CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

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O Império Serrano
O Imp�rio Serrano desfila em 1969: "Her�is da Liberdade",
de Silas de Oliveira. Mano D�cio da Viola e Manoel Ferreira

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Liberdade, Senhor,
Passava a noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
L� em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opress�o
A fiel ma�onaria
Com sabedoria
Deu sua decis�o l�, r�, r�
Com flores e alegria veio a aboli��o
A Independ�ncia laureando o seu bras�o
Ao longe soldado e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim: J� raiou a liberdade
A liberdade j� raiou
Esta brisa que a juventude afaga
Esta chama que o �dio n�o apaga pelo
Universo
� a evolu��o em sua leg�tima raz�o
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
De gozar da felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos "Her�is da Liberdade "
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O MELHOR SAMBA-ENREDO DE TODOS OS TEMPOS

Deu Silas de Oliveira na cabe�a: o melhor samba-enredo de todos os tempos � "Her�is da liberdade", dele com Mano D�cio da Viola e Manoel Ferreira, que o Imp�rio Serrano levou para a avenida em 1969. 0 primeiro lugar em um universo de centenas de sambas foi dado ao hino alviverde por 10 das 70 pessoas ouvidas pelo GLOBO, em uma enquete que ainda elegeu " Agud�s, os que levaram a �frica no cora��o e trouxeram para o cora��o da �frica o Brasil!", da Unidos da Tijuca, o melhor samba de 2003, seguido de perto por "Os dez mandamentos: o samba da paz canta a saga da liberdade", da Mangueira. Na elei��o dos melhores de todos os tempos, o vice- campeonato ficou com "Os sert�es", da Em Cima da Hora, de 1976 (de autoria de Edeor de Paula), e a medalha de bronze com "Aquarela Brasileira", tamb�m do Imp�rio Serrano e de Silas de Oliveira. Dos cinco primeiros colocados na enquete, tr�s foram do compositor imperiano -"Cinco bailes tradicionais na Hist�ria do Rio", de 1965, que ele fez com Dona Ivone Lara e Bacalhau, foi o quarto colocado, ao lado de "O mundo encantado de Monteiro Lobato", da Mangueira em 1967.
Nem todos os 70 eleitores ouvidos na enquete conheciam os sambas de 2003 o suficiente para ter um favorito. No entanto, a cren�a radical de que nada presta nas composi��es recentes j� n�o � t�o forte quanto se poderia supor. � claro que alguns embarcam no bloco do "n�o ouvi e n�o gostei", como o compositor Nei Lopes e o roqueiro Guilherme Isnard. No entanto, veteranos conhecedores do mundo das escolas como S�rgio Cabral, Fernando Pamplona e Haroldo Costa ouviram o disco de 2003 com aten��o e t�m suas opini�es:
-Gosto do samba do Salgueiro, pela originalidade -diz Cabral, nascido em Cavalcante e torcedor (e ex-enredo) da Em Cima da Hora. A escolha de um �nico samba-enredo em mais de mil foi ingrata para a maioria das pessoas, que insistia em votar em dois ou tr�s.
-Essa escolha � fogo! -reclamou, bem-humorado, o escritor Haroldo Costa, que acaba de lan�ar "Salgueiro -50 anos de gl�ria", sobre sua escola do cora��o, que vai justamente contar esse meio s�culo de hist�ria em seu desfile, hoje � noite. -H� v�rios sambas antol�gicos, inesquec�veis. Voto em "Chica da Silva", do Salgueiro, que, al�m de bonito, � um samba que marcou �poca, na minha opini�o.
A pesquisadora e escritora Rachel Valen�a justifica seu voto no "Cinco bailes'" do Imp�rio, com o academicismo adequado: -� um samba que obedece rigorosamente � estrutura da epop�ia - diz ela. -Intuitivamente, Dona Ivone, Silas de Oliveira e Bacalhau compuseram o mais cl�ssico dos sambas-enredo.
O cantor Jo�o Bosco acredita que n�o � por acaso que Silas de Oliveira � compositor de tr�s dos cinco sambas que aparecem no topo do ranking da vota��o. Embora seja imperiano confesso, Bosco - que gravou "Her�is da liberdade" e frequentemente canta o samba em seus shows - garante que seu voto foi isento.
-Silas � o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos -diz ele, que tamb�m elogia "Chora chor�es", da Est�cio de S�, e "� hoje", da Uni�o da Ilha. -Embora n�o soubesse tocar nenhum instrumento harm�nico, tinha uma incr�vel sofistica��o mel�dica. E um talento �mpar para conciliar profundidade de informa��o hist�rica com lindas letras. Al�m de "Her�is da liberdade", um hino, "Aquarela brasileira" � uma obra-prima, uma viagem pelo pa�s. E "Os cinco bailes..." tem todas as caracter�sticas de uma epop�ia cl�ssica.
O pesquisador Ricardo Cravo Albim tamb�m votou no primeiro colocado e lembra que, para o poeta Carlos Drummond de Andrade, "Her�is da liberdade" tinha alguns dos versos mais lindos da l�ngua portuguesa: "Essa brisa que a juventude afaga/ essa chama que o �dio n�o apaga pelo universo/ � a evolu��o em sua leg�tima raz�o".
-Eu votaria em qualquer samba do Silas de Oliveira. Mas "Her�is da liberdade" � perfeito -diz Cravo Albim. Curiosamente, dos cinco primeiros colocados na enquete, s� um foi campe�o: o quarto colocado, "O mundo encantado de Monteiro Lobato", que deu � Mangueira o t�tulo de 1967. Dos tr�s do Imp�rio, um foi vice, "Os cinco bailes", em 1965 (perdeu para o Salgueiro), e os outros dois foram quartos colocados, o que, numa �poca em que apenas quatro escolas eram campe�s (Imp�rio, Portela, Salgueiro e Mangueira), pode ser considerado um fracasso. A pequena Em Cima da Hora conseguiu um feito ainda mais surpreendente: foi rebaixada, em 1976, com um samba que entrou para a hist�ria, "Os sert�es", vice- campe�o da enquete.
Naquele ano, uma tempestade caiu sobre a Sapuca� no momento exato que a Em Cima da Hora entrava na avenida, prejudicando evolu��o, harmonia, alegorias e adere�os e fantasia. A escola ainda deu um pulinho no Grupo Especial, em 1985, e hoje est� no Grupo B, que desfila na ter�a-feira � noite. -Na hora do desfile, tudo pode mudar -diz o pesquisador Hiram Ara�jo. -O samba de que mais gosto, "Raps�dia da saudade", da Mocidade, tem uma letra lind�ssima do Toco, mas tirou nota baixa.
D�zias de pessoas votaram nas pr�prias escolas: N�go e Milton Cunha (puxador e carnavalesco da Tijuca), Max Lopes (carnavalesco da Mangueira), Neguinho da Beija-Flor. Dona Ivone Lara n�o teve falsa mod�stia e votou em "Os cinco bailes da Hist�ria do Rio". O mesmo aconteceu com Ivo Meirelles, �nico a votar em "Caymmi mostra ao mundo o que a Mangueira e a Bahia t�m", campe�o de 1986, de sua autoria em parceria com Paulinho e Lula. Fernanda Abreu, que, junto com Caetano Veloso, ajudou a popularizar "� hoje", diz que gosta dos sambas da Uni�o da Ilha dos anos 70, por sua alegria, mas justificou o seu voto em "Os sert�es: -Este samba tem uma melodia maravilhosa.

Bernardo Ara�jo, Daniela Name e Jo�o Pimentel

 




Silas de Oliveira
Silas de Oliveira

 

MESTRE INSUPER�VEL DO SAMBA

Silas de Oliveira. Esse � o nome que vem � cabe�a de qualquer pessoa que entenda minimamente de samba quando a quest�o � samba-enredo. E n�o � para menos, Silas � autor de pelo menos quatro hinos defendidos pelo Imp�rio Serrano que marcaram �poca: "Her�is da liberdade", "Aquarela brasileira", "Pernambuco, Le�o do Norte" e "Cinco bailes tradicionais da Hist�ria do Rio" (com Bacalhau e Dona Ivone Lara).
Filho de pastor protestante, Silas tinha que fugir da aten��o do pai para ir assistir ao jongo e �s reuni�es de samba no Morro da Serrinha. Mano D�cio da Viola, que viria a ser o seu parceiro mais constante -inclusive no melhor samba-enredo de todos os tempos -e outro grande compositor, foi quem o fez entrar de vez para o mundo do samba ao lev�-Io para os ensaios da escola Prazer da Serrinha. L� Silas come�ou a compor e a tocar tamborim. Chegou a mestre de bateria. Nessa �poca, era ele quem copiava e corrigia os erros dos sambistas para depois distribuir a letra para as pastoras, respons�veis por ensinar a m�sica.
Em 1947, juntamente com Mano D�cio, Molequinho e outros fundou o Imp�rio Serrano, uma dissid�ncia da Prazer da Serrinha. A partir da� at� o fim de seus dias, a hist�ria de SiIas e a do Imp�rio se confundiram. Dos 16 sambas que comp�s, 14 venceram na escola -de 1963 a 1969 s� deu ele -e cinco deles deram o campeonato � escola que em toda a sua exist�ncia foi campe� nove vezes no Grupo Especial. Curiosamente, nenhum dos seus sambas cl�ssicos foi campe�o.
"Her�is da liberdade" �, al�m de um belo samba, um hino contra a ditadura militar, que chegara ao �pice dois meses antes, no fat�dico 13 de dezembro de 1968, dia do AI- 5. Consta que, na letra, onde se l� a palavra "evolu��o", estava a palavra revolu��o.
Em 1970 desligou- se da escola por discordar dos rumos tomados pelo carnaval. Em maio de 1972, depois de cantar "Os cinco bailes..." em uma roda promovida por Mauro Duarte, em Botafogo, Silas p�s a m�o no cora��o e morreu. Por sugest�o de Natal da Portela, no enterro de Silas um surdo marcava "Her�is da Liberdade".

Jo�o Pimentel

 

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