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ATRás do escudo


A língua falada em Terra Leãoça e na maior parte da Costa Selvagem é uma mistura de Português e Espanhol, que é chamada pelos nativos de Língua Franca, Língua Geral ou Comum.

Definimos durante o jogo que os anões falam o inglês escocês.

A Primeira Missão: em direção às sombras (parte três)

parte UM | parte DOIS | parte TRÊS | parte FINAL

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Lá atrás, além da coluna de chamas, Al Bundy coloca-se mais uma vez entre o primeiro hobgoblin e o mago, prepara e lança outra adaga. Mas desta vez seu adversário estava preparado para os arremessos mortais do anão, e facilmente desvia-se do disparo dando um passo para o lado e deixando a adaga cobrir qualquer distância que a energia de seu arremesso ainda lhe impingisse a cobrir. Um segundo depois, sorriso malévolo de volta ao rosto peludo, o hobgoblin executa seu próprio disparo, desta vez visando o mago. No entanto, atravessar a proteção de um anão enraivecido é a mesma coisa que tentar atirar uma bola de papel através de uma muralha de aço, e a flecha do hobgoblin se parte contra o escudo bem posicionado de Al Bundy.

— Praga! — a exclamação sai da boca do anão como uma explosão, como se ele tivesse sido atingido pelo coice de uma mula. — Aquele hobgoblin é impossível de atingir! Parece que estou atirando contra um maldito elfo!

— Em consideração à flecha que você acabou de bloquear, vou desconsiderar o que disse, mestre anão — diz sorrindo o elfo Serj, que longo em seguida continua, olhando para o hobgoblin que se encontra longe, além do fogo que lambe as paredes e que expele uma densa fumaça negra em direção ao teto: — E ele também parece ser bem resistente aos meus mísseis mágicos; obviamente o feri, mas ele parece-se com alguém que agüentaria uma saraivada e ainda teria fôlego e precisão para lançar uma flecha ou duas. Eu preciso chegar mais parto para poder usar alguma outra de minhas magias. O que propõe que façamos?

— Eu lhe digo o que faremos — retruca Al, com sua voz grave e forte, de seu jeito característico que faz parecer que as palavras estão saindo de sua boca mastigadas — Nós seguiremos a mesma rota que aquele ladino seguiu, a mesma que Bart e Beorn também seguiram. Nós vamos dar a volta, é isso que faremos! Aquele hobgoblin não é estúpido e já deve ter notado que a quantidade de gente deste lado do fogo diminuiu nos últimos dez segundos. Mas deve estar achando que seu parceiro atrás do outro caixão está agüentando as pontas por enquanto, e com certeza está esperando que ele apareça do seu lado. Os dois estarão prontos para lutar e defender aquela posição até caírem, acho eu.

Tudo isso foi dito enquanto Al bloqueava a si e ao elfo das flechadas do hobgoblin. Àquela altura do confronto, a cortina de fumaça preta era tão tensa que o arqueiro inimigo tinha dificuldade em encontrar uma mira convincente. Assim que o anão terminou de falar, Serj dá um ligeiro sorriso e diz:

— Então não podemos decepcioná-los. O que estamos esperando?

Tomando cuidado de abaixar-se e dar ao hobgoblin um perfil mais difícil em que mirar, o mago saiu detrás do guerreiro anão e caminhou rápida e decididamente em direção ao outro sarcófago, mantendo seu manto esvoaçante longe da coluna de chamas para não correr o risco de pegar fogo, o que lhe obrigaria ao embaraçoso ato de apagar as labaredas de suas próprias vestes. Aproximando-se da parede ardente do segundo túmulo de pedra, Serj estica sua varinha e pronuncia um encantamento quase inaudível, congelando por um segundo o fogo à sua frente e acima do sarcófago. Sem diminuir o passo, o elfo apenas cobre o rosto com a manga de suas vestes e lança-se de cabeça contra o ar congelado, que no instante seguinte volta a arder com chamas alimentadas por um reservatório de óleo de lamparina.

— Principiantes. — Grunhe o anão ao ver como o elfo atravessou o obstáculo. Ele desvia mais uma flecha e então parte pelo mesmo trajeto de todos os outros.

Hobgoblin*     *     *

Do outro lado, no corredor adjacente e além do sarcófago que na verdade já era uma pira, e antes de Serj atravessar, o rapina Emiliano Diaz dava dois passos para trás, surpreso com o ferimento em seu peito. Não porque ele escorria sangue em profusão sobre sua roupa, num ritmo que imitava seus batimentos cardíacos, mas pela temeridade do hobgoblin em deixar-se apunhalar para conseguir desferir um golpe mais certeiro. Se não fosse pela rigidez de sua armadura de couro, e o acaso de a lâmina ter atingido uma costela ao invés de passar entre duas delas, ele poderia ter morrido.

No segundo em que pensava nisso, duas coisas aconteceram mais ou menos ao mesmo tempo. Primeiro, uma sombra de um metro e noventa apareceu do seu lado direito. O corpanzil de Beorn surgiu em sua visão periférica e foi seguido por uma lufada de ar sobre sua cabeça; o enorme braço reptiliano do dragonborn, protegido por manopla prateada e deixando exporto apenas tríceps e bíceps, que brilhavam avermelhados graças ao calor e à luz amarela do fogaréu, passou voando por cima dele, puxando consigo, presa à sua enorme mão de quatro dedos, uma espada igualmente gigantesca. A lâmina seguiu sua trajetória horizontal e atingiu o pescoço do hobgoblin à sua frente como um machado de lenhador atinge o tronco de uma árvore. Mas ao invés de farpas de madeira o pescoço do hobgoblin disparou um jorro de sangue para todos os lados, como se tivesse explodido. Apenas os músculos muito fortes de um combatente experiente como eram os do pescoço do hobgoblin impediram uma decapitação total. Seus braços caíram para o lado do corpo inertes, como braços de um boneco de pano, e o hobgoblin caiu no chão de um jeito engraçado, como se nunca tivesse estado vivo. Apesar da moleza do resto do corpo, a mão direita do hobgoblin ainda segurava sua espada num aperto que parecia contradizer o enorme rasgo que atravessava três quartos do pescoço de seu dono.

A segunda coisa que aconteceu foi que Emiliano via tudo isso caindo lentamente para trás, para os braços armadurados de Bartolomeu. O clérigo pousou-o no chão, apoiando suas costas na parede lateral, e já começara a executar seu encantamento de cura enquanto o corpo do hobgoblin ainda caía. Num instante o ferimento no peito do homem parou de sangrar e de doer. Ainda era uma ferida, vermelha e molhada, mas não representava nenhum risco, e qualquer temor de que suas forças o abandonariam desapareceram de sua mente. Quando ele desviou o olhar do hobgoblin em direção a Bartolomeu para agradecê-lo, o clérigo já havia se levantado e virado do corpo em direção ao corredor, ajudando o elfo a se levantar do salto que acabara de executar. Na direção oposta, Beorn já saltara por cima do corpo do hobgoblin e dobrava a esquina do corredor para a esquerda, que certamente lhe levaria de volta ao corredor principal, mas do lado de cá da barreira e da armadilha dos hobgoblins, para enfrentar o que ainda estava vivo e atirando flechas contra Al Bundy.

*     *     *

E o anão, depois de esperar apenas um segundo quando Serj desapareceu além da segunda barreira, certificou-se que o hobgoblin estava armando seu arco e portanto não tinha nenhuma flecha pronta, seguiu para o outro sarcófago, tangenciando a alta e intensa coluna de fogo. Ao chegar no sarcófago que virara uma pira, bufou como um cavalo contrariado, agarrou com as duas mãos a lateral embaixo do objeto de pedra, bem longe do fogo e quase no chão, firmando os dedos num dos relevos entalhados que cobriam todo o artefato e com apenas metade de sua força arrastou o sarcófago fumegante para longe do caminho, repetindo debaixo da respiração a palavra “principiantes”.

*     *     *

Sem perder tempo, o clérigo Bartolomeu e o mago Serj vão atrás do palatino Beorn, seguidos logo atrás pelo rapina Emiliano, que se levantou assim que o elfo passou por ele. Todos viraram o corredor e, depois de alguns metros, viraram outro, vendo no chão as sombras do dragonborn e do hobgoblin encerradas num combate de corpo-a-corpo que imitavam seus donos. Mas a parte do corredor que o hobgoblin escolheu para entrincheirar-se tinha metade da largura do corredor principal onde ele derramara o óleo que logo em seguida pegara fogo; portanto, apenas duas pessoas de cada vez poderiam enfrentar o hobgoblin ao mesmo tempo, e quando Emiliano chegou Barbolomeu já estava posicionado ao lado de Beorn, executando aquele complexo e brutal jogo de fintas, bloqueios, golpes e pancadas. O hobgoblin, já esperando toda aquela agressão, posicionou-se bem na esquina do corredor antes que Beorn chegasse, e usava aquele ângulo como proteção, efetivamente jogando metade dos ataques do paladino contra a parede. Serj, melhor posicionado, estava sendo alvo da maior parte da atenção da criatura.

Mas o combate iria virar a favor dos aventureiros, graças ao mago. Arregaçando as mangas, e protegido atrás do clérigo, Serj Pollock concentrou sua força de vontade na ponta de sua varinha e em seguida no terreno bem embaixo do hobgoblin, criando, juntamente com o som de gelo se partindo e estalando, uma superfície escorregadia e uma lufada de ar gelando o suficiente para queimar a pele exposta do guerreiro animalesco. Vendo que a sorte estava contra ele, o monstro optou por uma atitude desesperada: virou as costas para seus atacantes e disparou corredor além, de volta para o sarcófago tombado que derramara o líquido incendiário no chão do outro lado. Sua atitude foi tão rápida que tanto Beorn quanto Bartolomeu perderam seus ataques de oportunidade, mas o fogo ainda rugia no corredor. O pobre hobgoblin ainda agüentou correr através de todo o inferno que fustigava o caminho, mas caiu, carbonizado, não muito além. Aparentemente satisfeitas em fazer ao menos uma vítima, as labaredas começaram a perder força logo depois dos últimos estertores do hobgoblin, e já era mais fumaça que fogo quando Al Bundy se juntou a seus companheiros.

*     *     *

Enquanto todos verificavam o estado de seus corpos, vestimentas e armas, aprontando-se para investir mais para dentro do mausoléu, Bartolomeu não deixou de notar que uma figura fantasmagórica, mais sombra que substância, toda coberta por um manto apodrecido, tentava inutilmente juntar os ossos bem no começo do corredor, perto das escadas que o grupo desceu; era a aparição do primeiro cômodo, lá da superfície, que retornara e parecia querer colocar os restos daqueles que deveria guardar de volta em suas tumbas arruinadas nos nichos das paredes.

Comovido com tamanha determinação, talvez justamente o que mantém aquela alma ancorada no mundo dos vivos, o clérigo se desvencilha de seus amigos e volta pelo corredor. Aproximando-se da aparição sombria, ele se agacha e a auxilia em devolver pelo menos as partes ainda identificáveis das múmias para os nichos e o pouco de sarcófago que ainda resta neles. Todos os aventureiros param e observam, não sem um pouco de apreensão, a proximidade de seu clérigo daquela criatura morta-viva. Esta, não obstante, parece aprovar ou ao menos ignorar o meio-elfo de cabeça raspada e armadura toda dedicada a Bahamut, um deus estranho à antiga cultura de Herath, que louva apenas o Deus-Sol Pelor.

Quando boa parte dos corpos já havia sido retirada do chão do corredor, a sombra aproxima-se de Serj, que se levanta e dá um passo apreensivo para trás, levando discretamente a mão ao cabo da arma dependurada em sua cintura. Mas o morto-vivo não o ataca, apenas aponta para o interior de um dos sarcófagos menos destroçados e diz, numa voz que parece vir de outro tempo e outro lugar: “Dentro. Pegue. É seu. Por sentir pena. E homenagear estes corpos sagrados.” A sombra disse aquilo na língua geral, falada em toda a Costa Selvagem, mas com inflexões típicas de alguém que não tem essa como a língua principal.

Sem nada dizer, Bartolomeu primeiro vira a cabeça na direção em que o dedo esquelético e semi-transparente da sombra aponta, e depois caminha até lá. Dentro do túmulo, ele pode ver uma enorme espada embainhada, coberta de poeira. Olhando novamente para a sombra, que não se movera mas já havia descido o braço e recuado a mão de volta para dentro de sua mortalha, o clérigo segura a arma com as duas mãos e a retira do sepulcro. Ela é leve, muito mais leve do que ele esperaria de uma espada tão grande. Ele a desembainha e vê que, apesar do cabo estar gasto e envelhecido por cem anos de sepultamento, a folha da lâmina apresenta-se intacta, brilhante até, e feita de um aço avermelhado, como se fosse algum vidro tingido, não metal. Quando Bartolomeu vira-se novamente para a sombra para perguntar se aquilo era o lendário Aço Vermelho, ela já havia desaparecido.

Resignado com a resposta silenciosa do morto-vivo, o clérigo suspira e retorna para a companhia dos outros aventureiros, que a tudo observaram estupefados.

*     *     *

— É o tipo de arma que você usa, não é mesmo, Beorn? — Bartolomeu pergunta, levantando a espada horizontalmente, uma mão no cabo, oura na lâmina, para o dragonborn, depois de se juntar ao grupo novamente.

Beorn levanta o que para sua espécie é uma sobrancelha, apesar de ser feita de minúsculas escamas ao invés de pelos, hesita por um segundo, mas em seguida pega a arma, testando o peso.

— Eu diria algo muito além disso, companheiro. Esta seja talvez a melhor durindana que já empunhei. — Então ele sorri e exclama: — essa vida de aventureiro começa a render frutos finalmente!

— Sim, mas ainda temos duas crianças para salvar — diz Al, e completa em voz mais baixa, olhando para os lados — se ainda estiverem vivas, isto é. E também um bruxo elfo para esfolar e levar a pele de volta para Gramado e pendurar na Taberna do Grafitão.

Emiliano Diaz, com um punho descansado na cintura, dedão dentro do cinto, e o outro segurando seu chapéu largo com a pena amarrada, responde:

— Espero que seja tão fácil assim, meus amigos. — Fazendo um movimento lateral, de apontar, com a cabeça, prossegue — Porque primeiro temos que achar nosso adversário, e as coisas podem muito bem estar piorando, porque logo ali na frente deste “corredor” — ele dá ênfase na palavra corredor, como se referindo a uma palavra usada apenas como analogia — a parede termina e só temos um buraco. Ao que parece os construtores originais deste lugar levantaram aqueles blocos de pedra, além de servir de lugar de descanso para seus heróis, também para bloquear uma velha gruta. Só que agora a parede está derrubada e a gruta é o único outro caminho além de de volta para cima.

— Eu duvido muito que a queda da parede tenha sido tão somente uma coincidência — diz Serj num tom pensativo e sério. Com a mão no queixo, cofiando a barba pontuda e branca tão característica dos elfos, ele prossegue na elucubração: — Pelo estado exato que os blocos caíram, e todos para o lado de lá, nenhum para o lado de cá, eu diria que nosso vilão seqüestrador de crianças e violador de tumbas foi o responsável. Talvez com a ajuda dos dois hobgoblins que derrotamos. — Ele pousa a mão na cintura e prossegue, agora olhando alternadamente para todos os seus companheiros: — sabemos pelo relato do homem desesperado que entrou na taberna e pediu nossa ajuda que nosso antagonista seguira para este mausoléu apenas com os dois hobgoblins. Mas não temos como saber se ele já tinha posicionado outros asseclas aqui embaixo antes de abduzir as duas crianças. Temos que estar preparados para tudo.

— Meu novos amigos, — diz Emiliando exibindo um leve sorriso com apenas um dos lados da boca — com vocês ao meu lado, eu nunca me senti tão seguro ao entrar de cabeça numa masmorra, não importa o quão podre e potencialmente inflamável ela seja. Vamos logo para dentro dessa gruta, porque de certo é úmida como toda gruta e uma pequena mudança de ambiente faz bem para qualquer um.

O rapina então pega um dos archotes da parede e vira-se em direção à passagem aberta na parede. Além, a escuridão é interrompida pelo brilho refletido do fogo da tocha em estalagmites e estalactites molhadas, que despontam de um teto coberto de musgo e um chão alagado.

Sem mais palavras, o bando de aventureiros desembainha suas armas e segue, todos juntos, para dentro da gruta, silenciosos, seus passos decididos chapinhando na lâmina d’água que recobre o solo desnivelado.

continuando»

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