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Carta a Mãe
19, November 2004 - 03:15 am
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Querida Mamãe:
Como é ser preconceituosa ao ponto de conseguir fazer com que seu filho te odeie? Sim, porque, por mais que eu e você brigássemos a cada dois minutos, nunca tivemos atritos realmente grandes, onde eu tivesse vontade de sumir de casa para todo o sempre. Mas aí, você teve a infelicidade de mexer no que não era da sua conta (e por isso eu digo que você merece isso) e descobrir o que você já sabia. Mas, é lógico, saber porque se acha isso na mente, é uma coisa. Agora, ter certeza porque se leu uma carta endereçada a uma outra pessoa, e depois ainda vir perguntar, é outra.
Pois é, quem fala o que quer, escuta o que não quer. No seu caso, quem mexe no que quer, encontra o que não quer. Mas eu tentei, tentei mesmo, apesar de tudo, de você ter insinuado que era doença, de você me perguntar insistentemente se aquilo não era reversível, de perguntar qual era a graça que eu via em homens, entre tantas outras coisas baixas e ofensivas que você me disse enquanto eu tentava com uma força sobre humana ser um filho compreensivo.
O que eu ganhei sendo um filho compreensivo? Tenha cara de dizer que você foi, é, e continua sendo injusta, ridícula, grossa. Tenha coragem de dizer que você está errada. Tenha coragem de dizer que você resolveu me machucar a cada instante para que eu possa ficar machucado também. Porque, me desculpe, o que você está fazendo é tentando não sofrer sozinha. Você não admite ver que eu estou bem, feliz e contente, enquanto você se remoe dentro de seu preconceito. Você é adepta do "Eu morro mais te levo junto". É isso que você quer. Quer que eu sofra também, pelo o que você está sofrendo. Você não vê que eu tentei te ajudar? Que abri portas pra você, te dei pessoas nas quais eu confiava para que você pudesse achar o seu caminho? Que eu engoli todas as ofensas que você me fez porque eu sabia que você estava mal? Que eu não chorei porque eu não devia chorar? Será que você não vê que me maltratar, ser grossa comigo, gritar comigo, me ignorar, me dar patada, dizer o quanto eu sou um filho péssimo e inútil não vai mudar nada? Você sabe tão bem quanto eu que o problema é o seu preconceito ridículo. Você mesma me disse.
Eu fiz o que pude. Eu cansei de ouvir os meus amigos e os seus amigos dizendo que você realmente estava errada, mas que eu tinha que aprender a controlar, que eu tinha que agüentar, e que a cada patada que eu levasse eu devia sorrir e dizer que eu te amo. EU NAO SOU DE FERRO. Não dá pra levar patada por seis meses seguidos, sorrir, e ainda por cima, dizer que te amo. Eu nem sei mais se realmente te amo. Você matou a admiração que eu tinha por você. Sim, porque eu te achava uma grande mulher, invejável. Quantas mulheres, nas mesmas condições que você, são capazes de criar um filho totalmente sozinha, e ainda por cima dar a ele a base de futuro que você deu? Isso me fazia te admirar, te achar uma mulher e tanto. Mas, me desculpe, tudo o que você tem feito tem matado tudo o que eu sinto por você, e tudo de bom que eu achava de você. Eu te olho agora e vejo uma mulher amargurada, sem rumo, e sem a menor vontade de achar um rumo, porque quando eu tentei te ajudar pela segunda vez a encontrar um rumo, você riu da minha cara. Você prefere se remoer sozinha e tentar me fazer remoer junto com você a encontrar um rumo na sua vida, que desde o começo de junho, perdeu o rumo. Eu apaguei a minha luz e dormi, e agora você, que acendeu a sua e não dormiu mais, resolveu vir no meu quarto bater panela porque não quer virar a noite sozinha.
Criticar tudo que eu faço não vai mudar nada. Você não consegue ver nada de bom que eu faço. E olha que eu tive grandes conquistas, e o máximo que você foi capaz de fazer foi me parabenizar no momento de maneira fraca para no dia seguinte começar o inferno novamente. Eu disse que eu já tinha te odiado, mas dia após dias eu volto a te odiar, porque parece que é isso que você quer de mim, parece que você quer que eu te odeie. Eu não quero te odiar, mas assim não dá, não dá para amar alguém que tudo o que fez em seis meses foi me maltratar, dia após dia.
De seu filho
Vinícius Magnun
Ps.: Eu sei que eu esqueci várias coisas que tinha pra te falar. Se eu lembrar, eu te digo.
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