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O Projeto Mobilização Criança em Risco atinge não só as crianças e adolescentes que vivem dentro do Ilê Axé Opô Afonjá, mas também crianças das circunvizinhaças.

Apesar de enfatizar elementos da cultura afro-brasileira e de estar vinculado à Sociedade Cruz Santa do Opô Afonjá, o Projeto não tem finalidade religiosa - suas motivações, metodologia e objetivos, expostos neste 'site', deixam clara sua preocupação com o direito da criança de ser criança, de crescer em liberdade, com nutrição adequada, cuidados com saúde e educação e seu direito de igualdade de oportunidades.

 Comunidade Afonjá - Projeto Criança em Risco

 O candomblé foi formado, no Brasil, pelos negros e negras oriundos de duas culturas: Sudanesa e Banto. São estas as principais responsáveis pela formação cultural do Brasil: arquitetura, modo de vida, o cotidiano expresso em música, dança, festas, comidas, amores, sonhos, e sobretudo na cosmovisão e no sentimento religioso das diversas comunidades brasileiras na sua maneira plural de viver. A expressão 'candomblé' é de origem africana provavelmente GRUNCI - Pierre Verger em "Os Orixás" considera a palavra originária da nação Grunci; segundo Nei Lopes, no Dicionário Banto do Brasil Candomblé tem origem banta de étimo controverso; para A. G. Cunha é híbrido de candomblé mais o iorubá ilê, casa; Nascente dá apenas origem africana; Yeda P. de Castro aponta longa evolução, a partir do protobanto.

 

Na Bahia, a etnia africana que mais marcou a trajetória cultural foi a Iorubá-Nagô.

O sentimento religioso tem sido o elo de sustentação das comunidades negras nos últimos 4 séculos, apesar da tentativa de imposição cultural e religiosa, por parte do colonizador, que marcando corpos a ferro e fogo, com a cruz e a espada, não conseguiu atingir a sua alma e seus valores. No contrapelo desta imposição - que negava o direito à diferença - e cujos ecos ainda marcam fortemente a nossa sociedade, estes negros e negras, ao contrário, abriam, seus espaços e neles acolheram sem discriminação de gênero, raça, cor, ideologia, religião ou classe social todos os que os procuraram para deles receber força e orientação.

A universalidade da sua religião - base fundante da sua cultura e ação no mundo - foi, é e será sempre o elemento catalisador neste processo cultural permanente. Como afirma, Mãe Stella de Oxóssi, do Opô Afonjá: "Orixá não tem preconceito".

Os negros e negras moravam, de início, no centro da cidade de Salvador e realizavam suas celebrações e ritos nas próprias casas. Suas residências eram a evocação dos palácios e templos ancestrais e nelas estava a moradia dos encantados. Deste micro/macro universo nasceu o que se convencionou chamar: "as casas de Santo da Bahia".

No entanto, o preconceito arraigado e fruto da ignorância e intolerância do colonizador encontra, (fora os relatos impressionistas de viajantes brancos e europeus seja por terras da África ou do Brasil) - no médico Nina Rodrigues a prova "científica" do preconceito. Além de querer provar a histeria nas manifestações religiosas negras, afirmava em um artigo, datado de maio de l905 que : "semelhante crendice, dia a dia, vai ganhando terreno no seio da massa ignara, que já não a cultivava nos pontos distantes do perímetro urbano, por isso que os candomblés funcionam no próprio centro da cidade".

Desnecessário lembrarmos a trajetória do preconceito expressa na violência policial contra o "povo de santo" que, apesar de tudo, não esmoreceu nas suas profundas convicções humanas e religiosas, marcando, com seu sangue e vida, este Brasil que hoje conhecemos. Das mãos e corações saíram as obras de arte sem as quais este país não seria o que hoje é, e ainda pretende ser.

Sem nenhuma sombra de dúvida, temos uma grande e inestimável dívida sócio-religiosa-cultural com estes homens e mulheres, que nunca deixaram de acolher sem discriminação, todos os que procuraram sua força vital

No início do século XX, Eugênia Anna dos Santos, OBA BIYI, Mãe Aninha, iniciada na rua dos capitães, hoje Rui Barbosa, fundou o Ilê AXÉ OPÔ AFONJÁ. Esta mulher cuja cabeça pertence a Xangô, era filha de santo de Iyá Marcelina, OBÁ TOSIN, do Engenho Velho - AXÉ IYÁ NASSO OKÀ - o primaz do Brasil.

Na sua determinação política e religiosa, ela foi responsável pelo reconhecimento e liberação do culto afro-brasileiro, que até então era tido como uma "coisa de negro ignorante, prática fetichista e vergonha da Bahia", como lembrava, sempre, sem temor das palavras, esta mulher e sacerdotisa.

Estando no Rio de Janeiro, então capital da República, foi se encontrar com o presidente Getúlio Vargas, obtendo dele por sua capacidade de persuasão, convencimento espiritual e liderança inquestionável, o direito à liberdade de culto para a religião dos Orixás, oficializada no decreto n1202.

Ao voltar para a Bahia, Mãe Aninha, como era apelidada carinhosamente, auxiliada pelo Babalaô Martiniano Elizeu do Bonfim, continuou o trabalho no Axé Opô Afonjá e criou um corpo de doze OBÁS de Xangô responsáveis pela condução civil dos destinos do Terreiro, sendo Martiniano, o elo de ligação entre o Axé e a Nigéria

Em 1936, EUGÊNIA ANNA DOS SANTOS criou a Sociedade Civil Cruz Santa do AXÉ OPÔ AFONJÁ, para garantir a continuidade da sua obra e prevenir possíveis incidentes e disputas de poder, dando uma orientação segura dos princípios indestrutíveis, que deveriam ser mantidos na tradição da Casa religiosa e na transmissão destes mesmos princípios para quem quizesse dela participar.

Foi ela, quem introduziu uma casa individual de culto para cada orixá, sem, no entanto, abrir mão da afirmação "até hoje e quiçá para sempre" frase esta que pode ser compreendida como: o ILÉ AXÉ OPÔ AFONJÁ é e será um espaço comunitário mantido pela força vital de Xangô.

Oba Biyi encantou-se em l938. Todas as demais que a sucederam, Mãe Bada até l941, Mãe Senhora ate 1967, Mãe Ondina até l975 e a atual Mãe Stella de Oxóssi mantiveram e mantém os princípios, os valores e a tradição deste ILÉ fundado por Mãe Aninha, mas sustentado por Xangô.

Em l978, Mãe Stella inicia sua obra cultural e social com a fundação de uma creche-escola, de um museu da tradição religiosa, de uma biblioteca de referência para pesquisadores e estudiosos, de sucessivos encontros, debates, seminários com o mais amplo prisma de debatedores, mantendo a tradição de uma casa democrática e aberta para o pluralismo e diversidade que ultrapassam em muito os limites dos muros do Opô Afonjá.

Oficinas de formação artística e cursos profissionalizantes de atualização permanente, coloca este complexo cultural e educacional, na ponta de experiências inovadores de democratização, do ensino formal das atividades de formação, garantindo a transmissão de valores fundamentais da tradição africana, base inquestionável da sociedade brasileira.

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