CULTURA E M�SICA POPULAR DO BRASIL

1 2 3 5 6 7 8 9 10

4

 

MANIFESTO MAX-KLAXISTA

"� preciso refletir. � preciso esclarecer. � preciso construir. Da�, Klaxon." Orchestra Klaxon, t�tulo intuitivo a que chegou Max de Castro em segundo disco, � uma men��o direta aos ideais e � revista editada pelos modernistas h� 80 anos. Klaxon nasceu com a Semana de Arte Moderna, teve os mais brilhantes e provocadores textos de discuss�o cr�tica da �poca, ditou rupturas, lan�ou manifestos. Orchestra Klaxon, de Max, � um manifesto em si. Pessoal, intransfer�vel. De 1922, o primeiro enunciado: "Klaxon n�o se preocupar� em ser novo, mas em ser atual. Essa � a grande lei da novidade". Para esse esteta do samba, atual � n�o ceder ao anacronismo fetichista da "modernidade".
Orchestra Klaxon � mais greg�rio ("Klaxon n�o � exclusivista") e menos terminologicamente explicativo que o anterior Samba Raro - o sumo mais puro que j� conheceu esse g�nero t�pico nacional, que Max transformou em tudo e coadjetivou com ironia (jazzy, beat, lounge, drum'n'bossa, trip...). A m�quina � a extens�o musical desse piloto do est�dio, mestre do design sonoro, pintor de timbres, texturas e volumes ("Klaxon sabe que o laborat�rio existe"). E ele, de novo, desobediente ao c�none. De novo, conciliador com as exclus�es do cat�logo, da m�dia, quase da hist�ria. De novo, local e internacionalista. As m�os dadas com os antepassados, vivos ou n�o (mas Klaxon jamais se deter� em "in�ditos maus de bons autores mortos"), ele guarda a ancestralidade do primeiro tambor expatriado.
Com a altivez da velha guarda, o tremor da juventude e uma �nsia por evolu��o ("Klaxon sabe que o progresso existe"), ele faz um elogio reverente � tradi��o para anunciar a fal�ncia dos mimetismos. Os �culos Escuros de Cartola, letra de Yuka, fala dessa morte anunciada e ressurrei��o, com a dor transcendente de um lamento coletivo e o peso de um luto antecipado: "N�o deixe o samba morrer".
Max de Castro n�o pertence a uma esta��o. N�o veio de passagem. "Klaxon sabe que a vida existe. E visa o presente." Em sua m�sica, pulsam gera��es e gera��es de vozes, de um pa�s anterior e posterior a ele. Oswald de Andrade, em Klaxon, falava em tr�s �nicas formas poss�veis de arte: a realista, a interpretativa, a metaf�sica. Max o que realiza, sen�o a metaf�sica do samba? � ele quem empresta "dois olhos tristes que a terra h� de comer" (Calaram a Voz do Nosso Amor) � dura met�fora do brasileiro comum. � ele quem, de origem, vem identificado com o tabu primordial da escravid�o. � dele a atual mensagem. "Klaxon n�o � futurista. Klaxon � klaxista."

Regina Porto - jul/2002

 

Max de Castro

MAX DE CASTRO

Um tupi tangendo a guitarra. Na capa da Time, em setembro de 2001, ele parecia reeditar o d�stico de M�rio de Andrade. Havia apenas um ano, viera do sil�ncio e do anonimato - firme como um jovem herdeiro, calado como um guerreiro de Jorge, laborioso como um artes�o. Tinha 28 anos vividos entre Rio e S�o Paulo quando se lan�ou. No inaugural e tecnol�gico Samba Raro (1999), ele manipula com naturalidade as pe�as de urna escuta acumulada e uma viv�ncia precoce. Um guardi�o de posses alheias. Em Orchestra Klaxon (2002) , passo seguinte, projeta a pr�pria brasilidade em ampla ambi��o modernista. Max � o enigma do samba.
Sua contemporaneidade � amb�gua e bipolar: um acento forte no passado, outro no futuro. Pulsam nele o p�lo positivo e o negativo dessa ginga bin�ria, desse compasso pobre, popular e cheio de realeza, que se movimenta arrastado desde remota origem, carregando dignamente o pr�prio fardo. Sob o manto retecnicizado de Max, os golpes da percuss�o permanecem os mesmos: primordiais, selvagens, imunes. E todas as coisas rejuvenescem: cem anos de samba, 50 anos de bossa. A hist�ria esteve esperando por isso, como se pedisse cap�tulo novo ("Depois dele/ n�o tem pra mais ningu�m..."). Max reequaciona os res�duos da mem�ria auditiva do pa�s. Fra��o por fra��o.Vem varrendo o cat�logo da MPB com musicologia e m�todo pr�prios, numa triagem semelhante � do erudito diante do popular: com interesse verdadeiro, alguma ci�ncia e uma ponta de orgulho. (� maneira de Villa:"O folclore sou eu".) � um bricoleur. Um colecionador de objets trouv�s e um ca�ador de ready-made. Um pesquisador e amante dos detalhes. Autodidata, esp�cie de muse�logo dos sons, entrega-se � extens�o intermin�vel do est�dio, onde se refugia como um laboratorista e se revela como artista. Com precis�o de miniaturista, ele refaz e redesenha, quadro a quadro, epis�dios inteiros da m�sica brasileira - sem por isso estilizar ou parasitar, como mau nacionalista, dom�nios p�blicos e bens simb�licos. Sua collage � sutil, bem pensada e contundente. Max n�o concorre ao mal-estar est�tico do desvio (o kitsch). Nem ao risco de um empr�stimo de mau gosto de estilos do passado (o p�s-moderno). Evita a mat�ria expl�cita do sample, em favor de homenagem mais elevada: a refer�ncia com rever�ncia. Disp�e em seu painel eletroac�stico sucessivas sugest�es por decifrar; lembran�as evocadas e por vezes nebulosas, cita��es mais ou menos camufladas. Em uma palavra, cria palimpsestos: texto escondido no texto, m�sica dentro da m�sica. Por isso, pressente-se nele alguma hist�ria ancestral, comum e ainda latejante. E sente-se j� uma como��o que dispensa arroubos e sentimentalismos. Quando o filho de um dos m�sicos mais renegados na mem�ria recente do pa�s - Wilson Simonal - tece em fio amoroso e paciente retalhos sonoros do pr�prio passado, ele acaba por reconstituir uma genealogia que n�o � s� sua: � coletiva. Esse � o grande arqu�tipo que perpassa a aura sonora de Max de Castro. Essa � sua pequena trag�dia pessoal.
Porque Max, final e contraditoriamente, trouxe a anticarnavaliza��o. O destino de seu samba sacrificial � ser imolado, quem sabe no al�vio de uma cad�ncia sensual e em c�mera lenta - corpo e alma na mesma vol�pia esperan�osa de toda "pequena morte" p�s- cl�max. Suas modula��es menores s�o tal p�ndulo entre a nostalgia e o sexo, a b�n��o do samba e a sanha de Ossanha. Todo her�i � tr�gico, todo animal � triste. H� mais, ainda, no seu jogo de Eros e T�natos. Max j� ditou um Requiem. Sua m�sica chora as formas mortas, canta sobre os agonizantes. H� um luto subentendido, respeitoso. E um cerimonial em curso, do qual ele � o mestre. Max � a apoteose do samba: o desfile acabou. Tudo ser� como antes.

Regina Porto - 2002

[email protected]

1 2 3 5 6 7 8 9 10

ENVIAR
texto cr�tica opini�o coment�rio sugest�o r�plica recado

Voltar

Hosted by www.Geocities.ws

1