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MAX DE CASTRO
Um tupi tangendo a guitarra. Na capa da Time, em setembro de 2001, ele parecia reeditar o d�stico de M�rio de Andrade. Havia apenas um ano, viera do sil�ncio e do anonimato - firme como um jovem herdeiro, calado como um guerreiro de Jorge, laborioso como um artes�o. Tinha 28 anos vividos entre Rio e S�o Paulo quando se lan�ou. No inaugural e tecnol�gico Samba Raro (1999), ele manipula com naturalidade as pe�as de urna escuta acumulada e uma viv�ncia precoce. Um guardi�o de posses alheias. Em Orchestra Klaxon (2002) , passo seguinte, projeta a pr�pria brasilidade em ampla ambi��o modernista. Max � o enigma do samba.
Sua contemporaneidade � amb�gua e bipolar: um acento forte no passado, outro no futuro. Pulsam nele o p�lo positivo e o negativo dessa ginga bin�ria, desse compasso pobre, popular e cheio de realeza, que se movimenta arrastado desde remota origem, carregando dignamente o pr�prio fardo. Sob o manto retecnicizado de Max, os golpes da percuss�o permanecem os mesmos: primordiais, selvagens, imunes. E todas as coisas rejuvenescem: cem anos de samba, 50 anos de bossa. A hist�ria esteve esperando por isso, como se pedisse cap�tulo novo ("Depois dele/ n�o tem pra mais ningu�m...").
Max reequaciona os res�duos da mem�ria auditiva do pa�s. Fra��o por fra��o.Vem varrendo o cat�logo da MPB com musicologia e m�todo pr�prios, numa triagem semelhante � do erudito diante do popular: com interesse verdadeiro, alguma ci�ncia e uma ponta de orgulho. (� maneira de Villa:"O folclore sou eu".) � um bricoleur. Um colecionador de objets trouv�s e um ca�ador de ready-made. Um pesquisador e amante dos detalhes. Autodidata, esp�cie de muse�logo dos sons, entrega-se � extens�o intermin�vel do est�dio, onde se refugia como um laboratorista e se revela como artista.
Com precis�o de miniaturista, ele refaz e redesenha, quadro a quadro, epis�dios inteiros da m�sica brasileira - sem por isso estilizar ou parasitar, como mau nacionalista, dom�nios p�blicos e bens simb�licos. Sua collage � sutil, bem pensada e contundente. Max n�o concorre ao mal-estar est�tico do desvio (o kitsch). Nem ao risco de um empr�stimo de mau gosto de estilos do passado (o p�s-moderno). Evita a mat�ria expl�cita do sample, em favor de homenagem mais elevada: a refer�ncia com rever�ncia. Disp�e em seu painel eletroac�stico sucessivas sugest�es por decifrar; lembran�as evocadas e por vezes nebulosas, cita��es mais ou menos camufladas. Em uma palavra, cria palimpsestos: texto escondido no texto, m�sica dentro da m�sica.
Por isso, pressente-se nele alguma hist�ria ancestral, comum e ainda latejante. E sente-se j� uma como��o que dispensa arroubos e sentimentalismos. Quando o filho de um dos m�sicos mais renegados na mem�ria recente do pa�s - Wilson Simonal - tece em fio amoroso e paciente retalhos sonoros do
pr�prio passado, ele acaba por reconstituir uma genealogia que n�o � s� sua: � coletiva. Esse � o grande arqu�tipo que perpassa a aura sonora de Max de Castro. Essa � sua pequena trag�dia pessoal.
Porque Max, final e contraditoriamente, trouxe a anticarnavaliza��o. O destino de seu samba sacrificial � ser imolado, quem sabe no al�vio de uma cad�ncia sensual e em c�mera lenta - corpo e alma na mesma vol�pia esperan�osa de toda "pequena morte" p�s- cl�max. Suas modula��es menores s�o tal p�ndulo entre a nostalgia e o sexo, a b�n��o do samba e a sanha de Ossanha. Todo her�i � tr�gico, todo animal � triste.
H� mais, ainda, no seu jogo de Eros e T�natos. Max j� ditou um Requiem. Sua m�sica chora as formas mortas, canta sobre os agonizantes. H� um luto subentendido, respeitoso. E um cerimonial em curso, do qual ele � o mestre. Max � a apoteose do samba: o desfile acabou. Tudo ser� como antes.
Regina Porto - 2002
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