CARTA DE PRINC�PIOS DA SABEDORIA IND�GENA
No in�cio dos tempos, muitos anos atr�s, j� est�vamos aqui, �ramos
milhares.
Naqueles tempos, nossos antepassados j� ensinavam que tudo que existe est� ligado ao grande ciclo da vida. A �gua dos nos e igarap�s, as florestas, os animais pequenos e os grandes, tudo � nossa volta tem sua magia pr�pria e ali foi colocado para manter o grande ciclo da vida e ajudar os homens que forem s�bios.
Durante milhares de anos, participamos com respeito desse grande ciclo da vida, sempre aprendendo, a cada dia, com a natureza. Ela foi e � para nosso povo a grande m�e, dela tiramos o sustento de nossos filhos, com ela aprendemos a utilizar as plantas para curar a doen�a do nosso povo.
H� quinhentos anos chegaram os invasores vindos de longe; de l� at� hoje, tudo mudou no lugar em que vivemos, muitos dos nossos foram dizimados por doen�as ou guerras. Se no in�cio �ramos 6 milh�es, hoje somos 300.000. De n�s levaram e levam a madeira, o ouro e a pr�pria terra. Nossa grande m�e chora de tristeza e choramos juntos com ela. Quando vamos no rio e ele est� sujo, quando vamos na mata e ela n�o mais existe, quando queremos falar com os esp�ritos e eles n�o mais respondem porque uma m�quina passou na sua morada.
Temos certeza de que a "civiliza��o" que nos foi imposta foi uma civiliza��o que n�o deu certo, n�o deu certo para nosso povo, e agora temos certeza de que n�o deu certo para o homem branco. N�s, �ndios, ainda resistimos, mantemos nossas tradi��es, mantemos respeito � grande m�e natureza, por isso somos chamados de selvagens e pregui�oso.
N�o compreendemos a sabedoria de voc�s, n�o entendemos uma sabedoria que destr�i a mata, polui os rios, mata os peixes. N�o compreendemos uma sabedoria que abandona seus velhos, maltrata suas mulheres e crian�as. N�o compreendemos a �nsia do homem branco em dominar seu irm�o, a natureza e as for�as do universo. Todo esse poder, todas as armas, por outro lado, n�o t�m feito de voc�s um povo feliz. Muitas doen�as, muitas dores que seus s�bios n�o podem curar, sabemos o rem�dio. Muitas pragas nas planta��es de voc�s, nossa sabedoria poder� resolver.
Nesse Encontro Nacional de Paj�s, onde pudemos, pela primeira vez, conversar com parentes de v�rios lugares do Brasil sobre nossos conhecimentos tradicionais, ficamos sabendo que mais uma vez voc�s, como um bicho da noite, t�m entrado na nossa terra para roubar nosso bem mais precioso, para roubar o que est� na cabe�a dos paj�s, em nome da paz, em nome da humanidade e em nome da ci�ncia, e depois pegam nossa sabedoria e colocam para vender para o primeiro que der o melhor pre�o.
Nesse encontro conversamos muito sobre essa quest�o e decidimos fechar nosso cora��o e nossa sabedoria. Chega de roubo, chega de sermos tratados como objetos de pesquisa, chega de tanta destrui��o das matas, dos rios, dos animais. Exigimos respeito ao nosso passado, � nossa cultura. Exigimos ainda que as autoridades do Brasil e do mundo resolvam as seguintes quest�es:
1. Voc�s fazem um monte de leis no Brasil e no mundo tem muita lei, lei que protege nosso povo, que protege as matas, os rios, o ar, que protege nosso conhecimento tradicional. Para n�s essa lei n�o tem valor, porque voc�s n�o cumprem as leis que fazem. Exigimoss que voc�s cumpram suas leis.
2. Voc�s t�m uma lei chamada Lei de Patentes que registra no nome de voc�s o que na verdade � nosso. Isso � roubo! Essa lei n�o � justa com os povos ind�genas. Exigimos que seja feita uma nova lei, uma lei onde os paj�s sejam ouvidos e que nossa vontade seja respeitada, em toda lei que ainda vai ser feita sobre esse assunto.
3. O sangue de alguns parentes, os caritianas e suru�s, foi levado para fora de sua terra e do Brasil e agora est� sendo vendido. Exigimos que o governo do Brasil fale com os outros governos para devolverem o sangue de nossos parentes
4. O sangue dos caritianas e dos suru�s foi para longe e agora vale dinheiro e esses parentes ficaram somente com a promessa de que receberiam ajuda de quem levou seu sangue. Exigimos, portanto, uma indeniza��o justa para o povo caritiana e suru� pelos danos que esse roubo causou .
5. Muita gente vai na nossa terra, � bem tratada, faz pesquisa, conversa e leva muitas coisas do mato e dos rios, depois n�o volta mais. Vai para a cidade, faz livro, filme, cart�o-postal, vende e nosso povo continua pobre, sem assist�ncia, sem apoio. A Funai diz que controla a entrada, mas nunca vimos esse controle, entendemos assim que a Funai n�o controla do jeito certo. Exigimos que o Minist�no P�blico passe a fiscalizar junto com a Funai o ingresso de pessoas estranhas em terras ind�genas.
6. A Funai j� existe h� muuio tempo e atrav�s dela muita gente j� foi nas nossas terras. O que foi feito com o trabalho desses visitantes? Como esse trabalho ajudou ou ajudar� nosso povo? Quando essa ajuda vai chegar? A Funai tem obriga��o de responder, de fazer um levantamento desse assunto e prestar conta aos paj�s.
7. Sabemos que v�rias plantas, animais e at� nosso sangue est�o sendo levados do Brasil para outros pa�ses, como se nossa terra fosse uma feira livre onde todo mundo entra e leva o que quer. Exigimos que o govemo brasileiro cuide melhor do patrim�nio, fiscalizando os locais de sa�da do Brasil.
8. Sabemos que nas grandes cidades existem muitas universidades, muitos pesquisadores que s�o aqui da nossa terra. Por que tudo tem que sair daqui que � nosso lugar para ser estudado l� fora? Por que depois pagamos caro por rem�dios que na verdade sairam da cabe�a do povo daqui, como � o caso dos rem�dios feitos com as ervas que os macuxis j� usavam h� muitos anos? O governo tem que ter a sabedoria e incentivar a pesquisa do povo da nossa terra.
9. O futuro do nosso conhecimento tradicional , que � raro e um bem precioso para todos os homens da terra, poder� n�o existir. Nossos paj�s, homens velhos e s�bios, est�o morrendo com as doen�as que antes n�o existiam. Nossas crian�as e jovens morrem nas aldeias de doen�a e fome. Exigimos das autoridades uma assist�ncia na sa�de que garanta a sobreviv�ncia do nosso povo.
10. A natureza � nossa grande m�e. � a maior farm�cia que existe no mundo, sem ela nosso conhecimento tradicional n�o poder� ser �tIl para nosso povo e para toda a humanidade. A gan�ncia do homem branco, a vontade de transformar toda a riqueza da mata em dinheiro, tem trazido ao nosso povo doen�a, fome e morte. No inc�ndio em Roraima, quantas ervas, cip�s e animais que usamos em nossos rem�dios foram queimados e n�o existir�o nunca mais? Nossa m�e est� ferida de morte, se ela morre, morremos tamb�m. Se ela morre, o homem branco tamb�m n�o vai ter futuro. Exigimos, portanto, a prote��o de nossas terras, a garantia, atrav�s da demarca��o, dos espa�os necess�rios para nossa sobreviv�ncia f�sica e cultural.
11 .Sabemos que n�o � somente o governo brasileiro que � respons�vel pela vida dos povos ind�genas e do meio ambiente. Tudo o que sai de nossas terras, a madeira, o ouro, os animais, nosso sangue, vai para pa�ses distantes, portanto, eles tamb�m s�o respons�veis pelo nosso sofrimento e o sofrimento de outros parentes espalhados no mundo. Existe uma Declara��o Internacional dos �ndios. Exigimos uma posi��o firme da ONU e do Parlamento Europeu para garantir essa Declara��o e cobrar dos governos que tratem a quest�o ind�gena e ambienta! com o respeito e a seriedade que ela merece.
Nossa palavra final n�o � de alegria, todos n�s voltamos muitoo preocupados com o que vimos e ouvimos dos parentes. Voltamos com tristeza no cora��o por ver o mundo violento da �civiliza��o�. Vamos fechar nosso cora��o e guardar na cabe�a a sabedoria dos nossos antepassados, porque precisamos proteger nosso conhecimento tradicional para garantir um futuro melhor para nosso povo.
Vamos falar muito com os parentes que n�o vieram, contar as hist�rias que nesse encontro ouvimos, alertar todos. Queremos ainda que esse papel , onde ficou gravada a nossa preocupa��o, seja mandado para todo o mundo, porque temos ainda a esperan�a de ensinar ao homem branco que todos fazemos parte do grande ciclo da vida, filhos da grande m�e terra, e aqui estamos para viver na paz que � irm� do respeito. Enquanto n�o houver respeito pelo nosso povo, n�o existir� paz verdadeira entre n�s. S�o quinhentos anos em que convivemos, s�o quinhentos anos de tristeza e luta. Apesar de tudo, ainda estamos vivos, apesar de tudo, a cada dia, nossas mulheres, como a terra, d�o frutos. Somos daqui, aqui vamos ficar, podemos ajudar muito a todos os homens e queremos ajudar, assim como precisa- mos tamb�m de muita ajuda, mas n�o podemos mais aceitar o roubo, a devasta��o. � hora de dizer chega! � a nossa palavra!
Caraj�s, Xavantes, Xerentes, Carit�anas, Tapurin�s, Patax�s, Cra�s, Macalis, Terenas e Suru�s -
Bras�lia, Cidade da Paz, 17 de abrii de 1998.