começou a desfilar no Salgueiro levado por seu aluno Neném, filho de Isabel Valença, que à época estudava no Colégio Veiga de Almeida, na Tijuca. A Escola de Samba estava na era dos enredos afro e Fernando Pomplona e Arlindo Rodrigues pediram que ele viesse de Xangô, junto com mais quatro pais de santo, o enredo era "Bahia de Todos os Deuses". Três pais de santo ficaram doentes e ele acabou vindo como destaque principal, por assim dizer. Chegando o desfile na Central do Brasil, área
de dispersão – o desfile acontecia na avenida Presidente Vargas – o carnavalesco lá estava a esperar a escola. Júlio Machado foi por eles saudado e consagrado o Xangô do Salgueiro. Dali para cá, sempre vem de Xangô, mas sempre bem colocado no enredo, adequado, de maneira inteligente.
Os desfiles
Os grandes desfiles de fantasia também contam com Júlio Machado e seu Xangô, uma fantasia que pesa de 80 a 100 quilos. Para vesti-lo, conta com dois ou três funcionários de apoio e mais uma mãe de santo para o necessário apoio espiritual.
O Professor
Há anos dando aulas na Faculdade Hélio Alonso, dentre outros colégios, sempre sustentou suas fantasias – O Xangô sempre deu condições ao professor Júlio de sobreviver e sustentá-lo cada vez com maior segurança e generosidade.
Uma das homenagens que mais o emociona foi feita por alunos seus, crianças para quem distribuía balas e bombons além de dar aulas. Certo dia um aluno lhe disse o seguinte "- Professor, o senhor é um bonecão, não é bonequinho porque o senhor é muito grande. O senhor é bonecão porque dá balas para as crianças." As crianças do Colégio Veiga de Almeida pintaram um retrato de Júlio Machado onde estava escrito Júlio Bonecão. Espiritualmente, relata o professor, sempre o aconselharam que estaria
muito bem acompanhado por essa imagem que as crianças criaram de "bonecão", e isso nunca lhe fez mal, somente bem. De um lado o Bonecão, de outro Xangô.
Segundo o professor de História Júlio Machado, dar aulas em Pré-Vestibular exige muito do profissional de educação, que tem que se posicionar como um artista, ter jogo de cintura, além de saber muito bem a matéria e saber transmiti-la, porque é um curso livre e o aluno não tem qualquer compromisso, está no mesmo nível que o professor. Alguns alunos não têm a mínima formalidade, pintam e bordam sabendo que nada lhes acontece. No colégio e faculdade é diferente, dá maior segurança ao
professor porque parece uma família. A proteção é maior.
A reserva de vagas na Universidade
-Se houvesse uma real democracia racial no Brasil, a reserva não seria de 40% de vagas no ensino superior, seria meio a meio – ressalta o professor Júlio Machado – igualdade de condições, essa reserva já demonstra que não há democracia alguma. O Brasil é um país negro não é ariano, é preciso uma real democracia em todos os segmentos.
As Escolas de Samba
Como um mero servo de Xangô, Júlio Machado afirma que levará seu Pai à avenida enquanto "ele" assim o determinar. A Escola de Samba é um culto afro-brasileiro, uma procissão. O Mestre Sala é Ogum protegendo e cortejando a Porta Bandeira. A Ala das Crianças os Erês soltos na avenida. As Pretas Velhas a ala das baianas, que na maioria são rezadeiras, benzedeiras, catimbozeiras. Na bateria estão os ogãs rufando os atabaques. As mulheres e os homens nus, são os "compadres e comadres", os
Exus soltos na Avenida.
Na verdade é uma procissão em curso e para os gringos e para a cultura branca patriarcal dominante seria muito feio reconhecer essa licenciosidade, domínio da raça negra, mas é plena e total a convicção de Júlio de Xangô sobre o que fala, qualquer que seja o enredo, Bromélias ou Santos Dumont, tem essa "macumbada" toda gloriosa na avenida. Eles não têm consciência disso. É um culto. E assim sendo ele sempre entra na avenida pedindo perdão e explicando que não profanação, sim reverência,
homenagem à cultura.
As premiações
Estandarte de Ouro, também é "Hors Concours" em fantasias na passarela, desde que Clóvis Bornay não quis mais desfilar, apesar de sua insistência. A Riotur o premiou em 2000. Também deixou seu depoimento gravado no MIS (Museu da Imagem e do Som).
São 40 anos de Xangô e 30 anos de passarela e enquanto der e puder e lhe for permitido continuará, apesar do custo da fantasia – um carro zero – apesar do peso – de 80 a 100 quilos – apesar da premiação – cerca de cinqüenta reais-. Júlio Machado continuará, pois seu maior compromisso é com a cultura, com o prazer, com a história. Contribuir de alguma maneira para que a paz tenha espaço garantido através da arte, da beleza.