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No Espelho
20, November 2004 - 08:16 am
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Tinha ficado com medo do espelho. Era impossível não ficar. Qualquer um no lugar dele ficaria. Afinal, como é se olhar no espelho e ver outra pessoa? Olhar no espelho e ver o brilho frio e doentio de uma mente sem escrúpulos. Olha no espelho e ver olhos que não eram seus, um rosto que não era seu, uma expressão que não era sua. Aqueles lábios bem desenhados sempre frisados num semi-sorriso cínico e frio, as sobrancelhas perfeitas levantadas num ângulo estranho, de dar medo até em quem não tem medo. Olhar no espelho e não se ver? Pare ele, foi apavorante. Entrava no banheiro com a cabeça voltada para a direita, saía do banho de cabeça baixa, tudo para tentar evitar se encontrar com ele novamente. Ele não disse nada, naquele encontro. Eles apenas se encararam, e o olhar dele era tão intenso, tão apavorante, que Pedro não agüentou olhar, e saiu do banheiro quase correndo, esquecendo a luz acessa, e arrastando a toalha consigo. Quando teve que voltar para guardar a toalha e apagar a luz, entrou sem se olhar no espelho. A partir daquele dia, nunca mais olhou no espelho, em nenhum deles.
Já era noite, tarde da noite, quando ele entrou no banheiro sem prestar atenção em nada. Estava escuro, e ele não acendeu a luz. Pegou o comprimido que tinha de tomar no armário embaixo da pia, e ia sair, quando viu um brilho diferente no espelho. Paralisou-se. O corpo ficou gelado, o coração disparou. As mãos ficaram trêmulas. O comprimido caiu no chão, afastando-se dele com um típico barulho de batidas que foram solenemente ignoradas. Por um ou dois minutos, Pedro só assistiu o brilho no espelho, e soube que o "brilho" o assistia também. Deu um passo para trás, disposto a deixar o banheiro e se enfiar na cama até o amanhecer, mas escutou uma risada.
- Você é tão patético, Pedro. Vai mesmo fugir de mim?
Pedro tremeu. Era a primeira vez em que ele falava alguma coisa. De maneira alguma por medo de falar, mas porque Pedro sempre fugia ao ver o tal brilho no espelho. Hesitou por um momento, pensando se corria ou se ficava. Sabia que ele sumiria tão logo Pedro se afastasse do espelho, mas agora faltava coragem até mesmo para correr para longe. Ele disse novamente.
- Eu não sei porque você ainda fica aí pparado. Anda. Corre.
O orgulho de Pedro falou mais alto ao ouvir as últimas palavras debochadas dele. Com um movimento rápido, acendeu a luz do banheiro. A grande luminosidade repentina machucou os olhos. Pedro os apertou e deu dois passos para perto do espelho. Ele tinha parado de falar, e aquilo facilitava bastante as coisas. Estava já encostado na pia. Lentamente, abriu os olhos, se acostumando com a claridade. Olhou para seu reflexo, e seu coração acelerou novamente: o espelho mostrava dois olhos de um azul intenso, bem diferente do verde escuro natural de seus olhos. Um sorriso debochado estampava a face dele. De resto, os dois pareciam idênticos.
- Por que você não simplesmente vai emboora, Alexandre?
- Ir embora? - Alexandre riu - Eu não poosso simplesmente ir embora, ora essa. Você me trouxe, você tem que me mandar embora.
- Pois eu quero que você vá embora.
- Ah, isso não basta. No fundo, no fundoo, você não quer que eu vá embora.
Pedro ignorou o último comentário de Alexandre.
- Por que você insistiu tanto para falarr comigo?
- Pra saber porque você insiste tanto emm dizer que me quer longe - riu novamente. - Você não me quer longe, você precisa de mim, tanto que me fez vir à tona, tanto que me deu um nome, tanto que agora tem medo de mim.
- Eu não tenho medo de você - respondeu Pedro quase que defensivamente.
- Ah, tem medo sim. Ou você vai fingir qque não teve medo ao ver dois olhos azuis no espelho, ao contrário dos seus verdes? Eu realmente não sei porque você tem tanto medo de mim, se sou eu que luto as suas guerras, brigo as suas brigas, machuco quem você não conseguia machucar. Se é através de mim que você extravasa todos os seus sentimentos ruins e descontrolados. Se eu não existisse, você seria um louco amargurado. Você me criou, esqueceu desse detalhe? Eu sempre existi, mas você me deu um nome, me deu mais vida do que você queria que eu tivesse.
- Você não presta para nada. Tudo o que você fez até agora foi com que eu brigasse com meus amigos, machucasse as pessoas que eu amo. Você me fez ter medo de você. Eu sei lá até que limites você pode chegar.
Alexandre riu alto e descontroladamente.
- Você me deu asas, Pedro. Não pode corttá-las agora. Você me deu vida porque precisava da minha vida. Quer tirá-la agora? Mesmo sabendo que, se eu sumir, uma parte de você some também?
- Essa é uma parte de mim que eu desprezzo.
- Despreza tanto que tem medo.
- Eu não tenho medo.
Rapidamente, Vinícius de um soco no espelho. Os cacos de vidro cortaram sua mão, sem perfurar fundo. A dor foi aguda, mas não insuportável. Sem olhar novamente no espelho, jogou água no corte. Tinha a noite toda para inventar uma desculpa para aquilo, quando sua mãe viesse perguntar. Enrolou a mão numa toalha, e antes de sair, olhou uma última vez no espelho. Uma sucessão de reflexos seus se faziam pelas diferentes rachaduras, todas com olhos verdes escuros. Deu um sorriso fraco e se virou para sair. Ao apagar a luz, viu aquele brilho de novo no espelho. Acendeu-a e olhou para o espelho de novo. Tudo normal. Saiu do banheiro. Se tivesse olhado melhor para o espelho, perceberia que Alksey ainda o olhava, de uma das rachaduras, com um sorriso cínico nos lábios, por detrás de seus grandes olhos azuis.
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