GLAUBER P�TRIA ROCHA LIVRE
Glauber ausente, n�s sob a ditadura videofinanceira e a p�tria indo para o caralho.
USP revisited.
L� estive convidado pelos estudantes do curso de ci�ncias sociais, a faculdade em que me formei no
final da d�cada de 70.
Quase trinta anos depois, os estudantes queriam me ouvir conferenciar sobre o cineasta g�nio.
At� ent�o, jamais voltara a p�r os p�s na USP, de modo que um sentimento de j�bilo foi ter sido
convidado para falar aos estudantes. Sem esquecer que, antes de ser professor, eu j� fui estudante.
Nascido no interior de S�o Paulo, em Santa Ad�lia, tive a oportunidade econ�mica de vir para a capital
estudar sociologia em 1968, concluindo meu doutorado sobre modernismo e integralismo em
1977, ano em que, trabalhando como editorialista junto com Cl�udio Abramo no jornal Folha de S.
Paulo, l� apareceu um dia a visita de Glauber Rocha.
Foi a� que eu o conheci numa tarde memor�vel que se prolongou no bar chamado Dag�, perto do
Palmeiras, altas horas da madrugada. J� conhecia alguns de seus fIlmes, mas o contato
pessoal me impressionou porque aprendi muitas coisas conversando com ele algumas vezes no Rio de Janeiro.
Ganhei bolsa de estudo da Fapesp para Paris e n�o houve mais nenhum
contato a n�o ser por telefone, em que ele falou sobre E�a de Queir�s e seu plano de viagem a Portugal, de onde retornaria em coma e morreria em 1981.
Antes de ele morrer, escrevi na Folha de S. Paulo um artigo sobre seu �ltimo filme, A Idade da Terra. Foi da� que comecei a tematiz�- lo com certa insist�ncia, que a muitos pareceu obsessiva, neur�tica, id�ia fixa, imita��o, pretens�o rid�cula de ser que nem ele.
�rf�o de Glauber. Eu macaca de audit�rio, enfIm, essas coisas maledicentes que ouvimos acerca da admira��o intelectual na cultura brasileira marcada pela pobre m�e solteira. Apesar desse clima psicol�gico hostil, continuei estudando-o durante vinte anos, de que resultou um livro publicado em agosto de 2001.
Acho que n�o posso resumi-Io nem tampouco dizer do que trata, caso contr�rio teria de escrever outro livro. O que posso dizer, meio assim por alto, � que meu livro fala da inser��o de Glauber Rocha no folclore do Brasil, isto �, na cultura popular brasileira.
Curiosamente ele morreu, conforme soube pela dica do meu amigo Francisco Vascon�a, no dia nacional do folclore: 22 de agosto. Claro, tal coincid�ncia n�o prova nada do que escrevi sobre o
folkinema, isto �, a mat�ria da cultura popular filmada pela atualidade pol�tica da sociedade brasileira.
Eu sei que nas faculdades de ci�ncias sociais n�o cai bem falar de folclore, por causa da equivocada identifica��o com piada, ninharia,
coisa sem import�ncia, arca�smo. Mas, no meu livro, folclore � a cultura feita pelo povo e transmitida oralmente, ou seja, cultura popular.
O folclore � popular, mas nem tudo o que � popular � folclore.
E aqui o referencial � a obra de Luis da C�mara Cascudo,
autor genial pouco lido e estudado pelos soci�logos e antrop�logos. Glauber Rocha n�o conheceu Lu�s da C�mara
Cascudo, nem o leu - mas � prov�vel que, se o tivesse conhecido pessoalmente, Glauber iria morar uns tempos em Natal numa
praia, sendo bem tratado, comendo do rango trivial suficiente do folclore, de modo que talvez n�o tivesse morrido como morreu, de fraqueza cal�rica no organismo. Levando vida err�tica de artista, pulando de hotel em hotel, n�o se alimentando direito, o que n�o deixa de ser um paradoxo para um autor que escreveu A Est�tica da Fome.
Um amigo meu em Minas leu meu livrinho e me disse que nele eu tento conciliar o Roger Bastide, soci�logo do transe, com o kinema sociom�stico, o que d� margem a pensar que alguma coisa da USP teria permanecido em mim no entendimento da obra de Glauber Rocha, o qual, no entanto, fazia severas restri��es � sociologia como um tremendo racionalismo antier�tico e superficial que n�o mergulha fundo na sociedade brasileira.
� por esse motivo que Glauber preferia como autognose do Brasil o romance nordestino de 30 ao boom posterior das ci�ncias sociais, antevendo em 1974 a jogada da sociologia da USP com os esquemas coloniais do imperialismo norte-americano, declarando guerra ideol�gica a FHC por causa de sua cabe�a ford kennediana rockefeller, entreguista e anticomunista. Foi debalde essa advert�ncia - ningu�m a levou a s�rio. Maluco e drogado. O que prova que desde meados dos anos 70 a rn�dia no interior da sociologia era a
racionalidade no meio dos intelectuais e da opini�o p�blica, enquanto a linguagem do artista n�o conseguia estabelecer comunica��o nem com os partidos pol�ticos de esquerda a partir de 1979.
N�o digo com isso que a ret�rica de FHC seja um prod�gio em termos de persuas�o; o que eu quero dizer � que o diagn�stico justo e certeiro de Glauber Rocha caiu no vazio do entendimento zero.
A cultura brasileira inteirinha n�o suportava - da poesia ao sindicato - a pol�mica glauberiana que era o resultado da pergunta que fazia a todos os intelectuais e personalidades pol�ticas - o que voc� acha do pa�s?
As ci�ncias sociais da d�cada de 60 comeram a dieta tropicalista em cujo banquete contracenava de maneira falsa e preconceituosa o folclore com a t�cnica. A desvaloriza��o do nosso folclore em fun��o de um elitismo ianque-europeizante.
Folclore n�o tem nada a ver com subdesenvolvimento. Nem tampouco com mis�ria. Nem tampouco com a ro�a. � burrice estabelecer abismo entre tecnologia e cultura popular. � por isso, dizia Glauber Rocha, que nossa m�sica morre estrangulada entre Ia Traviata e John Travolta.
O que foi sequestrado pela ideologia ocupacionista do imperialismo foi a raz�o nacionalista revolucion�ria encarnada por Glauber Rocha.
O modelo ianque do imperialismo cultural � a ideologia do para�so hollywoodiano. Todos os artistas da Rede Globo passando
fim de semana em Nova York, os inconscientes agentes culturais da CIA no Cebrap do Brasil, assim como os cardeais cat�licos fazem a telenovela do catecismo da cat�strofe.
O sangue derramado dos inocentes, o Afeganist�o de Glauber Rocha, em 1964, � o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. O roteiro est�tico-pol�tico sem-terra. Os intelectuais dentro e fora das universidades perdoam a Rede Globo da telenovela, mas n�o os militares que deveriam voltar aos quart�is sem len�o, sem gasolina e sem documento.
Eu sempre me perguntei de onde vinha a incompatibilidade de Glauber Rocha em rela��o aos cursos de ci�ncias sociais e os seus not�veis soci�logos.
Os alunos de ci�ncias sociais da USP hasteavam nos corredores e cantinas uma faixa onde estava escrito o protesto de n�o se ler Darcy Ribeiro nas aulas de sociologia e antropologia.
A bolsa-escola do Cristovam Buarque dar� voto por seduzir o pai e a m�e da crian�a ferrada. A crian�a n�o vota. O Ibope � anti- Cieps.
Darcy Ribeiro foi quem apresentou Jo�o Goulart a Glauber Rocha num dos pa�ses da Am�rica Latina.
A bolsa-escola pilantr�pica reproduz a mesma l�gica do programa educacional da Xuxa: o que se almeja � seduzir o bolso do papai e mam�e.
Gilberto Felisberto Vasconcellos - out 2001