Objetivo
deste "site"
O
que é assédio psicológico
Perfil
do agressor
Formas
de assédio psicológico
Efeitos
do assédio psicológico
Como
se defender (fase inicial)
Como
se defender (segunda fase)
Mecanismos
institucionais de proteção
Curando
as feridas
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Como
se defender do assédio psicológico (2)
3) Preparando-se para reagir
Se você
conseguiu sair do buraco (etapa 1) e obter apoio de outras pessoas (etapa
2), já está em condições de se preparar para
se defender e reagir.
Em primeiro
lugar, tenha muito claro, em sua mente, o que você pode ganhar ou
perder. Na pior das hipóteses, o que pode acontecer? Pense friamente.
Você pode ser simplesmente reprovado em uma disciplina? Isso não
é tão grave, assim. Você pode perder a possibilidade
de se formar ou de obter um título de pós-graduação?
Isso é mais grave.
Vamos
torcer para que tudo corra bem, mas você precisa ter consciência
dos riscos e assumir a responsabilidade de que tem de fazer alguma coisa
e que talvez sofra prejuízos.
Dependendo
da instituição em que você estuda, podem existir recursos
que você pode utilizar a seu favor, ou não. Mesmo se a instituição
não tiver ouvidoria, nem qualquer mecanismo de apoio a estudantes
assediados, os primeiros passos são sempre os mesmos.
Para
poder se defender e reagir, você precisa documentar as agressões
e também os efeitos que elas produzem em você. Há vários
aspectos nisso, descritos abaixo.
3.1) Provas materiais
Se houver
qualquer tipo de prova material de assédio (por exemplo, e-mails,
ou mesmo panfletos anônimos com agressões e caricaturas),
guarde esse material. Esse material precisa ser coletado, você precisa
marcar a data e o local onde o coletou, e deve ter testemunhas de que esse
material esteve exposto em público.
Se você
puder, grave e/ou filme situações de assédio. Atualmente,
com os telefones celulares, pode ser fácil gravar conversas e filmar
situações, sem despertar a atenção. Aparelhos
de MP3 também costumam ter recursos de gravação de
voz. Faça testes, antes, para verificar quanto tempo pode gravar,
e se é possível captar a voz a alguns metros de distância.
Use um grande cartão de memória e fique com o aparelho ligado,
gravando, durante todo o tempo em que estiver perto do agressor (inclusive
aulas). Desgrave, todos os dias, as gravações inúteis,
para liberar a memória; esteja sempre com a bateria carregada; e
anote sempre a data e a situação em que alguma gravação
útil foi obtida.
Para
que algum material desse tipo seja utilizado depois, você PRECISA
ter todos os detalhes de data, local, e situação onde ele
foi obtido, e sempre que possível testemunhas (geralmente colegas)
que possam confirmar esses detalhes.
Tudo
isso é de bom-senso. Há, no entanto, aspectos que não
são tão óbvios e que são extremamente importantes.
3.2) Relatos detalhados
Mesmo
se você não tiver provas materiais (e-mails, documentos, gravações,
etc.), você pode acumular munição para usar contra
o agressor.
Primeiramente,
você deve escrever detalhadamente todas as situações
de assédio e agressões que sofreu, de preferência logo
depois que ocorrerem. Em vez de anotar "o professor foi grosseiro",
você deve anotar o dia, a hora, o local em que ocorreu o problema,
procurando se lembrar de detalhes como a posição das pessoas
no local, suas roupas, quem estava presente (se havia outras pessoas),
as palavras, tom de voz, caretas ou gestos usados, etc. Quanto mais detalhes,
melhor. Isso dá mais credibilidade ao seu registro. Você pode
escrever a mão, em um caderno; pode escrever no computador, em um
arquivo; mas, preferivelmente, deve escrever sob a forma de e-mail e mandar
para mais de uma pessoa de confiança, mantendo cópia em seu
computador, ou simplesmente enviar a mensagem para si próprio, para
um e-mail seu que tenha armazenamento fora de sua casa (por exemplo, uma
conta do yahoo ou do gmail). Assim, você poderá
comprovar a data em que fez suas anotações.
Mantenha
um registro sistemático de todas as situações de assédio,
tanto as graves quanto as leves. No caso de situações antigas,
procure fazer um relatório retrospectivo, o mais detalhadao possível,
e também mande por e-mail. Isso é muito importante.
Não
basta descrever o que aconteceu, ou o que o agressor fez. Você precisa
também descrever como se sentiu. Isso é fundamental.
Não há assédio se a pessoa agredida não sentiu
nada. Descreva como se sentiu no momento, como se sentiu depois, como isso
afetou o seu dia e os dias posteriores. Descreva como isso está
interferindo na sua vida, no seu estudo, no seu trabalho, na sua família
e na sua felicidade. Quanto mais detalhes e quanto mais concreto, melhor.
Em vez de escrever simplesmente que ficou infeliz, dê detalhes como
a informação de que ficou soluçando e chorando muito
tempo sem conseguir se controlar, não conseguiu almoçar,
chegou em casa e não conseguiu conversar com ninguém, etc.
Se você
fizer esse tipo de relato detalhado sobre as situações de
assédio e sobre os seus sentimentos e reações, isso
será suficiente como prova do assédio. Sim, é
isso mesmo - mas poucos sabem disso.
3.3) Testemunhos
Além
dos relatos, é extremamente útil poder contar com testemunhas,
de dois tipos.
O primeiro
tipo (o mais fácil de conseguir) é o de testemunhas que possam
depor dizendo que receberam informações suas e que estão
cientes de que você tem se queixado de assédio e tem sofrido
com isso. Se você enviar os seus relatos por e-mail para algum
amigo ou colega, e ele/ela responder, você terá uma prova
de que existe alguma coisa acontecendo e que outras pessoas estão
sabendo disso. Essas pessoas não precisam ter presenciado o assédio.
Basta que elas possam testemunhar que estão cientes daquilo que
você diz e de seu estado emocional. Devem ser, preferivelmente, pessoas
que o conheçam bem, há anos, e saibam que você não
constuma inventar mentiras. Essas pessoas nem mesmo precisam conhecer o
agressor.
O segundo
tipo de testemunhas (mais difícil de conseguir) é o de pessoas
que presenciaram situações de assédio (suas
ou de outras pessoas) pelo agressor e que estão dispostas a depor
sobre isso. Suponhamos que você sofreu uma agressão em sala
de aula, ou mesmo ao tomar café, diante de vários colegas.
Escreva seu relato do que houve e dos efeitos disso sobre você. Mande
para alguns desses colegas. Se algum deles responder, dando-lhe apoio e
confirmando o fato, e talvez até mencionando outras situações
parecidas, você terá obtido um testemunho fundamental.
Observe
que isso é muito diferente de ter uma conversa com colegas e se
lamentar com eles, e eles darem apoio verbal (não gravado) na hora.
Essas pessoas podem, depois, se acovardarem e não terem coragem
de depor a seu favor. Por isso, utilize o recurso do e-mail, ou então
ao conversar utilize o seu gravador (ou aparelho de MP3, ou telefone celular
com recurso de gravação de voz) para registrar a conversa.
3.4) Grupo de apoio
Se você
é a única pessoa do seu ambiente que está sofrendo
assédio psicológico, e não tem colegas dispostos a
lhe dar apoio, sua situação é difícil. Se você
tiver um ou dois colegas dispostos a lhe darem apoio e a deporem a seu
favor, sua posição é boa. Se houver um grupo de três
ou quatro pessoas que sofrem assédio e que estão dispostas
a reagir juntas, vocês podem mover o mundo. A união faz a
força.
Um grupo
de apoio não substitui os itens anteriores. Você precisa,
de qualquer forma, acumular material que possa ser utilizado contra o agressor.
Converse
com colegas e tente formar um grupo de apoio. Mostre que combater o agressor
será bom para todos e não apenas para você.
Mostre
este "site" para alguns colegas em que você confia e veja como eles
reagem. Você precisa de pessoas que acreditem na possibilidade de
mudar a situação e de dar um "basta" ao assédio. É
normal que as pessoas tenham medo e fiquem desanimadas. Mas, conversando,
alguns podem se convencer de que é importante e possível
mudar as coisas.
Não
faça nada precipitado. Se você conseguiu o grupo de apoio,
dedique algum tempo a coletar, junto com eles, um bom número de
provas materiais, relatos e testemunhos a respeito das situações
de assédio. É mais fácil fazer isso antes de contra-atacar,
do que depois.
4) O contra-ataque
Depois
da etapa (3) descrita acima, é necessário partir para a ação.
4.1) Encurralando o agressor
O primeiro
passo é confirmar a existência da situação de
assédio, com a colaboração do agressor.
Este
é um passo que não é óbvio, mas que significa
o seguinte: não se considera assédio uma ação
que
não seja intencional. O agressor pode se defender dizendo que
estava brincando, que fez sem querer, etc. Por isso, antes de outras etapas
do contra-ataque, recomenda-se eliminar esse tipo de justificativa do agressor.
Para
isso, você precisa se comunicar com o próprio assediador
e
dizer o que ele está fazendo e os efeitos negativos que isso está
provocando. Deve também dizer que espera que ele mude seu comportamento
e peça desculpas. Deve ser utilizada claramente a expressão
"assédio psicológico" ou "assédio moral", na apresentação
da queixa.
Eu sei
que você não tem nenhuma vontade de fazer isso nem acha que
seja um passo razoável. Infelizmente, é um passo considerado
necessário.
Como
fazer isso?
Primeira
opção: ao vivo, com uma testemunha e com um gravador de voz.
Você poderia procurar o agressor, dizer-lhe verbalmente o que tem
acontecido e como se sente e solicitar que ele mude seu comportamento e
peça desculpas. É uma situação muito difícil
para a vítima, mas é também uma oportunidade de documentar
reações do agressor, que pode zombar da vítima, confirmar
os fatos... mas pode também negar tudo. Se o agressor se sentir
muito seguro, pode até agredir fisicamente a vítima. Há
riscos, portanto, nesse procedimento. De qualquer forma, se escolher esta
alternativa, não deixe de registrar tudo, escrever um relato sobre
a conversa, mandar por e-mail, etc.
Segunda
opção: por escrito. Você pode enviar uma carta registrada,
com A.R. (aviso de recebimento). Guarde cuidadosamente o recibo do correio
e o A.R., depois que voltar (faça cópias autenticadas em
cartório e guarde em diferentes lugares, é um documento importantíssimo).
Não é muito conveniente enviar um e-mail neste caso, porque
o agressor poderia depois alegar que não recebeu.
Ao fazer
essa queixa, não é necessário fazer um relato detalhado.
Guarde sua munição para depois.
Se, na
sua universidade, houver um ouvidor, você pode conversar com ele
antes
de fazer essa queixa ao agressor, bem como fornecer ao ouvidor uma cópia
de sua carta. Mas não deixe de fazer esse comunicado ao agressor
mesmo
se o ouvidor der esse conselho. Nem sempre o ouvidor tem a atitude
correta.
4.2) Reações
do agressor
Se, por
um acaso, as agressões eram inconscientes, pode até ocorrer
que o professor cesse seu comportamento e peça desculpas. Mas é
claro que isso quase nunca acontece. Ele pode fingir que não recebeu
a carta e não responder; pode dar uma resposta evasiva; pode também
contra-atacar.
O assediador
poderá passar a realizar ataques ainda mais pesados, para amedrontar
o estudante. Poderá também mobilizar seu próprio grupo
de apoio (outros professores semelhantes a ele, por exemplo). A guerra
está começando. Respire fundo e vá em frente.
Não
se aproxime do assediador sem um gravador de voz ligado. Aproveite possíveis
reações emocionais dele para coletar mais material que será
utilizado a seu favor. Não deixe de manter registros detalhados,
de mandar e-mails, de obter testemunhos e de mobilizar seu grupo de apoio.
Se o assediador se sentir seguro e fizer mais ataques, é melhor.
Você está se fortalecendo. Ele caiu na armadilha. Não
poderá mais alegar que fazia tudo por brincadeira, ou sem intenção.
4.3) A denúncia
Se seguiu
os passos anteriores, agora você dispõe de condições
de fazer uma denúncia formal contra o assediador. Reúna todo
o material de que você dispõe, faça cópias,
forme um dossiê, acrescente uma carta-denúncia e encaminhe
para uma autoridade da universidade. Pode ser o reitor, pode ser o diretor
da unidade onde você estuda. Pode ser também o ouvidor, se
você já conversou com ele e acha que é uma pessoa firme
e confiável.
Em qualquer
dos casos, a entrega da denúncia tem que quer documentada. Você
pode encaminhar o dossiê pelo correio, em carta registrada com A.R.
Pode também entregar pessoalmente na secretaria do Instituto ou
Faculdade, ou na secretaria da Reitoria, ou na secretaria do Ouvidor, mas
protocolando
a entrega. Isso significa o seguinte: você deve levar o original
e uma cópia e pedir à secretaria para carimbar, datar e assinar
a cópia, para confirmar o seu recebimento. Se você entregar
diretamente a uma autoridade, sem protocolar, sua denúncia poderá
ficar em uma gaveta e você não poderá provar que a
entregou.
Se você
tem um grupo de apoio que quer fazer, em conjunto, uma denúncia,
isso deve ser feito agora. O efeito será MUITO mais forte e rápido.
Após
entregar sua denúncia, as autoridades da universidade podem não
fazer nada, ou abrir uma sindicância para apurar os fatos. Se quiserem
abafar tudo, podem apenas chamar o assediador, dar um "puxão de
orelhas" informal e torcer para que ele fique bonzinho. Se quiserem proceder
de forma correta, deve ser aberta a sindicância. Você será
informado sobre isso.
Se, depois
de um mês, nada tiver acontecido, procure inicialmente a autoridade
a quem você encaminhou a denúncia e pergunte o que está
sendo feito. Se derem uma resposta satisfatória, espere mais um
pouco. Se, depois de dois meses, nada tiver acontecido, envie uma carta
registrada, com A.R., solicitando informações sobre o andamento
da denúncia. Se não receber resposta, passe para a etapa
seguinte.
No Brasil,
infelizmente, costuma ocorrer uma cumplicidade entre os professores - especialmente
se eles se conhecem pessoalmente. Felizmente, as autoridades têm
medo de escândalos, da imprensa e da justiça comum. Essas
são armas que você pode utilizar. Se as autoridades da universidade
não tomarem medida nenhuma, mencione (sem dar detalhes) que, infelizmente,
precisará recorrer a entidades externas. Não explique qual,
nem como, de modo nenhum.
4.4) O tribunal de pequenas
causas
Se a
universidade tomar as medidas que deveria tomar, seus problemas terminaram.
Se nada for feito, a etapa seguinte é utilizar a justiça.
Porém, todos sabem que um processo judicial é lento e caro.
Felizmente, existe uma alternativa: o tribunal de pequenas causas (Juizado
Especial Cível). A tramitação de processos, por este
sistema, é muito rápida.
Você
pode entrar com duas ações simultâneas: uma contra
o agressor (por danos morais) e outra contra a universidade (também
por danos morais, além de por omissão). Nesse tipo de ação,
você pode apenas pedir indenização (valor de, no máximo,
40 salários mínimos). Se você pedir indenização
máxima (40 salários mínimos), precisará, por
lei, de um advogado. Se pedir uma indenização de até
20 salários mínimos, não precisará de advogado.
Essas
ações devem estar muito bem documentadas (por isso a importância
da etapa 3, descrita acima). Se você tiver testemunhas a seu favor,
não correrá o risco de perder.
Teoricamente,
esse tipo de ação não impede o agressor de continuar
a agir como antes, já que apenas pode obrigá-lo a pagar uma
indenização. Na prática, o efeito sobre o assediador
e sobre a universidade é fulminante. Eles sabem que, se o assédio
continuar, você dará o próximo passo: uma ação
mais pesada contra eles, que pode ser criminal contra o assediador
e de um enorme pedido de indenização à universidade.
A condenação no tribunal de pequenas causas (Juizado Especial
Cível) cria um precedente que facilita muito a condenação
do assediador e da universidade, em outros níveis. |