Daniel Ferrari interpreta
Al Bundy, anão guerreiro
Eli interpreta
Bartolomeu, meio-elfo clérigo
Netão interpreta Beorn,
dragonborn paladino
Rodolfo interpreta
Emiliano Diaz , homem ladrão
Luiz interpreta
Serj Pollok, elfo mago
parte UM | parte DOIS | parte TRÊS | parte FINAL
Pule para os jogos: 1º dia | 2º dia | 3º dia | 4º dia
Descendo os degraus com cuidado, os aventureiros chegam a um corredor subterrâneo. O chão, de enormes blocos outrora amarelos, agora jaz desgastado, descolorido, e não muito mais plano, com alguns blocos ligeiramente levantados, outros faltando enormes pedaços. As paredes, feitas com os mesmos blocos, apresentavam recessos preenchidos por sarcófagos iguais aos da câmara acima: todos eles violados, com seu conteúdo esparramado pelas laterais do corredor. O teto, coberto por teias de aranha preenchidas com décadas de poeira, elevava-se até pouco mais de dois metros de altura.
— Estes cadáveres foram violados recentemente — diz Bartolomeu, que se agachara perto dos restos de um dos sarcófagos; com uma mão sob o queixo, outra pousada em forma de punho sobre uma das coxas, ele analisa pensativo aquelas ossadas.
— Por que diz isso? — pergunta Al Bundy, sem olhar para seu colega; seus olhos perscrutam, ao invés, e atentamente, a distância do corredor que, iluminado pela luz da ponta da varinha de Serj, estende-se sem interrupção por mais dez metros. No limite da luz, o anão pode ver outros dois sarcófagos, intactos, bloqueando o caminho.
Bartolomeu se levanta e diz: — Estes corpos foram mumificados, um processo de preservação que mantém algum aspecto do ser quando vivo. Ao invés de se transformar em ossos secos, o corpo do enterrado permanecesse com boa parte de seus tecidos e órgãos, até cabelos. Era um processo pelo qual só os mais valorosos servos do deus Pelor, o Sol, passavam. Estes aqui parecem ser heróis, guerreiros provavelmente, do tempo de Herath. E esse império se foi há mais de um século. Logo — o clérigo vira-se para o anão, que por sua vez mantém a atenção no fundo do corredor — a conspurcação destes aqui aconteceu muito recentemente, menos de um dia, porque os corpos, ainda que despedaçados por serem frágeis, mantêm o típico aspecto de múmias; a exposição ao ar e à umidade deste subterrâneo nem sequer começou a atacá-los.
— Então quem quer que tenha feito isso provavelmente está por aqui — retorque Beorn — e de certo são os mesmos seres que seqüestraram as duas crianças — Sem perceber, o dragonborn aperta com força o cabo de sua espada, a ponto de fazer seus nós dos dedos estalarem — Prossigamos, então.
Com ainda maior silêncio, o grupo segue em frente. Reunidos no centro do corredor, em pares (Emiliano um pouco à frente, sozinho), procuram não pisar nos corpos e velhos tesouros, hoje inúteis, que se encontravam nos repositórios dos nichos das paredes mas que encontram-se quase que completamente esparramados pelas laterais da passagem, misturados a pedaços das tampas e mesmo laterais inteiras, quebradas, das tumbas.
E mais tumbas eles encontram à frente; intactas, no entanto. Não exatamente intocadas, porque foram arrastadas e posicionadas de modo a bloquear o caminho. Naquele ponto, o corredor se divide em dois: um seguindo reto, e outro numa curva de noventa graus para a direita. Ou melhor, o corredor de alargaria para além do dobro de sua largura, mas com a parede esquerda seguindo reta e a direita, afastando-se bastante até seguir novamente em frente, mantendo uma estreita parede bem no centro desse corredor alargado, fazendo as vezes de pilastra ou divisória. E ali, bem entre as paredes laterais e a central, formando um L, dois sarcófagos foram alinhados, impedindo o caminho; sobre eles, duas lamparinas a óleo também foram colocadas, mas sua chama fraca ilumina pouco mais de um metro além.
Seguindo quatro pasos à frente do grupo, os sentidos de Bartolomeu percebem, antes mesmo que a parte consciente de seu cérebro se dê conta, que há perigo à frente. Sua reação é imediatamente levantar o braço em direção a seus companheiros e fazer um gesto silencioso para que eles parem. Esses rápidos instantes foram suficientes para que ele entendesse o que há de errado: atrás do sarcófago perpendicular, ele pôde ver por um átimo o topete inconfundível de um hobgoblin. É seguro presumir, pensa o rapina, que haveria outro hobgoblin atrás do sarcófago posicionado longitudinalmente.
Não obstante, antes que o rapina sequer tenha se movido em direção a seus amigos para avisá-los da iminente armadilha que ameaça recair sobre eles, um dos hobgoblins também o vê, imediatamente erguendo-se e disparando uma flecha contra ele. O ladino se esquiva, joga-se contra a parede da direita e grita para os outros:
— Hobgoblins! Há pelo menos dois hobgoblins à frente!
Ao mesmo tempo avisados pelo projétil que por pouco não acerta a orelha de Emiliano, e também por seu grito, anão e paladino avançam pelo corredor. Mas antes que eles cheguem muito perto, o hobgoblin que bloqueia o corredor à frente chuta com toda sua força o sarcófago à frente de si, que tomba de lado e derrama centenas de litros de óleo de lâmpada pelo chão; a lamparina, que estava bem em cima da tampa do sarcófago, cai e se quebra, incendiado aquela enorme poça de óleo, transformando cinco metros de corredor num inferno de chamas amarelas. Dragonborn e anão detêm sua carga bem a tempo de evitarem ser engolidos pelas labaredas, mas Emiliano, apesar de não estar na área do fogo, encontra-se agora preso entre as chamas e o outro sarcófago, do corredor que segue para a direita, onde outro hobgoblin tenta, ainda se sucesso, encontrar uma linha de tiro contra o rapina.
Sem pensar duas vezes, e esperando surpreender o adversário, Emiliano salta sobre o sarcófago, executando um ágil rolamento por sobre sua tampa. Mas o artefato revela-se incapaz de suportar o peso de um homem, e se quebra, mergulhando rapina e lamparina dentro de uma piscina de óleo. Vendo sua situação problemática, Emiliano ignora o hobgoblin e salta para longe do sarcófago prestes a se incendiar. E foi bem a tempo: o óleo pega fogo por causa da lamparina bem no instante em que ele salta, e esse movimento desesperado, ainda que habilidoso, acabou também por salvar-lhe a vida, pois o hobgoblin havia largado sua besta e lançara um ataque horizontal com a espada, riscando o ar exatamente onde o pescoço de Emiliano se encontrava um segundo antes. Sem hesitar, o rapina pousa no solo ao lado e atrás do hobgoblin, e o atinge com uma de suas adagas, bem abaixo da proteção da armadura de couro curtido que o outro usa.
![]()
Do outro lado da coluna de chamas, o anão Al resmunga alguma praga contra o hobgoblin que disparou a armadilha flamejante. Mentalmente o guerreiro calcula a distância que aquele se encontra de si: seis metros (algo como quatro metros e meio de fogo, mais um e meio de sarcófago). Ele saca uma de suas adagas, escondidas debaixo da camisa e presas a uma tira de couro nas costas, testa o peso da arma, fecha ligeiramente o olho esquerdo numa careta para fazer mira, coloca uma perna à frente da outra, inclina-se ligeiramente para trás com o braço esticado acima da cabeça e finalmente arremessa a comprida adaga, com toda a força que consegue.
Toda essa ação levou menos de dois segundos: tudo o que o Serj, Bartolomeu e Beorn viram foi o anão produzir uma adaga do nada e dispará-la com tanta velocidade que pareceu que ele lançara um relâmpago metálico na direção do hobgoblin, e até mesmo a criatura surpreendeu-se com a velocidade e a precisão do disparo; felizmente (para ele) um sarcófago, mesmo virado, ainda é uma boa proteção, e a adaga de Al, que em qualquer situação teria se configurado um projétil mortífero, bate a pequena guarda bem na borda do caixão de pedra, interrompendo seu giro, e caindo inofensiva no chão bem em frente ao hobgoblin. Este, consciente do perigo que correra um instante atrás, sorri num esgar de deboche para os aventureiros e dispara a flecha que já tinha pronta contra o anão.
Al Bundy, depois de dispara a adaga, já havia reposicionado sua maça e seu escudo numa posição clássica de defesa e ataque, e consegue desviar a flecha com um golpe de seu escudo. Logo em seguida, Serj dá um passo para o lado, saindo de trás da proteção oferecida pelo anão e lança um dardo mágico da ponta de sua varinha contra o hobgoblin que disparou contra eles; o projétil de energia atinge a criatura em cheio, fazendo com que ela cambaleie um passo para trás, mas ainda a deixa com vida mais que suficiente para preparar outra flecha.
Sem nenhuma arma para ataque a distância, o clérigo Bartolomeu resolve-se por tentar aproximar-se pelo outro corredor. Ladeando a poça de fogo, ele afasta-se de seus companheiros e alcança o sarcófago lateral que Emiliano saltara. Com chamas tão altas quanto a fogueira dourada atrás de si, aquele obstáculo também se provaria mortífero de sobrepujar; mas o clérigo estava preocupado com o companheiro que não podia ver e, reunindo toda sua fé — e força de vontade — ignora o perigo e, sem perder o passo rápido e firme com o qual vinha desde que separou-se do grupo principal, lança-se sobre a barreira de chamas do túmulo de pedra, saltando o mais alto que consegue. O fogo lambe sua armadura e lhe queima um pouco de cabelo, ardendo os olhos e queimando os pulmões, mas sua armadura de metal e couro, que lhe cobre dos pés à cabeça, consegue resistir àquele instante de agressão flamejante, e ele aterrissa, espada em punho, do outro lado, pronto para desviar qualquer ataque inimigo.
Mas o golpe nunca veio. Vendo mais um combatente saltando em sua direção, o hobgoblin ignora o perigo e corre corredor abaixo, numa tentativa de se juntar a seu colega e conseguir uma melhor posição para defender-se. Mas Emiliano não deixa a oportunidade passar e atinge o lado da coxa da criatura, quando ela passava por ele, com uma joelhada certeira. A dor excruciante tira toda a força da perna do hobgoblin, que vai ao chão um metro depois, rolando e urrando.
![]()
Copiando seu colega de fé, o dragonborn Beorn passa por trás de Al e parte em direção ao outro sarcófago, apenas batendo de leve no ombro do anão — nenhum tempo é perdido com longas palavras entre aqueles dois experientes combatentes, tão acostumados a ler a linguagem corporal um do outro e de seus outros parceiros: Al Bundy deveria proteger o mago, e depois seguir o paladino.
Mais bem equipado para resistir ao ataque das chamas por ser um dragonborn aparentado dos dragões vermelhos, e portanto agraciado com certa imunidade ao fogo, Beorn lança-se pelas chamas e também salta do outro lado do sarcófago lateral, bem ao lado de Bartolomeu, e a tempo de ver o hobgoblin, metros à frente neste segundo corredor, levantando-se e desastradamente tentando defender-se de um ataque do rapina Emiliano, cujo sabre vence a tentativa de bloqueio do hobgoblin e o atinge no ombro, enterrando uns bons dez centímetros da fina lâmina em carne dura. Mas a reação do hobgoblin é tão rápida que pega o homem de surpresa e desprevenido: desta vez ignorando completamente a dor, o hobgoblin continuou o arco de bloqueio com sua espada, levando-a para fora do contato com o sabre do inimigo e girando o antebraço até levantar sua lâmina novamente, lançando uma estocada em direção ao peito do rapina. Com o corpo ainda lançado para frente por causa da energia empregada no próprio ataque, Emiliano não tem como desviar-se da estocada, e recebe o aço em suas costelas, quase no centro do tórax.