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Na Bahia, a etnia africana que mais
marcou a trajetória cultural foi a Iorubá-Nagô.
O sentimento religioso tem sido o elo
de sustentação das comunidades negras nos últimos
4 séculos, apesar da tentativa de imposição
cultural e religiosa, por parte do colonizador, que marcando
corpos a ferro e fogo, com a cruz e a espada, não conseguiu
atingir a sua alma e seus valores. No contrapelo desta imposição
- que negava o direito à diferença - e cujos
ecos ainda marcam fortemente a nossa sociedade, estes negros
e negras, ao contrário, abriam, seus espaços e
neles acolheram sem discriminação de gênero,
raça, cor, ideologia, religião ou classe social
todos os que os procuraram para deles receber força e
orientação.
A universalidade da sua religião
- base fundante da sua cultura e ação no mundo
- foi, é e será sempre o elemento catalisador neste
processo cultural permanente. Como afirma, Mãe Stella
de Oxóssi, do Opô Afonjá: "Orixá
não tem preconceito".
Os negros e negras moravam, de início,
no centro da cidade de Salvador e realizavam suas celebrações
e ritos nas próprias casas. Suas residências eram
a evocação dos palácios e templos ancestrais
e nelas estava a moradia dos encantados. Deste micro/macro universo
nasceu o que se convencionou chamar: "as casas de Santo
da Bahia".
No entanto, o preconceito arraigado
e fruto da ignorância e intolerância do colonizador
encontra, (fora os relatos impressionistas de viajantes brancos
e europeus seja por terras da África ou do Brasil) - no
médico Nina Rodrigues a prova "científica"
do preconceito. Além de querer provar a histeria nas manifestações
religiosas negras, afirmava em um artigo, datado de maio de l905
que : "semelhante crendice, dia a dia, vai ganhando terreno
no seio da massa ignara, que já não a cultivava
nos pontos distantes do perímetro urbano, por isso que
os candomblés funcionam no próprio centro da cidade".
Desnecessário lembrarmos a trajetória
do preconceito expressa na violência policial contra o
"povo de santo" que, apesar de tudo, não esmoreceu
nas suas profundas convicções humanas e religiosas,
marcando, com seu sangue e vida, este Brasil que hoje conhecemos.
Das mãos e corações saíram as obras
de arte sem as quais este país não seria o que
hoje é, e ainda pretende ser.
Sem nenhuma sombra de dúvida,
temos uma grande e inestimável dívida sócio-religiosa-cultural
com estes homens e mulheres, que nunca deixaram de acolher sem
discriminação, todos os que procuraram sua força
vital
No início do século
XX, Eugênia Anna dos Santos, OBA BIYI, Mãe Aninha,
iniciada na rua dos capitães, hoje Rui Barbosa, fundou
o Ilê AXÉ OPÔ AFONJÁ. Esta
mulher cuja cabeça pertence a Xangô, era filha de
santo de Iyá Marcelina, OBÁ TOSIN, do Engenho Velho
- AXÉ IYÁ NASSO OKÀ - o primaz do Brasil.
Na sua determinação política
e religiosa, ela foi responsável pelo reconhecimento e
liberação do culto afro-brasileiro, que até
então era tido como uma "coisa de negro ignorante,
prática fetichista e vergonha da Bahia", como lembrava,
sempre, sem temor das palavras, esta mulher e sacerdotisa.
Estando no Rio de Janeiro, então
capital da República, foi se encontrar com o presidente
Getúlio Vargas, obtendo dele por sua capacidade de persuasão,
convencimento espiritual e liderança inquestionável,
o direito à liberdade de culto para a religião
dos Orixás, oficializada no decreto n1202.
Ao voltar para a Bahia, Mãe Aninha,
como era apelidada carinhosamente, auxiliada pelo Babalaô
Martiniano Elizeu do Bonfim, continuou o trabalho no Axé
Opô Afonjá e criou um corpo de doze OBÁS
de Xangô responsáveis pela condução
civil dos destinos do Terreiro, sendo Martiniano, o elo de ligação
entre o Axé e a Nigéria
Em 1936, EUGÊNIA
ANNA DOS SANTOS criou a Sociedade Civil Cruz Santa do AXÉ
OPÔ AFONJÁ, para
garantir a continuidade da sua obra e prevenir possíveis
incidentes e disputas de poder, dando uma orientação
segura dos princípios indestrutíveis, que deveriam
ser mantidos na tradição da Casa religiosa e na
transmissão destes mesmos princípios para quem
quizesse dela participar.
Foi ela, quem introduziu uma casa individual
de culto para cada orixá, sem, no entanto, abrir mão
da afirmação "até hoje e quiçá
para sempre" frase esta que pode ser compreendida como:
o ILÉ AXÉ OPÔ AFONJÁ é e será
um espaço comunitário mantido pela força
vital de Xangô.
Oba Biyi encantou-se em l938. Todas
as demais que a sucederam, Mãe Bada até l941, Mãe
Senhora ate 1967, Mãe Ondina até l975 e a atual
Mãe Stella de Oxóssi mantiveram e mantém
os princípios, os valores e a tradição deste
ILÉ fundado por Mãe Aninha, mas sustentado por
Xangô.
Em l978, Mãe Stella inicia sua
obra cultural e social com a fundação de uma creche-escola,
de um museu da tradição religiosa, de uma biblioteca
de referência para pesquisadores e estudiosos, de sucessivos
encontros, debates, seminários com o mais amplo prisma
de debatedores, mantendo a tradição de uma casa
democrática e aberta para o pluralismo e diversidade que
ultrapassam em muito os limites dos muros do Opô Afonjá.
Oficinas de formação artística
e cursos profissionalizantes de atualização permanente,
coloca este complexo cultural e educacional, na ponta de experiências
inovadores de democratização, do ensino formal
das atividades de formação, garantindo a transmissão
de valores fundamentais da tradição africana, base
inquestionável da sociedade brasileira.
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